A caixa  

Posted by Maya Gaarder in

Posso oferecer-lhe um chá ?...
Ja reparou que vem cá ao meu consultorio já há alguns meses e ainda não sei o seu nome ?
Pois, realmente nunca lhe disse o meu nome…
E vai fazê-lo agora ?
Porquê ? é assim tão importante para si saber como me chamo ?
Na verdade, sim é importante.
Bem, podemos resolver isto então… Maria, gosto do nome Maria, é simples, puro. Pode chamar-me Maria. Tendo em conta a quadra natalícia é até adequado.
Acho que ainda não lhe contei que a minha avó tinha um ritual engraçado, um ritual que eu adoptei há algum tempo, talvez como uma forma de me aproximar dela depois de a ter perdido. Todas as noites, antes de deitar, bebia um chá com três bolachas, bolacha Maria note.  Não duas, ou quatro, três… Lembro-me de lhe perguntar, porquê três bolachas, e o que acontece se não tiveres bolachas avo ? Ela sorriu, era muito bonita a minha avó, mais ainda quando sorria, aquele sorriso lento e doce só dela.
Bem minha querida, podia dizer-te que o três é um numero poderoso, cheio de significados ocultos e de simbologias importantes para mim, e que as três bolachas são uma forma de superstição. Mas não é nada disso. E quanto a não ter bolachas, isso simplesmente não acontece. Vem comigo preparar o chá, e vais ver porquê.
Ela utilizava sempre a mesma chávena, pensava eu, na verdade tinha várias iguais, chávenas essas que assentavam num pires como é evidente. Bem ao colocar a chávena no pires com a colher ao lado, sobrava espaço para exactamente três bolachas, o mistério estava desvendado. Começamos a partilhar este ritual, as duas, sempre que ficava em casa dela, era o nosso momento. Sentava-me na cama dela, já de pijama, e juntas mergulhavamos as bolachas no cha até amolecerem. Um processo difícil, acertar no ponto em que a bolacha amolece mas não demasiado, parece simples mas na verdade não é. Demorei algum tempo a conseguir fazê-lo sem que as bolachas se desfizessem todas e formassem uma papa no fundo da chávena.
Agora é o meu filho, que trepa para a minha cama para partilhar o meu chá, ainda é demasiado pequeno para segurar na sua própria chávena, mas o meu pires é maior, cabem seis bolachas, três para mim e três para ele, bebemos o chá em goles pequenos para fazer durar o momento. O nosso momento.
Era chá que ela guardava na caixa, não tabaco como pensei na primeira vez que a abri. Uma caixa de chá.

Haverá sempre Natal ?!  

Posted by LBJ in


Por estes dias festeja-se o nascimento de um homem.

Por estes dias festeja-se o nascimento de um homem por quem se matou e se morreu. Por estes dias festeja-se o nascimento de um homem que deixou de ser vulgar para ser filho de Deus e de virgem e visionário ou revolucionário ou milagroso ou charlatão ou inspirado ou inspirador ou causa ou efeito.

Por estes dias sentimos a pressão da felicidade, a obrigação da caridade, o peso da solidão, a angustia da carência. Por estes dias fala-se de hipocrisia e de consumismo e de valores e de família e de tradição e de sagrado e de profano e de crianças e de velhos e de abundância e de fome e de certeza e de receio e de conforto e desassossego.

Por estes dias há luzes brilhantes e fitas e papel colorido e chamas a tremer em velas vermelhas. Por estes dias há lágrimas e lamentos secos e chamas apagadas em restos de vidas. Por estes dias há música e alegria e canção cantada do fundo do peito. Por estes dias há ruídos incómodos e a rouquidão de vozes que não gostamos de ouvir.

Por estes dias nos lembramos, por estes dias nos esquecemos. Por estes dias assinalamos dias que já foram melhores ou dias que já foram piores, recordamos ausências e lastimamos presenças. Por estes dias se morre e se nasce como nasceu e morreu um dia um homem. Por estes dias …

Um (velho) conto de Natal reformulado  

Posted by Mag in

Era Natal e sentia-se, uma vez mais, o contraste.

As ruas iluminadas, os sorrisos nas pessoas que passeavam, abraçadas, carregando sacos de embrulho nos braços generosos, a música suave que ecoava no ar.

E ela, sentada na casa de papelão que defendia com unhas e dentes da decrepidez que constantemente ameaçava, a única coisa que podia chamar sua, para além dos trajes gastos que lhe cobriam a nudez do corpo... mas não espantavam o frio do Inverno.

A alma, essa, continuava em chamas. Não se reconhecia como aquela jovem mulher (que parecia agora carregar cem anos em cima) andrajosa, continuava a caminhar de cabeça erguida, orgulhosa, ignorando os olhares de surpresa e desprezo que brindavam a sua aparente desobediência ao rígido código social que impunha uma atitude submissa aos menos afortunados pelo destino.

Sobrevivia a vender fósforos num Mundo em que os isqueiros eram reis. Os parcos € que acumulava gastava-os enganando o estômago, mas ficava feliz com a ideia de que os seus fósforos aqueciam a vida das pessoas. Por isso, de cada vez que vendia uma caixa, oferecia grátis um sorriso e uma palavra amável. E reparava que lhe sorriam de volta, confusos. Talvez por pensarem que uma pobre desventurada como ela nada tinha para sorrir... Ela sabia mais do que isso. Sabia que aquele era apenas um percalço no destino, que a guardava para um acto maior. Por enquanto, iluminava e aquecia, com os seus fósforos.

O dia 25 de Dezembro amanheceu cinzento e branco, a neve espalhando o seu manto por toda a cidade. Durante todo o dia caíram pedaços gelados de chuva do céu, que se amontoaram num tapete branco que tudo cobriu.

Já bem entrada a noite, o inesperado aconteceu. Reuniam-se os familiares em volta das fartas mesas para o final da ceia e as luzes de toda a cidade começaram a tremeluzir, cada vez mais rápido, até cessar por completo. Rapidamente toda a cidade estava às escuras, desamparada como alguém que de súbito deixa de ver.

A rainha das mendigas, habituada que estava à escuridão da noite, preparou uma pequena fogueira para se aquecer e iluminar. Depressa estava rodeada dos seus amigos de destino, que procuravam dois dedos de conversa e espantar o gelo.

As pessoas que vinham à porta das suas casas, procurando explicação para aquele fenómeno, apenas distinguiam aquela fogueira, como um distinto clarão que rasgava a noite e parecia indicar um porto seguro. Atraídas pela luz, reuniram os seus pertences, uma trouxa de comida e bebida e dirigiram-se para lá.

Minuto após minuto, a multidão que rodeava a mendiga começou a engrossar, e a fogueira teve de ser alargada. Imbuídas de um qualquer espírito desconhecido, as pessoas puxavam de bancos, colocavam mantas no chão gelado e conversavam com o vizinho do lado, que nunca tinham visto mais gordo. Partilhavam os seus haveres naturalmente, como se sempre o houvessem feito.

Nessa noite ninguém na cidade passou fome nem frio. Os sorrisos multiplicaram-se, os rostos farruscos iluminaram-se na esperança.

E Deus, no céu, gargalhou.

19 anos depois às 19:19  

Posted by I.D.Pena in

Lucya and Drake eram conhecidos de longa data, ambos divorciados, vistos na comunidade como encalhados, como sujos, pois só existe um unico casamento , uma unica virgindade, preconceitos que foram criados necessarios para autoridades exercerem a sua autoria falsa.
Evitaram-se no passado por vergonha, ambos eram similares e a vida proporcionou reencontros interessantes e coincidentes de tempos em tempos. Agora passados 19 anos o que  tinham em comum era mais que evidente, eram gemeos eram uma obra eram um todo que se completavam e contemplavam mutuamente.
Encontraram-se às 19 horas naquele dia e não foi por acaso, foi planeado. Precisavam de falar tanto que o tempo parecia querer parar, para eles poderem falar à vontade.
Mas só o toque,entre mãos : Aumentou o silêncio.
Nevava e não havia gente nenhuma ao redor, ele olhava -a e ela olhava-o , liam os pensamentos(ou pensavam que liam) um do outro e vice versa, ela deixou cair o olhar ele tentou entender o abismo, antes de formular questões idiotas banais costumeiras, não queria parecer vazio, porque  não é assim que se sente quando está ao pé dela .
19:19 O tempo teimava em parar, e nem ela nem ele paravam de sonhar fantasiar , apreciar aquele momento tão raro e esperado, um momento perfeito para não ser estragado.
A neve completou este quadro e convidou ao beijo.

Vais Voltar?  

Posted by Maya Gaarder in

Vais voltar ?

Perguntava sempre isso, de cada vez que se viam, no momento em que a mão dela já estava na porta e a alma já tinha partido há muito. Ele já sabia a resposta, sempre a mesma. Não conseguia perceber porque ainda insistia em perguntar; devia saber já, que nunca faria planos para voltar, se acaso se voltassem a encontrar, seria isso mesmo, um acaso.
Tudo entre eles era obra do acaso, um conjunto de casualidades que levaram a que os seus caminhos se cruzassem. Acontecimentos improváveis, aleatórios, desde o primeiro instante. Destino ? Não acreditava nisso, acaso apenas, coincidência.
Gostava de estar com ele, dos momentos ocasionais que partilhavam. Não sabia se gostava dele, não o conhecia, nem ele a ela. Encontravam-se há anos, estranho pensar que tinham passado já vários anos desde o dia em que se cruzaram pela primeira vez. Desde aquela tarde em que ela, movida pelo vício dos livros que a levava a nunca ignorar uma livraria, entrou na sua loja preferida, apenas para ver os livros, tocar e cheirar, ler um outro prefácio, passar um pouco do tempo que lhe sobrava entre um e outro afazer.
Ele aproximou-se no momento em que ela abria um livro sobre ocultismo e o cheirava. ‘hábito curioso esse…’ ela sorriu e contrariamente ao que costumava fazer, muito raramente respondia a abordagens deste tipo, sorriu-lhe e respondeu : ‘de facto, gosto do cheiro dos livros novos, do cheiro do papel…’
‘sim ? e de que mais gosta ?’
‘gosto do outono, do frio, de pisar as folhas que caem das àrvores, do cheiro a castanhas assadas no ar…’
‘vi uma vendedora de castanhas na esquina . que me diz a comprarmos algumas e enquanto as comemos pode continuar a dizer-me quais as coisas de que gosta. ‘
Compraram as castanhas e sentaram-se num banco do parque, conversaram durante horas sobre nada em particular, livros que leram, sítios onde estiveram e onde gostariam ainda de ir. Banalidades sem importância para nenhum dos dois. Quando anoiteceu deixaram o parque e sem mencionarem nada, dirigiram-se para o hotel que ficava do outro lado da rua. Passaram a noite juntos, a primeira de muitas.
Encontravam-se sempre no mesmo sítio, quando o acaso os conduzia la, mas não se conheciam. Para além do nome dele, que duvidava até se era verdadeiro, nunca lhe dissera a ele o seu verdadeiro nome, não sabia mais nada. Não queria saber, não fazia perguntas, não responderia se ele lhas fizesse. Não queria conhecê-lo, seria demasiado perigoso para ela. Conhecia o corpo dele, todos os detalhes, todas as curvas e espaços onde gostava de ser tocado, mas era tudo. Não queria mais.
Esta pergunta, de novo… Hesitou, com a mão na porta. Durante alguns momentos pensou realmente em dar outra resposta. Pensou dizer, sim, vou voltar, amanhã e todos os dias. Uma parte dela, aquela que com muito esforço ignorava, rebelou-se contra as amarras que ela lhe impusera. Essa parte queria dizer que sim, queria ver a reacção dele. Mas a sua auto imposta frieza, o hábito de ignorar aquilo que ela considerava uma fraqueza, a parte de si que sentia, levou-a a dar a resposta de sempre :

Não, não vou voltar.

Abriu a porta e saiu. Perturbada. Desta vez… desta vez esteve tão perto de sentir. Tinha que recuperar o controlo. Não sentiria de novo. Nunca mais.

O gato  

Posted by LBJ in


Olho pela janela e noto que não há outra luz além daquela que vem da Lua e dos reflexos da humidade que já cobre os telhados. Das sombras emerge um gato de cor indistinta, talvez pardo ou mesmo negro de olhos amarelos esverdeados e que avança pelos beirais com segurança e indiferença. Sinto que me olha com aqueles olhos de gato e incomodam-me os olhos dos gatos com o seu vidrado colorido centrado por uma oval negra.
Os olhos dos gatos são como os das serpentes, cheios de significado e vazios de emoção, quando me olham sei que não se limitam a ver o que mostro, mas conseguem ver-me a alma. Aquele gato, está ali parado a julgar os meus pecados e o pior é que lhe são indiferentes, como se todo o negrume da minha alma nada significasse na imensidão da noite.
Ouço um ruído no beco abaixo e o gato também o ouviu porque desviou os olhos da minha alma. Tento perceber o que causou o ruído no meio de caixas e de lixo e de restos abandonados de coisas que um dia foram importantes para alguém. O gato desce num salto do telhado para a ombreira de uma janela e de outro salto para outra janela e ainda outra para uma varanda e já quase ao nível do solo assume a pose do caçador.
Noto que se foca num caixote de ripas velhas repleto de garrafas vazias ou cheias de restos de líquidos e água da chuva. Um novo ruído e o gato salta para a frente do caixote, de unhas de fora aterra com as quatro patas em simultâneo no chão e enfia o focinho por baixo e vejo e ouço a aflição de algo pequeno e cinzento que tenta desesperadamente meter-se mais fundo na procura de um refugio. Tudo é tão rápido que nem consigo perceber o que está acontecer, ouço um raspar e um miado e um guincho que se extingue e vejo os olhos do gato amarelos esverdeados com a sua oval negra que me olham com a vitima imóvel pendurada na boca, olhos de serpente em corpo de felino que me fazem sentir que sempre serei mais presa que predador…

Bicicleta  

Posted by M. Morstan in

Encostada à parede de tijolo estava uma bicicleta. A minha segunda pista. Não como a minha, bicicleta que é vermelha, reluzente e bem cuidada. Antes ferrugenta, de guiador torto e alguns raios partidos. Não de desleixo, mas de uso. Muito uso. E muitos anos em cima, pareceu-me. Aproximei-me. Parei. Olhei-a. Cheirei o ar em volta. Férreo. Cheiro metálico, mas ao mesmo tempo doce. Passei a minha mão pelo guiador, desci pelo quadro, subi ao selim. Esburacado à esquerda e à direita, quase intacto ao meio. A minha mão continuou a deslizar pela bicicleta até à roda traseira. Rodei-a. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. Perdi-me em pensamentos sobre o que esta bicicleta antiga já viu. Imaginei os caminhos que percorreu. Adivinhei quem se sentou em cima dela. Agora fui eu que me sentei nela. As duas pernas para o mesmo lado, como uma amazona montaria o seu garanhão. Estendi os braços e as minhas mãos rodearam os punhos. Apertei-os. Fechei os olhos. Senti a quietude da rua. Uma brisa ligeira revoltou-me os cabelos. Inspirei longamente. Abri os olhos e olhei para cima. Por entre os telhados, os raios de sol passavam filtrados pelo fumos das chaminés. Desci da bicicleta. Virei-me de costas. Afastei-me. Primeiro devagar, depois mais depressa. Corri. Sem olhar para trás uma única vez. Deixe a bicicleta encostada à parede de tijolo. Compreendi a minha segunda pista. E reli a carta.

O mar violeta-encantado  

Posted by Mag in

Não queria acordar, não depois daquela noite.
Acordar para um dia de neve branca que traía o negro luto do seu coração, como que uma ferida aberta na paisagem, recordando-lhe que o Mundo continuava lá, apesar da dor, apesar do frio, apesar de se sentir vencida, rasgada, tolhida.
Mas a Vida, meretriz impiedosa, continuava alheia ao seu sofrimento, e para mais resolvera brindar o Universo com um dia de Inverno esplêndido, com um Sol-rei encavalitado num céu de um azul perfeito, que nada deixava a desejar a um fresco de Miguel Ângelo... daqueles dias em que sairia com o pequeno Brian no carrinho e lhe falaria das árvores e dos pássaros na floresta enquanto deixava as suas pegadas no caminho branco...
Assim que o pensamento a atravessou, a familiar dor, dormente até ali, entorpeceu-lhe o corpo. As lágrimas já não corriam, estavam secas e esgotadas da sua essência, apregoavam-lhe apenas no peito o vazio e a escuridão.
Com um suspiro magoado, convenceu-se a levantar da modorra da cama e a tratar do pequeno-almoço para os hóspedes que se encontravam alojados na pequena estalagem. Vivia daquilo, e se havia algo que a mantinha de pé no meio da névoa e da confusão era aquele entra-e-sai de pessoas, desconhecidos que com ela partilhavam um pedaço de vida.

Chania tratou da lareira apagada, do leite, do pão acabado de cozer, do mel, dos biscoitos que gostava de colocar como extra, da manteiga fresca e do café e deixou-os na mesa longa da sala, para quando os seus hóspedes se levantassem.
Afagando o xaile que a protegia, saiu para o frio do campo, tentando sorver a energia gratuita dos raios solares. O Sol brilhava e reflectia-se num ponto que Chania não conseguia enxergar. Curiosa, aproximou-se.
No centro de uma clareira, nascera uma tímida flor violeta, desconhecida por aquelas zonas. As suas delicadas pétalas sacudiam-se no vento e absorviam gulosamente a luz com que era presenteada. Mais à frente, outra flor similar, e outra, e outra, orgulhosamente desafiando o frio invernoso.

Seguindo-as, Chania chegou a um planalto. Lá, e até onde conseguia vislumbrar, morava um mar das suas belas flores de um violeta impossível, belas e selvagens, um presente de Deus para quem o quisesse contemplar.
Chania sorriu, e a dor levantou um bocadinho o seu véu. Iria ali todos os dias, sentia-se mais perto de Brian. E, silenciosamente, agradeceu a bênção que lhe fora dada.

Ausência: Presente  

Posted by A Mor..


Estou sentada na cama, encostada na cabeceira e ele dorme no meu colo. Estamos suados e seu cabelo invade minhas pernas e se mistura com minha respiração.
Não sei porque me sinto em paz. Sou uma mulher de guerra e ainda um pouco eu dominava esse cara, meu homem, tão indefeso, tão só meu agora que descobri porque me sinto em paz.
Ainda estou molhada, ainda estou pronta pra boca dele - ainda tenho fome.
Esse lobo deitado em mim, esse poço de carinho, afeto, palavras e fome - que me olha   o tempo todo com se tivesse medo que eu desaparecesse, esse cara me completa e eu não quero ser completa.
Eu quero a ausência dele, do cheiro, do olhar, da força dele me pegando. Eu quero me olhar no espelho e não ver ele.
Porque é por isso que ele me ama e sempre volta: porque eu não preciso dele. Dorme, meu lobo.


Dorme!

O armário  

Posted by Maya Gaarder

Era um armário antigo. Pesado, feito de cedro rosa, enviado do Brasil há muitos anos pelo bisavô como presente de casamento da filha mais nova.A avô conservava-o com esmero, a única recordação do pai que emigrara para o Brasil quando ela era ainda um bébé de colo e nunca mais voltara.
Ficava no quarto das traseiras, perdera o lugar de destaque no quarto da avó em favor de móveis mais modernos e funcionais.
Mais de meio século depois, no interior ainda se sentia o cheiro adocicado e levemente acre do cedro. Deu-se conta disso numa tarde em que brincava às escondidas com os primos. O armário, habitualmente fechado à chave, sabia-o porque já tinha tentado abri-lo noutras ocasiões, tinha as portas abertas naquele dia, certamente para arejar as roupas que a avó guardava ali.
Tirou os sapatos e entrou, já bastava a eventualidade de ser apanhada ali pela avó, se para cúmulo ela a encontrasse com os sapatos calçados, bem…. Nem queria pensar! Encostou as portas sem as fechar completamente e deixou-se ficar ali, imersa na semi-obscuridade e em todos os odores que a rodeavam.
Entreteve-se a identificar os cheiros, o mais forte e pungente, naftalina claro… toda a casa estava impregnada pelo cheiro. Ficava sempre com a sensação, de cada vez que lá ia, que o cheiro a naftalina se lhe colava à pele e demorava vários dias e imensos banhos até se sentir livre do odor. A mãe dizia que tinha tudo a ver com o processo olfactivo, um cheiro assim tão intenso deixava uma marca fortíssima no hipotálamo, o que nos dava a sensação de continuar a sentir determinado cheiro muito tempo depois de este já se ter dissipado.
No entanto, apesar da presença fortíssima desse cheiro, conseguia sentir outros: lavanda, rosmaninho, hortelã, alecrim, canela. Identificava-os facilmente, tinha passado as férias da Páscoa em casa da avó, e entreteve-se durante as tardes a colher as plantas do jardim, supervisionada pela avó, que lhe ia dizendo o nome de cada uma. Para depois fazerem raminhos que secavam ao sol e usavam para perfumar as gavetas e arcas onde a avó guardava cuidadosamente aquilo que chamava as suas limpezas. Peças de linho imaculadamente brancas e ricamente bordadas que estavam já destinadas a fazerem parte dos enxovais dos netos.
Misturado com todos os outros cheiros e de tal forma indelével que se não estivesse absolutamente concentrada não o teria sentido, um outro cheiro, que não conseguiu identificar mas que associou ao cheiro do cachimbo do pai.
Tabaco, aqui? Estranho…..
Começou a remover cuidadosamente as peças de linho, tentando encontrar a fonte do odor. Os dedos tocaram em algo que lhe pareceu uma caixa de madeira. Pegou-lhe e colocou-a perto da porta por onde entrava uma réstia de luz. Estava curiosa, o cheiro vinha sem dúvida dali, e era agora mais forte. O que levaria a avó a esconder uma caixa de tabaco no meio das roupas, num armário habitualmente fechado à chave. A ideia da avó a fumar um cachimbo às escondidas, provocou-lhe um ataque de riso que tratou de sufocar com ambas as mãos, para que não se denunciasse.
A caixa felizmente não estava fechada à chave, e se em alguma altura serviu para guardar tabaco, não era esse o seu conteúdo agora. Cartas, várias, num papel fino, com a escrita já bastante desbotada mas ainda perceptível.
Curiosa como era, nem tentou resistir e começou a ler uma delas, estava datada de 1917, e começava com um “Meu Amor”. Supôs imediatamente que fossem cartas do avô para a avó, e achou extremamente romântico. Mas pensando melhor, isso não fazia sentido, desde que se conheceram, os dois nunca estiveram separados um único dia, até ao dia em que Deus o levou, como dizia a avó com ternura e sempre com as lágrimas nos olhos. Para além disso, tanto quanto sabia, o avô nunca aprendera a escrever, sendo o filho mais velho e tendo começado a trabalhar logo que tinha força suficiente para segurar uma enxada, nunca houve tempo para a escola. De quem seriam as cartas? E para quem?
A voz da prima que a chamava sobressaltou-a, já tinham desistido do jogo e esperavam-na para lanchar. Apressou-se a pôr as cartas de volta na caixa e fez os possíveis para colocar a caixa exactamente no mesmo lugar. Saiu do armário contrariada e prometeu a si mesma abordar o assunto com a avó mal tivesse oportunidade.

Diário da Terra  

Posted by Bruno Fehr in

„A liberdade foi o que de pior nos aconteceu“, foi isso que o meu capitão me disse assim que as primeiras bombas começaram a cair. „Dá-te por feliz por estares em Portugal pois os mais fortes são sempre os primeiros a cair“.
Pelas noticias vindas dos nossos aliados Europeus, a Ucrânia era neste momento o inferno na Terra onde 90% dos forças Bálticas, Polacas, Ucranianas foram dizimadas. No continente Americano as forças do sul e centro apoiadas pelos Chineses empurraram o exército Norte Americano quase até à fronteira do Canadá onde já se encontravam 5 regimentos Russos e estando o oceano pacifico a ser controlado pelo Japão e Índia a única rota de fuga era o oceano Atlântico, rota essa que traria a guerra para a Europa ocidental.

Só nos EUA 28 milhões de soldados e 55 milhões de civis perderam a vida. Portugal era agora a porta de entrada na Europa de 25 milhões de refugiados. Toda a costa portuguesa estava “minada” do que restava da armada Norte Americana.
No oceano atlântico encontrava-se toda a frota marítima Britânica, Francesa e Alemã com o objectivo de parar qualquer ataque vindo por mar, ao passo que a força aérea e terrestre da União Europeia estava centrada num corredor que se estendia de Berlim a Bucareste.

As palavras do meu capitão estavam em parte certas. A liberdade permitia-nos fazer e dizer o que queríamos, viver onde queríamos e foi dessa liberdade, ou ideia de liberdade, que nasceu a nossa arrogância alimentada pelo poder que por sua vez aliada às pressões comerciais e politicas que impúnhamos ao Médio Oriente, Ásia, América do Sul, África e Rússia deixámos, sem querer, que fosse criado um governo tirano que nos impunha uma falsa noção de liberdade fragilizada pelas cedências constantes de liberdades em troca de um falso sentimento de segurança, enquanto nos guiavam para uma guerra que só as elites loucas pensavam poder vencer.

Apesar de Norte Americanos e Chineses terem usado armamento nuclear, a aliança Indo-asiática não o tinham ainda usado contra a Europa, que vivia sob um ultimato de rendição.
Era uma questão de tempo até a Europa cair mas mesmo vivendo no chaos, o exercito e povo olhavam para as elites politicas que nos tinham arrastado para esta guerra em busca de respostas, de orientação, de soluções, e de lá nada vinha a não ser a constante propaganda orgulhosa que apelava ao nacionalismo mesmo que as nações estivessem em ruínas. Ainda assim o povo lutava, não pelo país, não pelas suas casas já destruídas mas pelas suas famílias. O que é uma nação senão um aglomerado de famílias? As nossas famílias!
A Turquia abandonou a sua posição neutral e entrou na Europa pela Grécia. A Argélia e união Africana invadiram a Itália e num acto de desespero a Europa lançou ICBM's sobre as principais cidades Turcas e Norte Africanas e foi impossível parar a multiplicação de explosões “cogumelo” um pouco por toda a Europa. Falava-se no fim da guerra. Mas como pode uma guerra ter fim se as elites que a alimentam estão vivas e de saúde exiladas na Escandinávia? Gozando da pseudo-neutralidade da união FiNorSe (Finlândia, Noruega, Suécia). Todos nós, soldados, sabíamos que a guerra não tinha terminado, sabíamos que após este inverno nuclear, os sobreviventes voltariam a guerrear-se mesmo que já ninguém soubesse porque lutava, mesmo que todos soubéssemos que estávamos no limiar do fim dos tempos. Um Apocalipse humano, um suicídio colectivo sem intervenção divina. Deus se existe, há muito que virou costas à pior das suas criações e nenhum homem ou mulher olhava para o céu à espera de intervenção divina, olhavam sim no desejo não ver mais uma chuva explosiva.

Fumo o meu último cigarro que no meio do cheiro nauseabundo a morte e químicos é o que de mais saudável os meus pulmões conhecem. Mesmo assim, decido deixar de fumar.

(excerto de Teanaris - Livro Terra)

O inicio  

Posted by LBJ in


Foi uns dias antes de tudo começar. Lembro-me de ter aberto os olhos incomodado pela luz do Sol que já ia alto e só ver verde em toda a minha volta e eu até gostava do conforto daquele verde e do cheiro da erva ainda um pouco húmida do orvalho da noite. Se hoje tenho saudades desses tempos simples em que nada acontecia, naquele dia recordo que acordei resmungão e a lamentar a monotonia de mais um dia em que nada de extraordinário ia acontecer e que o meu maior desejo era que algo extraordinário acontecesse. Naquele dia nada de extraordinário aconteceu ou pelo menos eu não reparei que algo extraordinário tivesse acontecido, mas estranhei uma revoada de pássaros lá longe sobre o pinhal que desce da colina dos arcos até ao regueiro da família Síldio e um estrondo oriundo de parte incerta que se foi esvaindo até se tornar um silvo e desaparecer.

Escusado será dizer que ninguém na nossa comunidade ligou alguma importância àquilo, tirando eu que era visto como um bicho irrequieto e trafulha e à espera de sarilhos apenas o Zoldi Ouriço conhecido por começar a mastigar bagas azuis logo que se levantava e a meio da manhã já andar a trombadar pelos caminhos, comentou que vinha ai coisa ruim e que o melhor era começar a encher a despensa. Recordo-me também que foi nesse dia que ganhei coragem para me aproximar sorrateiro do lago da fonte Castanha e espreitar o pêlo a luzir de gotas de água da Riú enquanto tomava banho…

Árvore  

Posted by M. Morstan in

A carta levou-me ali. À minha primeira pista. Não muito alta, mas de tronco grosso e copa larga, a árvore erguia-se no alto de uma colina verdejante. Parei a contemplá-la. Quantos anos teria, interroguei-me. Cem? Duzentos? Mil? Parecia antiga, de tão grandiosa que era. Aproximei-me. Dei uma volta ao tronco. Depois outra. E ainda outra. Parei. Descalcei-me. Estendi os braços, abracei a árvore e encostei a orelha esquerda à casca. Fechei os olhos e respirei fundo. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. Deixei de me sentir e passei a senti-la. A árvore é um ser vivo. A árvore tem um coração. Não um coração como o meu, mas um coração que pulsa. E esta árvore tinha um pulsar vibrante. Encostada à árvore, consegui sentir o seu ritmo vital. A certa altura comecei a sentir o pulsar da Terra, por baixo dos meus pés nús. O meu coração desacelerou até ao compasso do vibrar da árvore e do pulsar da Terra. Em sincronia. Deixei-me ficar assim durante uns momentos. Eu, a árvore e a Terra tornámo-nos num único ser. Em sintonia. O tempo à nossa volta parou. O espaço à nossa volta desapareceu. Só nós as três. Eu, a árvore e a Terra. Abri os olhos e ainda abraçada à árvore olhei para cima. Por entre as diferentes tonalidades de verde das folhas, os raios de Sol passavam, filtrados. Uma luz quente aqueceu-me a cara e a alma. Virei-me de costas. Afastei-me da árvore. Primeiro devagar, depois mais depressa. Corri. Sem olhar para trás uma única vez. Deixei a árvore no alto da colina. Compreendi a minha primeira pista. E reli a carta.

Maresia na alma  

Posted by Mag

“Meu amor,

Escrevo-te para espantar os fantasmas que me volteiam nas sombras deste mar de espuma que parece não ter fim, e para deixar testemunho escrito desta minha passagem por este mundo que ainda me faz abrir a boca de espanto e temor tantas vezes, para que não se perca o registo desta minha existência, que agora me parece triste e sem sentido, depois de ma teres povoado de beijos e alegrias.

Não vejo, como nos livros de histórias, fim, no horizonte, neste rugir ondulante que o barco conquista a cada novo dia de rumar, antes se me confunde o olhar entre os azuis do céu e da maresia, e acabo por me sentir como se sepultada em vida, neste destino que me foi decidido, firmado e sem espaço para rogos e revogações, por outrem, que sem piedade se fez dono e senhor dos meus passos.

Ainda me ecoam nos ouvidos as palavras chicoteadas pelos lábios de meu pai, ainda as vejo a brilhar-lhe nos olhos, as lágrimas silenciosas, rogos impotentes de clemência que bailam nos olhos azuis da minha mãe, ainda tenho o cheiro acre do medo na pele, não por mim, que sempre me soube capaz de alhear às piores fúrias daquele que me gerou, mas por ti, meu amor, por te saber perdido nas bocas do povo, a honra lavada na lama dos passeios, a saída menos que honrosa de um afastamento sumário do posto de coronel que tão justa e brilhantemente ocupavas e te roubei, de um só suspiro, em troca de um amor que não se esgota no vento, nem nas palavras, nem no sabor da tua pele na minha!

Se é crime amar assim, sentindo ainda o teu abraço fervente e os teus lábios mergulhados no meu peito, se é pecado dar-te o meu corpo virgem de vícios e outros amores clandestinos, agora prenho deste orgulho que me preenche, por ter sido tua e percebê-lo neste ventre que qualquer dia me será difícil esconder à tripulação (que será de mim, depois? Atirar-me-ão ao mar, sem piedade?), se é condenável saber-nos um só mesmo que com este oceano que nos puseram de distância, apenas porque não sou tua mulher de matrimónio, então, meu amor… então… sou criminosa, e que Deus apenas me venha julgar! Porque deste crime não estou arrependida, não rezarei Avé-Marias nem me ajoelharei perante um altar numa qualquer Igreja simulando, como tantas senhoras bem-casadas (ou assim se dizem) fazem, que com meia dúzia de Padre Nossos se limpam as contas do rosário que todos teremos um dia que assinar ao chegar à nossa morada final!

Não, eu se pudesse calava com os teus beijos este vento que não se cansa de me soprar no peito desde que lançou âncora esta prisão que me levará àquele que será o meu sepulcro para o resto dos meus dias.

Mas talvez não seja vento já o que me ecoa no peito, talvez seja afinal o vento que me revolteia nos cabelos que não consigo disciplinar por debaixo do hábito que me fizeram já vestir, negro como convém a uma mulher perdida na minha situação, sem outro destino que não o tornar-se noiva de Deus. Será que Deus quer esta noiva que ama a outro, que ama a um homem de carne e osso? Aos meus juízes não importa se tenho vocação e alma para noviça…

Mas o vento, falava do vento…. Sabes, meu amor, às vezes é difícil organizar os pensamentos, parece que se perde o sentido nesta viagem desterrada… e combato uma vontade irracional e imperiosa que me assalta, por vezes, de súbito e como um ladrão no escuro, de me lançar nestas ondas que fustigam o casco da embarcação… mas não temas, meu amor, sabes que sei ser o dedo do Outro que me tenta, e não cedo facilmente às angústias com que me quer inebriar a mente! Sabes-me forte, esta tua fêmea (como gostavas de me chamar), sabes que não me deixarei domar facilmente… até tu, que eu soube ser, desde o primeiro olhar trocado, o meu destino, precisaste de muita astúcia para me chegar ao corpo!

O vento esta noite foi impiedoso, cantou-me na janela com a sua voz triste até me pôr os nervos em ponto de caramelo, como as tartes que me ensinou a tia Maria, a minha tia preferida, a fazer. Já há dias que não nos larga, talvez seja um castigo acrescido com que o meu pai nem sequer contou, mas que me soa a tormenta no espírito quebrantado! Sabes como sou sensível ao vento, meu amor, como me impede de pensar, de coordenar as ideias dispersas, como me enche o peito de lágrimas que não solto por puro orgulho! Não me vergarei, venha o Levante que o meu corpo pode oscilar como cana de bambu mas a alma, essa, encastelará nas paredes do seu quarto até que se canse de soprar este bandido!

Estou emparedada em vida neste mundo masculino e rude de pescadores, com olhares libidinosos que me despem aquilo que as vestes escuras tentam, em vão, esconder. Pois se a cada dia me crescem os seios, preparando-se para a maternidade com que me abençoaste, e me arredondam as formas, é-me difícil ocultar o corpo assim pleno ao desejo alheio, que no entanto desprezo. É a ti que quero hoje e sempre, meu amor, e só queria que pudesses passar os teus dedos morenos neste ventre que alimenta a parte de ti que me restou…

Não desisti ainda de viver, sabes? Atiraram-me para aqui, mas hei-de arranjar forma de me escapulir, quando a vigilância apertada da matrona que me foi contratada como carcereira se desleixar um pouco, talvez em terra… Não sei o que farei, ainda, mas… isto não é viver.

Nem com o fraco consolo destas palavras deitadas ao mar, nem com as doces e longínquas (quase que fugazes, já) lembranças dos nossos amores proibidos em campos naufragados de morangos, que se desfaziam em sumo na boca…

Esta que foi (só) tua, e que, com a força de Deus, voltará a ser, despede-se agora… a maresia transtorna-me os enjoos que a tua filha (sim, sinto que teremos uma menina) me faz passar… preciso descansar o corpo magoado… até breve, meu amor.”

Ancorar  

Posted by mf in

Navego em mar encapelado
cavalgando as ondas em teu corpo
na crista da espuma suada
que de ti se desprende
em busca de enseada recôndita
onde anseio espraiar os sentidos
Pressinto a dureza do cais
Provo o sal da rocha que se alteia
Ouço o rugido suave das profundezas
Vejo-te em oscilação ritmada de maresia
Cheiro o doce acre que se desprende
da maré viva que libertas
Ribomba ao longe a tempestade que se aproxima
Faíscas de luz rasgam-me por dentro
Explode o céu no infinito
E amanhece.

A comunhão  

Posted by I.D.Pena in

Estava uma tarde maravilhosa, ouvia-se ao longe a terra a ser arada , e no ar pairava um cheiro doce , talvez fosse as macieiras ou as flores silvestres era uma mistura da natureza uma das tantas fragrâncias muito bem definidas mas sem definição ... E ra sem duvida memorável e um presente maravilhoso, para Mãe e Filho,  juntos a conversar sobre o tudo e o nada que compõe este mundo.

- Mãe , como se pode ser melhor sem que ser melhor ofenda os outros ?

A Mãe emocionou-se interiormente com a sabedoria que aquele menino de 5 anos já mostrava ter , o seu ar sério fez com que repensasse em todas as palavras para que pudessem ser entendidas da melhor forma possivel.

- Podes ser melhor para muitos mas nunca o melhor para todos , porque ser melhor é alguém que se esforça por melhorar, já sabendo à prior que pode fazer pior...

A resposta confundiu e calou a criança , mas percebeu-se bem que a conversa não iria ficar por ali...

- A "ofensa" que os outros sentem, é a demonstração da frustração que eles sentem por não terem conseguido fazer melhor, não merece da tua parte atenção, só existe para chamar a atenção de quem se ofende com o facto de estares a melhorar.

A resposta ... Desta vez ... Foi bem mais complicada , mas muito melhor entendida, e apreendida por seu filho...Que crescia ali mesmo.

A garça de Deus  

Posted by LBJ in


Andava um dia um pastor a pastorar o seu rebanho que tinha cabras e tinha ovelhas e tinha carneiros e tinha dois cães que eram pouco peludos e compridos de rabo e perna alta quando sentado debaixo de uma árvore de folha caduca mesmo no final do Verão num daqueles dias que quando se sai de casa faz frio mas depois ainda se sua lá para o final da manhã lhe apareceu Deus. O pastor que não sendo beato nem daqueles que queriam ser sempre dos primeiros a comungar era crente na medida em que não tinha nenhuma razão para acreditar que não existisse um Deus e que esse Deus era o pai de todos mesmo dos bastardos e dos desgraçados e dos ricos e dos pobres e até do tonto lá da aldeia que gostava de levantar a saia às moças para lhes pôr à vista as truces à vista de toda a malta que se riam que se fartavam e sempre lhe iam pagando um copito na tasca. Por isso quando Deus apareceu ao pastor ele imediatamente percebeu que Deus era Deus e que até era parecido com as imagens que vira em miúdo num livro que havia na casa de já não se lembrava de quem e quando Deus lhe falou num vozeirão tremendo que parecia soprado dentro de um tubo comprido e estreito na boca mas que depois se alargava como uma corneta das grandes e bojudas ele assustou-se e só não se borrou todo porque tinha vergonha de o admitir em público.

Deus estava vestido de cinzento com um manto que lhe tapava o corpo todo com excepção das mãos e dos pés e da cabeça e tinha barba e um pássaro branco de bico bicudo parecido ou igual àqueles que costumavam andar no meio das vacas pousado no ombro. Uma graça como lhes chamava o marceneiro da casa do moinho e uma bela graça de penas brilhantes. Deus disse ao pastor que o tinha ajuizado e julgado digno de uma das suas garças divinas pela sua bondade e vontade de não querer mal ao próximo e de ser simples e humilde e de não invejar nem as posses nem as mulheres dos vizinhos e o pastor ficou contente porque afinal não era tão parvo como todos lhe chamavam e ia ter uma graça de Deus o que tinha de ser uma coisa boa. O pastor aceitou de Deus sem perceber muito bem porquê o pássaro e levou-o para casa e dá-lhe todos os dias água e farelos de pão que o animal ignora porque prefere comer baratas e um ou outro gafanhoto que apanha por ali e ainda espera um dia perceber ou receber de Deus as instruções para pôr o bicho a funcionar como deve ser e se não for daqueles que cagam ovos de ouro ao menos que diga palavrões como o papagaio da taberna.

Candidaturas  

Posted by Bruno Fehr in

Nunca foi o objectivo deste blogue ter os seus colaboradores a publicar por obrigação. A existência de um calendário serve unicamente para que dois colaboradores não publiquem no mesmo dia e desta forma retirem visibilidade ao texto do que publicou primeiro. Esse calendário não é uma obrigação de publicar é uma possível data, para um possível texto.

Na verdade, e falo unicamente de mim, é uma forma de me testar e de me obrigar a escrever algo. Este "obrigar" não é a obrigação de publicar mas sim uma forma de me fazer escrever, deixar a preguiça de lado e escrever sobre qualquer coisa. Por vezes corre bem, muitas vezes corre mal mas isto não é suposto ser um trabalho e sim ser um prazer, um treino, um teste ou seja lá qual for o motivo pelo qual escrevem.

Perdemos, espero que temporariamente, uma colaboradora e por isso estamos de portas abertas a novos colaboradores que queiram usar este espaço para partilhar um pouco da vossa imaginação.

Um espaço para escrever livremente, em qualquer formato sem se preocuparem com nada a não ser o que querem transmitir.

Os interessados em participar poderão enviar um pequeno mail para: fehrbruno@googlemail.com

Prelúdio de Outono  

Posted by Mag in

As folhas bailavam em danças desconhecidas do outro lado da janela, ensaiando as suas vestes de Outono. O vento tocava-lhes a valsa, compenetrado.

Os dias começavam a escurecer em horas mais pequenas, e o amanhecer tardava-se no céu, como que mal disposto pelo frio que se adivinhava no despertar matinal.

Na casa amarela a cozinha transformava-se em ventre, quente e confortável. Faziam-se, atarefadamente, bolos e biscoitos, grandes pratos de forno que cheiravam a gengibre e ervas, cozia-se pão, misturavam-se receitas antigas de vinhos e beberagens diversas.

Malua vigiava a cozedura da tarte de cogumelos selvagens que era a preferida de Truan, o marido, que retornava do longo período de expedição às terras selvagens para lá da montanha. Sorria para si mesma, antecipando gostosamente o abraço que a enlaçaria, a barba rija no seu pescoço, a voz forte que a fazia sentir-se rainha.

E, na casa amarela, era. Mas nunca o sentia tanto como quando tinha a família em seu redor, os rostos felizes dos pequenos, a presença segura e amada de Truan, sentado no cadeirão grande da sala.

Johan entretinha-se no pátio, ensaiando batalhas imaginárias com os bonecos talhados pelo pai. Nunca os largava. De momento, e pelo que Malua conseguia distinguir das palavras soltas que lhe chegavam à cozinha, os bravos guerreiros com nomes inventados lutavam pela conquista dos favores de uma donzela imaginária, que a nenhum queria mas a ambos se insinuava. Malua sorriu, pensando que Johan estava a crescer depressa.

Como um remoinho, Katyna entrou na cozinha, alvoraçada. Antes de conseguir recuperar o fôlego que lhe escapava, tentou dizer à mãe que já se ouvia, ao longe, a algazarra de chegada dos homens. O seu cabelo escuro prendia folhas nos caracóis rebeldes, os braços mostravam sinais da recente excursão à montanha. Malua reconhecia em Katyna os sinais da magia que se transmitiam na sua linhagem através do sangue e da alma, e que eram cada vez mais evidentes na garota que em breve seria uma mulher feita, bela e, se continuasse assim, rebelde. Malua sabia que só o verdadeiro amor amansaria o coração puro da filha.

Um sobressalto no coração sussurrou-lhe que Truan estava a chegar. Inconscientemente, passou a mão pelo cabelo, ajeitando-o.

Aí estava ele, com Johan preso de um braço e Katyna alargando-se já em direcção ao seu abraço.

Truan sorriu-lhe.

E o Mundo completou-se.

Bicho  

Posted by LBJ in


Bicho maldito. Maldito sejas tu que devoras e que sorves e que chafurdas nos restos das tuas conquistas. Maldito tu que esgravataste a terra e secaste o mar e sujaste o ar com o que sempre procuras e que nunca encontras. Maldito que nunca achas o que ainda te falta. Maldito que ainda e sempre te falta. Maldito tu que te aglomeras e que te espalhas e que te rodeias e que te enches e que te vazas. Maldito.

Maldito tu que procuras nos deuses uma razão e nas preces uma absolvição. Maldito tu que ensaias o riso e simulas o choro. Maldito tu que tens orgulho da avareza e luxúria da gula e inveja da preguiça e que te iras por isto ou por aquilo ou porque sim e porque não? Maldito tu que já não comes para viver e agora vives para comer. Maldito tu que sintetizas o esquecimento no fundo de uma garrafa, maldito tu que fumas ilusões, maldito tu que cheiras e que chupas e que chutas e que mastigas outras realidades de bicho maldito.

Maldito tu que gritas e te calas e que te incomodas e te acomodas e que te sentes e te consentes. Maldito bicho que rastejaste do nada para ambicionares o todo. Maldito tu que queres ser mais, mais que um bicho, mais que um enxame, mais que um deus. Maldito bicho hipócrita que te amaldiçoas.

Cavaleiro da Alvorada  

Posted by Bruno Fehr in

Foi numa noite apagada que tudo começou
Fugindo da madrugada e daquilo que eu sou
Encontrei um caminhante que me disse sem falar
Para parar correr e viver a vida a caminhar

Caminhei na noite eterna em busca da alvorada
Seguindo sempre em frente a cada encruzilhada
Cavaleiro sem cavalo, reino, espada ou destino
Frio, ausente e distante, um parvo armado em paladino

Ansiei em encontrar o calor de um sentimento
Em tudo diferente do fingimento do momento
Foi então que encontrei a mais bela das mulheres
Num campo verdejante salpicado de malmequeres

Ao longe o oceano da minha vida que já não é
O teu longo cabelo a ondular ao som da maré
As estrelas ofuscadas pelo brilho do teu olhar
Perdemo-nos num abraço de quem aprendeu a amar

Os nossos olhos cantaram uma canção que não escrevi
Mas uma nuvem negra levou o melhor momento que vivi
Perdido, olho em volta e não vejo vestígios de um caminho
Sigo em frente consciente de que sigo só mas não sozinho

De que se faz o amor?  

Posted by Mag in


Como sei, perguntas-me tu?

São os teus olhos que falam comigo e me contam de Mundos partilhados, de viagens fantásticas, de vidas trazidas, em memórias, ao presente, que me acariciam a pele sem me tocar.

São as tuas palavras embalando-me a alma, cantando-me trovas sem o saberes, nutrindo-me o coração, afagando-me o corpo, calando-me, aos poucos, o medo.

É o cheiro da tua pele na minha, um chegar a casa com o corpo cansado e a precisar de mimos, um aroma a pertença, a partilha, a doçura.

É o teu abraço forte que me protege e ampara, o ninho que crias para que nele me aconchegue e ressurja, equilibrada e forte.

É o beijo da tua boca vermelha na minha, promessa de brisa que sossega a tempestade revolta do mar, que acalma o chocalhar disperso das pulseiras de cigana que me adornam os braços, que me faz querer ficar ali, suspensa no tempo, no espaço, sem peso, sem saber, sem pensar.

São os segredos partilhados, as cumplicidades tão reconhecidas, o ser um e ser dois e crescer mais e querer mais, as descobertas de todos os dias, o sabor a mar nos lábios, e a terra para fincar os pés, e o fogo no peito, e o ar para espraiar as asas.

Como sei?

Não sei.

Mas quando penso em ti, recordo-me de tudo isto.

Universo, realidades e humanidade  

Posted by I.D.Pena in

Como o Natal está aí à porta , achei que deveria falar de realização pessoal, tentando também duma certa forma englobar o espirito para que serve este blog Prisão de Palavras , uma ideia original de Bruno Fehr para dar uma oportunidade expressiva a quem também partilha da paixão pela escrita, e também porque é uma das poucas  artes que se pode ser de facto  l i v r e , usando uma ferramenta tão importante como esta , a net.

(Um meio que poderia simplificar a vida em grande e por isso tal como os preservativos  e outros métodos contraceptivos devia ser completamente gratuito e sem limites alguns.)

O Universo fala com todos e quer falar com todos por uma especial razão que tal dar uma explicação mais real a esta insanidade ditada para tu aceitares.
(mrozny)
Eu uso a escrita para me resolver, e só consigo criar uma ideia de ficção quando a realidade me corre de feição , hoje em diacomo é  trambolhão a seguir a trambolhão necessitei de formas para absorver a motivação, uau dito isto assim parece quase crepusculo-lua vermelha, mas sim de facto acredito no poder da positividade assim como acredito no poder da negatividade. Uma vez que faço tudo para evoluir nem que seja um bocadinho de nada, uso a escrita não para expor os meus sentimentos, mas sim para percebê-los peça por peça . No fundo perceber um pouco mais do grande puzle que podemos ser , uma redescoberta vinda do interior..
Então questiono-me :  
Porque a juventude  de hoje em dia é tão apática, será que envelheceu ?

É que é o que mais se encontra apatia,  e um medo  quase incontrolado em acreditar nalgo desacreditando compulsivamente algo ou alguém por se sentir diminuido no ego, mas porque é que não podemos trabalhar todos em equipa? Para quê descriminar  ? Catalogar ? Diferenciar ? Quando humanos é o que somos.
 A vida com esta constante e imposta separação transforma-se numa equação com uma fórmula não muito clara pois só está centrada no Eu. E acaba por falhar.

O que é preciso para mudar essa estranha tendência para a divisão quase compulsiva ? Primeiro não esquecer nunca o que somos e isso é quem nós somos, inclusive todos  os sonhos que já tivemos.  Mas e quanto a realizá-los no plano real? A insatisfação que isto traz à mente é atroz mas na verdade não é dificil fazer algo que nos realize desde que tenhamos expectativas reais, mas a pergunta impoem-se : -Fazer o quê ? Existe tanta coisa que podemos fazer que quase ficamos exacerbadamente surpreendidos com tanta possibilidade de escolha, desde que haja isso mesmo :   Escolhas
E por mais que as escolhas nos sejam oferecidas de bandeja nem todas são oportunidades.

Quando algo de feliz acontece na nossa vida a surpresa ou espanto denota na realidade apenas o "entusiasmante" crescimento (talvés interior), a mente transforma uma emoção em variadas formas que depois são traduzidas por cores sabores e até cheiros, mas se não tiver toque ou contacto humano  faz uma espécie de fantasia, ou uma adivinhação  de como  será a pressão a força adivinhando até o tacto, mas nunca esquecer que essa imaginativa acção é apenas uma mera  hipótese que só poderá ser comprovada depois de realizada no presente.

Para mim na humanidade  falta a  realização pessoal e por isso aumentam  as formas doentias de perversão humana . Quanto menos realização mais fantasia, mais escapes, e fugir nunca será viver como um humano.

O que é ser perverso ? Segundo a wikipédia é isto :

"Perversão é um termo usado para designar o desvio, por parte de um indivíduo ou grupo, de qualquer dos comportamentos  humanos considerados normais e/ou ortodoxos para um determinado grupo social. Os conceitos de normalidade e anormalidade, no entanto, variam no tempo e no espaço, em função de várias circunstâncias.
A perversão distingue-se da neurose e da psicose como modo de funcionamento e organização defensiva do aparelho psíquico. O termo é também freqüentemente utilizado com o sentido específico de perversão sexual, ou desvio sexual."

Mas aqui esqueceram-se de dizer algumas coisas por exemplo o lado bom e contemplativo de ser imaginativo e infelizmente também é considerado pela sociedade uma perversão mas a criatividade e a sua expressão é também o que  destroi toda a parte doentia e exagerada da perversão humana por  ser considerada de obra de arte, e quando nós consideramos algo a r t e , estamos a nos realizar também.


Num jovem que tenha agora ,por exemplo : 30 anos , já trabalhou e estudou , sabe o que é que importa e mexe a roda dentada da economia ,  passa cerca de 70% ou mais da sua vida a executar tarefas lógicas e os 30 % restantes tarefas criativas isso não pode ser considerado evolução. O que se descobriu é que  "brilhante" é utilizar  o cérebro de forma mais completa possível, assegurando um equilibrio entre parte esquerda com a direita. Um processo de autocompensação que nos completa como seres pensantes.
O mais maravilhoso ainda ficará por contar...É que só com essas capacidades ampliadas  foram descobertas explicações  para telecinese e outros fenómenos sobrenaturais  envolvendo até a energia. Todas estas capacidades normalmente mal são descobertas usamos e ajudam-nos a  alimentar uma espécie de alter ego que criamos para sobreviver em sociedade, uma especie de avatar dentro da matrix que é também desta realidade.

E quando acontece deja vus mas de forma constante ?

Existe "deja vus" e deja-vus, uns mais evidentes que outros, alguns originam de sonhos originalmente, outros são deja-vus repetição da realidade, quando essa repetição acontece é sinal que se estagnou ou esbarrou e por isso errou.

Como todos temos capacidades de aperfeiçoamento muito próprias , mas também dentro da natureza somos os seres que em bébés os mais indefesos, conseguimos convencer por milénios que era falando pela boca em linguas  diferentes que nos mantinha no topo da cadeia alimentar então julgamos ser bom para melhorar a capacidade de comunicações entre povos e culturas .

Mas isso não resultou e falha redondamente quando a mentira é uma constante ou se estiver por todo o lado, daí a importancia do desenvolvimento da mente. Ainda assim convencemo-nos ou convenceram-nos que estavamos no topo da cadeia alimentar e ingenuamente acreditamos. E é esse o grande erro humano, acreditar sem comprovar por si mesmo. Porque para cada nova situação uma nova adaptação, um novo desafio, uma nova oportunidade para melhorar nem que seja só por isso. Deveriamos sim empregando as acções  numa era de realização humana.

Que é desde sempre desincentivado por todos os lados na sociedade, fomos educado(s) e obrigados  a uma submissão(inconsciente nalguns casos) na implementação de sistemas lógicos correlacionados como o capitalismo ou "endividaísmo" , detesto "ismos" , dá para fazer ismo de tudo até de caneca , canequismo...

Industrias/Economias/Empregos mudam radicalmente quando são as próprias pessoas que se recusam a fabricar e consumir um mau produto, onde chegamos ?  Em que a ignorância vende ? Onde por todo o lado  do ecran assumem-te à partida como estupido?
Já ultrapassei a fase do consumismo assim como bastantes pessoas que conheço  mas nalgumas partes do mundo é desenfreado , e reflecte também a necessidade falsa por não ter sido pensada de consumir e tudo pelo controle da mente que só sabe ser passiva.

Mas nem todos são consumidores descontrolados mentalmente, muitos também são conscientes, se fores justo naquilo que consumires  não comprando produtos cujos donos das corporações escravizem populações, por exemplo, estarás a fazer por si só bem a ti também .

Não me orgulho de ser da raça humana, eu sou humana e enquanto estiver a humanizar-me vou me definir como humana não tendo como base a definição de ser  humano usada em livros ou dicionários, vou simplesmente ser.

Male partum, male disperit  

Posted by LBJ in


Assimetrias. Preto e branco, recto e curvo, inodoro e pestilento, nascimento e morte. Vivemos a vida entre assimetrias. Já não gosto de me vestir de preto e ainda gosto de ver alguém vestir de branco e desconforta-me o inodoro e incomoda-me o pestilento, estou cada vez mais longe de ter nascido e mais perto de morrer. Na cultura em que me criaram o preto é a cor da morte e o branco é a cor do nascimento. Na fé que me impuseram vestiram-me de branco no baptismo e vestiram-se de preto no luto. Mas nunca gostei de me vestir de branco e não me lembro da dor de nascer, somos preservados pela memória do acto de nascer, apenas restamos como memória no acto de morrer, mas gostei um dia me vestir de preto sem ter que o associar à dor de alguém morrer.

Eu estou na minha assimetria ainda empurrado pelo bramir de mentiras que sei reconhecer como assimetrias de verdades. A verdade e a mentira serão talvez as únicas assimetrias que necessitam de juiz para serem julgadas na sua condição. A alegria é uma assimetria imprópria da tristeza e a verdade é a alegria que resta quando todas as tristezas das mentiras se revelam. Eu estou na minha assimetria seguro e alegre da minha verdade e triste pelas consequências das tuas mentiras. Tu estás na tua assimetria segura e alegre da tua mentira e triste pelas consequências das minhas verdades. Somos assimetrias a viver nas nossas assimetrias e seremos ajuizados nas nossas condições, eu seguro na minha verdade e tu segura na tua mentira.

Não estarei alegre na tua tristeza como tu estarás triste na minha alegria.

Intervalo, "half time"  

Posted by Mag in

Saí para a noite quente, que se me colava à pele numa carícia indesejada.
Saí trôpega de palavras caladas, de beijos forçados, de intimidades que não me eram íntimas à alma, mas cavalgavam apenas este corpo que me calhou em sorte.
Saí para a calma insegurança do escuro, deixando para trás dos ombros aquele que era suposto ser, aos olhos do mundo, o meu Mar de segurança, mas onde sentia apenas navegar às cegas, protegendo-me dos rochedos mais escarpados.
Saí respirando em golfadas o ar que não me era permitido lá dentro, saí largando aos borbotões as lágrimas que enrolava na barriga quando fingia ser mãe, e mulher, fêmea completa.
Saí sabendo que o clube de leitura seria apenas um bálsamo momentâneo, um penso demasiado curto para a ferida que ameaçava expôr-se a qualquer instante, um intervalo no ritmo diário, e que em breve estaria de volta ao ninho para aquela que era a vida que, apesar de tudo, continuava a escolher.
Porque o sorriso dos meus filhos me alimentava (parte) do coração, enquanto o resto era uma dor fininha que se enrolava nas veias.
Sequei as lágrimas, suspirei e encaminhei-me para a livraria. 

Delírio  

Posted by Jane Doe in

Preciso sofrer, perdão, escrever criativamente. Perdão, preciso sofrer para escrever e chegar lá. Preciso saber onde quero chegar, perdão, preciso saber como escrever. Preciso loucura, perdão, não, eu preciso loucura. Preciso sofrer, perdão, não, eu preciso sofrer. Preciso dos demónios, perdão, nao, eu preciso dos demónios. Preciso sair, perdão. Preciso sair. Preciso rebentar, perdão. Preciso rebentar. Preciso energia, perdão preciso energia.

Preciso parar, perdão. Preciso parar de pedir perdão.

A culpa não foi minha.

Sentidos  

Posted by mf in


leve toque

leve afago

a alma flutua livre

na tua suave mão

terno sopro

terno beijo

a boca prende faminta

de pluma o coração

doce farejo

doce perfume

buscado em reentrâncias

indiscreto e pagão

suave gemido

suave murmúrio

que lascivo se ouve

em eterno carrilhão

travesso olhar

travesso sorriso

que abrasa os sentidos

em perfeita comunhão



Amor feito num 8  

Posted by Bruno Fehr in

Quando olhas para mim, o que vês? Vês quem eu sou, ou quem aparento ser? Vês quem eu quero ser, ou quem tu queres que eu seja?
Quando olhas para mim, o que sentes? Sentes o que dizes sentir, ou dizes sentir o que pensas que sentes?

Eu vejo os teus olhos a brilhar na minha direcção. Os meus estão camuflados pela escuridão dos bastidores atrás dos focos de luz que iluminam toda a tua beleza. Flash, flash, flash e mais flash, enquanto te moves e olhas para mim.

Tu és livre e por seres livre  não te posso prender aqui a meu lado e dar-te o meu amor. Tu queres viajar, ver o mundo, lutar por aquilo que acreditas e acreditas que o nosso amor estará sempre em stand by. Não! Isso não é possível.

Envias-me postais dos sítios em que não estou contigo. Escreves-me cartas que não leio. Envias mensagens a que não respondo, telefonemas que não atendo. Bates à minha porta e não abro. Não te posso receber só para te dizer adeus novamente. Não consigo abraçar-te por um segundo sabendo da eternidade de saudade que umas semanas de distancia me parecem ser.

Onde estiveres eu estou contigo. O portefólio que te levou onde estás e te levará onde irás é parte de mim, és tu sob o meu ponto de vista filtrado por uma lente. O meu portefólio és tu, não todo, mas a melhor parte. A beleza e o impacto destas fotos sobre terceiros é algo que só agora consigo explicar. Não é das maquinas, nem das lentes. Não é do cenário nem da iluminação. Não é da modelo nem do fotógrafo. A magia é do sentimento, do sexo implícito de uma sessão.

Como pode uma pessoa passar a vida inteira em busca do amor enquanto outra o encontra com facilidade, e vira-lhe as costas? Parece não fazer sentido, no entanto, fugir a um amor que não se compreende é mais comum do que simplesmente nos deixarmos amar e ser amados.

8 segundos perdido num olhar
8 minutos para me apaixonar
8 horas de quente paixão
8 dias de profunda ilusão
8 semanas para acordar
8 meses para me afastar
8 anos de azar e de sorte
8 décadas até à morte

Carta de adeus  

Posted by Mag in

“Meu amor:

Acho que o meu coração perdeu o direito de te chamar assim. Meu nunca foste (ninguém é de ninguém), e amor não posso mais albergar neste meu peito, porque não se pode amar eternamente quem não nos ama.

Sei que vais gritar aos quatro ventos o tanto que me amavas, proclamar a tua inocência, a tua virtude para quem te quiser ouvir… e não tenho dúvidas de que terás uma audiência plena, cheia daquela gente que te adula os sentidos, de quem tanto precisas e que tanto desprezei. Serão os chacais que te ajudarão a despedaçar os pedaços da minha memória… por isso desejo que se deleitem, muito. Que a minha alma, essa, está a salvo dos ataques dos seus dentes famintos, e das tuas palavras acres.

Não consigo, não consigo caminhar mais a teu lado. Porque não caminho direita, e sim encurvada com o peso daquilo que querias, e que não sou. Não concebo como amor o que me devotas (ou devotavas, já nem sei), quando não me faz brilhar o olhar sentindo-me especial, quando não me faz aquecer o peito sabendo-me única.

As tuas críticas constantes, incompreensões repetidas e esse teu jeito de viver no pódio são simplesmente demais para alguém que só pretende o seu canto para descansar e se sentir em casa. E não, bolas, não basta dizer-se que se ama que o Mundo avança, não, porque o Amor é muito mais do que aquilo que vale para ti, o Amor é ter a capacidade de mostrar ao Outro o quão especial é. E, para ti, sempre fui alguém que muito tem a provar e muito tem a mudar. Se existisse uma lei que, para além dos maus tratos físicos e verbais, proibisse os maus tratos à alma eu estaria a aplicá-la na sua mais perfeita essência... porque até agora o meu ego apenas se alimentou à custa do tão pequena que fui, a teus olhos. E basta!

Vou-te deixar. E vou ao mesmo tempo deixar aquilo em que, durante algum tempo, acreditei.

Peço-te que me deixes ir. Apenas isso."

Agora e na hora da nossa morte  

Posted by LBJ in


…Em nome do pai… não me lembro das palavras certas, nunca as quis aprender. Os homens nos momentos de aflição sempre se viraram para Deus e eu que sempre disse que este se alimentava de dor e sofrimento, aqui estou também a tentar lembrar-me das palavras que já não vou aprender. Em nome do pai e do filho… Sinto-me derreter de dentro para fora e tento tocar a dor e vejo um vermelho brilhante brilhar-me na mão. Em nome do pai e do filho e de outra coisa qualquer… Vejo tudo desfocado, sinto a cabeça húmida e algo a escorrer-me pelo pescoço que não sei se é suor ou sangue ou uma mistura dos dois. Em nome do pai… Deus terá que me aceitar mesmo não sabendo as rezas, deus vai ter que me aceitar porque se é deus sabe que terá que me escutar e que eu sou chato e persistente quando quero alguma coisa e deus vai ter que me aceitar. Em nome do pai e do filho e do espírito… Sempre acreditei no espírito, terá que haver algo maior que esta carne que sinto e não sinto entalada entre ferro e plástico. Em nome do pai e do filho… Sempre achei que neste momento preciso toda a minha vida se repetiria num reviver de avanço rápido e pausas eternas , imagens claras do que passou e os cheiros, gostava de voltar a sentir o cheiro do meu pai mas nem me consigo lembrar do que acabei de almoçar. Em nome do pai e do filho e do espírito santo... Nunca fui um santo e agora que sei que a morte está a chegar e já a vejo num manto negro de face pálida a sorrir, quero que ao menos me sorria, porque gosto de sorrisos e não sei há quanto tempo me sorriram sinceramente pela última vez. Em nome do pai e do filho e do espírito santo... Foi arroz, com frango ou talvez peru, foda-se porque é que me importa agora lembrar-me que pássaro comi ao almoço? Em nome do pai que está no céu… Deve mesmo de haver um céu para onde vão os merecedores da boa vida eterna, para onde vão os que acreditaram e veneraram o dono desse céu, mas deus sabe quem eu sou e o que fiz porque é deus, mas ainda deve de ter mais que fazer do que me julgar somente por eu não saber as ladainhas e eu não sei as ladainhas porque nunca as quis aprender porque nunca gostei de quem as ensinava e não gosto de padres, uns com aquele ar escanzelado de pecadores perdoados à nascença ou os outros anafados e bonacheirões que me faziam lembrar o pai natal já bêbado da consoada. Em nome do pai e do filho e do espírito santo… Na trindade há o pai e há o filho que dizem morreu por nós pecadores no seu egoísmo piedoso e eu sempre gracejei que não se importaria de morrer fosse por quem fosse porque sabia que tinha a cunha do papá lá sentado à espera dele, mas agora não me importava de ser eu o egoísta e que voltasse a morrer por mim. Em nome do pai e do filho e do espírito santo… Já só sinto a dor, deixei de ter corpo para só ter dor e todo o meu sangue tempera a terra de rubro, dor apenas dor. Em nome do pai e do filho e do espírito santo am…

Quem és tu?  

Posted by Bruno Fehr in

Sonhei que estava contigo. Ausente de mim observava-me a observar-te. Estavas sem expressão e nos teus olhos uma interrogação.
Viraste costas e eu disse:

-Espera!

Parecias esperar por mais palavras, querias todas as palavras que não conseguia dizer e partiste. Espera era tudo o que queria dizer. Mas não te posso pedir para esperar por um tempo que poderá não vir. Esperar pelas palavras que me recuso a sentir. Esperar pelas escolhas que me recuso a fazer. Esperar por me decidir a viver. Dizer-te espera era tudo, não percebeste e ainda bem. Não te poderia prender aqui, ao meu sonho, pois isto é só um sonho do qual acordo sempre com a sensação de pesadelo.
Querer que esperes é injusto, partir contigo é impossível pois levaria-me a um futuro eternamente ausente tendo o passado sempre presente.

-Quando olhas para mim, quem vês?

Foi esta a pergunta mais difícil que me fizeste, pois não te consigo mentir e a verdade seria dolorosa. Vejo-a em ti mas sei que não és ela. Gosto do que vejo mas não sei quem tu és. Sei que és única. Mas... o amor sente-se por pessoas e as pessoas são únicas, mas como funciona ele em relação a duas únicas aparentemente iguais? Tu serias sempre tu mas parecerias-te sempre com ela, percebes?
A melhor forma de evitar responder é questionar:

-Quem és tu?

Não há questão sobre ovo ou galinha, sobre o sentido da vida, sobre gato de Schrödinger com resposta mais difícil que um simples: Quem és tu?

E tu que acabaste de ler esta divagação: Quem és tu?


(excerto de "Velho demais para ser", por Bruno Fehr)

O Privilégio do Disparate - What else?  

Posted by LBJ in


Assim que dei os primeiros passos, caí, se calhar toda a gente cai ou talvez haja no andar já uns prodígios que uma vez que comecem já nada os faz cair. Aprendi depressa a cair de cu porque doía menos, embora custasse mais a levantar depois, havia toda uma manobra a realizar que para alguém com pouca experiência como eu era complicada além de que o cu me pesava, sobretudo depois de algum tempo sem manutenção e eu sempre fui algo cagão, então tinha que me inclinar para a frente, pôr uma mão no chão, o que comigo funcionava sempre com a direita e depois lá levantava o rabo até me conseguir ter direito e caminhar até voltar a cair, de cu, que eu aprendo depressa.

Ora eu e se calhar toda a gente, escolhe logo desde os primeiros passos uma situação de conforto em detrimento de mais facilmente andar para a frente ou se calhar não, as pessoas de sucesso que até podem ser felizes, sempre que caem, caem de forma a rapidamente se levantar e pouco importa os joelhos esfolados ou o sangue no nariz porque até lhe chamam construir e fortalecer carácter e o que não os mata fá-los mais fortes.

Somos empurrados pelo sistema que só nos quer ensinar e preparar a procurar e gostar da mudança, se estamos bem devemos estar preparados porque podemos vir a estar pior e se estamos mal devemos estar preparados porque podemos vir a estar melhor. A mudança pode ser lenta ou repentina mas é tão certa como o tempo e por muita desgraça que nos traga deve ser encarada como uma bênção porque nos dá uma oportunidade de melhorar. Por isso se criaram os incentivos que tanto podem ser os ecrãs de dois metros e meio para o qual todos gostavam de ter parede ou um lugar no céu sentado à esquerda de alguém famoso.

Tenho que saber lidar com a mudança para ser feliz mas como se define a felicidade? Que direito tem alguém de definir a forma do outro ser feliz? E se eu não quiser ser feliz e se este ou o outro for um estado que me faz sentir qualquer coisa que eu não quero catalogar ou que me expliquem o que é? Perdemos a forma de saber cair de cu no chão com o passar dos anos e não sei se isso tem a ver com a procura da felicidade ou do graal que nos tentam impingir ou se é algo evolutivo como a mudança dos dentes ou os cabelos começarem a ficar brancos. A mim nunca me nasceram os dentes do siso, acho piada gabar-me disso, podes dizer que andas com uma gaja muita boa e que tens um carro com mais cavalos que os índios e um barco que já só te cabe dentro de água, mas a mim nunca me nasceram os dentes do siso e diz-me lá se não tenho razão em ser mais feliz que tu?

Aqui há dias estava à janela do escritório e houve um senhor de branco que passou e me acenou, parece que distribuía felicidade a quem a procurava e eu que de repente estava só à janela a ver os carros passarem, fiquei sem saber o que fazer, como naquelas situações em que se vai na rua e se acha algo de valioso e ficamos com os dois bichinhos o do halo e o dos corninhos um de cada lado do ombro a soprar conselhos. Eu não procurei aquela felicidade e não queria enganar o senhor de branco que faz tanto para parecer e ser boa pessoa e não sabia mesmo se devia tentar arranjar uma forma prática de a devolver ou se a devia guardar e assumi-la como um capricho da sorte ou um sinal da trindade que eu era abençoado, talvez por não me terem nascido os dentes do siso ou compensação por já não conseguir cair de cu, quem poderá saber os desígnios do senhor de branco ou de outros transitários de felicidade.

O encontro  

Posted by Mag in

Olhas-me.
Lês-me o desejo no corpo nervoso, a saudade no olhar que simula ausência.
Ensaias palavras breves, perguntas certeiras, para te acalmar o pulso que corre.
Mentiste-me, pensei, quiseste convencer-te que já não me amavas e agora que a presença te cobra a mentira não sabes como me fugir, como te iludir.
Mas conheço-te, e sei que basta tocar-te a pele para sentir a queimadura aguilhoada da fome de mim camuflada à superfície, louca para soltar os beijos com que me queres sorver.
Por isso encosto o corpo à chapa quente do carro, languidamente, e envio-te sinais imperceptíveis de desejo, daqueles que só nós dois conhecemos.

E por isso perdes a tua pose desprendida e os teus braços puxam os meus para trás, e a tua língua brinca já no meu pescoço, e todo tu és meu de novo, como tem de ser.

Experimental.  

Posted by Jane Doe in

A

não amar. demasiado óbvio. adeus. alegria. é banal. angústia. é por aqui, se faz favor. aconchegar. pela última vez. abraçar. sentir o cheiro. adormecer. para sonhar com o dia. acordar. para voltar a dormir. sono eterno.

B

que merda é esta?! baixar defesas. conhecer o canto. beber. tenho sede de não estar aqui. barulho. demais. calem-se por favor. aBatimento. eu não consigo mais.

A

outra vez. não ser amado. dolorosamente banal. chorAr. baixinho .alterar. rotina. acordar. não querer. adormecer. sono eterno. again.

N

nada. vazio. lembrança. nenhuma. eco.

D

o pior. dor. todos os dias. dor de ausência. dor de saudades. dor dos gritos alheios. sofrimento. dor. dor como agulhas na carne.

O

oportunidade. escapar. aventura. medo. odores. meus. alheios. iguais.

N

o mesmo. igual. nada. nada. nada. nada. vazio. eco. não gravidade no ser. eco. vazio. nada. nada. nada.

A

amor. não acredito. amor. não sinto. anestesia. morrer. por dentro. finalmente. abandono.

R

recuar. não nascer. não sentir. não sofrer.

[desculpa...]

Prelúdio  

Posted by mf in

Geme o raio de sol
que invade pelas frestas nuas
meu corpo ausente de mim.

Geme o silêncio
entrecortado por chilreios
que me debicam a alvorada.

Geme o ninho
sedoso no restolhar macio
tranquilo da minha pele.

Geme tua mão
pela suavidade sinuosa
das minhas colinas.

Geme teu olhar
enquanto me desvenda
faminto sedento de mim.

Geme teu respirar
aragem fresca da manhã
no meu ventre quente.

Geme tua boca
que me aguarda o acordar
para o início do fim.

Ao longe no mar  

Posted by Bruno Fehr in


De pés na areia observo o mar. Uma visão da qual abdiquei por tudo o que vivi e por nada do queria viver. Voltei para o ver, para o sentir e para nele me fundir, pois por mais que me afaste ele está sempre em mim. Nele nasci, com ele cresci e era ele que lavava as minhas lágrimas, era ele que abraçava a minha alegria e não só nele surfava mas nele vivia.


Pego na prancha e entro, remo para além da rebentação para aquele local único de calma que me invade e me preenche, que sempre me fez sentir livre e me ajudou a descobrir quem sou. O local onde nada se ouve a não ser o seu rugir, as pessoas ao longe, pequeninas, não me podem atingir. 
Foi aqui, neste mundo à parte que decidi quem sou e o caminho para aqui chegar. Voltei pela mesma razão, para descobrir um pouco mais de mim e decidir o caminho a seguir nesta nova encruzilhada, não sinalizada e tão confusa.

Espero a onda certa, aquela que parece ter o meu nome e todas as respostas que procuro, e remo, remo com todas as minhas forças como se a minha vida dependesse disso. Ao apanhar a onda coloco-me de pé e por um segundo sou dono do mundo. Mas um pé desastrado, esquecido de tudo o que aprendeu, atraiçoa-me. Caio desamparado, volto à superfície para ser novamente submergido por onda após onda que se quebram violentamente sobre o local onde estou.

Luto por ar e recebo água em troca, e foi aqui que te vi bem à minha frente vestida de negro e sorrindo para mim. Sorri de volta, estico o braço para que a minha mão tocasse a tua e por ti esqueço tudo e sinto que consigo aqui ficar a olhar-te para sempre... Mas tudo acabou nada vejo nesta escuridão, nada sinto a não ser o meu corpo a ondular ao sabor da corrente e deixo que me leve.

Acordo na praia. O sol está escondido por um intenso nevoeiro. A minha prancha descansa a meu lado. O mar está parado. Nem uma onda. Sonhei? Julgo que sim pois estou completamente seco.
Pego na prancha e parto, voltando-me para um último olhar, e ao longe sobre as águas vejo-te, agora de branco, a sorrir dizendo-me Adeus.