O armário  

Posted by Maya Gaarder

Era um armário antigo. Pesado, feito de cedro rosa, enviado do Brasil há muitos anos pelo bisavô como presente de casamento da filha mais nova.A avô conservava-o com esmero, a única recordação do pai que emigrara para o Brasil quando ela era ainda um bébé de colo e nunca mais voltara.
Ficava no quarto das traseiras, perdera o lugar de destaque no quarto da avó em favor de móveis mais modernos e funcionais.
Mais de meio século depois, no interior ainda se sentia o cheiro adocicado e levemente acre do cedro. Deu-se conta disso numa tarde em que brincava às escondidas com os primos. O armário, habitualmente fechado à chave, sabia-o porque já tinha tentado abri-lo noutras ocasiões, tinha as portas abertas naquele dia, certamente para arejar as roupas que a avó guardava ali.
Tirou os sapatos e entrou, já bastava a eventualidade de ser apanhada ali pela avó, se para cúmulo ela a encontrasse com os sapatos calçados, bem…. Nem queria pensar! Encostou as portas sem as fechar completamente e deixou-se ficar ali, imersa na semi-obscuridade e em todos os odores que a rodeavam.
Entreteve-se a identificar os cheiros, o mais forte e pungente, naftalina claro… toda a casa estava impregnada pelo cheiro. Ficava sempre com a sensação, de cada vez que lá ia, que o cheiro a naftalina se lhe colava à pele e demorava vários dias e imensos banhos até se sentir livre do odor. A mãe dizia que tinha tudo a ver com o processo olfactivo, um cheiro assim tão intenso deixava uma marca fortíssima no hipotálamo, o que nos dava a sensação de continuar a sentir determinado cheiro muito tempo depois de este já se ter dissipado.
No entanto, apesar da presença fortíssima desse cheiro, conseguia sentir outros: lavanda, rosmaninho, hortelã, alecrim, canela. Identificava-os facilmente, tinha passado as férias da Páscoa em casa da avó, e entreteve-se durante as tardes a colher as plantas do jardim, supervisionada pela avó, que lhe ia dizendo o nome de cada uma. Para depois fazerem raminhos que secavam ao sol e usavam para perfumar as gavetas e arcas onde a avó guardava cuidadosamente aquilo que chamava as suas limpezas. Peças de linho imaculadamente brancas e ricamente bordadas que estavam já destinadas a fazerem parte dos enxovais dos netos.
Misturado com todos os outros cheiros e de tal forma indelével que se não estivesse absolutamente concentrada não o teria sentido, um outro cheiro, que não conseguiu identificar mas que associou ao cheiro do cachimbo do pai.
Tabaco, aqui? Estranho…..
Começou a remover cuidadosamente as peças de linho, tentando encontrar a fonte do odor. Os dedos tocaram em algo que lhe pareceu uma caixa de madeira. Pegou-lhe e colocou-a perto da porta por onde entrava uma réstia de luz. Estava curiosa, o cheiro vinha sem dúvida dali, e era agora mais forte. O que levaria a avó a esconder uma caixa de tabaco no meio das roupas, num armário habitualmente fechado à chave. A ideia da avó a fumar um cachimbo às escondidas, provocou-lhe um ataque de riso que tratou de sufocar com ambas as mãos, para que não se denunciasse.
A caixa felizmente não estava fechada à chave, e se em alguma altura serviu para guardar tabaco, não era esse o seu conteúdo agora. Cartas, várias, num papel fino, com a escrita já bastante desbotada mas ainda perceptível.
Curiosa como era, nem tentou resistir e começou a ler uma delas, estava datada de 1917, e começava com um “Meu Amor”. Supôs imediatamente que fossem cartas do avô para a avó, e achou extremamente romântico. Mas pensando melhor, isso não fazia sentido, desde que se conheceram, os dois nunca estiveram separados um único dia, até ao dia em que Deus o levou, como dizia a avó com ternura e sempre com as lágrimas nos olhos. Para além disso, tanto quanto sabia, o avô nunca aprendera a escrever, sendo o filho mais velho e tendo começado a trabalhar logo que tinha força suficiente para segurar uma enxada, nunca houve tempo para a escola. De quem seriam as cartas? E para quem?
A voz da prima que a chamava sobressaltou-a, já tinham desistido do jogo e esperavam-na para lanchar. Apressou-se a pôr as cartas de volta na caixa e fez os possíveis para colocar a caixa exactamente no mesmo lugar. Saiu do armário contrariada e prometeu a si mesma abordar o assunto com a avó mal tivesse oportunidade.

This entry was posted on sábado, outubro 23 at sábado, outubro 23, 2010 . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

7 Devaneios

klaus  

quero mais!!!
=) bom bom bom!

25 de outubro de 2010 às 12:58

Um bom começo neste blogue. Bem-vinda.

26 de outubro de 2010 às 01:41

Adorei a história! Gostava de ler mais, que a curiosidade ficou acesa :D

Bem vinda!

26 de outubro de 2010 às 11:35

Obrigada :)
é bom estar aqui ;)

27 de outubro de 2010 às 12:01

Antes de mais Bem vinda... Voltarei com mais tempo para vasculhar o teu armário...

27 de outubro de 2010 às 13:06

Maya Gardeer:

BEM-VINDA!!!
E desculpa o atraso em cumprimentar-te!

Quanto ao texto, bem...
O meu primeiro pensamento era que ia encontrar algo escandaloso, estilo ossadas...lol

Mas as cartas... De quem seriam?...
E se fosse eu, não iria perguntar à avó enquanto não as lesse! :D

Beijitos :)

10 de novembro de 2010 às 00:29

LBJ
Obrigada! Vou abrir as portas do armario aos poucos, e é claro que podes vasculhar :)
Fada
Obrigada também!
Quanto às ossadas, o verdadeiro esqueleto no armario não é? Nada de tenebroso neste armario, pelo menos para ja!!
Pois... de que seriam as cartas, e para quem? Se ela as vai ler... talvez :)

11 de novembro de 2010 às 12:29

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