O canto da floresta  

Posted by Unknown in

Estou sozinha neste campo, à minha volta devastação. Não nasci para estar sozinha, fui entregue à solidão. Minhas irmãs foram levadas, para longe de mim. Eu fui aqui deixada, e não me quero sentir assim. Não percebo por que o fazem, porque matam sem razão. Não entendo como não ouvem, os meus gritos quando grito: Não!
Eu sou árvore mas sou vida, não um pedaço de madeira. Não nasci para estar sozinha. Sozinha a vida inteira. Quando o vento sopra forte, eu começo a dançar. Não, eu não sou feliz, será que ouves o meu chorar?

Eu nasci na floresta, não fui para aqui fui trazida. O que será que fiz de mal, para me sentir tão perdida. Sim, eu sei que não fui mudada, fui simplesmente esquecida. A minha família assassinada, a minha raiz ferida.
Numa noite de luar, cantei uma ode ao vento. Pedi-lhe para me derrubar, acabar com meu sofrimento. Ele chorou em meus ramos, dizendo não o poder fazer. Será que o Homem não percebe, que ao cortar-nos está a morrer? Estou sozinha neste mundo, sem ninguém no horizonte. Invento histórias sem sentido, por não ter quem me as conte.

O ser humano é inteligente, detém todo o poder. Sabe melhor que ninguém, o que é amar, o que é sofrer.
Eu sei que eles também choram, quando o seu mundo parece terminar. Não sei por que ignoram, que ao cortar-nos estão a matar. Eu sei bem que de mim precisam e não me importo de ajudar, mas eu olho à minha volta e não vejo nada para o meu lugar.
Se eu fosse substituída, por uma outra como eu, sentir-me-ia agradecida por me tornar um luxo teu. Mas este campo outrora verde, cheio de cor vivida, é onde o Homem vai morrer, por não respeitar a vida.

Cadáver Esquisito VI  

Posted by ipsis verbis in

O próximo texto é o sexto da rubrica "Cadáver Esquisito". Desta vez só houve 2 partes. Eu escrevi a primeira, passando apenas a última palavra do meu texto ao Bruno Fehr a qual ele usou para começar a escrever a sua parte.
(Como ambos usámos essa palavra, a mesma aparecerá no texto apenas uma vez)

Bruno Fehr - verde garrafa
Ipsis Verbis - vermelho vinho
Palavra passada entre nós - "Frio"

Semi-frio  

Posted by ipsis verbis in

Estava uma manhã solarenga e havia já movimento na rua principal. Seriam umas 8h...
Acordar sem relógio ou telemóvel por perto obriga-nos a observar outras coisas primeiro e eu observei tudo, enquanto fumava o primeiro cigarro à varanda.
O calor que já se sentia e fizera desabrochar as peles que agora se mostravam coloridas pelas marcas de outras roupas. Os sons de diferentes línguas e o cheiro de vários perfumes... a calma e a paz... isto tudo inundava-me de prazer e eu não pensava em sair daquele sítio tão depressa. Estou de férias. Sozinho e, para já, não preciso de mais nada, a não ser o meu portátil e o meu tabaco.
O primeiro café do dia, surgiu por volta das 10h da manhã, numa esplanada cheia de pombos e gentes. Bebi-o como quem bebe um copo de vinho... e demorei-me nele até ficar
Frio.
Gelado é como me sinto. Não sei por que estou assim, tremo por todos os lados. Estou só. Caminhando na neve sozinho no mundo. Este mundo é branco, lindo mas gelado e eu congelado sem forças para lutar. Combato-me tentando escapar, quero ser livre sair desta prisão, mas sem sucesso. Sinto que estou algures no tempo ou quem sabe numa vida passada. Choro, grito mas ninguém me responde, ninguém me ouve, ninguém quer saber. Tenho medo. Já vivi esta vida não sei dizer bem quando, mas há muito, muito tempo já aqui estive, neste local, sentido o mesmo... frio. Luto novamente, revivo a dor.
Se conseguisse falar não saberia o que dizer. Se conseguisse mexer as pernas eu fugiria, mas se conseguisse mexer os braços tomaria a minha vida, só para não tomar a tua.
Por favor ajuda-me a sair daqui, está frio deixa-me entrar, abre-me a porta, ajuda-me a acordar.



Fim

...  

Posted by mf in

Minha
a cruz
de te ter
preso
em meu
coração
eterna
tormenta
mar chão
onde me deito, onde sossego, onde me deleito e me entrego, oceano perfeito onde navego.
Da dormência, do desencanto brota clarividência e espanto, pela efervescência que decanto,
pelo renascimento, renovação, reacendimento, ressurreição, abrasamento em tua compleição
sedutora
senhora
que me
conquista.
E tudo é
respiração
ternura
roçagar
procura
um botão
pundonor
pesquisa
e rubor
contacto
encarar
acicate
arquejar
gemido
ardência
sussurro
cedência
rompante
e clarão
desvario
paixão
tremura
abraço
placidez
cansaço
lábios
sudação
frescura
lassidão
âncora
cravada
perpétua
e amada.

Levada...  

Posted by Jane Doe in

Fecho a porta. Com estrondo. Porque me apetece. E sei que não vem atrás para dizer "Não vás!". Até porque desta vez nem sabe onde vou. Nem eu. Mas, para o caso de não voltar, fecho a porta com estrondo. Para que nunca se esqueça de mim.

Está a chover. E eu não sei por onde vou. Sei que estou a ir. Como se alguém puxasse os cordelinhos das minhas pernas e as fizesse mover ao som da sua vontade. Eu deixo. Quero ser levada. Não quero ir, se não ser levada. A chuva está a começar a empapar-me a roupa, mas isso deixa-me indiferente. Quem sabe devesse ir tirando a roupa pedaço a pedaço. Porque empapada, torna-se apenas uma extensão da chuva. Nada mais.

E as peças de roupa vão voando para os lados, como se obedecessem assim, prontamente a apenas um pensamento. E eu vou continuando a ser levada. Sem norte, sem sul, sem direcção. As pernas continuam a andar, sempre movidas por alguma força alheia. E eu vou sendo levada sem saber onde nem porque. Parece que já andei horas. Não estou cansada, não tenho fome, nem frio. E tudo parece acontecer à velocidade do meu pensamento. Mas por agora a única coisa que pensei, foi mesmo que a roupa já não fazia sentido, empapada. E a roupa desapareceu.

Penso no mar, e ali está o mar. Calmo tal e qual como eu pensei nele. E continuo a andar com o mar à minha volta. E tudo à minha volta é mar. Estranhamente mar. Já não há terra, já não há pessoas, apenas o mar e uns quantos sóis. Porque eu pensei no por do sol. Pensei no princepezinho, que gostava muito do por do sol. E que via muitos. E ali estão sóis a porem-se para mim. A pintar o mar com as cores douradas de um fim de tarde de verão. E Arco-íris porque a chuva não deixa de cair.

Continuo a andar. Continuo a ser levada. Sinto as ervas roçarem nas minhas pernas, mas mal sinto os meus pés no chão. Sinto a brisa do vasto campo de flores silvestres, o aroma do amanhecer. E continuo a caminhar. Sem frio, sem fome, sem cansaço. Sem norte, sem sul, sem direcção.

Estou ao teu lado, parada, sentada. Continuo a ser levada. Sinto o teu olhar, e sinto uma paz que é impossível vir de ti. E sinto o meu pensamento, logo a minha voz perguntar...

Porquê?

E vejo-te de pistola na mão, a olhar para o meu corpo sangrento, sem qualquer expressão.

E o Vazio da noite toma conta de mim.

Capitulo II  

Posted by John Doe in

Jorge estava sentado à secretária a comer uma maçã. A secretária impecavelmente arrumada, com os papéis todos no cesto dividido por categorias. Apesar de ser alvo de chacota por todos os colegas de brigada, não dispensava a gravata, uma diferente todos os dias, numa camisa impecavelmente passada e bem vincada, sempre fazendo conjunto com o fato cinza, igualmente bem vincado. Os sapatos andavam sempre a brilhar e até a correia de couro que segurava a arma ao peito brilhava, com os cuidados que ele lhe prestava. Era metódico e contrastante com o resto do pessoal, com mais gosto pelos jeans e pelas t-shirts ou polos coloridos. Ele destacava-se pelo que vestia e pelo que era. Todas as investigações eram levadas por critérios firmes, sempre seguindo as regras. A sua taxa de sucesso de resolução dos casos era prova que tinha um bom método. Apesar de saber que alguns colegas davam uns "amigáveis" safanões aos suspeitos de ilícitos, "para acordar os que estão a dormir" na palavra deles, ele não conseguia fazer uso dessas metodologias. Preferia vencer pelo cansaço. Era conhecida a sua maratona de 4 horas em que, numa sala de entrevista, tinha feito exactamente a mesma pergunta a um suspeito durante o tempo todo. Apenas uma pergunta, nada mais que isso.
Quando escolheu a Polícia Judiciária foi para as brigadas dos crimes económicos. Após meio ano ali, decidiu que não era bem aquela função que tinha sonhado dentro da polícia. Estudou e candidatou-se a uma vaga nos Crimes Violentos. Tenaz como sempre, conseguiu a transferência. Há 6 anos que estava na brigada e com bons resultados. Apreciado pelas chefias, eram-lhe entregues os casos mais delicados. A sua equipa era constituída por mais dois agentes que, devido às horas que passavam juntos, eram considerados quase da família. Sendo alvo de riso por parte deles, não deixava de tolerar por saber que não era mais que uma forma de se rirem um pouco no meio dos crimes que investigavam. Ao fim e ao cabo, as vezes até ele se ria de si próprio. Sabia aceitar uma crítica, embora não gostasse de ser alvo delas.
Embrulhou o resto da maçã num guardanapo de papel e lançou para o cesto do lixo. Levantou-se, dirigiu-se à casa de banho no corredor para lavar as mãos. Enquanto ali, olhou pela janela minúscula e viu a chuva miudinha a bater na vidraça. Limpou as mãos às toalhas de papel e olhou-se no espelho. Ajeitou o cabelo, o nó da gravata impecavelmente feito e saiu. Ao chegar de novo à secretária o telefone tocou. Sentou-se cuidadosamente, puxando um pouco das calças para não vincarem e atendeu o telefone.

- Jorge, vem ao meu gabinete.
- Já estou a ir Dr. - desligando de seguida.

Apanhou o casaco do bengaleiro à porta e saiu. Um telefonema do chefe queria dizer trabalho e do sério. Normalmente os processos chegavam à sua mão pelas chefias intermédias, mas quando o Inspector Chefe o chamava directamente era sarilho dos complicados. Subiu os lances das escadas em passo acelerado e correu o corredor até à porta da chefia. A secretária olhou para ele e sorriu.

- O Inspector Chefe espera-me.

Ela pegou no telefone e marcou a extensão devida.

- O inspector Rodrigues está aqui.

Depois da resposta desligou o telefone e encarou-o

- Pode entrar inspector.

Ele abriu a porta e entrou. A sala era três vezes maior que as salas das brigadas, alcatifada em vez dos tacos de madeira e decorada, ao contrário das paredes nuas das outras. Por trás da secretária, na parede, uma fotografia do Presidente da Republica de ar grave. O Inspector Chefe era um sujeito magro, com fama de duro, que tinha subido dentro da polícia por mérito próprio. Era estimado pelos restantes porque sabiam que era justo e nas alturas das promoções não se esquecia de quem verdadeiramente merecia. Era um homem astuto, sabia ler as pessoas e não era raro os comentários que para o chefe saber tudo bastava olhar para as pessoas. Jorge sabia que não era assim, mas quase.

- Senta-te Jorge.

Ele puxou uma cadeira que estava junto à secretária e sentou-se. Era bem mais confortável que a cadeira em que habitualmente se sentava à sua secretária.

- Temos caso? - perguntou, recostando-se muito direito para não enrugar o casaco.

- Temos e dos grandes.

O Inspector Chefe pegou numa pasta que estava à sua frente e passou-lha para as mãos. Era uma pasta grossa, cheia de documentos e fotografias. Jorge abriu-a. Os olhos abriram-se ao máximo enquanto folheava as fotografias do processo. Já tinha visto muita coisa, mais do que o comum dos homens alguma vez veria em toda a sua vida, mas nunca tinha visto algo assim. Depois de percorrer os olhos por todo o processo, contou pelo menos 5 vítimas de uma selvajaria descomunal. Fechou a pasta e olhou para o Inspector Chefe.