Uma noite com Caetano  

Posted by A Mor..

Caetano chegou sem cumprimentar. Foi direto pra cozinha, o jantar era servido ate as 19h30. Se alimentou, e assumiu seu posto, lugar onde ficaria ate as próximas 5 horas. Em pé, na portaria, observou o céu que escurecia rapidamente e comentou:

- Tomara que não chova.

Foram então suas primeiras palavras, depois do aceno com a cabeça.  Caetano trabalhava como segurança  em um pequeno restaurante burguês no centro da cidade. Não demorou muito e os primeiros pingos de chuva começaram a cair naquele inicio de noite, que marcava o primeiro dia de trabalho como recepcionista da menina branca.

Caetano ajeitou o paletó, e tirou de um canto um enorme guarda-chuvas. A chuva caia sobre a grama calmamente lavando as rosas que pareciam tristes naquele dia de finados. O movimento no restaurante era calmo, entretanto sempre saindo e chegando pessoas. Logo, os serviços de Caetano eram  necessários, um casal se aproximava. Com seu guarda-chuva Caetano os protegia dos pingos que caiam do céu.

Caetano olhou pro céu com uma certa tristeza, enquanto assoava seu nariz resfriado resmungava do trabalho noturno em dias chuvosos.

Mal sabia ele que uma tempestade viria, e que ele, na chuva, receberia vários clientes.
Tantas idas e vindas, levando e trazendo clientes, deixaram Caetano encharcado, em seu rosto percebia sua fúria contida. Caetano se encostou na parede, em pé, tirou um dos sapatos e apertou sua meia completamente molhada. Olhou pra menina branca, e disse:

- Queria tanto que um trabalho só, fosse suficiente pra cuidar de minha família. 

Rosa-prisão, rosa-loucura  

Posted by Mag in

Descalça, ela corria o mais que podia no relvado molhado da chuva, as gotas fustigando a bata branca enorme que o vento colava às suas pernas, a urgência correndo no sangue, segundos preciosos que se esgotavam de cada vez que tropeçava e caía desamparada no escuro da noite, os ramos ferindo-lhe os braços nús.

Atrás dela, num susto, começaram a soar as sirenes de aviso. Alguém fugira.
Imaginava a confusão que comaçava a entrar no estreito viver do hospício, em que tudo tinha o seu devido tempo, como um relógio demasiadamente bem oleado e afinado ao segundo.
O reboliço das enferneiras revirando quartos, enfermarias e salas de detenção, procurando o rato que fugira da ratoeira.
As caras daquelas que o Mundo dizia loucas encostadas às barras das janelas, umas enviando secretas preces de apoio a quem se atrevera a rasgar o véu da inconsciência regada a medicação e outras agoniando a raiva de não terem igual coragem.

Claro que para se escapar tivera de vender o corpo ao enfermeiro responsável pelo trancar de portas à noite. Fechara os olhos e fechara-se no seu âmago, tentando não sentir as suas carícias apressadas e a posse rápida e brutal. Havia um preço (alto) a pagar, e ela pagara-o. Vomitando em seguida o seu pecado.

Agora a chuva abençoada limpava-lhe o corpo de fluidos e náuseas, amparando-lhe a dor.

Mais uns passos e estava junto do muro onde combinara com Roberto, que devia atirar-lhe uma corda para se içar.

Os cães cheiravam-lhe o rasto e sentia a sua proximidade como um arrepio na nuca, mas não podia dar-se ao luxo de parar e olhar para trás. Por vezes, a ignorância é uma bênção.

O muro.
E nada de corda.

Roberto!, gritou.
O silêncio da resposta ensurdecia-a.

Tremendo, encostou-se ao muro e deixou-se cair de joelhos.
Tudo isto para nada. Prostituíra-se para nada. O desespero consumia-a.

E eles vinham aí, os cães, o rosa do uniforme das enfermeiras destacando-se na luz da lua. Rosa-enjôo, rosa-prisão, rosa-loucura.

Um mocho uivou e voou para longe.
Uma corda caiu-lhe sobre os cabelos revoltos, e o coração começou de novo a latir.
Subiu vertiginosamente, com forças que desconhecia ainda possuir.

Do outro lado, Roberto amparou-lhe a queda no seu colo.
Retiraram a corda e, de mão dada, sorrindo, fugiram para o Mini que os esperava.

De que se faz o amor?  

Posted by Mag in

Como sei, perguntas-me tu?

São os teus olhos que falam comigo e me contam de Mundos partilhados, de viagens fantásticas, de vidas trazidas, em memórias, ao presente, que me acariciam a pele sem me tocar.
São as tuas palavras embalando-me a alma, cantando-me trovas sem o saberes, nutrindo-me o coração, afagando-me o corpo, calando-me, aos poucos, o medo.
É o cheiro da tua pele na minha, um chegar a casa com o corpo cansado e a precisar de mimos, um aroma a pertença, a partilha, a doçura.
É o teu abraço forte que me protege e ampara, o ninho que crias para que nele me aconchegue e ressurja, equilibrada e forte.
É o beijo da tua boca vermelha na minha, promessa de brisa que sossega a tempestade revolta do mar, que acalma o chocalhar disperso das pulseiras de cigana que me adornam os braços, que me faz querer ficar ali, suspensa no tempo, no espaço, sem peso, sem saber, sem pensar.
São os segredos partilhados, as cumplicidades tão reconhecidas, o ser um e ser dois e crescer mais e querer mais, as descobertas de todos os dias, o sabor a mar nos lábios, e a terra para fincar os pés, e o fogo no peito, e o ar para espraiar as asas.
Como sei?
Não sei.
Mas quando penso em ti, recordo-me de tudo isto.

Um bilhete, que não foi entregue.  

Posted by A Mor..

Um dia, no passado, eu disse que de você, eu queria devoção. Eu não brinquei quando disse isso, falei serio; mas não sei se me compreendeu. Devoção, não é nada mais que alcançar a profundidade da intimidade, vai além de total cumplicidade. Vai além, muito além.

Devoção, não se trata de culto. É afeto, é dedicação, é uma veneração especial. Falando poeticamente, “é um querer bem mais que bem querer”.

Duas coisas foram decisivas para que fossemos juntos. A primeira delas, é o seu olhar, a felicidade que ele mostrava pra mim; e a segunda, um detalhe do nosso primeiro encontro, o carinho que você dedicou a mim, naquela noite. Você nunca foi tão carinho como naquele primeiro dia. Muitas coisas já me chamavam atenção em você, mas isso, foi realmente o que selou a minha escolha, em ser Sua.

Tenho sido Sua, desde aquele dia, desde aquela noite com luar e sem estrelas. E agora, depois de 6 meses, me pego perguntando, se você tem sido Meu, se tem sido devoto a mim.

Eu tentei fincar minha bandeira, construir mais de meus labirintos, levantar meus edifícios, fundar civilizações. E, da minha maneira torta, fui desequilibrando teu ecossistema, quando tudo o que eu queria era plantar sementes, ver nascer arvores fortes e frutíferas.

Entenda, o meu descontentamento, não tem nenhuma relação com sua falta de tempo. O meu descontentamento, é pela falta de profundidade, pela falta de disposição. Em minhas veias, corre sangue quente, minha seiva é calor e é isso que me mantem viva! Por que sou calor, porque faço calor!

Tenho andado fria, me sentido morta e você não faz nada pra me aquecer.

(À Suivre - 07)  

Posted by LBJ in

Sempre me fascinaram as atracções e na altura não conseguia compreender os seus mecanismos e na realidade penso que ainda hoje não os compreendo. Hoje que já sou adulto sei que há hormonas e cheiros e nuances e padrões e curvas e linhas e outras coisas que tanta vez as razões não explicam como um brilho inesperado no cabelo num dia de Sol ou um sorriso suave de lábios fechados ou uma simples e honesta gargalhada ou a surpresa daquele encontro mas saber todas estas coisas não me traz mais compreensão nem me facilita tudo o resto.

Todos tínhamos alguma inveja do Rubinudo mas esse não era um sentimento maldoso ao ponto de lhe desejarmos que algo menos simpático acontecesse ou que um dia ele acordasse com uma borbulha vermelhona e luzidia no nariz diminuto e direitinho e arrebitado ou que o cabelo de repente deixasse de ser fino e claro para se parecer com o ninho dos hamsters do Piloto ou que os olhos que eram cinzento azulados se estragassem de alguma forma, longe disso, apenas tínhamos alguma inveja e tínhamos mais que razão e razões para isso.

Nenhum de nós conseguia perceber como é que ele fazia mas era uma coisa quase sobrenatural que podia impressionar qualquer estreante nas nossas andanças e não havia dúvida que gostava de ter aquele poder e não se abstinha de o pôr à prova e não foram nem uma nem duas nem sequer vinte ou mais vezes em que entrava na pastelaria e punha-se a olhar para as vitrinas com ar perdido de cãozinho sem dono e para os bolos em forma de passarinho encorpados em creme e mais creme ou para as tortas de chocolate recheadas e cobertas ou outra qualquer doçaria que nascera da explosão de gemas de ovo com cascatas de açúcar e nos fazia crescer água na boca pelos olhos e havia sempre, mas sempre alguém que lhe passava a mão pela cabeça e com um: “coitadinho do menino que tem fome…”, lhe comprava a guloseima. Estranhamente ou talvez não, na maior parte das vezes eram senhoras que nós achávamos que tinham idade suficiente para serem nossas mães ou até mais velhas como as nossas avós mas nós naquela idade achávamos que todos os adultos tinham idade suficiente para serem nossos pais ou até mais velhos como os nossos avós.

Afinal o Rubinudo era um miúdo porreiro e invariavelmente dividia os bolos connosco, dentada a um mordidela a outro e lambidela a todos e ninguém se enojava com isso nem com a outra questão que a alguns de nós começava a comichar porque embora já pensássemos nisso das miúdas não pensávamos muito, mas no fundo todos sabíamos que viria um dia em que o iríamos odiar. Elas eram ainda pequenos seres ruidosos de voz estridente e que gritavam por tudo e por nada e que choravam por nada e por tudo e não percebiam nada de nada de tudo o que nos interessava e não as queríamos por perto mas ele parecia que as atraía como os bolos de creme e chocolate nos atraíam a nós e entre risinhos e cotoveladas e piscadelas cúmplices bastava que alguém se distraísse e lá vinham convidá-lo para um cházinho e bolachinhas e outras brincadeiras inaceitáveis a um membro efectivo de um grupo de aventureiros como o nosso mas ele não lhes ligava muito e limitava-se a sorrir e tinha um jeito de o fazer com os olhos enquanto se afastava que as derretia em suspiros e ais e no fundo todos sabíamos que já o odiávamos um bocadinho.

(À Suivre)

Corpo de sal  

Posted by Mag in

É quando o meu corpo se fantasia de estátua de sal, neste mar onde o azul e o verde se beijam em despudoradas e translúcidas mesclas de cores, é quando sinto o frio imenso e salgado lamber-me a pele, é quando me banho nua e só neste pequeno local que é meu, é agora que mais sinto, voraz, a tua ausência.
A ausência de quem nunca comigo esteve, de quem nunca me saboreou, a quem nunca ofereci este abraço moreno e este corpo que sonha entregar-se ao teu, numa vontade que começou discreta e sensata e se transformou numa cobra que me estrangula de desejo, de cada vez que te penso.
E esta luxúria dos sentidos que me consome sem te ter liberta-se agora nas mãos doces de Iemanjá, que me afaga a tristeza e me embala devagar, levando-me para longe da areia da praia…

Os segundos da dúvida  

Posted by Mag in

Fui eu que sonhei, ou aconteceu?
As memórias escapam-se-me por entre as sinopses gastas do meu coração cansado das milhas áridas que já percorreu.
Talvez tenha sido apenas um momento fabricado com cuidado pelo meu desejo. Talvez tenha sido o meu leve querer, um misto de gosto/desgosto que por algum motivo te elegeu de entre um milhar de rostos, corpos e almas.
Ou talvez tenha sido a palpitante realidade, um universo que me abriu a porta timidamente, mostrando-me um caminho que podia ter percorrido. Mas o medo apanhou-me à traição... por isso nunca o saberei.

Uns segundos.
Foi o tempo em que o teu olhar se alambazou no meu.
O tempo em que a tua mão se estendeu ávida para a minha, enquanto me deixavas naquele cais de embarque, na despedida.
O tempo em que me estendeste um beijo destinado aos meus lábios... o beijo a que eu cobardemente fugi.

O tempo que não dá meia volta, e se perdeu.

Fui eu que sonhei, ou aconteceu?

O momento que tudo mudou  

Posted by Mag in

Furioso, atirou o capacete para o chão e começou a andar para bem longe da multidão que o olhava.
Fervia de indignação, misturada com uma irracional raiva contra si mesmo.
Pressionava-se para ser o melhor, mas no fundo continuava a criança assustada que precisava de apoio emocional.

Ela viu-o partir e, suspirando, seguiu calmamente no seu encalço.
Já o conhecia o suficiente para saber que por debaixo daquele corpo de homem adulto se silenciava uma alma sensível em busca de carinho e amor. Que nunca admitiria. E sabia que os primeiros momentos seriam de ira, pelo que convinha deixá-lo só.

Ele sentiu-a chegar muito antes de a ver. O seu corpo dava o alarme de cada vez que a sentia perto. Tinha de esconder esse sentimento crescente e responder à urgência do toque com momentos de fingida descontracção no grupo. Eram tão fugazes e deixavam-no tão insatisfeito que de noite, com a namorada nos braços, percebia-se a imaginar que era a ela quem abraçava e beijava... e se torturava em seguida, achando-se o pior de todos os homens.

Naquele momento a raiva misturava-se com o desejo forte de lhe sentir a pele, o gosto, o corpo contra o seu, e a ira parecia incendiar, a ponto de ameaçar ensandecê-lo, a loucura dos sentidos.

O seu olhar chamou-a, sem palavras.
Devagar, ela chegou ao pé dele e passou-lhe uma mão ao de leve num dos braços. Não precisava de muito para o fazer sentir que estava ali. Era o papel dela, e fazia-o com todos os membros da equipa. Claro que ele era especial... mas isso não o podia deixar saber. Não sabia mais como o esconder, na verdade, porque o sentimento que a consumia parecia-lhe transbordar por todos os poros da pele.

Sem pensar, ele puxou-a com força contra o seu peito e enlaçou-a pela cintura. Chorava de raiva, dor, carência, paixão, desejo e medo. Os dedos dela tocaram-lhe nas lágrimas e os dois olharam-se durante uns segundos que pareceram durar uma eternidade.

E depois o Mundo desabou.

Com sede, ele procurou-lhe os lábios, enquanto os dedos matavam a fome explorando o seu corpo. Ardia. E já não havia volta atrás no caminho que escolhera.
O corpo dela parecia convidá-lo à descoberta. Não o esperava, de todo, mas pressentia nela a mesma voraz vontade que o acordava de noite depois de horas a sonhar amá-la.

Apercebeu-se de repente que o estava a fazer naquele momento.
Encostara-a contra uma pedra e beijava-lhe os seios, enquanto os seus dedos traçavam a rota tão ansiada de encontro ao centro do seu desejo, encontrando-a húmida. Respirando ofegantemente, ela olhava-o bem nos olhos enquanto o guiava para dentro de si, num óbvio convite à consumação do prazer.

Ambos gritaram baixinho no momento da penetração.
Tinham vivenciado mil vezes aquele encontro, mas nem nas suas fantasias mais loucas supuseram uma união tão completa e uma entrega tão imensa.

O mergulho veio abençoado e rápido, em simultâneo, um embutir de todos os sentidos conjugados num único instante. A descida ao abismo esgotou-lhes as forças e deixaram-se ficar abraçados e perdidos, mais juntos que nunca.

E tudo mudou nesse momento.

Um dia destes  

Posted by Maya Gaarder in

Num dia, que não este, vais dizer-me o que quero ouvir, mesmo que as comportas da barragem se abram e uma nova albufeira apareça.
Num dia, que não este, vou ter a coragem de dizer o que penso.
Num dia, que não este, vou fazer o que deve ser feito.
Num dia, que não este, vou deixar de mentir, vou dizer que não, não estou bem.
Num dia, que não este, vou aceitar que não posso racionalizar sentimentos.
Num dia, que não este, vou aparecer à tua porta, de mala na mão à espera de um para sempre.
Nesse dia, vou acordar como sempre, com saudades de ti, de nós. Vou abrir os olhos e saber, que o dia chegou. Ainda não é hoje, o dia, mas em breve.

A sacerdotisa  

Posted by Mag in

Abro os olhos pestanejando com a luz amorosa do Sol a refastelar-se já pelo quarto adentro, descobrindo-me os segredos enfiados em gavetas.

Enquanto sacudo de mim a réstia do sonho, abraçando o novo dia que se descobre diante de mim e aplaudindo-o com a alma aberta, entranha-se-me a ideia de que aquele será um dia verdadeiramente especial no meu caminho. Alegram-se-me os olhos e pula-me o coração no peito em antecipação da noite mágica, o familiar medo apertando-me o pescoço. Mas aprendi que o medo é apenas a manifestação do que nos é querido. E este passo, sem dúvida, será a oficialização do meu destino sagrado.

Aquele para onde os meus passos me conduziram, primeiro a menina tímida e diferente, com o vento do Norte a soprar-lhe ainda em sussurro distante no ventre, depois a jovem em busca de se encontrar na sabedoria ancestral, apalpando o caminho apenas com a candeia daquilo que a alma reconhecia como seu, e por fim a mulher que hoje contemplo ao espelho, olhos dourados de esperança e amor.

De pequena mendiga de amor a sacerdotisa da fecundidade e da fé.

De semente fincada na terra a flor vibrante de cor exposta aos elementos. Que tanto amo e protejo – Ar, Terra, Água e Fogo, cruzando-se nas minhas veias de maga, fundindo-se no quinto, que deles depende: o Homem.

E seria na noite indicada nas cartas da Vida da minha madrinha, noite em que a Lua se enche de prata no céu, gorda de orgulho e prenha de luz, que ela me nomearia sua sucessora nos caminhos de Maga, a nova Sacerdotisa do Povo.

Enquanto sonho acordada com a cerimónia que Rayna, minha madrinha, me havia descrito, preparo tudo o que precisaremos para a noite: o vinho quente com especiarias e ervas, receita (diz-se) que descende da primeira Sacerdotisa, Lydia, os pães de mel para forrar o estômago, lenha para a fogueira, a mistura de cinza, mirra e incenso para desenhar o pentagrama na terra, os tambores para animar aquilo que se pretende ser uma festa, um júbilo.

O meu vestido, sonhado por mim em noite de Lua minguante, precisamente 21 dias após o final da minha aprendizagem, está pendurado no roupeiro do meu quarto. Olho-o com orgulho, pois é o traje mais belo que alguma vez vi: veludo em tom lilás, bordado com desenhos de estrelas, luas, sóis e animais inventados, debruado a fios de prata como manda a tradição. Ruborizo-me de gozo só de pensar em envergá-lo.

Finalmente tudo está pronto e, como se adivinhasse o momento certo para aparecer, Rayna chega para me ajudar a vestir e me purificar a mente, o corpo, coração e alma, preparando-me para receber a bênção mais importante do meu Povo.

Seguimos para a floresta, para o local de culto, guiadas pela luz cúmplice da Lua e a magia que se sente na pele, a todo o tempo.

As pedras do altar recortam-se no céu negro e se não conhecesse este lugar como a palma da minha mão assustar-me-ia com a força que nele habita. Força de séculos de magia que aqui se celebraram, de sabedoria espalhada para o bem de todos.

Rayna e eu acendemos a fogueira, com cuidado, e colocamos o vinho e o mel sobre uma das pedras.

Os habitantes da aldeia começam a chegar aos poucos, as faces coradas dos afazeres diários e da expectativa antecipada. Eram celebrados com grande alegria, aqueles actos. Somos uma família, quando nos unimos em cânticos ao redor das chamas.

Estamos todos, e distribuo o vinho. Bebe-se generosamente, solta-se a língua, canta-se aqui e acolá até que, embalados ao mesmo ritmo, damos conta que estamos em roda, a vibrar. E eu, Lilith, no centro.

Rayna rompe pelo círculo e busca-me pela mão até ao charco de água. Estou em meio transe, ouço as vozes a cantar como se de um ruído distante se tratasse. Despe-me as roupas e diz-me para me baptizar no charco. Em voz alta, grita o meu nome, e anuncia-me como a nova Sacerdotisa.

Não tenho vergonha nem sinto pudor da minha nudez, antes um calor se me enrola no corpo enquanto me encaminho, guiada pelo meu espírito-guia, para o centro do pentagrama.

O Povo rodeia-me e sinto a força nas suas vozes e o orgulho nos seus olhos.

A energia invade-me, preenche-me, domina-me, emprenha-me. Deixo-me ir, ao sabor do vento do Norte, senhora do meu caminho.

E tudo se faz luz, e tudo se faz negro, e tudo se faz uno.

Amo-te  

Posted by Maya Gaarder in


Nunca o tinha dito a ninguém. Não porque nunca o tivesse sentido, achava que sim. Que a determinada altura até amou, ou não. Não sabia, nunca teve a certeza suficiente para que a palavra lhe saísse naturalmente, por isso nunca o disse. Gosto de ti, quero-te, desejo-te, sim, imensas vezes às pessoas que lhe tinham passado pela vida. Nunca amo-te, a ninguém.
Ouvia muitas vezes as pessoas a dizê-lo como quem diz um « bom dia, como estás », banalizando a palavra, transformando-a em algo vulgar.
Mas, a verdade é que era apenas uma palavra, não era ? Uma palavra à qual se atribuía demasiado significado, pelo menos ela fazia-o. Tinham-lhe perguntado, há tempos, Amas-me ? ela sorriu e respondeu com outra pergunta, o que achas ? ele disse-lhe que sim, que achava que sim, então isso deve bastar, foi a resposta dela. Terminaram a relação pouco tempo depois, ele terminou na verdade. Acusando-a de ser fria, sem sentimentos, incapaz de amar. Apenas porque não lho disse. Talvez tivesse razão, talvez ela fosse mesmo uma pessoa fria, porque para além de não o dizer, também nunca quis ouvir, nunca o perguntou a ninguém. Se lho diziam, era bom, mas se não o fizessem, era igual.
Até agora. Agora dava por si a engasgar-se com a palavra que parecia querer saltar-lhe da boca. Agora olhava para ele e tudo o que lhe apetecia dizer era Amo-te. Eu amo-te. Logo agora, quando não era suposto dizer, quando nem sequer sabia se era algo que ele queria ouvir.
Era engraçado, que logo agora que o queria dizer, estivesse numa posição em que nunca o faria, não o diria em voz alta. Mas podia pensá-lo, e dizê-lo para si própria, não havia mal nenhum nisso, ninguém teria de ouvi-la dizer Amo-te, Eu amo-te, ninguém precisava saber. Só ela…

Retorno  

Posted by LBJ in

-Desculpa, dás-me um cigarro?

-Porque não… até te faço companhia.

-Há muito que não te vejo por aqui.

-Costumava vir todos meses, às vezes com tempo e outras apressado, um dia distrai-me…

-E deixaste de vir!?

-Esqueci-me do caminho.

-E como chegaste cá hoje?

-Por acaso, deambulava sem destino e quando dei por mim estava por aqui.

-E encontraste-me?

-Parece-me que foste mais tu que me encontraste.

-Eu esperava por ti.

-Por mim?

-Ou por um dos teus personagens.

-E tens algum que prefiras?

-Tenho vários, gosto sobretudo dos loucos e dos perdidos e dos imprevistos.

-Porquê?

-Não sei, não tem que haver uma razão para tudo.

-Pois não.

-Vais voltar?

-Quando? Onde?

-Na próxima vez, aqui onde podemos partilhar um cigarro.

-E partilhar um caminho perdido ou um devaneio ou a imprevisibilidade de uma palavra sem contexto?

-Tinha saudades de te ter por cá.

-Parece-me que tinha falta de cá vir.

-Dás-me outro cigarro?

Num mundo que não este, o teu(0)...  

Posted by I.D.Pena in

Reside mais mundos que não ves , um deles diz se que é o passado ainda a correr a repercutir-se pelos ouvidos mais abertos resolvidos a entender os absurdos . E é nesse plano que me vi enclausurada . Vivendo o passado descompassadamente e repetidamente , pensei que tinha enlouquecido , e enlouqueci perdi o rumo mas encontrei-o quando tentei perceber a razão para este labirinto psiquico, cai por um portal e para outro mundo onde a razão o tempo e a gravidade nao coexiste, um microcosmos onde poderiamos contemplar o tamanho do nucleo de um atomo enquanto percorriamos distancias inimagináveis e desafiantes à paciencia de qualquer resistente de controle mental . Nesse mundo entendi que não sou nada mas que faço parte do tudo, essa conclusão pareceu-me mais lógica na altura , agora nem tanto , em todos eles descobri a emoção amor na origem simbólica da vida como que se fosse eu a relembrar-me a mim mesma que em todos os lugares existe o amor , ate neste 3º mundo que dizem ser nosso. Que ilusão enorme , nós é que somos do Mundo.

Vais voltar?  

Posted by Maya Gaarder in

O som de uma mensagem recebida no telemóvel acordou-o. O relógio marcava 3 da manhã. Olhou para a mulher que continuava a dormir placidamente ao seu lado. Àquela hora, só podia ser uma pessoa. A mensagem, uma palavra apenas : amanhã. Ia vê-la amanhã. Sentiu o estômago contrair-se instantâneamente, algo que acontecia sempre que pensava nela. Já não se viam há muito tempo, demasiado até.
Lembrava-se perfeitamente da última vez em que se viram, conseguia ainda ver com clareza a expressão do rosto dela, quando ele lhe fez a pergunta de sempre : Vais voltar ? Sentiu a hesitação dela, prendeu a respiração esperando, esperando que dessa vez ela lhe dissesse que sim, que ia voltar. Estava convencido que daquela vez, a resposta quase foi diferente, mas no último momento, ela voltou-se e disse que não, não voltaria.
Mas amanhã, sim, amanhã encontrar-se-iam outra vez. No sítio de sempre. Onde por momentos, sempre tão breves, a teria nos braços e a amaria. Fingindo que não, fingindo que não a conhecia tão bem como a si próprio. Tratando-a como a uma estranha com quem partilhava apenas o corpo e umas horas de prazer.
Ao contrário do que ela pensava, conhecia-a, demasiado bem até. Por isso aceitava jogar nos termos dela, aceitava as condições dela, mas conhecia-a. Antes até de lhe ter falado pela primeira vez já a conhecia. Costumava vê-la ao longe, frequentavam os mesmos lugares, despertou-lhe a atenção pela primeira vez numa tarde em que a viu sentada sozinha numa mesa do café. Sempre foi observador e num momento de tédio enquanto esperava a mulher que tinha ficado de se encontrar com ele ali depois de uma expedição de compras, entreteve-se a observar os restantes clientes.
O olhar prendeu-se nela. Apesar do aspecto cuidado, havia nela um ar de desalinho que achou curioso. Como se tivesse passado no meio de um grande vendaval que deixou tudo ligeiramente fora do sítio. Era Inverno e ela trazia um casaco de fazenda pesado com um dos botões pendurado, o cachecol estava desfiado numa das pontas e várias madeixas de cabelo escapavam do rabo de cavalo com que o tinha prendido. O rosto era bonito, se bem que não harmonioso, o nariz era demasiado grande e destoava do resto das feições, os labios eram finos e as maçãs do rosto salientes, mas os olhos… foram os olhos que o prenderam. Nunca tinha visto olhos daquela cor, não conseguia dizer com certeza se eram azuis, verdes ou cinzentos, mas mais do que a cor, foi a expressão que o cativou.
Viu-a mais vezes, muitas mais, antes daquele dia em que a abordou na livraria. Antes da primeira vez. Sabia que o nome que lhe dissera ser o seu não era verdadeiro, não foi preciso muito para o descobrir. Sabia tudo o que ela a tanto custo lhe tentava esconder, aprendera-o nas entrelinhas, de tudo o que ela lhe tinha dito, não querendo dizer a verdade. E amava-a. Amanhã, amanhã voltaria a perguntar e talvez desta vez ela respondesse que sim quando lhe perguntasse : Vais voltar ?

Até ti...  

Posted by Bruno Fehr in

Não estás aqui. Gostava que estivesses nem que fosse por um minuto. Queria perguntar-te tudo aquilo que nunca me disseste. (...) Culpo-me por algo que possa ter feito ou dito. Culpo-me por tudo aquilo que não fiz e não disse. Culpo-me principalmente por nunca te ter dito que te amo. 

Será que te vou voltar a ver? Entraste na minha vida como um furacão. Destruíste tudo à minha volta. Tu, só tu. Nada mais restou do meu velho mundo, nada mais importava. Só tu. Saíste da minha minha vida da mesma maneira que a invadiste, destruindo tudo outra vez. Deixaste a dor, a tristeza, o vazio e a devastação do pequeno mundo que construí à tua volta. Não estás aqui. A minha vida ficou vazia. Não tive um aviso, um sinal, um adeus. Nada! Deixaste-me um bilhete, que recebi meses depois da tua partida. Li-o. Sorri. Foi a primeira vez que sorri desde que partiste. Uma mensagem curta, que terminava com um "amo-te".
Se me amas fica! Não dizem que o amor vence todas barreiras ? Eu também te amo! Fica!
Que injusto, tiveste a última palavra. Escreveste o que eu mais queria ouvir e dizer-te. Ao ler o teu "amo-te", sorri com um rio de lágrimas a descer pela minha face. Respondi-te em voz alta, "amo-te, amo-te, também te amo", na infantil esperança que me ouvisses. Em vão…?
Se me amas porque não me disseste? Se me amas porque partiste? Se tinhas mesmo de partir, devias ter-me dito o que sentias. Se me amas… Se alguém que eu amo me ama, por que motivo me sinto tão só, tão vazio? Vazio mas cheio de amor para dar. Para te dar. Só tu importas. 

Pergunto-me constantemente quando te voltarei a ver, se é que te voltarei a ver. Começo a pensar que não, pois não te mereço, caso contrário estarias aqui, e eu não estaria a escrever nestas linhas, na esperança que estas minhas palavras cheguem até ti. 
Apesar de não acreditar, sinto algo dentro de mim, uma faísca de esperança, que parece dizer-me, "um dia, um dia". Esse dia, soa a um dia distante, tão distante, que posso já ter sofrido tudo o que há para sofrer. O sofrimento destrói os bons sentimentos. Tenho medo de chegar a esse dia e já não sentir. Tenho medo de não te reconhecer. Pior ainda, que tu não me reconheças.

Lembro-me de ti a toda a hora, mas a tua imagem na minha memoria vai-se desvanecendo com o tempo. Obrigo-me a lembrar; da tua voz doce, dos teus olhos tão azuis nos quais me parecia perder, do teu cabelo louro, fino, brilhante, do teu sorriso encantador em que ao sorrir parecias iluminar uma sala, um sorriso tão contagiante que era impossível não sorrir contigo, o teu toque, suave, quente, meigo. É impossível esquecer o que representaste para mim, não vou esquecer a pessoa que foste na minha vida. Nunca te vou deixar de amar mesmo amando outra mulher. Tens e terás sempre um cantinho só teu no meu coração... O problema é que esse cantinho é ainda todo o meu coração. Não quero esquecer nada, por isso todos os dia me obrigo a lembrar. Lembrar para não esquecer.

Dói. Ainda dói muito, mas já não custa tanto. Não sei se dói menos, ou se me habituei à dor. Não importa. Já não choro como chorava pois as memórias que guardo são boas. Sorrio. Tristemente, sorrio.
O tempo passa. Voltei a gostar de alguém, mas nunca lhes falei de ti. Tentei mas nunca falei. Acredito que se soubessem quem tu foste na minha vida, as ajudava a perceber quem eu sou. Estou certo que sim, mas não consegui invadir a minha própria privacidade. Consigo escrever mas não falar sobre o passado. As palavras saem soluçantes e parecem ser sempre as palavras erradas. Admito que tive medo, medo de as fazer sentir que estariam a competir contigo. Medo de elas acharem que não estavam à tua altura. Medo que elas sentissem que eram uma segunda escolha. Eu não tenho a certeza se o são ou não, mas isso não significa que queira magoar alguém, pois para dor já basta a minha. Por isso, nesta minha nova vida sem ti, tu és só minha, és o meu mais bem guardado segredo. Ninguém sabe. Infelizmente não és só minha como eu sonhava, mas na medida do possível, só minha. 

Adoro este termo, "medida do possível", como se o possível, fosse possível medir.
Eu não quero falar de ti. Quero falar contigo. Onde estás? Diz-me onde! Só quero saber se continuas com aquele sorriso encantador, se continuas feliz, pois bela sempre serás. Ainda te lembras de mim?

Dentro de mim há amor. Dentro de mim há raiva. Não sei. Sinto um misto de amor e raiva. Amor por ti, raiva por não poder estar contigo. É provavelmente este conflito de sentimentos que me faz acreditar que nada, NADA me pode impedir de te voltar a ver, de estar contigo. Sei que não será hoje, nem amanhã, mas um dia...! Enquanto esse dia não chega, espero, sofro e lembro, lembro-me de não esquecer.

Anos... Incrível, já passaram mais anos do que dedos que os contabilizem, desde a última vez que te vi. Doze anos desde a primeira lágrima que chorei por ti. Doze anos de dor, saudade, tristeza, raiva, amor e esperança. 
O tempo passa é verdade, mas é mentira que o tempo cure tudo. Quanto tempo precisa o tempo para curar? Será que quando o tempo tiver tempo de curar a minha dor, eu terei ainda tempo de viver sem ela?
Sempre que recuo todo este tempo na minha memória, sinto a mesma dor que senti naquele dia, a mesma confusão na minha cabeça, volto a fazer as mesmas perguntas e os meus olhos mais uma vez enchem-se de lágrimas que tento a todo o custo conter. Não quero chorar mais por ti. De vez em quando, lá me foge uma lágrima ou outra. Quero sorrir por ti, para ti. Quero viver o resto da minha vida a sorrir e sorrir quando te voltar a ver. 
Por agora recordo, enquanto recordo escrevo, escrevo-te, desejando que estas palavras encontrem o caminho até ti. No fundo talvez escreva para mim mesmo como uma maneira de ter esquecer, lembrando-me de ti. Na verdade, sem ti não sou ninguém, por isso se não é para ti escrevo então é inútil escrever, pois todas estas palavras estão condenadas a perderem-se em frases que nunca ninguém irá ler, palavras espalhadas por folhas de papel que serão dispersas pelo tempo e impossíveis de reordenar, pois estas palavras são sentimentos. Se fosse possível organizar sentimentos que são desorganizados por natureza, não existiria a dor, pois ela seria suavizada pela organização sentimental. 

Escolho viver o momento fugindo do passado, mas o que posso fazer quando os meus momentos estão cheios de passado? Se a vida são dois dias e um já passou, qual é o problema de passar o dia que me resta a recordar? O futuro não me pode preocupar, pois o dia está a acabar e quero chegar ao fim dele com as tuas palavras a ressoar na minha mente como se em vez de escritas tivessem saído da tua boca:

«Vejo o teu esforço para esconder as lágrimas. Vejo o teu sorriso tentando esconder a dor. Não chores nunca por mim, eu não sinto nem dor nem medo. Fui feliz, muito feliz contigo e estou feliz por te ter conhecido, feliz por ter sentido sempre, que me amas.Um dia quando voltares a amar, vais sentir um empurrãozinho em direcção a ela e isso, serei eu a teu lado sorrindo e dizendo-te, "força".O meu único desejo é poder abraçar-te segundos antes de partir e poder dizer-te não Adeus, mas sim Amo-te.»

Querer ver-te, envolver-te nos meus braços, beijar-te, falar contigo podem ser desejos impossíveis, mas tudo o que é possível hoje, foi impossível um dia. Se me for permitido, tornar um dos meus impossíveis em possível, que seja; estas palavras chegarem até ti enquanto espero um sinal teu. Até lá continuo a construir o meu caminho que me levará onde ninguém foi ainda, caminhando sozinho, procurando a tua cara na multidão.

Um dia quando partir, não haverá dor nem tristesa, lágrimas ou saudade, nem céu ou inferno, santos ou demónios, bem ou mal. Não haverá medo só certeza. A certeza que o meu caminho só termina em ti. 


(Excerto de Amor e Perda, por Bruno Fehr) 

Lust  

Posted by Mag

Se tu andasses movido apenas ao meu desejo, os teus pés correriam velozes sobre a cidade.
Se o teu corpo se sacudisse ao som dos meus pensamentos (que, mudos, te chamam), dançarias todos os ritmos com graciosidade felina.
Se os meus gritos surdos de loucura pudessem dotar-te de força, nascer-te-iam asas nas costas, e tocarias as nuvens com a ponta dos dedos.

Porque me povoas as noites com a luxúria dos sonhos livres, que me ensopam a pele e me consomem a razão.
Porque os meus olhos falsificam, ao olhar-te, o crescente murmúrio do meu corpo que se quer fundir no teu.
Porque a dança dos meus sentidos é teia invisível em teu redor, adormecida para que dela nunca suspeites.

É desejo nú o que me atormenta, meu bem.
Que o meu coração não te pertence, nem se deleita com o ouvir da tua voz ou o sentir do teu perfume.
Não.
Eu não te amo,  guerreiro.
Mas este desejo sim, tem o teu nome tatuado em brasa.

Roteiro  

Posted by mf in

Perde-te no mapa do meu corpo
Sente o vento que suspira
A mansidão dos cumes

Há azimutes que não seguiste
Linhas rectas, linhas curvas
Por onde teu dedo não passou

Faz contas, sonha o caminho
Que serpenteia por minha pele
E traça teu rumo de nómada

Pousa bússola em terra chã
Olha o Norte nos meus olhos
E avança pelos trilhos

Trepa pelas curvas de nível
Galga montes sinuosos
Demora-te em vales recônditos

Arranca o fôlego à brisa
Incendeia a lenha rasteira
E repousa no teu destino

Passatempo de Fevereiro - texto 3  

Posted by Bruno Fehr in

Este é o terceiro e último texto deste passatempo. Eram para ser 4 mas um foi retirado a pedido da autora.
Tencionamos em breve fazer um novo passatempo de tema livre. Os interessados podem começar já a escrever.

Amor Eterno  

Posted by Bruno Fehr in


Era uma vez...
Há muito, muito tempo, numa fortaleza do Norte de África, governava uma rainha, de nome Íris. Bela e delicada como uma flor, Íris era apreciada e amada pelo seu povo... Mas odiada por quem queria apoderar-se do poder...

No quarto, iluminado pela lua cheia e percorrido por uma brisa agradável que agitava ligeiramente as cortinas do mosquiteiro, um casal repousava.
Nos braços de Ismael, Íris não dormia. Tinha tanto em que pensar, tantas responsabilidades, para com o reino, para com o povo, mas a respiração calma do amado que dormia, da paz que os unia, acabou por embala-la e o sono chegou.

Os dias decorriam serenos, com as responsabilidades de ambos divididas, pois ela governava o povo, e ele vinha do povo. No entanto, a força dos sentimentos unira-os e era um casal dedicado ao bem-estar do reino, do povo que adoravam e que lhes retribuía esse afecto. O reino crescia, próspero e em paz, longe de guerras e tumultos.
A vida corria sem grandes sobressaltos mas o perigo espreitava.

Teresa, a sacerdotisa, desejava o poder, e começou a conspirar para derrubar Íris.
Em pouco tempo, descobre que a única forma de destronar a governante seria através do marido, de conseguir quebrar a ligação que os unia. Tirando-lhe o Amor que a alimentava, Íris fraquejaria e estaria à mercê dela.

Teresa, sedutora e inteligente, procura e encontra aliados.
O primeiro, seria o irmão de Íris, que não pudera governar devido às leis de sucessão e que cobiçava ser rei. Não sendo, nem de longe, tão apreciado pelo povo, era um trunfo forte devido à sua origem.
Depois, Teresa começou um jogo de sedução, com Ismael. Conquistou a sua confiança para o conhecer melhor, e descobrir-lhe as fraquezas. A tarefa revelou-se simples. Usou a insegurança dele, devida à diferença de estatuto. Disse-lhe que as pessoas nem sempre entendiam os sentimentos dele. Que o consideravam interesseiro e materialista. Aproveitando estas fragilidades, Teresa começa a envenenar-lhe o espírito, insinuando que Íris lhe seria infiel.

Ao mesmo tempo que esta conspiração se desenrolava apareceu na corte um embaixador vindo de uma tribo vizinha. Querendo manter a paz na região, que tanto tinha custado a alcançar, Ísis vê-se obrigada a passar algum tempo com esta visita, em reuniões e encontros políticos, descurando um pouco a harmonia familiar.
Por sua vez, o embaixador sente-se logo atraído pela governante, a qual não suspeita de nada.

Ismael, cada vez mais só, cada vez mais influenciado por Teresa, começa a acreditar na infidelidade da esposa.
Algum tempo decorre e o clima entre o casal começa a deteriorar-se. As insinuações de Teresa e alguns factos que não passam de coincidências e de coisas banais, são agora, aos olhos de Ismael, prenúncios de traições.

Teresa, prosseguindo o seu plano, consegue subornar o Guarda-Real, para a avisar de todas as movimentações de Íris. A armadilha, cada vez mais maquiavélica, estava montada!
Numa tarde de Verão, o embaixador tenta seduzir a governante. Oferece-lhe flores raras e jóias preciosas.
Ismael, de longe, observa a cena mas não percebe a resposta negativa que a esposa dá ao embaixador. Teresa, ao seu lado, “interpreta-lhe” a cena: as flores e as jóias eram uma oferta pelo amor que os uniria, pelo sexo que teriam tido.
Ismael fica louco. Chega perto de Ísis e discutem.
Da nada valeu a Íris tentar explicar o que se estava a passar. Ismael ficou irredutível. Queria acabar com o casamento, que não tolerava traições:
- Já não és a minha flor! – responde num tom frio.

O casamento deles acaba e Íris entra em depressão. Fragilizada no que lhe dava força, acaba por permitir que o irmão tomasse o seu lugar e deixa o poder. Fora desacreditada na sua essência, perdera as forças, perdera até a vontade de viver.

O irmão toma o poder, influenciado por Teresa e pelo Guarda-real e o povo sofre alguma opressão. O reino perde a prosperidade alcançada e a guerra avizinha-se, em parte devido ao incidente com o embaixador, que se retira.

Irís definha, como uma flor que murcha. Exila-se numa das suas fortalezas fora da capital do reino, ausente da realidade política e do mundo em geral. O irmão assegura-se que esteja alimentada e cuidada, mas sem interesse por nada, sem acesso às novidades da corte.

Teresa consegue seduzir Ismael, que tenta com ela uma vida em conjunto, mas com grandes dificuldades. Ele sente falta da sua flor, dos seus carinhos.

E os anos vão passando, num reino que vai perdendo o brilho próspero de outrora, sob influência gananciosa e desgoverno político.

Mas um dia...
Ismael é chamado ao reino vizinho. Pensando ir em trabalho, depara-se com o embaixador às portas da morte.
Revoltado por ter de o encarar, tenta sair da sua presença.
Mas antes de Ismael sair, o moribundo revela que Íris é inocente. Que nunca acontecera nada apesar das suas investidas, que ela sempre o recusara por Amor ao marido.
E diz-lho apenas porque sempre esperara que Íris o desejasse e amasse como amara Ismael, mas ela partira e ele nunca mais a tinha visto. E findo estes anos todos, o embaixador estava mortalmente ferido e desejava morrer com a consciência tranquila de quem dissera a verdade.

Um calafrio percorre Ismael. A revolta que sente é enorme.
O embaixador, nas suas últimas forças, revela que fora contactado por Teresa para ajudar nos seus planos. Prometera-lhe ouro e a rainha. Ele aceitara, porque a desejava. Revela também o envolvimento do irmão e do chefe da guarda.

Ismael corre para Íris.
Esta, no primeiro impulso quase que o beija.
Ainda gostava dele.
Após aqueles anos todos, ainda gostava dele.
Ele tenta pedir desculpa. Falam durante muito tempo. Ela continua magoada por ele não ter acreditado nela. Ele sente-se revoltado por se terem aproveitado dos seus sentimentos, pela sua fraqueza, por ter duvidado dela.

Regressam à capital.
Ismael confronta Teresa que nega tudo. Contudo, ele não fora o único a ouvir a confissão do embaixador. O irmão de Íris é também deposto. O Guarda-Real incrimina Teresa, que foge.
Alguns dos súbditos mais fiéis a Íris perseguem-na para que a justiça seja feita, mas acabam por morrer nas mãos dela e dos seus guardas. Apenas um regressa contando o sucedido.

Íris não regressa ao poder. Uma doença apoderara-se dela e consumira-a tanto quanto a sua tristeza e estava em fase terminal.

Os últimos dias de Íris aproximam-se.
Ismael despede-se de sua flor. Apenas a dor dele não ter acreditado nela a magoava, de resto, estava serena. E ele também sofria com isso.
- Minha flor... Perdoa-me...
Com um sorriso triste e sem forças para falar, ela toca-lhe no rosto amado e debruçado sobre a sua mão.
- Encontramo-nos noutra vida, amor...

E com estas últimas palavras, Íris fechou os olhos para sempre.
Ismael chorou.
Nada mais podia ser feito... apenas restava a esperança de se encontrarem numa próxima vida para reviver o amor verdadeiro que sempre os unira…

                                                                                                       Por: Tulipa Branca

Passatempo de Fevereiro - texto 2  

Posted by Bruno Fehr in

Abaixo podem ler o segundo texto deste passatempo. Os nomes do autores aparecem no final dos textos e clicando nesses nomes irão parar às páginas pessoais dos mesmos.

Numero errado!  

Posted by Bruno Fehr in

Uma rapariga pega no telemóvel extremamente nervosa e clica no redial para falar com a sua melhor amiga.

“Bea, não sei o que fazer. Amo-o tanto e não acho que ele sinta o mesmo por mim. Quero dizer, sempre que o vejo ou penso nele, não consigo evitar sorrir. Por vezes ele vê-me sorrir e sorri de volta. É aí que os meus joelhos se tornam gelatina e sinto borboletas no estômago. Eu sei que o achas giro, adorável mas olhando mais profundamente encontras mais... Uma pessoa carinhosa, cheia de consideração e tudo isso me faz sentir que não o mereço. Bem, na verdade eu não o mereço mesmo. Ele é perfeito demais, tanto que todas as raparigas estão caídas por ele. Eu não consigo ser como elas. Elas são todas tão bonitas e cintilantes e... eu... eu não... nem me posso comparar a elas. Quando penso nele, quando o vejo, só sorrio. Ainda não te tinha dito, mas ele ligou-me há pouco tempo para falar do trabalho da escola. Fiz figura de parva. Estava completamente embaraçada e não conseguia parar de gaguejar. Mesmo assim, ele foi um querido continuando a falar como se me tentasse fazer sentir melhor. Ele é PERFEITO e eu não o mereço... Mas porque é que continuo a desejar que ele repare em mim? Porquê? Bea? Beatriz, estás aí?

“Eu não sou a Beatriz!”

Petrificada a menina pergunta, “Quem és tu?”

Eu sou o rapaz cujo sorriso transforma os teus joelhos em gelatina. Aquele que te faz sentir borboletas no estômago e que sorri quando te vê sorrir. Só te queria dizer uma coisa: Tudo o que disseste agora, é o que não tenho tido coragem para te dizer, desde há muito tempo, mais exactamente, desde o dia em que te conheci”.  


                                                                             Por:  Shilan Nozari

Passatempo de Fevereiro  

Posted by Bruno Fehr in

Abaixo podem ler o primeiro texto enviado pelas pessoas que acompanham este blogue. No total serão publicados este mês 4 textos.

Ainda Hoje  

Posted by Bruno Fehr in

Passei horas a ouvir o nosso atendedor de chamadas. Ouvi a mensagem uma vez, e outra, e outra, e outra... Por mais estúpido que fosse, era a única forma de ouvir a tua voz. O calendário colado na porta do frigorífico marcava a data 3 de Setembro. Era a nossa data. Fazíamos 4 anos. "Quem diria?", pensei eu. Já nos conhecíamos há tanto tempo, de uma forma ou de outra fomos indo e voltando da vida um do outro, até àquele dia. O dia 3 de Setembro. O dia do primeiro beijo. O dia em que tudo mudou. O dia em que entraste e eu senti que nunca mais irias sair. 

A cada dia que passava, sentia-me mais apaixonado por ti. Cada beijo tinha a emoção e o sentimento do primeiro. Lembro-me de ficar horas acordado a ver-te dormir. "Oh, meu amor, o quanto eu te amo". Lembro-me pensar isto, e adormecer com um sorriso na cara, só por te sentir ali. E lembrar, de quando fazíamos serões no sofá, a ver daqueles romances, e te deitavas bem perto de mim. Ainda sinto a tua respiração no meu pescoço, o cheiro do teu perfume quase tão doce como tu. Ou dos passeios pela muralha, a ver o mar, a rebentação das ondas nas rochas e o pôr-do-sol. Era tudo tão belo. Parece que foi ontem que te pedi para me beliscares, porque não acreditava que podia ser assim tão feliz. 

Lembro-me do prazer que era, depois de um cansativo dia de trabalho no escritório chegar a casa, e ter sempre o teu beijo à minha espera. As tuas palavras carinhosas. Acho que nunca te disse o quanto te admirava realmente. Tu tinhas uma força que dificilmente eu algum dia virei a ter. Independentemente de como te corresse o dia, o teu sorriso estava sempre lá para me receber, por pior que tivesse sido o teu dia de trabalho, por piores que as coisas andassem. Recordo-me de discutir contigo um dia, por uma coisa tão insignificante que já nem sei ao certo o que era. Recordo-me de sair porta fora, exaltado. Recordo-me de a abrir de seguida, e mesmo sem falar, olhei para ti e pedi-te desculpa, e tu a mim. O beijo que demos de seguida foi tão forte, tão intenso, tão... ai, amor, parece que ainda o sinto aqui, nos meus lábios. As tuas mãos suaves no meu rosto, e as minhas na tua cintura. Encostaram-se os nossos corpos, quentes e desejosos um pelo do outro. Fechei a porta com o pé, agarrando-te ao colo de seguida. Essa seria talvez a mais bela noite de amor alguma vez vivida em toda a História dos amores. Fomos mais que um só, fomos o símbolo da união e perfeição. Fomos o dois, e fomos o três. Fomos o dois, o dois da união, e fomos o três, o três da perfeição. Naquela cama, por entre lençóis e suores, fluidos e gemidos, lá estávamos nós, totalmente entregues um ao outro. Eu, tu e o nosso amor. Essa fora uma noite no meio de tantas e tantas que passámos nestes quase quatro anos. 

Dei por mim, a fitar o tecto, perdido no espaço e no tempo, a recordar a memória de ti. Tinha um sorriso no rosto, e uma lágrima no canto do olho. Olhei para a nossa fotografia, aquela que tirámos quando fomos àquela que é chamada de cidade do amor. Paris. Atrás de nós, luminosa, estava a Torre Eiffel, apenas ofuscada pelo teu sempre radiante sorriso. Podiam ligar todas as luzes, aumentar o Sol, que tu brilharias sempre mais, mais que qualquer estrela. Mais que tudo.

             Dói-me sentir que já não estás aqui comigo. Dói-me mais ainda saber que me foste tirada. Não merecias. EU não merecia perder-te, não desta forma. Uma recordação que estava tão presente na minha memória era a daquela palavra. Leucemia. Pus a mão no ombro. Foi como se ainda sentisse as tuas lágrimas, quando te apoiaste nele depois de o médico dizer aquela palavra. Leucemia. Apertaste tanto a minha mão. Eu fiquei sem reacção. Não sabia que te dizer, ou fazer, ou fosse lá o que fosse. O ser humano não está concebido para situações destas. O médico deixou-nos a sós, para digerirmos tudo aquilo. Não sei quanto tempo estivemos ali. Chorámos. Estive a teu lado nos altos e baixos, por entre exames e tratamentos, e a busca de um dador compatível, que, infelizmente, nunca viria a aparecer. Tentaste afastar-me, pensando que talvez assim eu sofresse menos. Oh amor, como eu te conheço. Eu sabia que o farias, mas eu não te deixei só. Vi a vida desvanecer nos teus olhos, a cada dia que a doença se apoderava de ti. E partiste. Nesse dia o Sol nasceu e pôs-se sem que se lhe visse a cor. O céu ficou cinzento, escuro, carregado de chuva, como se também ele fizesse luto por ti. Tudo passou a ser sem cor, sem luz, sem vida. A vida, por si só no termo da palavra, já não o era. Eu não vivo sem ti, apenas sobrevivo. Ainda hoje sinto o vazio que deixaste. Ainda hoje te amo, mesmo sabendo que não estás aqui. Ainda hoje...
                                                                                     Por:  Filipe Sardinha (Pipoo)

Ensaio – A chuva  

Posted by LBJ in


Se eu pudesse postular determinava que quando chove o céu chora por alguém.

Se eu pudesse simplificar a chuva diria que ela é feita de água e de tempo assim como nós somos feitos de água e de tempo e de alma e de ainda outras coisas que se calhar não são assim tão importantes. Sei que sou mais chuva do que carne mas ainda não sei se sou mais alma do que chuva e gosto de a sentir molhada num dia sem frio e sem pressas e sem medos.

Se eu pudesse dissecar uma gota de chuva caída na palma da minha mão gostaria de chegar ao fundo da sua memória, saber por onde andou, por que rios, por que mares, saber se já escorregou pelo vidro de uma janela do quarto de dois amantes ou pelos beirais de um castelo de encantar ou apenas pelas ruínas de um casebre de pobre. Queria saber tudo desde que o tempo a fez cair do céu pela primeira vez até ao momento em que tocou na minha pele.

Se eu pudesse partilhar o espaço e o tempo com uma gota de chuva gostaria de cair sem vento sobre a árvore mais alta da floresta, folha sob folha, ramo sob ramo até me enterrar no chão tenro e ir cada vez mais fundo em busca de outras gotas em forma de fio e de rio e de mar e depois diluir-me, tornar-me indistinto sem deixar de ser único e esperar que uma brisa quente, um sopro de Sol me transformasse em ar e subisse devagarinho, bem devagarinho em direcção às estrelas até ser capturado pelo vento em flocos de nuvem e reiniciar a viagem.

Se eu pudesse explicar a chuva num dia de Sol perderia por palavras a magia de um arco colorido que tem numa ponta um sonho de menino e na outra o inalcançável. Nunca sei dizer em que ponta está o sonho e caminho sempre onde nunca consigo chegar e a chuva pára e ficam só os brilhos nas manchas de água a reflectirem o meu desejo.

Se eu pudesse dançar à chuva de gabardine comprida e chapéu de varetas ocas regressaria no tempo a um tempo fechado numa caixa de madeira sem mais outras cores que o preto e o branco e diferentes cinzentos e quem sabe não começaria a cantar com um sorriso nos olhos e nos lábios.

Se eu pudesse comandar em fúria a chuva lavaria todos os males e os meus pecados e restaria puro e vazio num Mundo sem graça e sem homens. Seria divino sem crentes e sem outras catedrais que não aquelas que se formam nas clareiras das árvores perenes.

Se eu pudesse ficar nu debaixo de uma chuva que fosse quente como a água que escorre em chuveiro, forte e compassada sobre os ombros e de braços bem abertos, gota a gota, poro a poro, isolava-me de pensar, de sentir, de me tentar perceber ou explicar.

Se eu pudesse imaginar uma chuva que não fosse chuva feita de água e de tempo iria fazê-la de algo doce e suspenso que se pudesse afastar como uma cortina que dá acesso a um outro palco. Gostaria de encontrar nesse palco um bando de actores interagindo numa performance sem ensaio, representando a minha vida em pantomina. Gostaria de ver a plateia vazia de público e cheia de letras e palavras e frases sempre a trocar de lugar e formando histórias dentro das histórias.

Se eu pudesse escolher que a chuva fosse só chuva ela seria a causa e a razão da vida e o desejo ou desespero de quem a tem ou de quem lhe falta e nada mais.