
Ela respira fundo, cansada mas animada.
A noite anterior fora passada a preparar o dia de hoje, a fazer lembranças, a arrumar as camas para o pessoal que ia ficar a dormir.
Já tinham começado a chegar, família e amigos, para a festa combinada no ano passado e organizada por ela.
Todos os anos, faziam a “festa da família”, em que os amigos mais íntimos de cada uma eram convidados a juntarem-se.
Todos os anos, calhava a uma delas a organização do evento, a preparação das lembranças, arranjar dormidas, combinar o restaurante.
Não era fácil, mas era por uma boa causa.
O Tempo e a Vida tinham-nas separado fisicamente, e com os sucessivos casamentos e alguns divórcios, tinha-se tornado difícil juntarem-se todas nas festas mais comuns de Natal e Páscoa ou férias. Daí, tomaram a opção de, uma vez por ano, em local diferente, juntarem-se todas para conviverem e partilharem um fim-de-semana.Lara vai para a porta do Hotel onde vai decorrer o evento.
O dia acordara solarengo e outonal: o vento soprava fresco e as árvores soltavam as folhas castanhas e amarelas e douradas e laranjas e vermelhas.
Do outro lado da estrada, abóboras-menina e chila estavam empilhadas junto a um espigueiro cheio de maçarocas secas de milho.
Na serra, o Sol desenha sombras de nuvens velozes nas manchas de verdes dos pinheiros e abetos e dos castanhos e amarelos dos carvalhos e de alguns castanheiros mais precoces.
Automóveis surgem na estrada de acesso ao Hotel, e param no estacionamento reservado.
Mulheres, homens, crianças, saem dos carros, em saudações excitadas e alegres que a comovem. Tem saudades de todos.
Dirige-se a eles, e abraços e beijos são trocados.
As irmãs chegaram mais cedo.
Ana, com calças de ganga e uma camisola azul-escura, prática e quente, com o seu medalhão de lapis-lazúli e sodalite ao peito, como sempre. Vem com o marido, que Lara considera uma besta apenas suportável por amor à irmã.
Celeste, de blusão de neve azul e as calças de ganga mais desbotadas que ela já vira. E, claro, o anel de água-marinha, inseparável dos seus dedos. Traz com ela o filho, que corre para ela para a abraçar.
Flávia, cujos caracóis dourados combinam com o casaco preto bordado com girassóis amarelos, que ela própria fizera. Traz o namorado, que lhe dá a mão e não a larga por um momento, que a adora e acarinha sem vergonha nem pudor.
Os abraços e os beijos sofrem uma ligeira interrupção com a chegada de mais dois veículos.
Dum todo-terreno, sai a figura elegante e ruiva de Vera.
Lara dirige-se a ela, e abraça a amiga terna e demoradamente.
Vera vem sozinha, e Lara sabe o quanto lhe custa estar ali, naquele local, após a morte do marido. Mas Vera vem por ela, pelas amigas, pelo conforto dum abraço da irmã-de-coração.
Dum Ford Cortina com mais de 30 anos, sai a figura atlética e engraçada, quase hippie, de Vitória, com uma nova amiga.
O garoto corre na direcção dela.
“Viiiiiiiiiiiiiiiiii!”, grita, enquanto se lança nos braços da prima que ele adora.
A saia comprida e arroxeada dela esvoaça quando segura no garoto e o levanta no ar, fazendo-o rodopiar com ela, em risos e beijos.
Ana observa as recém-chegadas.
Sente um aperto no peito quando vê Vera, sente-lhe o sofrimento da viuvez, sente a vida dela por um fio.
Dirige-se a ela, para a cumprimentar e abraçar.
Vi interrompe-a, chamando-a.
“Ana, esta é a Carmo.”, diz, apresentando-lhe a nova amiga.
Ana olha para ela. Uma miúda loira, atraente, simpática, com uma camisola vermelha de lã. Um sorriso simpático e fresco. Jovem, ainda.
“Conhece”-a de algum lado, mas não se recorda de onde.
Cumprimenta-a, educada, mas com a sensação de que algo não está bem.
Mais veículos se aproximam, mais gente chega, e os cumprimentos e os risos e os abraços brilham no sol do meio-dia.
Lara observa, sorrindo, a confusão instalada. O sobrinho e os primitos mais novos já se empoleiraram nos baloiços do parque infantil, já correm e riem e gritam.
Os adultos conversam e convivem, animados e alegres.
Lara respira fundo.
Está cansada, é certo, mas o facto de ter com ela, durante um fim-de-semana inteirinho, as irmãs, as primas e as amigas, compensa todo o cansaço e toda a saudade.
Chama-os, sorridente: “Vamos para dentro?...”.
E caminha, de braço dado com Vera, a ponderar, mais uma vez, o quão rica era pela família de sangue e de coração que tinha.