Luz Branca, Negro Luto  

Posted by Fada in

16 de Outubro de 1998

Ela sai de casa, fechando, com cuidado, a porta principal. Atravessa o pequeno jardim e sai pelo portão de ferro, para a estrada.

Caminha com ligeireza, agasalhada num fato de saia e casaco que o Outono pede, um lenço a proteger-lhe o pescoço.
Dirige-se à igreja, que é perto, para assistir à missa.

Se ainda fosse vivo, o Pai faria 93 anos, hoje.
Mas partira há 33 anos, vítima dum tumor no estômago.

A Mãe fora uma viúva sisuda, fechada, guardando dentro dela aquela mágoa, e continuando a lutar pelo bem-estar dos quatro filhos, e dos netos que iam surgindo e que a alegravam.
Agora, coitada, com 85 anos, estava acamada, após algumas tromboses, um pouco senil, e completamente dependente dela, para tudo.

Deixara-a a dormir, enquanto ia à missa.

A igreja, do século XI, e com o exterior em pedra de ançã, é ampla, branca e bonita, por dentro.

Entra, e reza.
Reza pelo Pai que já partiu, pelo irmãozinho que falecera de febres aos dois anos, por todos os familiares e amigos que já tinham partido.

Reza pelos mortos, e reza pelos vivos.

Que os mortos estejam na Luz, a mesma Luz que sente a envolvê-la, branca e pura, acolhedora, quando reza.
Que os vivos sintam essa mesma Luz, nos momentos mais difíceis, mais escuros, da Vida, e que essa Luz os aguarde e receba no momento da partida.

Acabada a missa, dirige-se a casa.

Entra, suavemente, no passo leve que a caracteriza, e vai espreitar a Mãe.

Num misto de compreensão e mágoa, com alguma ternura, apercebe-se que ela não respira. 
Que, quando rezara pela família que já partira, o fizera também pela sua Mãe...

Encheu-se de ternura, de Amor, de tristeza e saudade, pela coincidência do dia, do momento.

Como diria, mais tarde, um dos sobrinhos, nada dado a este tipo de comentários: "O avô veio buscar a avó para celebrarem o aniversário dele..."

Hoje decidi  

Posted by Mag in

Hoje decidi.
Não me apaixonar por ti.
Não me deixar inebriar pelo doce aroma da tua pele junto da minha, que é apenas consequência do meu desejo, da minha fome de corpo, de sexo, de vida.

Hoje decidi.
Não me enamorar de ti.
Erguer muros onde a energia do teu abraço, onde o teu peito abandonado junto do meu, onde a osmose dos nossos seres um no outro constroem vias rápidas direito ao centro de mim.
Mas esbarrarão contra o meu não-querer!

Hoje decidi.
Que não te permitirei cavalgares-me livremente o sonho, aninhares-te em lembrança no meu ventre, adoçar-te o ser com devaneios de doida.

Porque nem sei sequer se sabes em que lugar do corpo te mora o coração.
Se conheces os atalhos em ti que te levam ao sítio onde o sentir é Rei, e a tua vontade se dobra perante o avassalar da onda, o inevitável mareio que é amar.
Onde deixas de saber quem és, porque te percebes tu e o outro num só e separados, no chão, sem limites visíveis. Em união e entrega.
Mas tu desconheces o abismo, temes a certeza da vertigem.

Porque desconheces, meu querido, como é delicioso saborear este passeio.

Por isso, hoje decidi.

Branco  

Posted by Fada in

O fim de tarde, primaveril e um pouco ventoso, promete uma noite fresca.
Na cozinha, ela prepara o jantar.
O telemóvel toca.

Sorri, pois sabe quem liga, e coloca o auricular antes de atender, para continuar a trabalhar com as mãos livres.

- Olá, amor... – diz, com um sorriso.
- Olá, querida... O que fazes, meu amor?...
- Estou a fazer o jantar. E tu? Onde andas?
- Eu ainda demoro um bocadinho, amor... Estás bem?... O bebé?...

Ela acaricia a barriga redonda e grande e sorri.
- Está óptimo, acabou de me dar um pontapé.

Ele sorri e pede-lhe, com voz meiga.
- Olha, fazes-me um favor?
- Hum-hum... Diz.
- Preciso que vás até ao baloiço.

Ela ri-se, com a sugestão inesperada.
- Fazer o quê? Amor, está a ficar escuro...
- Ora, faltava-me agora que tivesses medo do escuro... Anda lá, vá... Veste um casaco, que está a ficar frio, não te constipes.

A sorrir, ela vai buscar um casaco. Sai da cozinha, desce as escadas para o jardim e dirige-se ao baloiço, preso nos ramos duma nogueira antiga.

- Pronto, já aqui estou. Diz lá.
- Agora, senta-te e balança um pouquinho.

Ela ri-se, da estranheza do pedido. Mas senta-se e balança um pouco, agradada, enquanto os últimos raios de Sol desaparecem.

- Já está escuro, querida?
- Está a ficar, amor, sim.
- Então olha para a tua direita. Para o muro.

Ela vira o rosto para a parede de pedra que tinham pintado de branco no mês anterior. Ele quisera a parede branca, dizia ele, para reflectir melhor a luz do Sol no jardim.
Com o escurecer, a parede continuava a notar-se. Mas na parede, o branco não era homogéneo.
Letras, pintadas com tinta fluorescente, começaram a surgir, perante o olhar surpreso dela.
E leu:

"Esta é e sempre será a tua cor. Porque não é uma cor qualquer, é o resultado da soma de todas as cores existentes. Não é apenas o branco que é puro e imaculado, pois na verdade, tão puro e imaculado é também o preto. O preto da ausência, da falta absoluta de qualquer cor que reflita luz... E tu, meu amor, és um ser luminoso e radiante. És uma estrela com um brilho próprio tão intenso que penetra nas profundezas mais recônditas da minha alma negra e a ilumina e lhe dá cor, reflectindo e colorindo-a de uma forma deliciosa... E a irradiá-la de calor, um calor tão intenso, mas ao mesmo tempo, tão doce. Que escalda mas não queima. És pura... Imaculada...

Amo-te..."

Acaba de ler, com o queixo a tremer, e lágrimas emocionadas e felizes nos olhos.
- Amor... – suspira.

E ele surge no jardim, e ela estende-lhe os braços, e unem-se, num beijo e num abraço, terno e eterno, na noite escura iluminada por uma parede branca...

Morada  

Posted by Mag in

Estou com raiva de ti.
Ou será de mim?
Endoidece-me este já não saber o que desejo, se continuar a fundir o meu corpo no teu, impunemente (até quando?), cedendo a esta vontade primitiva de te sentir em mim, se retornar (será possível?) a um estado de amizade e de carinho sinceros que o meu peito guarda por ti.
Em que parte de ti vivo eu?
Será que ainda tenho o meu lugar no abraço de amparo, na empatia de um sorriso, na carícia de uma palavra de apoio?
Ou será que vivo agora, lasciva e sedenta, Afrodite em vestido de cetim, nos teus sonhos? No teu desejo, que dizes permanente e insaciável, por mim?
Será que cruzei sem olhar para trás o limite traçado no éter, que passei a barreira sem saber que o caminho de regresso não mais o acharia, ou será que no fundo deste caminho de avanços e recuos, neste jogo de gato e rato, ainda existe a porta cor-de-rosa que nos trará de volta, resgatados e limpos de “pecado”, à segurança do que conhecíamos antes?
Não quero que me penses só como a amante que te satisfaz os sentidos, dessas plantas tu pelos caminhos como flores que o tempo desbotou, essas mulheres que já não têm nome nem lugar na tua lembrança.
Eu quero ser mais que um encontro rápido e quente nas traseiras do teu carro.
Eu quero ser mais que o sonho que te faz suar de noite e levantar com a boca seca a murmurar o meu nome.
Eu quero que o meu corpo te ampare os suspiros e a minha alma te console as dores do peito.
Eu quero ser o arco-íris nas noites de tempestade, e o lençol que te segura na cama, e a boca que te beija as feridas e os pontos frágeis e os pontos fortes, eu quero ser aquela a quem procuras quando a vida são nuvens e quando o dia é só sol.
Quero ser a Sombra que te consome em fogo, e a Luz que te envolve em serenidade.
Por isso diz-me onde moro, diz-me que habito em ti.
Porque se não sou, por circunstância, o todo, então diz-me adeus pela janela porque me vou, cigana, de saia rodada ajustando o bambolear do corpo, pela curva daquela esquina e me engole o pó que tudo cobre e esquece…

A Cor da Ternura  

Posted by Fada in

Lembro-me como se fosse ontem...
Passaram 28 anos, e no entanto...
Há memórias que ficam...

Lembro-me do toque da barriga da Mãe, lisinha e macia, dentro da qual te aninhavas, mimado e protegido.

Lembro-me de fazer-lhe festinhas na barriga, sempre à espera que desses um pontapé, ou fizesses um movimento, para te sentir, para falar contigo.

Lembro-me de falar contigo em pensamento, e pensar se me escutavas, no teu berço materno.

Lembro-me de estar ansiosa por te ver quando nasceste...

28 anos...

O Pai levou-nos a ver-vos, quando nasceste. Rodeámos o teu berço, e eu achei que eras a coisinha mais linda do mundo... Estava curiosa contigo, e contente de já estares cá fora.
Achei-te pequenino, mas eras grande, tinhas mais de 4kgs e a Mãe estava exausta do parto... Exausta mas feliz. :)

Senti-te um menino especial, e o Tempo provou que o eras.
Senti sempre uma necessidade imensa de cuidar de ti, de te proteger, e isso revelou-se no mudar das tuas fraldas, ainda de pano com cueiro de plástico, no adormecer-te, no dar-te biberon, tarefas que revezávamos mais entre nós, meninas.

Maiorzinho, mas ainda criança, fascinavas-me com a tua inteligência incomum, com a tua delicadeza nos gestos, com o teu olhar pensativo e com a tua capacidade sobrenatural de atrair todos os animais perdidos das redondezas, fossem cães ou gatos.

Foste um adolescente giraço, com uma data de miúdas atrás de ti (pudera!!!), e tirando teres-me pregado um susto com uma "crise de sonambulismo", eras um miúdo bastante fácil de lidar...

Estranho, especial, incomum, genuíno, ... São palavras que te definem bem...

E agora... Passaram 28 anos desde que nasceste, e estás um homem feito, alto, bonitão, forte, que me inspiras vontade de te abraçar... Para te proteger, para me protegeres, para te mimar...

Passaram 28 anos, e se te pudesse pintar num quadro bonito, usaria apenas uma cor... A cor da ternura...

Parabéns, maninho... :)

Promessa na distância  

Posted by Mag in

“Promete-me que me vais invadir os sonhos esta noite – disse ela, na distância - Deixarei a cancela aberta e o coração na esquina, porque te quer bailar. Quando chegares, saberei. Cantar-me-ás à janela do rés-do-chão da alma, uma canção sem palavras, em silêncio. E eu levanto-me de perto do lume, onde te espero meio adormecida, e o teu abraço sacode-me os sentidos, abafando o coração que grita e o corpo que treme. E, juntos, fazemos amor dançando, devagar, com os violinos da meia-noite, a praia escura e a lua negra como lençol.

Prometo – disse-lhe ele, na distância.”