Home is where the heart is  

Posted by I.D.Pena

Numa noite calma e serena , Angi acordou sem qualquer razão aparente ou audível, abriu os olhos no escuro, e reparou numa minúscula luz num canto do quarto.

Era irresístivel, e de lá de dentro uma voz femenina ouviu-se:


-Pssssssss !! Segue-me.

Assim o fez, a luz aumentou iluminando uma pequena porta verde que não existia dantes, mais pequena que o normal ,  e do outro lado estava um túnel, Angi pôs-se de gatas e entrou.
Perdeu o chão, e sentiu-se a mergulhar bem fundo.
Não era água, era bem mais denso que água, e se bem que era impossivel respirar, Angi não sentiu essa necessidade.
Estava morno e suave, não se ouvia nada. Um confortável silêncio banhava-a. Maravilhosas luzes nadavam naquele mar, correntes de cores frias e ou quentes.
Angi sentiu-se chupada por aquela luz e deixou-se levar, aproveitando para contemplar todo aquele fantastico cenário.
Quanto mais perto da luz, mais claro ficava, e quente, tão quente que perdeu os sentidos.

Voltou a acordar numa sala e perto de uma lareira, não reconheceu a decoração, mas parecia estar dentro de um castelo.
Levantou-se a custo e reparou nos objectos por cima da lareira, pareciam antiguidades, uma taça com esmeraldas embutidas, e uma chave cativaram a sua atenção. Por cima da lareira e na parede uma pintura de um jovem cavaleiro, imponente.
Um espelho de ferro enorme estava do lado esquerdo, Angi não reconheceu o seu próprio reflexo, para além do mais reparou que não estava só, por trás estava alguém deitado e caído no chão...

Angi tinha morrido sem se dar conta disso mesmo.
 

Fim

Cadáver Esquisito XII  

Posted by Bruno Fehr in

Aqui ficam mais dois meios textos que se encontram a meio. Eu escrevi a primeira parte do texto (vermelho tinto) e passei à Ipsis Verbis as primeiras e últimas 3 palavras do último parágrafo (cinzento). A partir delas, ela fez a segunda parte (verde garrafa)
É mais uma forma de variar e este Cadáver Esquisito irá continuar para o mês que vem... ou não!

 

Posted by Bruno Fehr in

Nesta cidade estranha, no meio de uma cultura que ainda não consegui entender a lua tem sido a minha única companheira. Estou há 4 dias como o actor do filme "Lost in translation", estou a sofrer de um Jet Lag incrível e está a ser impossível colocar o sono em dia, pois o dia aqui é a noite no país onde moro e tenho de andar de escritório em escritório, da mesma empresa, a ser apresentado e ver os cantos à casa, e à noite não tenho sono pois é o dia de onde venho. Sinto-me a explodir de sono durante o dia e fresco como se acabasse de acordar durante a noite. Perco-me nesta cidade que como eu não dorme. Tudo é grande quer em dimensão quer em preços, tudo é extremamente organizado as pessoas extremamente disciplinadas.
Ontem durante um jantar da empresa, levantei-me para ir ao WC e quando voltei à sala estava sozinho, nem uma pessoa me esperava e eu não sabia onde estava nem a que distancia estava o meu hotel. A empregada de mesa, simpática, disse-me que o patrão se tinha levantado e deixado o restaurante e que todos os funcionários o seguiram. Ninguém comeu!
Se na Alemanha o meu patrão durante um jantar saísse, ninguém o iria seguir, primeiro a comida e o patrão se amuou que se foda. Não consigo perceber esta mentalidade e não encontro uma forma de me adaptar.
Mas nem tudo é mau o nascer do sol é lindo não sendo à toa que este é o país do sol nascente.

"Mas nem tudo (...) do sol nascente."

E foi assim que, depois de voltar para casa. Depois de me encontrar à frente do computador,  o meu fiel companheiro de longas viagens (tanto físicas; quando viajava por motivos de trabalho, para fora, como mentais, quando viajava sem sair do lugar) que me decidi a escrever as minhas memórias.
E eram estas últimas viagens, as mentais, ( um dia à saída do metro, alguém me deu um panfleto sobre um workshop onde explicavam e ensinavam como fazer viagens mentais, sendo esta técnica conhecida desde a antiguidade por personalidades como Cícero e Platão. Eu fui) que me iriam dar memórias e ideias para o que iria escrever a partir de então.
O simples facto de poder fazer o que quisesse, sem que isso afectasse tanto o meu corpo como a minha vida, era fantástico.

Continuará no próximo cadáver esquisito... ou não.



Resíduos tóxicos e outras coisas redundantes  

Posted by LBJ in

-Bom dia posso entrar?
-Faça favor e faça favor de se sentar ali naquela cadeira de pé ao alto.
-Eu preferia ficar de pé se não se importasse?
-Na verdade importo-me porque seria indelicado da minha parte obrigar tão gentil criatura a ficar de pé quando existe assim disponível assento e olhe que é confortável.
-Pois percebo o seu ponto de vista mas não queria abusar da sua hospitalidade e ficando de pé mantenho a postura.
-Pois… Não sei que lhe diga, talvez lhe possa ao menos oferecer algo para beber, um refrescante ou um digestivo ou algo mais forte.
-Não por favor não insista, não posso de modo algum chegar aqui e sentar-me a beber das suas bebidas e algo mais forte poderia tolher-me o raciocínio, eu reajo mal a bebidas brancas.
-Tenho whisky, é amarelado ou dourado, já não seria branco embora o teor de álcool seja parecido.
-Não gosto muito do cheiro, enjoa-me, embora se for velho e maltado o consiga suportar, mas arranha-me a garganta e tendo a fazer caretas o que poderia ser mal interpretado dadas as circunstancias.
-Na realidade um liquido dificilmente pode arranhar, é tudo uma questão de percepção, os nossos sentidos iludem-se nestas coisas e depois eu nunca teria a ousadia de interpretar de forma errada uma expressão facial por muito esgar que ela demonstrasse, seria presunção da minha parte tentar entender algo que ultrapassa ao seu controlo.
-Mas não deixaria de ficar a pensar sobre o que pensaria de mim e da forma como não me consigo controlar, imagine que ficava a pensar que era incontinente e que de repente me podia ter mijado.
-Isso talvez se fizesse notar doutra forma, mas depende da incontinência, às vezes há apenas umas gotas que se escapam e poderão ser absorvidas pelo próprio tecido da roupa interior, também pode acontecer uma situação mais dramática e fluida que acabe por escorrer pelas pernas abaixo.
-Eu uso peças bastante absorventes mas claro que tudo tem o seu limite e a capacidade de absorção não é ilimitada, mas penso que no caso de fluidez visível poderia também notar um certo odor almiscarado, é que eu gosto de comer doces.
-É pouco provável porque tenho falta de olfacto, embora por exemplo as marcações dos gatos me deixem louco.
-Os gatos tem realmente essa particularidade, sobretudo se existem vários machos há a questão dos territórios.
-É por isso que gosto mais de cães e as questões territoriais são sempre importantes, sobretudo se faltam recursos, como a água e terrenos férteis.
-É verdade a falta de água é um problema incontornável do nosso tempo e creio que se irá agravar com esta nossa mania de usar e abusar e a poluição só piora.
-Eu tento reciclar e contribuir com a minha parte mas sei que não basta e temos mesmo que sensibilizar os outros.
-Sim tem toda a razão se não nos acautelarmos chegaremos a um ponto que será tarde de mais.
-Eu sempre digo que nunca é tarde, se for preciso mantenho a porta aberta até haver gente que queira entrar porque isto não está fácil e cada vez há menos dinheiro para gastar.
-A quem o diz, quando chego a meio do mês já começo a imaginar que ainda falta e pouco sobra.
-Porque se calhar não racionaliza ou gere mal a coisa, às vezes pequenos gestos somados, resolvem grandes obstáculos.
-Eu bem tento mas não consigo e acaba por ser superior às minhas forças.
-Pois a falta de força deve de ser tida como um sinal… Mas diga-me o que pretendia afinal?
-Três repolhos e um molho de cenouras.
-Isso é ao lado, aqui é um escritório de advocacia.

Laranja  

Posted by Fada in



Ela respira fundo, cansada mas animada.
A noite anterior fora passada a preparar o dia de hoje, a fazer lembranças, a arrumar as camas para o pessoal que ia ficar a dormir.
Já tinham começado a chegar, família e amigos, para a festa combinada no ano passado e organizada por ela.

Todos os anos, faziam a “festa da família”, em que os amigos mais íntimos de cada uma eram convidados a juntarem-se.
Todos os anos, calhava a uma delas a organização do evento, a preparação das lembranças, arranjar dormidas, combinar o restaurante.
Não era fácil, mas era por uma boa causa.

O Tempo e a Vida tinham-nas separado fisicamente, e com os sucessivos casamentos e alguns divórcios, tinha-se tornado difícil juntarem-se todas nas festas mais comuns de Natal e Páscoa ou férias. Daí, tomaram a opção de, uma vez por ano, em local diferente, juntarem-se todas para conviverem e partilharem um fim-de-semana.


Lara vai para a porta do Hotel onde vai decorrer o evento.
O dia acordara solarengo e outonal: o vento soprava fresco e as árvores soltavam as folhas castanhas e amarelas e douradas e laranjas e vermelhas.
Do outro lado da estrada, abóboras-menina e chila estavam empilhadas junto a um espigueiro cheio de maçarocas secas de milho.

Na serra, o Sol desenha sombras de nuvens velozes nas manchas de verdes dos pinheiros e abetos e dos castanhos e amarelos dos carvalhos e de alguns castanheiros mais precoces.

Automóveis surgem na estrada de acesso ao Hotel, e param no estacionamento reservado.
Mulheres, homens, crianças, saem dos carros, em saudações excitadas e alegres que a comovem. Tem saudades de todos.

Dirige-se a eles, e abraços e beijos são trocados.
As irmãs chegaram mais cedo.

Ana, com calças de ganga e uma camisola azul-escura, prática e quente, com o seu medalhão de lapis-lazúli e sodalite ao peito, como sempre. Vem com o marido, que Lara considera uma besta apenas suportável por amor à irmã.

Celeste, de blusão de neve azul e as calças de ganga mais desbotadas que ela já vira. E, claro, o anel de água-marinha, inseparável dos seus dedos. Traz com ela o filho, que corre para ela para a abraçar.

Flávia, cujos caracóis dourados combinam com o casaco preto bordado com girassóis amarelos, que ela própria fizera. Traz o namorado, que lhe dá a mão e não a larga por um momento, que a adora e acarinha sem vergonha nem pudor.

Os abraços e os beijos sofrem uma ligeira interrupção com a chegada de mais dois veículos.

Dum todo-terreno, sai a figura elegante e ruiva de Vera.
Lara dirige-se a ela, e abraça a amiga terna e demoradamente.
Vera vem sozinha, e Lara sabe o quanto lhe custa estar ali, naquele local, após a morte do marido. Mas Vera vem por ela, pelas amigas, pelo conforto dum abraço da irmã-de-coração.

Dum Ford Cortina com mais de 30 anos, sai a figura atlética e engraçada, quase hippie, de Vitória, com uma nova amiga.

O garoto corre na direcção dela.

“Viiiiiiiiiiiiiiiiii!”, grita, enquanto se lança nos braços da prima que ele adora.

A saia comprida e arroxeada dela esvoaça quando segura no garoto e o levanta no ar, fazendo-o rodopiar com ela, em risos e beijos.

Ana observa as recém-chegadas.
Sente um aperto no peito quando vê Vera, sente-lhe o sofrimento da viuvez, sente a vida dela por um fio.
Dirige-se a ela, para a cumprimentar e abraçar.

Vi interrompe-a, chamando-a.
“Ana, esta é a Carmo.”, diz, apresentando-lhe a nova amiga.

Ana olha para ela. Uma miúda loira, atraente, simpática, com uma camisola vermelha de lã. Um sorriso simpático e fresco. Jovem, ainda.
“Conhece”-a de algum lado, mas não se recorda de onde.
Cumprimenta-a, educada, mas com a sensação de que algo não está bem.

Mais veículos se aproximam, mais gente chega, e os cumprimentos e os risos e os abraços brilham no sol do meio-dia.

Lara observa, sorrindo, a confusão instalada. O sobrinho e os primitos mais novos já se empoleiraram nos baloiços do parque infantil, já correm e riem e gritam.
Os adultos conversam e convivem, animados e alegres.

Lara respira fundo.
Está cansada, é certo, mas o facto de ter com ela, durante um fim-de-semana inteirinho, as irmãs, as primas e as amigas, compensa todo o cansaço e toda a saudade.

Chama-os, sorridente: “Vamos para dentro?...”.

E caminha, de braço dado com Vera, a ponderar, mais uma vez, o quão rica era pela família de sangue e de coração que tinha.

Grito  

Posted by Jane Doe in

"Porra, vai-te embora! Já chega! Se não queres estar aqui, se não me queres ouvir a chorar, vai-te embora! Eu sei que tu queres ir embora, mas porque não vais já? Tens pena de mim? Tens pena deste corpo? Tens pena destas cicatrizes? Elas não se vão embora por ti! E tu não me vais impedir de nada! Chega de estares aqui só porque eu preciso, porque estupidamente tu tens medo que eu me corte! Mas afinal qual é o teu problema?!!!"

Ela está nua à minha frente. A chorar, com o seu longo cabelo negro colado ao seu rosto perfeito. E eu consigo olhar para ela. Para aquele corpo, salpicado de cicatrizes. E realmente eu quero ir embora, como ela diz. Mas não consigo. É demasiado paralisante ver alguém assim, quanto mais ela.
Eu não sabia destas cicatrizes. Descobri há muito pouco tempo. E não sei, não faço ideia porque o faz. Mas sim, eu quero ir-me embora. Ainda assim não consigo mover um pé. Agora a única coisa que nos separa é o seu grito de silêncio, que eu consigo ouvir até ao âmago da minha alma. E eu acabo por querer dar um passo em direcção a ela, mas o seu grito mudo impede-me. Enche a sala.

E ela fala uma vez mais.

"Agora, o teu único caminho é voltar atrás. Este monstro não é partilhável!"

Eu não entendo, mas acho que na cabeça dela está um monstro e não uma mulher. E volto a tentar dar um passo. E volto a não conseguir.

Sem ter qualquer outra opção... Volto atrás.
O Grito mudo estilhaça os vidros da sala, que se espetam nas minhas costas.