Cadáver esquisito II  

Posted by ipsis verbis in

O escritor.

Pensei primeiro em fumar um charro. Mas não tenho nada aqui em casa, e depois dava-me para ter a mania da perseguição... O que pensando bem até podia dar um grande policial,
ou thriller... Bah... Veio-me à ideia o vinho de mesa que está no frigorífico. Mas já deve ser vinagre, ou sempre foi... ou lá o que é... Tenho que conseguir escrever algo de jeito! A editora depende de mim, e eu dos meus leitores. Estou sem vontade de pensar em merdas que outros já pensaram. Ler um livro de outro escritor é demasiado irónico. Não quero isso... ai as horas! Acho que vou fazer um chá para acalmar... porra! Agora não me sai da cabeça o Lewis Carrol... A Alice e o Coelho...

Ahahaha... estou maluco e a minha vida não é mais que um manicómio gigante, onde sou escritor de contos estranhos para crianças!

Estranhos não, porra! Os meus contos são normais, as crianças é que são estranhas, escrevo mesmo para as irritar, pois elas irritam-me! "Eu quero isto, eu quero aquilo", ahhhh, odeio pedintes, pior pedintes exigentes, "queres? vai trabalhar". Sim e porque não? Tenho uns ténis giríssimos, Adidas made in China, que foram feitos certamente por criancinhas. Bolas, os ténis estão muito bem feitos, bem melhores que aqueles desenhos sem nexo que os putos que eu conheço fazem! Odeio, que numa da minhas sessões de autógrafos imaginárias, venham aqueles pais babados, dizer: "O meu filho adora os seus contos e fez este desenho para si". Olho para o desenho e vejo um sol a rir, uma árvore e uma casa. Tudo torto e uns bonecos cabeçudos que representam alguém, que não me interessa quem são. São monstros. Dá-me vómitos.

Aceito e calo-me, querendo dizer, "espero que o seu filho tenha mais sucesso a fazer betão num obra pública, pois a arte não é com ele".

Viro costas e sinto um enorme "plim" dentro de mim. E se alguém naquele momento tivesse o dom da visão imaginária, veria em cima da minha cabeça, uma enorme lâmpada a brilhar. Todo eu era ideias. Todo eu tremia com a vontade de passar para palavras o que me soluçavam as imagens que ia construindo mentalmente. Saio dali a correr, para não me esquecer de nenhum pormenor. Na rua quase que consigo ouvir o "tlec tlec" das teclas do computador, com os meus dedos a pisar cada letra e a passar para o monitor as palavras, as frases e a fantástica ideia que aquele encontro estúpido tinha provocado. Não consigo parar de rir por me apetecer gritar "Eureka" no meio da avenida em pleno dia e compleamente sóbrio. Quase que me vejo já sentado a escrever a minha obra prima. O meu Nobel... e tropeço no poste que, alguns metros antes (posso até jurar) estava mais para o lado direito. Endireito-me e continuo a correr. Mais calmo, sentia agora o vento na cara. Ouvia todos os barulhos da cidade e já não ouvia o "tlec tlec" do teclado.

E a correria mantinha-me mais atento às pessoas, que não se desviavam da frente para me deixar passar, que à minha imaginação.

A minha imaginação corre, corre como corro eu. Olho para as pessoas e só vejo potenciais histórias para o meu próximo livro. Metade das gajas parecem-se com a fada Sininho, a puta é boa, canita mas boa. Apetece-me espancar todas as pessoas que se parecem com o Peter Pan, mas são tantos. Ahahahahahaaha. "Saiam da frente, o Capitão gancho vai a passar". Paro. Bati de frente contra uma velhota. Ela está no chão e não me parece em bom estado. No entanto não consigo parar de rir. Escuridão... Onde estou? Ao abrir os olhos parece que o tempo parou por momentos. Lembro-me de estar na rua, a rir de uma velhota aos gritos no chão e agora estou aqui. Mas onde? Estou vestido de branco. Chão branco. Paredes brancas. Tecto branco. Tudo é branco e almofado. É um quarto verdadeiramente acolhedor e confortável. Mas este fato que me vestiram, não dá grande jeito, a camisa obriga-me a abraçar o meu próprio corpo, não tenho liberdade de movimentos. Ouço um som. Uma pequena gaveta abre e um prato de papel, com uma papa estranha desliza para o interior do quarto, mas sem talheres.
"Hei", digo eu.
"Sim?" responde uma voz do outro lado da porta.
"Como é suposto eu comer com as mãos presas?"
"Com a boca!", responde a voz em tom de ironia.
"Precisa de mais alguma coisa?", diz a mesma voz.
"Sim, por acaso preciso"
"Diga lá, que eu vejo o que posso fazer"
"Coça-me os colhões"
A voz não responde. A pequena gaveta fecha e eu, rio, rio perdidamente, ouvindo o meu eco ao longe, em segundos ouço muitas outras gargalhadas, de felicidade incontrolável como a minha.


FIM

This entry was posted on segunda-feira, novembro 24 at segunda-feira, novembro 24, 2008 and is filed under . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

24 Devaneios

A primeira e segunda parte ainda foram ligadas de uma maneira aceitável, mas a terceira já não faz sentido e a quarta então, é o descalabro total. ahahahaha

24 de novembro de 2008 às 22:40

Ahahaha... e gajo é bipolar. Só pode!

24 de novembro de 2008 às 22:45

Fazem sentido sim. Mas eu já li isto não sei quantas vezes. Ahahahah.

24 de novembro de 2008 às 22:47

Acho que tenho de ter mais duas dúzias de vezes...

24 de novembro de 2008 às 22:49

Para 3 transições nem saiu nada mal. Basta pensar que o gajo é bipolar :)


Se permitem a minha opinião, achei mais interessante isto escrito com 3 transições do que com 1 apenas como foi no primeiro texto...

24 de novembro de 2008 às 23:22

afectado, opinião permitida :) Foi por isso mesmo que decidimos que iria haver mais do que uma transição neste texto.
Para o próximo escreveremos do fim para o princípio e da direita para a esquerda. Ahahahah

24 de novembro de 2008 às 23:26

e em mandarim...

24 de novembro de 2008 às 23:28

"Para o próximo escreveremos do fim para o princípio e da direita para a esquerda. Ahahahah"

Ahahahahahaha, ou à Da Vinci, revertido e invertido, obrigando a malta a ter 2 espelhos junto ao pc!

24 de novembro de 2008 às 23:34

afectado e crest:

Excelentes ideias para umas férias passadas a escrever. Ahahaha

24 de novembro de 2008 às 23:39

Eu achei muito lógico e bem interligado, sim!

A interligação da insanidade.
Qualquer louco poderia ter escrito essa história, estaria perfeita!
Lol.

Continuem, estão cada vez melhor!

;)

25 de novembro de 2008 às 01:11

;)

25 de novembro de 2008 às 10:28

Excelente!! E os textos têm uma ligação excelente...nada complicada...

Muito bom!!
Beijinhos
P@pinh@

25 de novembro de 2008 às 10:52

AHAHAH adoreiiiii , ahahah, boa também chamo a isso de felicidade :DDDDD

Ahahah a queda ahah parece-me que já vi isto em qualquer lado loooooool

Ahahhahah

25 de novembro de 2008 às 14:00

Mas não frita. LOOOOOOOOOOOOOOOL

25 de novembro de 2008 às 14:02

até faz sentido... se considerar que se trata da mente de um doido... :D

alguem que tem rasgos de consciencia...e noutros momentos divaga por mundos imaginarios...

25 de novembro de 2008 às 14:17

Pax disse:

"Eu achei muito lógico e bem interligado, sim!"

Eu também :)

25 de novembro de 2008 às 21:59

yargo disse:

";)"

(;

25 de novembro de 2008 às 22:00

Papinha disse:

"Excelente!! E os textos têm uma ligação excelente...nada complicada..."

Isso é excelente :) Obrigada.

25 de novembro de 2008 às 22:01

I.D.Pena disse:

"Ahahah a queda ahah parece-me que já vi isto em qualquer lado loooooool"

Conta, conta! :)

25 de novembro de 2008 às 22:02

I.D.Pena disse

"Mas não frita. LOOOOOOOOOOOOOOOL"

Também me queria rir :|

25 de novembro de 2008 às 22:05

ceptic disse:

"alguem que tem rasgos de consciencia...e noutros momentos divaga por mundos imaginarios..."

Exactamente. :)

25 de novembro de 2008 às 22:06

Querida Ipsis a coerencia na incoerência é algo que só pode ser experienciado :)

26 de novembro de 2008 às 18:40

Crest© disse...

"Ahahahahahaha, ou à Da Vinci, revertido e invertido, obrigando a malta a ter 2 espelhos junto ao pc!"

:D Aguardo por isso!!!

26 de novembro de 2008 às 18:44

Provavelmente não bato bem, mas eu só li uma vez e achei qe fazia sentido... :)

O sentido da loucura ou a loucura sentida...

Beijitos

26 de abril de 2009 às 21:15

Enviar um comentário