Entro hoje pela primeira vez nesta prisão de palavras e esmaga-me a presença de todas as outras que aqui se encerram.
Trago comigo muitas palavras que se agitam na sua vontade, que me sossegam os temores, que dizem saber o que dizer, que sabem o que irão contar. Sou apenas o seu portador, sem razão de posse ou competência para as dominar deixo-as tomar consciência deste espaço que agora também lhes pertence.
Trago comigo palavras belas, que querem falar do mar e das gotículas de espuma que flutuam quando ondas suaves abraçam praias solarengas e dos carpelos das flores e do ponto de brilho nos olhos de uma paixão ou da forma como se pode simplificar um sorriso de uma criança. Palavras que possuem a capacidade de se nos enroscar como gatos e transportar para uma ponta do arco-íris sobre pequenos raios de luz que penetram o cheiro da alma deixando-nos ébrios na alegria de ser feliz, por uma outra vez e sem nenhum outro porquê.
Trago comigo palavras de atitude, que querem expressar a sua força, arrancar uma lágrima, alertar sentidos, arrepiar vontades, potenciar os verbos, contar de como nos vão influenciar o momento seguinte. Palavras que nos podem prender em promessa ou libertar em resolução, que são, que tem, que podem, que fazem e que não nos deixam na indiferença, que mexem nas pequenas coisas que nos precipitam na avalanche do abraço das grandes causas.
Trago comigo palavras cruas e feias, que expõem raivas e falam da morte e de dor e de incómodos e da crueldade de sermos por vezes somente carne sem espírito, descrevem desesperos e a angustia do precipício e do detalhe da vertigem na hora de pressionar o gatilho, de entranhas e sangue e nojos que nos estupram os sentidos e arrepiam em desassossego. Palavras que gostaríamos de esquecer, mas não podemos esconder, que se colam na memória e mecanizam as sinapses emocionais.
Trago comigo palavras que relacionam pessoas, que falam de namoro e de paixões e que sonham o amor, que falam de encontros entre anjos caídos e demónios ascendidos, dos pormenores da luxúria, da humidade que existe na ponta duma língua que toca no centro de prazer do outro, de preliminares, do durante e do finalmente e do roçar de corpos na noite infindável, sobre uma lua, uma estrela ou simplesmente debaixo da vontade do desejo.
Trago comigo palavras que contam histórias, que se aventuram pelos caminhos dos enredos, que se enleiam em tramas, nos tiram o ar em suspense, que cruzam pessoas e lugares e outras pessoas e outros lugares, reais e imaginados, em passados, presentes ou futuros. Palavras que se misturam em narrações de longas viagens ou pequenos quotidianos, palavras que descrevem o efeito borboleta de um instante ou do arrastar de uma vida.
Trago comigo palavras de graça e ritmo, que rabiscam incoerências de sentido, imaginações de louco delirante e formas de provocar sorrisos e riso e a pureza do inesperado da gargalhada. Palavras jocosas, maliciosas e libertinas, soltas e sem controle, frenéticas e alheias de maldade, que falam da interacção de elefantes travestis e pinguins budistas e das razões culturais que levam a que o melhor local de Portugal para limpar as fossas nasais ser a A1 e das quinze formas expeditas de arregaçar o pito em período de regras ou após a ingestão de doses maciças de tulicreme.
Entrei hoje nesta prisão carregado de palavras, com responsabilidade de as prender, mas sem me aperceber deixei que me dominassem e elas lêem-se livres na compreensão de quem as liberta e entendo agora o meu destino, esta não é uma prisão de aprisionar palavras, esta é uma prisão de palavras e serei eu para sempre o seu prisioneiro.
Nota: Os meus posts, têm normalmente uma musica que os completa, por aqui essa regra não se aplica, mas deixei uma canção no meu antro e se vos apetece podem lá ir ouvir, não tem nada que ver com o texto e não sei se vos compensa o trabalho, mas vós é que sabeis…