Branco Imenso  

Posted by Maya Gaarder

Branco.
Um branco imenso até perder de vista.
Não gostava de neve, nunca gostou. Aceitou ir na viagem porque, bem, foi ideia dele, aceitava sempre tudo que era ideia dele. Tentou fazer-lhe ver que irem por ali não era sensato, vinham a ouvir na rádio que a tempestade tinha bloqueado as estradas, os avisos eram claros, os automobilistas não deviam tentar sequer atravessar a serra. E o carro deles não estava de todo preparado para aquelas condições. Claro que ele não a ouviu, e olhou-a da forma que sempre olhava quando ela fazia algum comentário que o contrariava. Por isso manteve-se calada quando ele passou as barreiras que fechavam a estrada e começaram a subir a serra. Ficou com medo que ele se enervasse, não gostava quando isso acontecia, sobretudo dentro do carro. O espaço era demasiado pequeno e o rosto dela ficava ali, mesmo ao alcance do punho dele.
Aguentou em silêncio o pânico que começava a apoderar-se dela, de cada vez que sentia o carro perder a aderência e a deslizar na neve. Tinham já passado várias horas desde que romperam as barreiras e começaram a subir a serra. Já há muito tinha deixado de ver o alcatrão, apenas neve, um manto imenso branco e escorregadio. Deixaram de ver casas também e agora começava a escurecer.
A altura do dia que ela mais detestava, o lusco-fusco, quando as cores se esbatiam e as sombras começavam a tomar forma. Ela conhecia bem as sombras, sabia bem o que se escondia nelas, e era nesta altura que consegui ver os contornos daquilo que apenas conseguia adivinhar na escuridão. O que ele rira quando lhe contara do medo que tinha do escuro, uma mulher adulta que dormia com as luzes acesas. Tentou curá-la do medo, terapia de choque, dizia ele, enquanto a fechava à chave no quarto com as luzes apagadas. O pai tentou fazer o mesmo quando ela era ainda miuda, e os irmãos, bem, esses divertiam-se com o pavor dela de cada vez que a fechavam num sítio escuro. Tanto o pai como os irmãos acabaram por desistir e aceitar o medo dela. Ele não, achava ridículo, e tinha ainda na testa a cicatriz que ele lhe deixara da primeira vez em que aceitou que o filho deles dormisse com a luz acesa. Acusou-a de incutir na criança os medos dela, talvez tivesse razão, era medrosa e fraca, e talvez estivesse a passar isso para o filho. Mas por outro lado, e se não fosse isso. E se o filho visse no escuro o mesmo que ela, como podia deixar que lhe fizessem a ele o que lhe fizeram e ainda faziam a ela ? Aquelas criaturas odiosas que apareciam sempre que as luzes se apagavam. Por isso levantou a voz e tentou fazê-lo ver que era normal deixar o miúdo dormir com a luz acesa, e por isso também ele levantou o braço e lhe bateu, a primeira vez. A primeira de muitas.
Manteve-se calada apesar do perigo, apesar de temer, por ela e pelo filho que dormia placidamente no banco de trás. O carro derrapou mais uma vez, a traseira deslizou e ela não emitiu um único som enquanto via o esforço dele para controlar o carro. Queria pedir-lhe para parar, para ficarem ali, tinham mantas na mala. Podiam esperar pela manhã, até que alguém viesse limpar a estrada. Tinham comida, também, podiam esperar. Mas nada disse.
- A culpa é tua sabes ? Se não insistisses para que almoçassemos antes de começar a viagem, tinhamos evitado isto. Já estávamos em casa se não fosse por ti e pelos teus queixumes estúpidos.
A culpa era dela, claro. Não o contrariou, mas o silêncio já não resultava, via pelo perfil dele que estava naquilo que ela chamava “full swing mode”, os lábios comprimidos, a veia que pulsava na têmpora… encostou-se o mais possível à porta, fora do alcance. Não foi o suficiente, o golpe veio tão rápido que não teve tempo de se desviar, acertou-lhe em cheio na face. Apesar da dor, sorriu interiormente enquanto pensou… amanhã vou ter que redobrar no blush, este vai deixar marca.
A distracção foi o suficiente para que perdesse completamente o controlo do carro, que começou a rodopiar pela estrada, em camâra lenta, cada vez mais próximo do precipício, até que parou, com as rodas do lado do condutor penduradas na berma. O carro suspenso num abismo enorme, todo branco, do qual não conseguia ver o fim.
- Não te mexas!! Ouviste, não te mexas, se te mexes desiquilibras o carro e vamos por aqui abaixo.
Mas ela mexeu-se, cuidadosamente, tirou o filho do banco de trás. Bem devagar, enquanto sentia o carro oscilar, abriu a porta, pôs primeiro um pé e depois o outro no chão, no chão firme. Bloqueou o som da voz dele, que lhe ordenava, pedia e depois implorava que não se mexesse. Num gesto só, atirou-se com o filho nos braços para o chão. Foi o suficiente para que o carro, depois de perder o ponto de equilíbrio, caísse na ravina. Ficou ali, sentada no chão frio, coberto de neve, enquanto o carro rebolava pela encosta, enquanto o ouvia gritar. Até que de repente, o silêncio, a vozinha do filho que lhe perguntava : O que aconteceu mamã ? Onde estamos ?
- Nada, filho, não aconteceu nada. Dorme, encosta a cabecinha e dorme. Vai ficar tudo bem. Nós vamos ficar bem.
Levantou-se e com o filho no colo, começou a longa caminhada até à aldeia mais próxima. Bem, eles iam ficar bem.

This entry was posted on segunda-feira, janeiro 17 at segunda-feira, janeiro 17, 2011 . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

2 Devaneios

Adorei este conto, quantos de nós não vivem assim, à espera do momento de serem finalmente livres? parabéns... bjs

18 de janeiro de 2011 às 17:32

Pois vão, vão ficar bem.

Muito bom!

Beijitos :)

19 de janeiro de 2011 às 00:04

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