Mulher de Azul  

Posted by Bruno Fehr in

E quando não sabemos o que vemos? Se é que vemos!

O meu nome é Santiago. A minha vida corria bem. até "ela" ter aparecido. Corria tudo tão bem, que me dei ao luxo de largar o meu bem remunerado emprego e iniciar um trabalho por conta própria. A minha primeira empresa cresceu e vendi-a antes do mercado ficar saturado de concorrência. Abri a segunda e fiz o mesmo, esta segunda faliu 4 meses após a ter vendido. Fazia investimentos seguros e lucrativos, até ao dia em que apostei tudo no cavalo errado, inexplicavelmente perdi. Investi tudo o que tinha num novo projecto que faliu. Na mesma altura estive envolvido em 4 acidentes de automóvel, com a destruição total de dois carros e mais 2 acidentes menores. Fiquei na estaca zero, só com o meu carro acabado de comprar e ainda não pago e a minha casa, mas sem fontes de rendimento. Tudo passou a correr mal, a cada passo cometia um erro.
Foi nesta fase que tudo acabou com a minha namorada. Por mais que tentasse tudo falhava. Recebia mensagens de alguém que parecia saber da minha vida mais do que eu. Parecia que todas as portas se estavam a fechar e o mundo a desabar.

Dias antes desta minha fase ter começado, tive um sonho, com "ela":

Acordo em sobressalto, levanto-me e vou à casa de banho urinar. Enquanto urino, olho para trás e vejo um vulto azul com formas femininas, que flutua rapidamente na minha direcção. Antes de ela chegar a mim, acordo novamente e após acordar, acordo realmente. Ou seja eu acordei num sonho continuando a sonhar, tendo acordado ainda sonhando, até que acordei. Este sonho perturbou-me.

Após ter reconhecido a minha derrota financeira e sentimental, os sonhos pioraram.

Ao adormecer, acordava dentro dos meus sonhos e não me conseguia mexer, estava gelado, não mexia mãos, pés, nem conseguia falar. Nada. Lutava para recuperar controlo do meu corpo. Estes sonhos repetiram-se até eu aprender a forçar o meu acordar. Lembro-me de quando sonhava isto, pensar "acorda, acorda, acorda", enquanto forçava os movimentos. Assim que algo no meu corpo se mexe, acordo. Aprendi assim a sair dos sonhos, a fugir deles. Ainda hoje consigo forçar o meu acordar, consigo interromper os sonhos que não me agradam, acordando consciente de que fui eu que decidi acordar.

Certo dia, algo mudou. Acordei dentro do meu sonho, deitado onde adormeci, com o mesmo vulto azul em cima de mim a estrangular-me. Era a mesma forma feminina, com longos cabelos ondulados que ria histericamente. Não lhe via a cara era um fosso negro, nem conheço ninguém com um cabelo assim. Parecia ser uma mulher na casa dos 40.
Lutava por me mexer, enquanto me sentia sufocado, não conseguia falar, com esforço pronunciei uma palavra, "não", ela largou-me e eu acordei.

Perturbado, contei ao meu pai, que é uma pessoa que diz, "eu não acredito em bruxas mas que as há, há". A minha avó soube através do meu pai, ela é ainda daquelas que acredita em maus-olhados e bruxedos. Fez-me um teste antigo, de identificação de mau-olhado. O teste consistia no seguinte; encher uma malga se sopa com água e deitar-se um pouco de azeite. O Azeite, não se dissolve em água e tem tendência a juntar-se num só ponto e isso segundo ela, significa que está tudo bem. Quando o azeite se junta em vários pontos (inúmeras bolinhas), isto significa que há mau-olhado e resolver-se-ia com umas rezas antigas que ela conhece.
Eu não acreditava em nada disso, mas já que a fazia sentir-se melhor, deixei-a fazer o teste na minha presença. Os resultados foram fascinantes, o azeite em contacto com a água não se juntou, nem se separou, simplesmente desapareceu. A minha avó entrou em pânico, com o nível de mau olhado que aquilo significava. Eu fiquei incrédulo, pois o azeite não se dissolve em água.

Durante uma semana mal dormi, não queria adormecer tal como a actriz no filme "Pesadelo em Helm Street", durante essa semana a minha avó fez o mesmo teste acompanhado de rezas religiosas, até que um dia, o azeite se juntou e deu normal.
O meu pai perguntou-me se tinha voltado a ter esses episódios e eu respondi a verdade, que não. Ele disse-me, tudo isso foi resolvido. Achei melhor não perguntar como, pois sei que não iria gostar da resposta.

Na noite anterior à minha partida e quase um mês sem esses episódios, esse vulto negro e o meu congelamento do corpo voltou. Desta vez senti dor, como se o meu coração estivesse a ser arrancado do meu corpo, uma dor indescritível. Aí fiquei com a certeza que não era um sonho, acredito ainda hoje que não estava a dormir, estava sim naquela fronteira entre o consciente e o sono.
Tentei racionalizar, que os episódios paranormais são truques da mente. Eu andava, preocupado, nervoso, stressado e cansado, pois dormia pouco. Para mim essa era a explicação.
O que é certo é que passados 4 anos do meu afastamento daquela cidade e apesar de ter fazes mais stressantes e com menos descanso, isso nunca mais aconteceu, o meu azar passou e tenho uma vida normal com resultados positivos a nível profissional, pessoal e sentimental.

Sei que o meu trabalho, o meu sucesso, as minhas namoradas e o meu estilo de vida eram motivo de invejas, intrigas. De volta e meia tinha alguém a falar negativamente de mim nas minhas costas. Na minha vida sempre ouve lendas sobre mim, que pairavam como dúvidas, coisas que nunca me preocupei em confirmar ou negar, pois sempre me senti superior a intrigas. Combatia tudo isso vencendo as minhas batalhas diárias.

Tudo poderá ter uma explicação lógica.
Tudo poderá ter sido a minha mente a pregar-me partidas.
Tudo poderá ter sido uma acumulação de tanto mau karma, transpirado por certas pessoas.
Tudo poderá não ter qualquer tipo de explicação lógica.

Percebi a Lei de Murphy que diz que "quando alguma coisa pode correr mal, vai correr mal", quando pensamos que tudo corre mal, pode ainda correr pior.
Temos é de compreender, quando devemos de usar a nossa pouca força que resta, para lutar ou fugir.
Já que estamos a cair, não vale a pena lutar contra a queda, pois ela é inevitável. Devemos deixar-nos ir, guardando as forças que ainda temos, pois ao chegar ao fim do poço, só existe um caminho e esse caminho, é para cima. Lutar para voltar à superfície e não parar aí. Para um dia podermos olhar de cima para baixo, sobre todos esses sentimentos de inveja insignificantes, que depois já não nos atingem.

Sei que nada disso me voltará a atingir, pois essas pessoas são como moscas.

Esta noite acordei a meio do meu sono. Abri a janela e estava um frio horrível com um leve manto de neve que cobria tudo. Fico a observar o rio, coberto por um manto de nevoeiro. A certa altura algo despertou a minha atenção, do meio do nevoeiro observo algo que me é familiar.
Um vulto de mulher, vestida de azul, que lentamente saía do nevoeiro, aproximando-se de terra.
Não estava a dormir, nem dormi mais. Ela encontrou-me...

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26 Devaneios

Creepy!

11 de dezembro de 2008 às 01:54

:) este está muito fixe!

11 de dezembro de 2008 às 04:10

As bruxas só existem para quem acredita nelas.
Nem existe sobrenatural. O que existe é um ou outro natural que ainda não conseguimos explicar.

Ainda descobriremos muito mais sobre o poder da nossa mente/cérebro. A julgar pela quantidade de coisas que não conseguimos compreender ou justificar, ainda estamos muito no inicio da nossa própria evolução.

:)

11 de dezembro de 2008 às 11:02

uhhhhh creepyyyy!!!

11 de dezembro de 2008 às 11:34

Assustador!

=]

11 de dezembro de 2008 às 12:17
Anónimo  

Pessoalmente adoro estas histórias se bem que seja uma céptica nas crenças populares, acho que são desculpas, mas é sempre interessante e imprevísivel os caminhos do subconsciente.

Apreciei a personagem principal deste texto pois é "invadida" de uma forma figurada, por vários estados de espírito.

Muito perturbante. Espero que tenha uma continuação.



Princesa Mononoke

11 de dezembro de 2008 às 14:40

UIiiii, sabes o que me assusta mais?... é que, tenho esta coisa de acreditar que todos pomos um pouco de nós naquilo que escrevemos, mesmo que seja ficção... :D ;-)

Ultimamente tenho pensado muito no sobrenatural. Ou melhor, no facto de não acreditar no sobrenatural. E de estar farta disso, de não acreditar. Mas descobri que acredito em algo melhor: que existem explicações que a mente humana não abarca.

11 de dezembro de 2008 às 20:40

E nem me fales em Elme Street, que andei a ter pesadelos à conta disso...

Engraçado, acontece-me muito sonhar que estou a sonhar. E saber, tanto no sonho dentro do sonho, como no sonho, que estou a sonhar. É assustador.

11 de dezembro de 2008 às 20:41

Ups. Elm Street*.

11 de dezembro de 2008 às 20:41

ipsis verbis disse...

:D

11 de dezembro de 2008 às 23:31

ceptic disse...

":) este está muito fixe!"

Obrigado

11 de dezembro de 2008 às 23:31

Pax disse...

"Nem existe sobrenatural. O que existe é um ou outro natural que ainda não conseguimos explicar."

Um outro natural é o sobrenatural, visto que nao é dito "inatural", mas sim um natural sobre o natural :)

11 de dezembro de 2008 às 23:33

Papinha disse...

:D

11 de dezembro de 2008 às 23:33

A Mor.. disse...

AHah, mas nao muito :)

11 de dezembro de 2008 às 23:34

Anónimo Princesa Mononoke disse...

"Pessoalmente adoro estas histórias se bem que seja uma céptica nas crenças populares, acho que são desculpas, mas é sempre interessante e imprevísivel os caminhos do subconsciente."

Seja em crenças for, sou sempre agnóstico, acredito no que vejo.

"Muito perturbante. Espero que tenha uma continuação."

Poderá ter, depende da vontade, mas a intencao era mesmo terminar assim.

11 de dezembro de 2008 às 23:35

A Grafonola disse...

"UIiiii, sabes o que me assusta mais?... é que, tenho esta coisa de acreditar que todos pomos um pouco de nós naquilo que escrevemos, mesmo que seja ficção... :D ;-)"

E estás correcta. De facto este conto tem partes reais e tem ficção. Mas devido ao facto de ter ficção, passa a ser ficção.

"que existem explicações que a mente humana não abarca."

Sim, isso é verdade.

"Engraçado, acontece-me muito sonhar que estou a sonhar. E saber, tanto no sonho dentro do sonho, como no sonho, que estou a sonhar. É assustador."

As poucas vezes que isso me aconteceu, acordo sempre com o coração a 100 à hora, e por curioso são os únicos sonhos em que se me magoo, acordo com dores. Num sonho em que sonhava que estava a sonhar, levei um tiro no ombro, acordei com dores no ombro :)

11 de dezembro de 2008 às 23:38
Anónimo  

" Ela encontrou-me..."

As reticiências às vezes pressupõem uma continuação.

Bastante intenso o texto ainda assim com esse fim...





Princesa Mononoke

12 de dezembro de 2008 às 08:01

"Um outro natural é o sobrenatural, visto que nao é dito "inatural", mas sim um natural sobre o natural :)"

De qualquer modo, acho que nem o termo nem o conceito estão correctos.
Há o "natural" (aquilo que já sabemos explicar cientificamente) e o "pré-explicação-natural (aquilo que iremos conseguir explicar cientificamente num futuro mais ou menos longínquo)
"Sobrenatural" implica uma ideia de fenómeno que não é natural e não há nada que possa ser não-natural, pode é não ser ainda compreensivel por nós, o que é diferente.

:)

12 de dezembro de 2008 às 10:44

Anónimo Princesa Mononoke disse...

"As reticiências às vezes pressupõem uma continuação."

As reticencias é a maneira correcta de terminar, deixando o suspense.
Qualquer filme de Hitchcock terminaria em reticencias, sendo escrito.

12 de dezembro de 2008 às 15:20

Pax disse...

"De qualquer modo, acho que nem o termo nem o conceito estão correctos."

Claro que tanto o termo como o conceito estão correctos:
sobrenatural: superior ao natural; que não se conforma às leis naturais; sobre-humano;

s. m., aquilo que é superior à Natureza ou o que é muito extraordinário.

Acho a definição da palavra se aplica perfeitamente sem entrar em exageros ou mitos.

""Sobrenatural" implica uma ideia de fenómeno que não é natural e não há nada que possa ser não-natural, pode é não ser ainda compreensivel por nós, o que é diferente."

Porque o motivo dizes que o sobrenatural não é natural? Porque é que não o há-de ser? Lá porque não o sabemos explicar não lhe retira o facto de ser natural, não sabemos os que nos rodeia, não sabemos o que acontece depois da morte e por isso qualquer referencia ao sobrenatural como não natural, peca por desconhecimento de causa, logo, erro!

12 de dezembro de 2008 às 15:27

Sobrenatural, numa perspectiva mais científica, será tudo aquilo que a ciência (ainda) não consegue explicar ou cuja explicação foge às chamadas leis naturais.

12 de dezembro de 2008 às 15:44

"Lá porque não o sabemos explicar não lhe retira o facto de ser natural, não sabemos os que nos rodeia, não sabemos o que acontece depois da morte e por isso qualquer referencia ao sobrenatural como não natural, peca por desconhecimento de causa, logo, erro!"

Foi exactamente isso que eu disse!
Obrigada por me dares razão :)

12 de dezembro de 2008 às 18:55

Xiça!!! E eu que só tenho sonhado com a minha avó que morreu este ano...fdxxxx!!!! Todos os dias sonho...ou "pesadelo" com ela, está zangada, de mal com todos nós porque a deixamos sózinha...não sei se será isso que não me deixa dormir há uns tempos mas que incomoda...incomoda! Como te compreendo!
Gostei muitoooooo deste teu texto. :)

Abreijinhos a ti e na mulher de azul, pode ser que seja fufa e sempre que vê que és homem fica aborrecida, por isso manda lá um meu que pode ser que baze ehehe..Tu não, o Santiago ;)!

13 de dezembro de 2008 às 18:34
São  

Gostei do texto, do mistério e do suspense que fica no final, penso que um pouco desse mistério lhe é emprestado pela cor azul, se o vulto feminino fosse vermelho, não teria o mesmo impacto.

Sonhar várias vezes com o mesmo, os chamados sonhos recorrentes, já tive, quando é um mau sonho, assusta, mas não passa de um sonho não devemos dar-lhe muita importância.

Conheço essa teoria do mau-olhado, o chamado mal de inveja, já vi fazer esse teste do azeite e da água, não numa malga de sopa, mas num prato cheio de água, deitar azeite e este misturar-se com a água, realmente isso acontece e depois de fazerem umas quantas rezas repetirem e o azeite não se misturar com a água, é estranho, mas não acredito em bruxas, nem em milagres, acho que tudo tem uma explicação lógica o facto de não a conhecermos não significa que não exista.

14 de dezembro de 2008 às 04:14

Quando estava a clicar na janela dos comentários só pensava numa palavra: "Creepy"

Ipsis, roubaste-me as palavras.(Ou foi ao contrário?

Eu conheço esses sonhos, em que acordamos, e voltamos a acordar, e em que quando queremos acordar não nos conseguimos mexer. Terrível...:S

E às vezes também tenho pesadelos com uma pessoa, mas sei quem é, infelizmente. São sonhos, a parte de pesadelo é a presença constante:S

Quando tenho estes sonhos... a palavra de ordem é: não dormir.

Isso do azeite... Bemmmm.... já ouvi falar disso... mas nunca o fizeram comigo...

Ah, mas isto é só uma história, pois é...

LOL

Muito bom.

9 de janeiro de 2009 às 20:30

Sinceramente, e podem pensar que nao e verdade, mas gostaria que me acontecesse algo do género... oiço tantas historias mas a verdade e que nunca sequer senti nada.. nada mesmo... enfim.. comentário tonto.. mas quis compartilhar...

ps: mas respeito muito estas historias!!!

22 de outubro de 2014 às 18:40

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