O momento que tudo mudou  

Posted by Mag in

Furioso, atirou o capacete para o chão e começou a andar para bem longe da multidão que o olhava.
Fervia de indignação, misturada com uma irracional raiva contra si mesmo.
Pressionava-se para ser o melhor, mas no fundo continuava a criança assustada que precisava de apoio emocional.

Ela viu-o partir e, suspirando, seguiu calmamente no seu encalço.
Já o conhecia o suficiente para saber que por debaixo daquele corpo de homem adulto se silenciava uma alma sensível em busca de carinho e amor. Que nunca admitiria. E sabia que os primeiros momentos seriam de ira, pelo que convinha deixá-lo só.

Ele sentiu-a chegar muito antes de a ver. O seu corpo dava o alarme de cada vez que a sentia perto. Tinha de esconder esse sentimento crescente e responder à urgência do toque com momentos de fingida descontracção no grupo. Eram tão fugazes e deixavam-no tão insatisfeito que de noite, com a namorada nos braços, percebia-se a imaginar que era a ela quem abraçava e beijava... e se torturava em seguida, achando-se o pior de todos os homens.

Naquele momento a raiva misturava-se com o desejo forte de lhe sentir a pele, o gosto, o corpo contra o seu, e a ira parecia incendiar, a ponto de ameaçar ensandecê-lo, a loucura dos sentidos.

O seu olhar chamou-a, sem palavras.
Devagar, ela chegou ao pé dele e passou-lhe uma mão ao de leve num dos braços. Não precisava de muito para o fazer sentir que estava ali. Era o papel dela, e fazia-o com todos os membros da equipa. Claro que ele era especial... mas isso não o podia deixar saber. Não sabia mais como o esconder, na verdade, porque o sentimento que a consumia parecia-lhe transbordar por todos os poros da pele.

Sem pensar, ele puxou-a com força contra o seu peito e enlaçou-a pela cintura. Chorava de raiva, dor, carência, paixão, desejo e medo. Os dedos dela tocaram-lhe nas lágrimas e os dois olharam-se durante uns segundos que pareceram durar uma eternidade.

E depois o Mundo desabou.

Com sede, ele procurou-lhe os lábios, enquanto os dedos matavam a fome explorando o seu corpo. Ardia. E já não havia volta atrás no caminho que escolhera.
O corpo dela parecia convidá-lo à descoberta. Não o esperava, de todo, mas pressentia nela a mesma voraz vontade que o acordava de noite depois de horas a sonhar amá-la.

Apercebeu-se de repente que o estava a fazer naquele momento.
Encostara-a contra uma pedra e beijava-lhe os seios, enquanto os seus dedos traçavam a rota tão ansiada de encontro ao centro do seu desejo, encontrando-a húmida. Respirando ofegantemente, ela olhava-o bem nos olhos enquanto o guiava para dentro de si, num óbvio convite à consumação do prazer.

Ambos gritaram baixinho no momento da penetração.
Tinham vivenciado mil vezes aquele encontro, mas nem nas suas fantasias mais loucas supuseram uma união tão completa e uma entrega tão imensa.

O mergulho veio abençoado e rápido, em simultâneo, um embutir de todos os sentidos conjugados num único instante. A descida ao abismo esgotou-lhes as forças e deixaram-se ficar abraçados e perdidos, mais juntos que nunca.

E tudo mudou nesse momento.

Um dia destes  

Posted by Maya Gaarder in

Num dia, que não este, vais dizer-me o que quero ouvir, mesmo que as comportas da barragem se abram e uma nova albufeira apareça.
Num dia, que não este, vou ter a coragem de dizer o que penso.
Num dia, que não este, vou fazer o que deve ser feito.
Num dia, que não este, vou deixar de mentir, vou dizer que não, não estou bem.
Num dia, que não este, vou aceitar que não posso racionalizar sentimentos.
Num dia, que não este, vou aparecer à tua porta, de mala na mão à espera de um para sempre.
Nesse dia, vou acordar como sempre, com saudades de ti, de nós. Vou abrir os olhos e saber, que o dia chegou. Ainda não é hoje, o dia, mas em breve.