Vais voltar?  

Posted by Maya Gaarder in

O som de uma mensagem recebida no telemóvel acordou-o. O relógio marcava 3 da manhã. Olhou para a mulher que continuava a dormir placidamente ao seu lado. Àquela hora, só podia ser uma pessoa. A mensagem, uma palavra apenas : amanhã. Ia vê-la amanhã. Sentiu o estômago contrair-se instantâneamente, algo que acontecia sempre que pensava nela. Já não se viam há muito tempo, demasiado até.
Lembrava-se perfeitamente da última vez em que se viram, conseguia ainda ver com clareza a expressão do rosto dela, quando ele lhe fez a pergunta de sempre : Vais voltar ? Sentiu a hesitação dela, prendeu a respiração esperando, esperando que dessa vez ela lhe dissesse que sim, que ia voltar. Estava convencido que daquela vez, a resposta quase foi diferente, mas no último momento, ela voltou-se e disse que não, não voltaria.
Mas amanhã, sim, amanhã encontrar-se-iam outra vez. No sítio de sempre. Onde por momentos, sempre tão breves, a teria nos braços e a amaria. Fingindo que não, fingindo que não a conhecia tão bem como a si próprio. Tratando-a como a uma estranha com quem partilhava apenas o corpo e umas horas de prazer.
Ao contrário do que ela pensava, conhecia-a, demasiado bem até. Por isso aceitava jogar nos termos dela, aceitava as condições dela, mas conhecia-a. Antes até de lhe ter falado pela primeira vez já a conhecia. Costumava vê-la ao longe, frequentavam os mesmos lugares, despertou-lhe a atenção pela primeira vez numa tarde em que a viu sentada sozinha numa mesa do café. Sempre foi observador e num momento de tédio enquanto esperava a mulher que tinha ficado de se encontrar com ele ali depois de uma expedição de compras, entreteve-se a observar os restantes clientes.
O olhar prendeu-se nela. Apesar do aspecto cuidado, havia nela um ar de desalinho que achou curioso. Como se tivesse passado no meio de um grande vendaval que deixou tudo ligeiramente fora do sítio. Era Inverno e ela trazia um casaco de fazenda pesado com um dos botões pendurado, o cachecol estava desfiado numa das pontas e várias madeixas de cabelo escapavam do rabo de cavalo com que o tinha prendido. O rosto era bonito, se bem que não harmonioso, o nariz era demasiado grande e destoava do resto das feições, os labios eram finos e as maçãs do rosto salientes, mas os olhos… foram os olhos que o prenderam. Nunca tinha visto olhos daquela cor, não conseguia dizer com certeza se eram azuis, verdes ou cinzentos, mas mais do que a cor, foi a expressão que o cativou.
Viu-a mais vezes, muitas mais, antes daquele dia em que a abordou na livraria. Antes da primeira vez. Sabia que o nome que lhe dissera ser o seu não era verdadeiro, não foi preciso muito para o descobrir. Sabia tudo o que ela a tanto custo lhe tentava esconder, aprendera-o nas entrelinhas, de tudo o que ela lhe tinha dito, não querendo dizer a verdade. E amava-a. Amanhã, amanhã voltaria a perguntar e talvez desta vez ela respondesse que sim quando lhe perguntasse : Vais voltar ?

Até ti...  

Posted by Bruno Fehr in

Não estás aqui. Gostava que estivesses nem que fosse por um minuto. Queria perguntar-te tudo aquilo que nunca me disseste. (...) Culpo-me por algo que possa ter feito ou dito. Culpo-me por tudo aquilo que não fiz e não disse. Culpo-me principalmente por nunca te ter dito que te amo. 

Será que te vou voltar a ver? Entraste na minha vida como um furacão. Destruíste tudo à minha volta. Tu, só tu. Nada mais restou do meu velho mundo, nada mais importava. Só tu. Saíste da minha minha vida da mesma maneira que a invadiste, destruindo tudo outra vez. Deixaste a dor, a tristeza, o vazio e a devastação do pequeno mundo que construí à tua volta. Não estás aqui. A minha vida ficou vazia. Não tive um aviso, um sinal, um adeus. Nada! Deixaste-me um bilhete, que recebi meses depois da tua partida. Li-o. Sorri. Foi a primeira vez que sorri desde que partiste. Uma mensagem curta, que terminava com um "amo-te".
Se me amas fica! Não dizem que o amor vence todas barreiras ? Eu também te amo! Fica!
Que injusto, tiveste a última palavra. Escreveste o que eu mais queria ouvir e dizer-te. Ao ler o teu "amo-te", sorri com um rio de lágrimas a descer pela minha face. Respondi-te em voz alta, "amo-te, amo-te, também te amo", na infantil esperança que me ouvisses. Em vão…?
Se me amas porque não me disseste? Se me amas porque partiste? Se tinhas mesmo de partir, devias ter-me dito o que sentias. Se me amas… Se alguém que eu amo me ama, por que motivo me sinto tão só, tão vazio? Vazio mas cheio de amor para dar. Para te dar. Só tu importas. 

Pergunto-me constantemente quando te voltarei a ver, se é que te voltarei a ver. Começo a pensar que não, pois não te mereço, caso contrário estarias aqui, e eu não estaria a escrever nestas linhas, na esperança que estas minhas palavras cheguem até ti. 
Apesar de não acreditar, sinto algo dentro de mim, uma faísca de esperança, que parece dizer-me, "um dia, um dia". Esse dia, soa a um dia distante, tão distante, que posso já ter sofrido tudo o que há para sofrer. O sofrimento destrói os bons sentimentos. Tenho medo de chegar a esse dia e já não sentir. Tenho medo de não te reconhecer. Pior ainda, que tu não me reconheças.

Lembro-me de ti a toda a hora, mas a tua imagem na minha memoria vai-se desvanecendo com o tempo. Obrigo-me a lembrar; da tua voz doce, dos teus olhos tão azuis nos quais me parecia perder, do teu cabelo louro, fino, brilhante, do teu sorriso encantador em que ao sorrir parecias iluminar uma sala, um sorriso tão contagiante que era impossível não sorrir contigo, o teu toque, suave, quente, meigo. É impossível esquecer o que representaste para mim, não vou esquecer a pessoa que foste na minha vida. Nunca te vou deixar de amar mesmo amando outra mulher. Tens e terás sempre um cantinho só teu no meu coração... O problema é que esse cantinho é ainda todo o meu coração. Não quero esquecer nada, por isso todos os dia me obrigo a lembrar. Lembrar para não esquecer.

Dói. Ainda dói muito, mas já não custa tanto. Não sei se dói menos, ou se me habituei à dor. Não importa. Já não choro como chorava pois as memórias que guardo são boas. Sorrio. Tristemente, sorrio.
O tempo passa. Voltei a gostar de alguém, mas nunca lhes falei de ti. Tentei mas nunca falei. Acredito que se soubessem quem tu foste na minha vida, as ajudava a perceber quem eu sou. Estou certo que sim, mas não consegui invadir a minha própria privacidade. Consigo escrever mas não falar sobre o passado. As palavras saem soluçantes e parecem ser sempre as palavras erradas. Admito que tive medo, medo de as fazer sentir que estariam a competir contigo. Medo de elas acharem que não estavam à tua altura. Medo que elas sentissem que eram uma segunda escolha. Eu não tenho a certeza se o são ou não, mas isso não significa que queira magoar alguém, pois para dor já basta a minha. Por isso, nesta minha nova vida sem ti, tu és só minha, és o meu mais bem guardado segredo. Ninguém sabe. Infelizmente não és só minha como eu sonhava, mas na medida do possível, só minha. 

Adoro este termo, "medida do possível", como se o possível, fosse possível medir.
Eu não quero falar de ti. Quero falar contigo. Onde estás? Diz-me onde! Só quero saber se continuas com aquele sorriso encantador, se continuas feliz, pois bela sempre serás. Ainda te lembras de mim?

Dentro de mim há amor. Dentro de mim há raiva. Não sei. Sinto um misto de amor e raiva. Amor por ti, raiva por não poder estar contigo. É provavelmente este conflito de sentimentos que me faz acreditar que nada, NADA me pode impedir de te voltar a ver, de estar contigo. Sei que não será hoje, nem amanhã, mas um dia...! Enquanto esse dia não chega, espero, sofro e lembro, lembro-me de não esquecer.

Anos... Incrível, já passaram mais anos do que dedos que os contabilizem, desde a última vez que te vi. Doze anos desde a primeira lágrima que chorei por ti. Doze anos de dor, saudade, tristeza, raiva, amor e esperança. 
O tempo passa é verdade, mas é mentira que o tempo cure tudo. Quanto tempo precisa o tempo para curar? Será que quando o tempo tiver tempo de curar a minha dor, eu terei ainda tempo de viver sem ela?
Sempre que recuo todo este tempo na minha memória, sinto a mesma dor que senti naquele dia, a mesma confusão na minha cabeça, volto a fazer as mesmas perguntas e os meus olhos mais uma vez enchem-se de lágrimas que tento a todo o custo conter. Não quero chorar mais por ti. De vez em quando, lá me foge uma lágrima ou outra. Quero sorrir por ti, para ti. Quero viver o resto da minha vida a sorrir e sorrir quando te voltar a ver. 
Por agora recordo, enquanto recordo escrevo, escrevo-te, desejando que estas palavras encontrem o caminho até ti. No fundo talvez escreva para mim mesmo como uma maneira de ter esquecer, lembrando-me de ti. Na verdade, sem ti não sou ninguém, por isso se não é para ti escrevo então é inútil escrever, pois todas estas palavras estão condenadas a perderem-se em frases que nunca ninguém irá ler, palavras espalhadas por folhas de papel que serão dispersas pelo tempo e impossíveis de reordenar, pois estas palavras são sentimentos. Se fosse possível organizar sentimentos que são desorganizados por natureza, não existiria a dor, pois ela seria suavizada pela organização sentimental. 

Escolho viver o momento fugindo do passado, mas o que posso fazer quando os meus momentos estão cheios de passado? Se a vida são dois dias e um já passou, qual é o problema de passar o dia que me resta a recordar? O futuro não me pode preocupar, pois o dia está a acabar e quero chegar ao fim dele com as tuas palavras a ressoar na minha mente como se em vez de escritas tivessem saído da tua boca:

«Vejo o teu esforço para esconder as lágrimas. Vejo o teu sorriso tentando esconder a dor. Não chores nunca por mim, eu não sinto nem dor nem medo. Fui feliz, muito feliz contigo e estou feliz por te ter conhecido, feliz por ter sentido sempre, que me amas.Um dia quando voltares a amar, vais sentir um empurrãozinho em direcção a ela e isso, serei eu a teu lado sorrindo e dizendo-te, "força".O meu único desejo é poder abraçar-te segundos antes de partir e poder dizer-te não Adeus, mas sim Amo-te.»

Querer ver-te, envolver-te nos meus braços, beijar-te, falar contigo podem ser desejos impossíveis, mas tudo o que é possível hoje, foi impossível um dia. Se me for permitido, tornar um dos meus impossíveis em possível, que seja; estas palavras chegarem até ti enquanto espero um sinal teu. Até lá continuo a construir o meu caminho que me levará onde ninguém foi ainda, caminhando sozinho, procurando a tua cara na multidão.

Um dia quando partir, não haverá dor nem tristesa, lágrimas ou saudade, nem céu ou inferno, santos ou demónios, bem ou mal. Não haverá medo só certeza. A certeza que o meu caminho só termina em ti. 


(Excerto de Amor e Perda, por Bruno Fehr) 

Lust  

Posted by Mag

Se tu andasses movido apenas ao meu desejo, os teus pés correriam velozes sobre a cidade.
Se o teu corpo se sacudisse ao som dos meus pensamentos (que, mudos, te chamam), dançarias todos os ritmos com graciosidade felina.
Se os meus gritos surdos de loucura pudessem dotar-te de força, nascer-te-iam asas nas costas, e tocarias as nuvens com a ponta dos dedos.

Porque me povoas as noites com a luxúria dos sonhos livres, que me ensopam a pele e me consomem a razão.
Porque os meus olhos falsificam, ao olhar-te, o crescente murmúrio do meu corpo que se quer fundir no teu.
Porque a dança dos meus sentidos é teia invisível em teu redor, adormecida para que dela nunca suspeites.

É desejo nú o que me atormenta, meu bem.
Que o meu coração não te pertence, nem se deleita com o ouvir da tua voz ou o sentir do teu perfume.
Não.
Eu não te amo,  guerreiro.
Mas este desejo sim, tem o teu nome tatuado em brasa.