Gosto de  

Posted by A Mor..

Sim, tudo é possível.
É possível todas as coisas - como coisas uma só: singular.
É possível esse gosto de amaranto quando lembro desse sonho recorrente secando minhas lágrimas.
É possível esse sóbrio meu agir, infinito agir de forma diferente a cada gota de vinho.
Eu carregando sementes como amuletos vermelhos colorindo meus dedos e meu rosto suado, procurando você em baixo de pedras, por traz de arbustos e vendo seus sinais em tudo.
A natureza ri de mim, ri da parte dela que perdeu o juízo. 

Uma noite com Caetano  

Posted by A Mor..

Caetano chegou sem cumprimentar. Foi direto pra cozinha, o jantar era servido ate as 19h30. Se alimentou, e assumiu seu posto, lugar onde ficaria ate as próximas 5 horas. Em pé, na portaria, observou o céu que escurecia rapidamente e comentou:

- Tomara que não chova.

Foram então suas primeiras palavras, depois do aceno com a cabeça.  Caetano trabalhava como segurança  em um pequeno restaurante burguês no centro da cidade. Não demorou muito e os primeiros pingos de chuva começaram a cair naquele inicio de noite, que marcava o primeiro dia de trabalho como recepcionista da menina branca.

Caetano ajeitou o paletó, e tirou de um canto um enorme guarda-chuvas. A chuva caia sobre a grama calmamente lavando as rosas que pareciam tristes naquele dia de finados. O movimento no restaurante era calmo, entretanto sempre saindo e chegando pessoas. Logo, os serviços de Caetano eram  necessários, um casal se aproximava. Com seu guarda-chuva Caetano os protegia dos pingos que caiam do céu.

Caetano olhou pro céu com uma certa tristeza, enquanto assoava seu nariz resfriado resmungava do trabalho noturno em dias chuvosos.

Mal sabia ele que uma tempestade viria, e que ele, na chuva, receberia vários clientes.
Tantas idas e vindas, levando e trazendo clientes, deixaram Caetano encharcado, em seu rosto percebia sua fúria contida. Caetano se encostou na parede, em pé, tirou um dos sapatos e apertou sua meia completamente molhada. Olhou pra menina branca, e disse:

- Queria tanto que um trabalho só, fosse suficiente pra cuidar de minha família. 

Rosa-prisão, rosa-loucura  

Posted by Mag in

Descalça, ela corria o mais que podia no relvado molhado da chuva, as gotas fustigando a bata branca enorme que o vento colava às suas pernas, a urgência correndo no sangue, segundos preciosos que se esgotavam de cada vez que tropeçava e caía desamparada no escuro da noite, os ramos ferindo-lhe os braços nús.

Atrás dela, num susto, começaram a soar as sirenes de aviso. Alguém fugira.
Imaginava a confusão que comaçava a entrar no estreito viver do hospício, em que tudo tinha o seu devido tempo, como um relógio demasiadamente bem oleado e afinado ao segundo.
O reboliço das enferneiras revirando quartos, enfermarias e salas de detenção, procurando o rato que fugira da ratoeira.
As caras daquelas que o Mundo dizia loucas encostadas às barras das janelas, umas enviando secretas preces de apoio a quem se atrevera a rasgar o véu da inconsciência regada a medicação e outras agoniando a raiva de não terem igual coragem.

Claro que para se escapar tivera de vender o corpo ao enfermeiro responsável pelo trancar de portas à noite. Fechara os olhos e fechara-se no seu âmago, tentando não sentir as suas carícias apressadas e a posse rápida e brutal. Havia um preço (alto) a pagar, e ela pagara-o. Vomitando em seguida o seu pecado.

Agora a chuva abençoada limpava-lhe o corpo de fluidos e náuseas, amparando-lhe a dor.

Mais uns passos e estava junto do muro onde combinara com Roberto, que devia atirar-lhe uma corda para se içar.

Os cães cheiravam-lhe o rasto e sentia a sua proximidade como um arrepio na nuca, mas não podia dar-se ao luxo de parar e olhar para trás. Por vezes, a ignorância é uma bênção.

O muro.
E nada de corda.

Roberto!, gritou.
O silêncio da resposta ensurdecia-a.

Tremendo, encostou-se ao muro e deixou-se cair de joelhos.
Tudo isto para nada. Prostituíra-se para nada. O desespero consumia-a.

E eles vinham aí, os cães, o rosa do uniforme das enfermeiras destacando-se na luz da lua. Rosa-enjôo, rosa-prisão, rosa-loucura.

Um mocho uivou e voou para longe.
Uma corda caiu-lhe sobre os cabelos revoltos, e o coração começou de novo a latir.
Subiu vertiginosamente, com forças que desconhecia ainda possuir.

Do outro lado, Roberto amparou-lhe a queda no seu colo.
Retiraram a corda e, de mão dada, sorrindo, fugiram para o Mini que os esperava.

De que se faz o amor?  

Posted by Mag in

Como sei, perguntas-me tu?

São os teus olhos que falam comigo e me contam de Mundos partilhados, de viagens fantásticas, de vidas trazidas, em memórias, ao presente, que me acariciam a pele sem me tocar.
São as tuas palavras embalando-me a alma, cantando-me trovas sem o saberes, nutrindo-me o coração, afagando-me o corpo, calando-me, aos poucos, o medo.
É o cheiro da tua pele na minha, um chegar a casa com o corpo cansado e a precisar de mimos, um aroma a pertença, a partilha, a doçura.
É o teu abraço forte que me protege e ampara, o ninho que crias para que nele me aconchegue e ressurja, equilibrada e forte.
É o beijo da tua boca vermelha na minha, promessa de brisa que sossega a tempestade revolta do mar, que acalma o chocalhar disperso das pulseiras de cigana que me adornam os braços, que me faz querer ficar ali, suspensa no tempo, no espaço, sem peso, sem saber, sem pensar.
São os segredos partilhados, as cumplicidades tão reconhecidas, o ser um e ser dois e crescer mais e querer mais, as descobertas de todos os dias, o sabor a mar nos lábios, e a terra para fincar os pés, e o fogo no peito, e o ar para espraiar as asas.
Como sei?
Não sei.
Mas quando penso em ti, recordo-me de tudo isto.

Um bilhete, que não foi entregue.  

Posted by A Mor..

Um dia, no passado, eu disse que de você, eu queria devoção. Eu não brinquei quando disse isso, falei serio; mas não sei se me compreendeu. Devoção, não é nada mais que alcançar a profundidade da intimidade, vai além de total cumplicidade. Vai além, muito além.

Devoção, não se trata de culto. É afeto, é dedicação, é uma veneração especial. Falando poeticamente, “é um querer bem mais que bem querer”.

Duas coisas foram decisivas para que fossemos juntos. A primeira delas, é o seu olhar, a felicidade que ele mostrava pra mim; e a segunda, um detalhe do nosso primeiro encontro, o carinho que você dedicou a mim, naquela noite. Você nunca foi tão carinho como naquele primeiro dia. Muitas coisas já me chamavam atenção em você, mas isso, foi realmente o que selou a minha escolha, em ser Sua.

Tenho sido Sua, desde aquele dia, desde aquela noite com luar e sem estrelas. E agora, depois de 6 meses, me pego perguntando, se você tem sido Meu, se tem sido devoto a mim.

Eu tentei fincar minha bandeira, construir mais de meus labirintos, levantar meus edifícios, fundar civilizações. E, da minha maneira torta, fui desequilibrando teu ecossistema, quando tudo o que eu queria era plantar sementes, ver nascer arvores fortes e frutíferas.

Entenda, o meu descontentamento, não tem nenhuma relação com sua falta de tempo. O meu descontentamento, é pela falta de profundidade, pela falta de disposição. Em minhas veias, corre sangue quente, minha seiva é calor e é isso que me mantem viva! Por que sou calor, porque faço calor!

Tenho andado fria, me sentido morta e você não faz nada pra me aquecer.

(À Suivre - 07)  

Posted by LBJ in

Sempre me fascinaram as atracções e na altura não conseguia compreender os seus mecanismos e na realidade penso que ainda hoje não os compreendo. Hoje que já sou adulto sei que há hormonas e cheiros e nuances e padrões e curvas e linhas e outras coisas que tanta vez as razões não explicam como um brilho inesperado no cabelo num dia de Sol ou um sorriso suave de lábios fechados ou uma simples e honesta gargalhada ou a surpresa daquele encontro mas saber todas estas coisas não me traz mais compreensão nem me facilita tudo o resto.

Todos tínhamos alguma inveja do Rubinudo mas esse não era um sentimento maldoso ao ponto de lhe desejarmos que algo menos simpático acontecesse ou que um dia ele acordasse com uma borbulha vermelhona e luzidia no nariz diminuto e direitinho e arrebitado ou que o cabelo de repente deixasse de ser fino e claro para se parecer com o ninho dos hamsters do Piloto ou que os olhos que eram cinzento azulados se estragassem de alguma forma, longe disso, apenas tínhamos alguma inveja e tínhamos mais que razão e razões para isso.

Nenhum de nós conseguia perceber como é que ele fazia mas era uma coisa quase sobrenatural que podia impressionar qualquer estreante nas nossas andanças e não havia dúvida que gostava de ter aquele poder e não se abstinha de o pôr à prova e não foram nem uma nem duas nem sequer vinte ou mais vezes em que entrava na pastelaria e punha-se a olhar para as vitrinas com ar perdido de cãozinho sem dono e para os bolos em forma de passarinho encorpados em creme e mais creme ou para as tortas de chocolate recheadas e cobertas ou outra qualquer doçaria que nascera da explosão de gemas de ovo com cascatas de açúcar e nos fazia crescer água na boca pelos olhos e havia sempre, mas sempre alguém que lhe passava a mão pela cabeça e com um: “coitadinho do menino que tem fome…”, lhe comprava a guloseima. Estranhamente ou talvez não, na maior parte das vezes eram senhoras que nós achávamos que tinham idade suficiente para serem nossas mães ou até mais velhas como as nossas avós mas nós naquela idade achávamos que todos os adultos tinham idade suficiente para serem nossos pais ou até mais velhos como os nossos avós.

Afinal o Rubinudo era um miúdo porreiro e invariavelmente dividia os bolos connosco, dentada a um mordidela a outro e lambidela a todos e ninguém se enojava com isso nem com a outra questão que a alguns de nós começava a comichar porque embora já pensássemos nisso das miúdas não pensávamos muito, mas no fundo todos sabíamos que viria um dia em que o iríamos odiar. Elas eram ainda pequenos seres ruidosos de voz estridente e que gritavam por tudo e por nada e que choravam por nada e por tudo e não percebiam nada de nada de tudo o que nos interessava e não as queríamos por perto mas ele parecia que as atraía como os bolos de creme e chocolate nos atraíam a nós e entre risinhos e cotoveladas e piscadelas cúmplices bastava que alguém se distraísse e lá vinham convidá-lo para um cházinho e bolachinhas e outras brincadeiras inaceitáveis a um membro efectivo de um grupo de aventureiros como o nosso mas ele não lhes ligava muito e limitava-se a sorrir e tinha um jeito de o fazer com os olhos enquanto se afastava que as derretia em suspiros e ais e no fundo todos sabíamos que já o odiávamos um bocadinho.

(À Suivre)