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Hoje decidi  

Posted by Mag in

Hoje decidi.
Não me apaixonar por ti.
Não me deixar inebriar pelo doce aroma da tua pele junto da minha, que é apenas consequência do meu desejo, da minha fome de corpo, de sexo, de vida.

Hoje decidi.
Não me enamorar de ti.
Erguer muros onde a energia do teu abraço, onde o teu peito abandonado junto do meu, onde a osmose dos nossos seres um no outro constroem vias rápidas direito ao centro de mim.
Mas esbarrarão contra o meu não-querer!

Hoje decidi.
Que não te permitirei cavalgares-me livremente o sonho, aninhares-te em lembrança no meu ventre, adoçar-te o ser com devaneios de doida.

Porque nem sei sequer se sabes em que lugar do corpo te mora o coração.
Se conheces os atalhos em ti que te levam ao sítio onde o sentir é Rei, e a tua vontade se dobra perante o avassalar da onda, o inevitável mareio que é amar.
Onde deixas de saber quem és, porque te percebes tu e o outro num só e separados, no chão, sem limites visíveis. Em união e entrega.
Mas tu desconheces o abismo, temes a certeza da vertigem.

Porque desconheces, meu querido, como é delicioso saborear este passeio.

Por isso, hoje decidi.

Morada  

Posted by Mag in

Estou com raiva de ti.
Ou será de mim?
Endoidece-me este já não saber o que desejo, se continuar a fundir o meu corpo no teu, impunemente (até quando?), cedendo a esta vontade primitiva de te sentir em mim, se retornar (será possível?) a um estado de amizade e de carinho sinceros que o meu peito guarda por ti.
Em que parte de ti vivo eu?
Será que ainda tenho o meu lugar no abraço de amparo, na empatia de um sorriso, na carícia de uma palavra de apoio?
Ou será que vivo agora, lasciva e sedenta, Afrodite em vestido de cetim, nos teus sonhos? No teu desejo, que dizes permanente e insaciável, por mim?
Será que cruzei sem olhar para trás o limite traçado no éter, que passei a barreira sem saber que o caminho de regresso não mais o acharia, ou será que no fundo deste caminho de avanços e recuos, neste jogo de gato e rato, ainda existe a porta cor-de-rosa que nos trará de volta, resgatados e limpos de “pecado”, à segurança do que conhecíamos antes?
Não quero que me penses só como a amante que te satisfaz os sentidos, dessas plantas tu pelos caminhos como flores que o tempo desbotou, essas mulheres que já não têm nome nem lugar na tua lembrança.
Eu quero ser mais que um encontro rápido e quente nas traseiras do teu carro.
Eu quero ser mais que o sonho que te faz suar de noite e levantar com a boca seca a murmurar o meu nome.
Eu quero que o meu corpo te ampare os suspiros e a minha alma te console as dores do peito.
Eu quero ser o arco-íris nas noites de tempestade, e o lençol que te segura na cama, e a boca que te beija as feridas e os pontos frágeis e os pontos fortes, eu quero ser aquela a quem procuras quando a vida são nuvens e quando o dia é só sol.
Quero ser a Sombra que te consome em fogo, e a Luz que te envolve em serenidade.
Por isso diz-me onde moro, diz-me que habito em ti.
Porque se não sou, por circunstância, o todo, então diz-me adeus pela janela porque me vou, cigana, de saia rodada ajustando o bambolear do corpo, pela curva daquela esquina e me engole o pó que tudo cobre e esquece…

Promessa na distância  

Posted by Mag in

“Promete-me que me vais invadir os sonhos esta noite – disse ela, na distância - Deixarei a cancela aberta e o coração na esquina, porque te quer bailar. Quando chegares, saberei. Cantar-me-ás à janela do rés-do-chão da alma, uma canção sem palavras, em silêncio. E eu levanto-me de perto do lume, onde te espero meio adormecida, e o teu abraço sacode-me os sentidos, abafando o coração que grita e o corpo que treme. E, juntos, fazemos amor dançando, devagar, com os violinos da meia-noite, a praia escura e a lua negra como lençol.

Prometo – disse-lhe ele, na distância.”

Rosa-prisão, rosa-loucura  

Posted by Mag in

Descalça, ela corria o mais que podia no relvado molhado da chuva, as gotas fustigando a bata branca enorme que o vento colava às suas pernas, a urgência correndo no sangue, segundos preciosos que se esgotavam de cada vez que tropeçava e caía desamparada no escuro da noite, os ramos ferindo-lhe os braços nús.

Atrás dela, num susto, começaram a soar as sirenes de aviso. Alguém fugira.
Imaginava a confusão que comaçava a entrar no estreito viver do hospício, em que tudo tinha o seu devido tempo, como um relógio demasiadamente bem oleado e afinado ao segundo.
O reboliço das enferneiras revirando quartos, enfermarias e salas de detenção, procurando o rato que fugira da ratoeira.
As caras daquelas que o Mundo dizia loucas encostadas às barras das janelas, umas enviando secretas preces de apoio a quem se atrevera a rasgar o véu da inconsciência regada a medicação e outras agoniando a raiva de não terem igual coragem.

Claro que para se escapar tivera de vender o corpo ao enfermeiro responsável pelo trancar de portas à noite. Fechara os olhos e fechara-se no seu âmago, tentando não sentir as suas carícias apressadas e a posse rápida e brutal. Havia um preço (alto) a pagar, e ela pagara-o. Vomitando em seguida o seu pecado.

Agora a chuva abençoada limpava-lhe o corpo de fluidos e náuseas, amparando-lhe a dor.

Mais uns passos e estava junto do muro onde combinara com Roberto, que devia atirar-lhe uma corda para se içar.

Os cães cheiravam-lhe o rasto e sentia a sua proximidade como um arrepio na nuca, mas não podia dar-se ao luxo de parar e olhar para trás. Por vezes, a ignorância é uma bênção.

O muro.
E nada de corda.

Roberto!, gritou.
O silêncio da resposta ensurdecia-a.

Tremendo, encostou-se ao muro e deixou-se cair de joelhos.
Tudo isto para nada. Prostituíra-se para nada. O desespero consumia-a.

E eles vinham aí, os cães, o rosa do uniforme das enfermeiras destacando-se na luz da lua. Rosa-enjôo, rosa-prisão, rosa-loucura.

Um mocho uivou e voou para longe.
Uma corda caiu-lhe sobre os cabelos revoltos, e o coração começou de novo a latir.
Subiu vertiginosamente, com forças que desconhecia ainda possuir.

Do outro lado, Roberto amparou-lhe a queda no seu colo.
Retiraram a corda e, de mão dada, sorrindo, fugiram para o Mini que os esperava.

De que se faz o amor?  

Posted by Mag in

Como sei, perguntas-me tu?

São os teus olhos que falam comigo e me contam de Mundos partilhados, de viagens fantásticas, de vidas trazidas, em memórias, ao presente, que me acariciam a pele sem me tocar.
São as tuas palavras embalando-me a alma, cantando-me trovas sem o saberes, nutrindo-me o coração, afagando-me o corpo, calando-me, aos poucos, o medo.
É o cheiro da tua pele na minha, um chegar a casa com o corpo cansado e a precisar de mimos, um aroma a pertença, a partilha, a doçura.
É o teu abraço forte que me protege e ampara, o ninho que crias para que nele me aconchegue e ressurja, equilibrada e forte.
É o beijo da tua boca vermelha na minha, promessa de brisa que sossega a tempestade revolta do mar, que acalma o chocalhar disperso das pulseiras de cigana que me adornam os braços, que me faz querer ficar ali, suspensa no tempo, no espaço, sem peso, sem saber, sem pensar.
São os segredos partilhados, as cumplicidades tão reconhecidas, o ser um e ser dois e crescer mais e querer mais, as descobertas de todos os dias, o sabor a mar nos lábios, e a terra para fincar os pés, e o fogo no peito, e o ar para espraiar as asas.
Como sei?
Não sei.
Mas quando penso em ti, recordo-me de tudo isto.

Corpo de sal  

Posted by Mag in

É quando o meu corpo se fantasia de estátua de sal, neste mar onde o azul e o verde se beijam em despudoradas e translúcidas mesclas de cores, é quando sinto o frio imenso e salgado lamber-me a pele, é quando me banho nua e só neste pequeno local que é meu, é agora que mais sinto, voraz, a tua ausência.
A ausência de quem nunca comigo esteve, de quem nunca me saboreou, a quem nunca ofereci este abraço moreno e este corpo que sonha entregar-se ao teu, numa vontade que começou discreta e sensata e se transformou numa cobra que me estrangula de desejo, de cada vez que te penso.
E esta luxúria dos sentidos que me consome sem te ter liberta-se agora nas mãos doces de Iemanjá, que me afaga a tristeza e me embala devagar, levando-me para longe da areia da praia…

Os segundos da dúvida  

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Fui eu que sonhei, ou aconteceu?
As memórias escapam-se-me por entre as sinopses gastas do meu coração cansado das milhas áridas que já percorreu.
Talvez tenha sido apenas um momento fabricado com cuidado pelo meu desejo. Talvez tenha sido o meu leve querer, um misto de gosto/desgosto que por algum motivo te elegeu de entre um milhar de rostos, corpos e almas.
Ou talvez tenha sido a palpitante realidade, um universo que me abriu a porta timidamente, mostrando-me um caminho que podia ter percorrido. Mas o medo apanhou-me à traição... por isso nunca o saberei.

Uns segundos.
Foi o tempo em que o teu olhar se alambazou no meu.
O tempo em que a tua mão se estendeu ávida para a minha, enquanto me deixavas naquele cais de embarque, na despedida.
O tempo em que me estendeste um beijo destinado aos meus lábios... o beijo a que eu cobardemente fugi.

O tempo que não dá meia volta, e se perdeu.

Fui eu que sonhei, ou aconteceu?

O momento que tudo mudou  

Posted by Mag in

Furioso, atirou o capacete para o chão e começou a andar para bem longe da multidão que o olhava.
Fervia de indignação, misturada com uma irracional raiva contra si mesmo.
Pressionava-se para ser o melhor, mas no fundo continuava a criança assustada que precisava de apoio emocional.

Ela viu-o partir e, suspirando, seguiu calmamente no seu encalço.
Já o conhecia o suficiente para saber que por debaixo daquele corpo de homem adulto se silenciava uma alma sensível em busca de carinho e amor. Que nunca admitiria. E sabia que os primeiros momentos seriam de ira, pelo que convinha deixá-lo só.

Ele sentiu-a chegar muito antes de a ver. O seu corpo dava o alarme de cada vez que a sentia perto. Tinha de esconder esse sentimento crescente e responder à urgência do toque com momentos de fingida descontracção no grupo. Eram tão fugazes e deixavam-no tão insatisfeito que de noite, com a namorada nos braços, percebia-se a imaginar que era a ela quem abraçava e beijava... e se torturava em seguida, achando-se o pior de todos os homens.

Naquele momento a raiva misturava-se com o desejo forte de lhe sentir a pele, o gosto, o corpo contra o seu, e a ira parecia incendiar, a ponto de ameaçar ensandecê-lo, a loucura dos sentidos.

O seu olhar chamou-a, sem palavras.
Devagar, ela chegou ao pé dele e passou-lhe uma mão ao de leve num dos braços. Não precisava de muito para o fazer sentir que estava ali. Era o papel dela, e fazia-o com todos os membros da equipa. Claro que ele era especial... mas isso não o podia deixar saber. Não sabia mais como o esconder, na verdade, porque o sentimento que a consumia parecia-lhe transbordar por todos os poros da pele.

Sem pensar, ele puxou-a com força contra o seu peito e enlaçou-a pela cintura. Chorava de raiva, dor, carência, paixão, desejo e medo. Os dedos dela tocaram-lhe nas lágrimas e os dois olharam-se durante uns segundos que pareceram durar uma eternidade.

E depois o Mundo desabou.

Com sede, ele procurou-lhe os lábios, enquanto os dedos matavam a fome explorando o seu corpo. Ardia. E já não havia volta atrás no caminho que escolhera.
O corpo dela parecia convidá-lo à descoberta. Não o esperava, de todo, mas pressentia nela a mesma voraz vontade que o acordava de noite depois de horas a sonhar amá-la.

Apercebeu-se de repente que o estava a fazer naquele momento.
Encostara-a contra uma pedra e beijava-lhe os seios, enquanto os seus dedos traçavam a rota tão ansiada de encontro ao centro do seu desejo, encontrando-a húmida. Respirando ofegantemente, ela olhava-o bem nos olhos enquanto o guiava para dentro de si, num óbvio convite à consumação do prazer.

Ambos gritaram baixinho no momento da penetração.
Tinham vivenciado mil vezes aquele encontro, mas nem nas suas fantasias mais loucas supuseram uma união tão completa e uma entrega tão imensa.

O mergulho veio abençoado e rápido, em simultâneo, um embutir de todos os sentidos conjugados num único instante. A descida ao abismo esgotou-lhes as forças e deixaram-se ficar abraçados e perdidos, mais juntos que nunca.

E tudo mudou nesse momento.

A sacerdotisa  

Posted by Mag in

Abro os olhos pestanejando com a luz amorosa do Sol a refastelar-se já pelo quarto adentro, descobrindo-me os segredos enfiados em gavetas.

Enquanto sacudo de mim a réstia do sonho, abraçando o novo dia que se descobre diante de mim e aplaudindo-o com a alma aberta, entranha-se-me a ideia de que aquele será um dia verdadeiramente especial no meu caminho. Alegram-se-me os olhos e pula-me o coração no peito em antecipação da noite mágica, o familiar medo apertando-me o pescoço. Mas aprendi que o medo é apenas a manifestação do que nos é querido. E este passo, sem dúvida, será a oficialização do meu destino sagrado.

Aquele para onde os meus passos me conduziram, primeiro a menina tímida e diferente, com o vento do Norte a soprar-lhe ainda em sussurro distante no ventre, depois a jovem em busca de se encontrar na sabedoria ancestral, apalpando o caminho apenas com a candeia daquilo que a alma reconhecia como seu, e por fim a mulher que hoje contemplo ao espelho, olhos dourados de esperança e amor.

De pequena mendiga de amor a sacerdotisa da fecundidade e da fé.

De semente fincada na terra a flor vibrante de cor exposta aos elementos. Que tanto amo e protejo – Ar, Terra, Água e Fogo, cruzando-se nas minhas veias de maga, fundindo-se no quinto, que deles depende: o Homem.

E seria na noite indicada nas cartas da Vida da minha madrinha, noite em que a Lua se enche de prata no céu, gorda de orgulho e prenha de luz, que ela me nomearia sua sucessora nos caminhos de Maga, a nova Sacerdotisa do Povo.

Enquanto sonho acordada com a cerimónia que Rayna, minha madrinha, me havia descrito, preparo tudo o que precisaremos para a noite: o vinho quente com especiarias e ervas, receita (diz-se) que descende da primeira Sacerdotisa, Lydia, os pães de mel para forrar o estômago, lenha para a fogueira, a mistura de cinza, mirra e incenso para desenhar o pentagrama na terra, os tambores para animar aquilo que se pretende ser uma festa, um júbilo.

O meu vestido, sonhado por mim em noite de Lua minguante, precisamente 21 dias após o final da minha aprendizagem, está pendurado no roupeiro do meu quarto. Olho-o com orgulho, pois é o traje mais belo que alguma vez vi: veludo em tom lilás, bordado com desenhos de estrelas, luas, sóis e animais inventados, debruado a fios de prata como manda a tradição. Ruborizo-me de gozo só de pensar em envergá-lo.

Finalmente tudo está pronto e, como se adivinhasse o momento certo para aparecer, Rayna chega para me ajudar a vestir e me purificar a mente, o corpo, coração e alma, preparando-me para receber a bênção mais importante do meu Povo.

Seguimos para a floresta, para o local de culto, guiadas pela luz cúmplice da Lua e a magia que se sente na pele, a todo o tempo.

As pedras do altar recortam-se no céu negro e se não conhecesse este lugar como a palma da minha mão assustar-me-ia com a força que nele habita. Força de séculos de magia que aqui se celebraram, de sabedoria espalhada para o bem de todos.

Rayna e eu acendemos a fogueira, com cuidado, e colocamos o vinho e o mel sobre uma das pedras.

Os habitantes da aldeia começam a chegar aos poucos, as faces coradas dos afazeres diários e da expectativa antecipada. Eram celebrados com grande alegria, aqueles actos. Somos uma família, quando nos unimos em cânticos ao redor das chamas.

Estamos todos, e distribuo o vinho. Bebe-se generosamente, solta-se a língua, canta-se aqui e acolá até que, embalados ao mesmo ritmo, damos conta que estamos em roda, a vibrar. E eu, Lilith, no centro.

Rayna rompe pelo círculo e busca-me pela mão até ao charco de água. Estou em meio transe, ouço as vozes a cantar como se de um ruído distante se tratasse. Despe-me as roupas e diz-me para me baptizar no charco. Em voz alta, grita o meu nome, e anuncia-me como a nova Sacerdotisa.

Não tenho vergonha nem sinto pudor da minha nudez, antes um calor se me enrola no corpo enquanto me encaminho, guiada pelo meu espírito-guia, para o centro do pentagrama.

O Povo rodeia-me e sinto a força nas suas vozes e o orgulho nos seus olhos.

A energia invade-me, preenche-me, domina-me, emprenha-me. Deixo-me ir, ao sabor do vento do Norte, senhora do meu caminho.

E tudo se faz luz, e tudo se faz negro, e tudo se faz uno.

Um (velho) conto de Natal reformulado  

Posted by Mag in

Era Natal e sentia-se, uma vez mais, o contraste.

As ruas iluminadas, os sorrisos nas pessoas que passeavam, abraçadas, carregando sacos de embrulho nos braços generosos, a música suave que ecoava no ar.

E ela, sentada na casa de papelão que defendia com unhas e dentes da decrepidez que constantemente ameaçava, a única coisa que podia chamar sua, para além dos trajes gastos que lhe cobriam a nudez do corpo... mas não espantavam o frio do Inverno.

A alma, essa, continuava em chamas. Não se reconhecia como aquela jovem mulher (que parecia agora carregar cem anos em cima) andrajosa, continuava a caminhar de cabeça erguida, orgulhosa, ignorando os olhares de surpresa e desprezo que brindavam a sua aparente desobediência ao rígido código social que impunha uma atitude submissa aos menos afortunados pelo destino.

Sobrevivia a vender fósforos num Mundo em que os isqueiros eram reis. Os parcos € que acumulava gastava-os enganando o estômago, mas ficava feliz com a ideia de que os seus fósforos aqueciam a vida das pessoas. Por isso, de cada vez que vendia uma caixa, oferecia grátis um sorriso e uma palavra amável. E reparava que lhe sorriam de volta, confusos. Talvez por pensarem que uma pobre desventurada como ela nada tinha para sorrir... Ela sabia mais do que isso. Sabia que aquele era apenas um percalço no destino, que a guardava para um acto maior. Por enquanto, iluminava e aquecia, com os seus fósforos.

O dia 25 de Dezembro amanheceu cinzento e branco, a neve espalhando o seu manto por toda a cidade. Durante todo o dia caíram pedaços gelados de chuva do céu, que se amontoaram num tapete branco que tudo cobriu.

Já bem entrada a noite, o inesperado aconteceu. Reuniam-se os familiares em volta das fartas mesas para o final da ceia e as luzes de toda a cidade começaram a tremeluzir, cada vez mais rápido, até cessar por completo. Rapidamente toda a cidade estava às escuras, desamparada como alguém que de súbito deixa de ver.

A rainha das mendigas, habituada que estava à escuridão da noite, preparou uma pequena fogueira para se aquecer e iluminar. Depressa estava rodeada dos seus amigos de destino, que procuravam dois dedos de conversa e espantar o gelo.

As pessoas que vinham à porta das suas casas, procurando explicação para aquele fenómeno, apenas distinguiam aquela fogueira, como um distinto clarão que rasgava a noite e parecia indicar um porto seguro. Atraídas pela luz, reuniram os seus pertences, uma trouxa de comida e bebida e dirigiram-se para lá.

Minuto após minuto, a multidão que rodeava a mendiga começou a engrossar, e a fogueira teve de ser alargada. Imbuídas de um qualquer espírito desconhecido, as pessoas puxavam de bancos, colocavam mantas no chão gelado e conversavam com o vizinho do lado, que nunca tinham visto mais gordo. Partilhavam os seus haveres naturalmente, como se sempre o houvessem feito.

Nessa noite ninguém na cidade passou fome nem frio. Os sorrisos multiplicaram-se, os rostos farruscos iluminaram-se na esperança.

E Deus, no céu, gargalhou.

O mar violeta-encantado  

Posted by Mag in

Não queria acordar, não depois daquela noite.
Acordar para um dia de neve branca que traía o negro luto do seu coração, como que uma ferida aberta na paisagem, recordando-lhe que o Mundo continuava lá, apesar da dor, apesar do frio, apesar de se sentir vencida, rasgada, tolhida.
Mas a Vida, meretriz impiedosa, continuava alheia ao seu sofrimento, e para mais resolvera brindar o Universo com um dia de Inverno esplêndido, com um Sol-rei encavalitado num céu de um azul perfeito, que nada deixava a desejar a um fresco de Miguel Ângelo... daqueles dias em que sairia com o pequeno Brian no carrinho e lhe falaria das árvores e dos pássaros na floresta enquanto deixava as suas pegadas no caminho branco...
Assim que o pensamento a atravessou, a familiar dor, dormente até ali, entorpeceu-lhe o corpo. As lágrimas já não corriam, estavam secas e esgotadas da sua essência, apregoavam-lhe apenas no peito o vazio e a escuridão.
Com um suspiro magoado, convenceu-se a levantar da modorra da cama e a tratar do pequeno-almoço para os hóspedes que se encontravam alojados na pequena estalagem. Vivia daquilo, e se havia algo que a mantinha de pé no meio da névoa e da confusão era aquele entra-e-sai de pessoas, desconhecidos que com ela partilhavam um pedaço de vida.

Chania tratou da lareira apagada, do leite, do pão acabado de cozer, do mel, dos biscoitos que gostava de colocar como extra, da manteiga fresca e do café e deixou-os na mesa longa da sala, para quando os seus hóspedes se levantassem.
Afagando o xaile que a protegia, saiu para o frio do campo, tentando sorver a energia gratuita dos raios solares. O Sol brilhava e reflectia-se num ponto que Chania não conseguia enxergar. Curiosa, aproximou-se.
No centro de uma clareira, nascera uma tímida flor violeta, desconhecida por aquelas zonas. As suas delicadas pétalas sacudiam-se no vento e absorviam gulosamente a luz com que era presenteada. Mais à frente, outra flor similar, e outra, e outra, orgulhosamente desafiando o frio invernoso.

Seguindo-as, Chania chegou a um planalto. Lá, e até onde conseguia vislumbrar, morava um mar das suas belas flores de um violeta impossível, belas e selvagens, um presente de Deus para quem o quisesse contemplar.
Chania sorriu, e a dor levantou um bocadinho o seu véu. Iria ali todos os dias, sentia-se mais perto de Brian. E, silenciosamente, agradeceu a bênção que lhe fora dada.

Prelúdio de Outono  

Posted by Mag in

As folhas bailavam em danças desconhecidas do outro lado da janela, ensaiando as suas vestes de Outono. O vento tocava-lhes a valsa, compenetrado.

Os dias começavam a escurecer em horas mais pequenas, e o amanhecer tardava-se no céu, como que mal disposto pelo frio que se adivinhava no despertar matinal.

Na casa amarela a cozinha transformava-se em ventre, quente e confortável. Faziam-se, atarefadamente, bolos e biscoitos, grandes pratos de forno que cheiravam a gengibre e ervas, cozia-se pão, misturavam-se receitas antigas de vinhos e beberagens diversas.

Malua vigiava a cozedura da tarte de cogumelos selvagens que era a preferida de Truan, o marido, que retornava do longo período de expedição às terras selvagens para lá da montanha. Sorria para si mesma, antecipando gostosamente o abraço que a enlaçaria, a barba rija no seu pescoço, a voz forte que a fazia sentir-se rainha.

E, na casa amarela, era. Mas nunca o sentia tanto como quando tinha a família em seu redor, os rostos felizes dos pequenos, a presença segura e amada de Truan, sentado no cadeirão grande da sala.

Johan entretinha-se no pátio, ensaiando batalhas imaginárias com os bonecos talhados pelo pai. Nunca os largava. De momento, e pelo que Malua conseguia distinguir das palavras soltas que lhe chegavam à cozinha, os bravos guerreiros com nomes inventados lutavam pela conquista dos favores de uma donzela imaginária, que a nenhum queria mas a ambos se insinuava. Malua sorriu, pensando que Johan estava a crescer depressa.

Como um remoinho, Katyna entrou na cozinha, alvoraçada. Antes de conseguir recuperar o fôlego que lhe escapava, tentou dizer à mãe que já se ouvia, ao longe, a algazarra de chegada dos homens. O seu cabelo escuro prendia folhas nos caracóis rebeldes, os braços mostravam sinais da recente excursão à montanha. Malua reconhecia em Katyna os sinais da magia que se transmitiam na sua linhagem através do sangue e da alma, e que eram cada vez mais evidentes na garota que em breve seria uma mulher feita, bela e, se continuasse assim, rebelde. Malua sabia que só o verdadeiro amor amansaria o coração puro da filha.

Um sobressalto no coração sussurrou-lhe que Truan estava a chegar. Inconscientemente, passou a mão pelo cabelo, ajeitando-o.

Aí estava ele, com Johan preso de um braço e Katyna alargando-se já em direcção ao seu abraço.

Truan sorriu-lhe.

E o Mundo completou-se.

De que se faz o amor?  

Posted by Mag in


Como sei, perguntas-me tu?

São os teus olhos que falam comigo e me contam de Mundos partilhados, de viagens fantásticas, de vidas trazidas, em memórias, ao presente, que me acariciam a pele sem me tocar.

São as tuas palavras embalando-me a alma, cantando-me trovas sem o saberes, nutrindo-me o coração, afagando-me o corpo, calando-me, aos poucos, o medo.

É o cheiro da tua pele na minha, um chegar a casa com o corpo cansado e a precisar de mimos, um aroma a pertença, a partilha, a doçura.

É o teu abraço forte que me protege e ampara, o ninho que crias para que nele me aconchegue e ressurja, equilibrada e forte.

É o beijo da tua boca vermelha na minha, promessa de brisa que sossega a tempestade revolta do mar, que acalma o chocalhar disperso das pulseiras de cigana que me adornam os braços, que me faz querer ficar ali, suspensa no tempo, no espaço, sem peso, sem saber, sem pensar.

São os segredos partilhados, as cumplicidades tão reconhecidas, o ser um e ser dois e crescer mais e querer mais, as descobertas de todos os dias, o sabor a mar nos lábios, e a terra para fincar os pés, e o fogo no peito, e o ar para espraiar as asas.

Como sei?

Não sei.

Mas quando penso em ti, recordo-me de tudo isto.

Intervalo, "half time"  

Posted by Mag in

Saí para a noite quente, que se me colava à pele numa carícia indesejada.
Saí trôpega de palavras caladas, de beijos forçados, de intimidades que não me eram íntimas à alma, mas cavalgavam apenas este corpo que me calhou em sorte.
Saí para a calma insegurança do escuro, deixando para trás dos ombros aquele que era suposto ser, aos olhos do mundo, o meu Mar de segurança, mas onde sentia apenas navegar às cegas, protegendo-me dos rochedos mais escarpados.
Saí respirando em golfadas o ar que não me era permitido lá dentro, saí largando aos borbotões as lágrimas que enrolava na barriga quando fingia ser mãe, e mulher, fêmea completa.
Saí sabendo que o clube de leitura seria apenas um bálsamo momentâneo, um penso demasiado curto para a ferida que ameaçava expôr-se a qualquer instante, um intervalo no ritmo diário, e que em breve estaria de volta ao ninho para aquela que era a vida que, apesar de tudo, continuava a escolher.
Porque o sorriso dos meus filhos me alimentava (parte) do coração, enquanto o resto era uma dor fininha que se enrolava nas veias.
Sequei as lágrimas, suspirei e encaminhei-me para a livraria. 

Carta de adeus  

Posted by Mag in

“Meu amor:

Acho que o meu coração perdeu o direito de te chamar assim. Meu nunca foste (ninguém é de ninguém), e amor não posso mais albergar neste meu peito, porque não se pode amar eternamente quem não nos ama.

Sei que vais gritar aos quatro ventos o tanto que me amavas, proclamar a tua inocência, a tua virtude para quem te quiser ouvir… e não tenho dúvidas de que terás uma audiência plena, cheia daquela gente que te adula os sentidos, de quem tanto precisas e que tanto desprezei. Serão os chacais que te ajudarão a despedaçar os pedaços da minha memória… por isso desejo que se deleitem, muito. Que a minha alma, essa, está a salvo dos ataques dos seus dentes famintos, e das tuas palavras acres.

Não consigo, não consigo caminhar mais a teu lado. Porque não caminho direita, e sim encurvada com o peso daquilo que querias, e que não sou. Não concebo como amor o que me devotas (ou devotavas, já nem sei), quando não me faz brilhar o olhar sentindo-me especial, quando não me faz aquecer o peito sabendo-me única.

As tuas críticas constantes, incompreensões repetidas e esse teu jeito de viver no pódio são simplesmente demais para alguém que só pretende o seu canto para descansar e se sentir em casa. E não, bolas, não basta dizer-se que se ama que o Mundo avança, não, porque o Amor é muito mais do que aquilo que vale para ti, o Amor é ter a capacidade de mostrar ao Outro o quão especial é. E, para ti, sempre fui alguém que muito tem a provar e muito tem a mudar. Se existisse uma lei que, para além dos maus tratos físicos e verbais, proibisse os maus tratos à alma eu estaria a aplicá-la na sua mais perfeita essência... porque até agora o meu ego apenas se alimentou à custa do tão pequena que fui, a teus olhos. E basta!

Vou-te deixar. E vou ao mesmo tempo deixar aquilo em que, durante algum tempo, acreditei.

Peço-te que me deixes ir. Apenas isso."

O encontro  

Posted by Mag in

Olhas-me.
Lês-me o desejo no corpo nervoso, a saudade no olhar que simula ausência.
Ensaias palavras breves, perguntas certeiras, para te acalmar o pulso que corre.
Mentiste-me, pensei, quiseste convencer-te que já não me amavas e agora que a presença te cobra a mentira não sabes como me fugir, como te iludir.
Mas conheço-te, e sei que basta tocar-te a pele para sentir a queimadura aguilhoada da fome de mim camuflada à superfície, louca para soltar os beijos com que me queres sorver.
Por isso encosto o corpo à chapa quente do carro, languidamente, e envio-te sinais imperceptíveis de desejo, daqueles que só nós dois conhecemos.

E por isso perdes a tua pose desprendida e os teus braços puxam os meus para trás, e a tua língua brinca já no meu pescoço, e todo tu és meu de novo, como tem de ser.

Viajante clandestina  

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Sou estrangeira neste mundo, clandestina neste corpo.

Vento de pó de estrelas, soprado em noite de tempestade, que não se acomoda em lugar algum.

Vivo numa concha de areia e guardo o coração dentro da alma, para que não corra o risco de mo roubarem num qualquer passo de mágica. Entrego-o, na palma da mão, a quem mo merece, quando a paixão me consome a pele cansada da estrada do destino e suspira por beijos molhados e quentes.

Tenho pés de cigana e unhas de cores garridas, tenho o samba no corpo e a pele de África mesclada, dourado escuro, dourado quente. Sou do Mundo, sou do nada, sou do sal do Mar que me mora no olhar e sou da terra que se enterra nos meus dedos e onde me entrego a quem eu quero.

Sou estrangeira neste mundo, caminhante do pôr-do-Sol nos beirais dos telhados. Um pé atrás do outro, delicados no mover, numa dança improvisada no cair dos dias que em vermelho nos dizem adeus, até amanhã.

No peito ressoam-me perdidos os tambores dos amores que espalho no orvalho do dia que nasce, amor que não lhe conheço o fim nem saboreei o início, e que de pertencer a todos não é de pertença de ninguém. É o amor pelo Outro, tenha ele que vestes tiver. A dádiva altruísta, a luz do amor universal, a candeia dos meus olhos.

Sou clandestina neste corpo que me está alugado neste renascer em flor de lótus, sou o arfar do teu peito quanto te consomes de amor, sou os dedos que apagam rasto da lágrima que desce impune pelo rosto moído de dor, sou o abraço apertado que te afaga o soluço do corpo.

Sou tudo e não sou nada, Universo e grão de areia. Viajante dos mundos perdidos, sussurro perdido no grito surdo.

Estreia  

Posted by Mag in


Estreias a minha pele na tua, com avidez.

Estreias-me no mover das ancas, no par e passo sem trajecto, sem partitura que nos recorde de onde estamos, para onde vamos.

Estreio-te no coração, às colheradas, o sabor a mel com a pitada picante do medo, fogo-fátuo que me borda a alma da tua luz. Assim, encadeada, abraçando-te. Como se temesse que fosses feito de espuma e, num abrir das portadas da janela, saísses de encontro às nuvens...

Estreias-me nos teus sonhos, devagarinho, sem dares conta, sou como o aroma da tua pele que já se não desprende de ti.

Estreias a tua voz no meu pescoço e os teus dedos no meu cabelo. Queimas-me até às entranhas, sem dares conta.

Estreias-me nesse teu mundo de corações e letras desenhadas no tejadilho, cantas-me e encantas-me, de mansinho. E dizes-me impunemente que me queres, com a boca cheia de "amo-te" vorazes que me formigam nas pernas que não me obedecem.

Estreias-te nos meus sentidos despertos, invades-me os espaços vazios, preenches-me o corpo com o teu calor e a tua boca vermelha e doce.

E eu estreio-me nessa tua casa desarrumada, nesse teu coração imenso, aninho-me no canto do quarto e deixo-me embalar nessa tua dança leve, vens-me buscar pela mão e sussurras-me os passos correctos, ensinas-me a bailar-te e eu ensino-te a amar-te e seguimos assim, seguros um no outro, esvoaçando...