Hoje decidi  

Posted by Mag in

Hoje decidi.
Não me apaixonar por ti.
Não me deixar inebriar pelo doce aroma da tua pele junto da minha, que é apenas consequência do meu desejo, da minha fome de corpo, de sexo, de vida.

Hoje decidi.
Não me enamorar de ti.
Erguer muros onde a energia do teu abraço, onde o teu peito abandonado junto do meu, onde a osmose dos nossos seres um no outro constroem vias rápidas direito ao centro de mim.
Mas esbarrarão contra o meu não-querer!

Hoje decidi.
Que não te permitirei cavalgares-me livremente o sonho, aninhares-te em lembrança no meu ventre, adoçar-te o ser com devaneios de doida.

Porque nem sei sequer se sabes em que lugar do corpo te mora o coração.
Se conheces os atalhos em ti que te levam ao sítio onde o sentir é Rei, e a tua vontade se dobra perante o avassalar da onda, o inevitável mareio que é amar.
Onde deixas de saber quem és, porque te percebes tu e o outro num só e separados, no chão, sem limites visíveis. Em união e entrega.
Mas tu desconheces o abismo, temes a certeza da vertigem.

Porque desconheces, meu querido, como é delicioso saborear este passeio.

Por isso, hoje decidi.

Morada  

Posted by Mag in

Estou com raiva de ti.
Ou será de mim?
Endoidece-me este já não saber o que desejo, se continuar a fundir o meu corpo no teu, impunemente (até quando?), cedendo a esta vontade primitiva de te sentir em mim, se retornar (será possível?) a um estado de amizade e de carinho sinceros que o meu peito guarda por ti.
Em que parte de ti vivo eu?
Será que ainda tenho o meu lugar no abraço de amparo, na empatia de um sorriso, na carícia de uma palavra de apoio?
Ou será que vivo agora, lasciva e sedenta, Afrodite em vestido de cetim, nos teus sonhos? No teu desejo, que dizes permanente e insaciável, por mim?
Será que cruzei sem olhar para trás o limite traçado no éter, que passei a barreira sem saber que o caminho de regresso não mais o acharia, ou será que no fundo deste caminho de avanços e recuos, neste jogo de gato e rato, ainda existe a porta cor-de-rosa que nos trará de volta, resgatados e limpos de “pecado”, à segurança do que conhecíamos antes?
Não quero que me penses só como a amante que te satisfaz os sentidos, dessas plantas tu pelos caminhos como flores que o tempo desbotou, essas mulheres que já não têm nome nem lugar na tua lembrança.
Eu quero ser mais que um encontro rápido e quente nas traseiras do teu carro.
Eu quero ser mais que o sonho que te faz suar de noite e levantar com a boca seca a murmurar o meu nome.
Eu quero que o meu corpo te ampare os suspiros e a minha alma te console as dores do peito.
Eu quero ser o arco-íris nas noites de tempestade, e o lençol que te segura na cama, e a boca que te beija as feridas e os pontos frágeis e os pontos fortes, eu quero ser aquela a quem procuras quando a vida são nuvens e quando o dia é só sol.
Quero ser a Sombra que te consome em fogo, e a Luz que te envolve em serenidade.
Por isso diz-me onde moro, diz-me que habito em ti.
Porque se não sou, por circunstância, o todo, então diz-me adeus pela janela porque me vou, cigana, de saia rodada ajustando o bambolear do corpo, pela curva daquela esquina e me engole o pó que tudo cobre e esquece…

Promessa na distância  

Posted by Mag in

“Promete-me que me vais invadir os sonhos esta noite – disse ela, na distância - Deixarei a cancela aberta e o coração na esquina, porque te quer bailar. Quando chegares, saberei. Cantar-me-ás à janela do rés-do-chão da alma, uma canção sem palavras, em silêncio. E eu levanto-me de perto do lume, onde te espero meio adormecida, e o teu abraço sacode-me os sentidos, abafando o coração que grita e o corpo que treme. E, juntos, fazemos amor dançando, devagar, com os violinos da meia-noite, a praia escura e a lua negra como lençol.

Prometo – disse-lhe ele, na distância.”

Gosto de  

Posted by A Mor..

Sim, tudo é possível.
É possível todas as coisas - como coisas uma só: singular.
É possível esse gosto de amaranto quando lembro desse sonho recorrente secando minhas lágrimas.
É possível esse sóbrio meu agir, infinito agir de forma diferente a cada gota de vinho.
Eu carregando sementes como amuletos vermelhos colorindo meus dedos e meu rosto suado, procurando você em baixo de pedras, por traz de arbustos e vendo seus sinais em tudo.
A natureza ri de mim, ri da parte dela que perdeu o juízo. 

Uma noite com Caetano  

Posted by A Mor..

Caetano chegou sem cumprimentar. Foi direto pra cozinha, o jantar era servido ate as 19h30. Se alimentou, e assumiu seu posto, lugar onde ficaria ate as próximas 5 horas. Em pé, na portaria, observou o céu que escurecia rapidamente e comentou:

- Tomara que não chova.

Foram então suas primeiras palavras, depois do aceno com a cabeça.  Caetano trabalhava como segurança  em um pequeno restaurante burguês no centro da cidade. Não demorou muito e os primeiros pingos de chuva começaram a cair naquele inicio de noite, que marcava o primeiro dia de trabalho como recepcionista da menina branca.

Caetano ajeitou o paletó, e tirou de um canto um enorme guarda-chuvas. A chuva caia sobre a grama calmamente lavando as rosas que pareciam tristes naquele dia de finados. O movimento no restaurante era calmo, entretanto sempre saindo e chegando pessoas. Logo, os serviços de Caetano eram  necessários, um casal se aproximava. Com seu guarda-chuva Caetano os protegia dos pingos que caiam do céu.

Caetano olhou pro céu com uma certa tristeza, enquanto assoava seu nariz resfriado resmungava do trabalho noturno em dias chuvosos.

Mal sabia ele que uma tempestade viria, e que ele, na chuva, receberia vários clientes.
Tantas idas e vindas, levando e trazendo clientes, deixaram Caetano encharcado, em seu rosto percebia sua fúria contida. Caetano se encostou na parede, em pé, tirou um dos sapatos e apertou sua meia completamente molhada. Olhou pra menina branca, e disse:

- Queria tanto que um trabalho só, fosse suficiente pra cuidar de minha família. 

Rosa-prisão, rosa-loucura  

Posted by Mag in

Descalça, ela corria o mais que podia no relvado molhado da chuva, as gotas fustigando a bata branca enorme que o vento colava às suas pernas, a urgência correndo no sangue, segundos preciosos que se esgotavam de cada vez que tropeçava e caía desamparada no escuro da noite, os ramos ferindo-lhe os braços nús.

Atrás dela, num susto, começaram a soar as sirenes de aviso. Alguém fugira.
Imaginava a confusão que comaçava a entrar no estreito viver do hospício, em que tudo tinha o seu devido tempo, como um relógio demasiadamente bem oleado e afinado ao segundo.
O reboliço das enferneiras revirando quartos, enfermarias e salas de detenção, procurando o rato que fugira da ratoeira.
As caras daquelas que o Mundo dizia loucas encostadas às barras das janelas, umas enviando secretas preces de apoio a quem se atrevera a rasgar o véu da inconsciência regada a medicação e outras agoniando a raiva de não terem igual coragem.

Claro que para se escapar tivera de vender o corpo ao enfermeiro responsável pelo trancar de portas à noite. Fechara os olhos e fechara-se no seu âmago, tentando não sentir as suas carícias apressadas e a posse rápida e brutal. Havia um preço (alto) a pagar, e ela pagara-o. Vomitando em seguida o seu pecado.

Agora a chuva abençoada limpava-lhe o corpo de fluidos e náuseas, amparando-lhe a dor.

Mais uns passos e estava junto do muro onde combinara com Roberto, que devia atirar-lhe uma corda para se içar.

Os cães cheiravam-lhe o rasto e sentia a sua proximidade como um arrepio na nuca, mas não podia dar-se ao luxo de parar e olhar para trás. Por vezes, a ignorância é uma bênção.

O muro.
E nada de corda.

Roberto!, gritou.
O silêncio da resposta ensurdecia-a.

Tremendo, encostou-se ao muro e deixou-se cair de joelhos.
Tudo isto para nada. Prostituíra-se para nada. O desespero consumia-a.

E eles vinham aí, os cães, o rosa do uniforme das enfermeiras destacando-se na luz da lua. Rosa-enjôo, rosa-prisão, rosa-loucura.

Um mocho uivou e voou para longe.
Uma corda caiu-lhe sobre os cabelos revoltos, e o coração começou de novo a latir.
Subiu vertiginosamente, com forças que desconhecia ainda possuir.

Do outro lado, Roberto amparou-lhe a queda no seu colo.
Retiraram a corda e, de mão dada, sorrindo, fugiram para o Mini que os esperava.

De que se faz o amor?  

Posted by Mag in

Como sei, perguntas-me tu?

São os teus olhos que falam comigo e me contam de Mundos partilhados, de viagens fantásticas, de vidas trazidas, em memórias, ao presente, que me acariciam a pele sem me tocar.
São as tuas palavras embalando-me a alma, cantando-me trovas sem o saberes, nutrindo-me o coração, afagando-me o corpo, calando-me, aos poucos, o medo.
É o cheiro da tua pele na minha, um chegar a casa com o corpo cansado e a precisar de mimos, um aroma a pertença, a partilha, a doçura.
É o teu abraço forte que me protege e ampara, o ninho que crias para que nele me aconchegue e ressurja, equilibrada e forte.
É o beijo da tua boca vermelha na minha, promessa de brisa que sossega a tempestade revolta do mar, que acalma o chocalhar disperso das pulseiras de cigana que me adornam os braços, que me faz querer ficar ali, suspensa no tempo, no espaço, sem peso, sem saber, sem pensar.
São os segredos partilhados, as cumplicidades tão reconhecidas, o ser um e ser dois e crescer mais e querer mais, as descobertas de todos os dias, o sabor a mar nos lábios, e a terra para fincar os pés, e o fogo no peito, e o ar para espraiar as asas.
Como sei?
Não sei.
Mas quando penso em ti, recordo-me de tudo isto.

Um bilhete, que não foi entregue.  

Posted by A Mor..

Um dia, no passado, eu disse que de você, eu queria devoção. Eu não brinquei quando disse isso, falei serio; mas não sei se me compreendeu. Devoção, não é nada mais que alcançar a profundidade da intimidade, vai além de total cumplicidade. Vai além, muito além.

Devoção, não se trata de culto. É afeto, é dedicação, é uma veneração especial. Falando poeticamente, “é um querer bem mais que bem querer”.

Duas coisas foram decisivas para que fossemos juntos. A primeira delas, é o seu olhar, a felicidade que ele mostrava pra mim; e a segunda, um detalhe do nosso primeiro encontro, o carinho que você dedicou a mim, naquela noite. Você nunca foi tão carinho como naquele primeiro dia. Muitas coisas já me chamavam atenção em você, mas isso, foi realmente o que selou a minha escolha, em ser Sua.

Tenho sido Sua, desde aquele dia, desde aquela noite com luar e sem estrelas. E agora, depois de 6 meses, me pego perguntando, se você tem sido Meu, se tem sido devoto a mim.

Eu tentei fincar minha bandeira, construir mais de meus labirintos, levantar meus edifícios, fundar civilizações. E, da minha maneira torta, fui desequilibrando teu ecossistema, quando tudo o que eu queria era plantar sementes, ver nascer arvores fortes e frutíferas.

Entenda, o meu descontentamento, não tem nenhuma relação com sua falta de tempo. O meu descontentamento, é pela falta de profundidade, pela falta de disposição. Em minhas veias, corre sangue quente, minha seiva é calor e é isso que me mantem viva! Por que sou calor, porque faço calor!

Tenho andado fria, me sentido morta e você não faz nada pra me aquecer.

(À Suivre - 07)  

Posted by LBJ in

Sempre me fascinaram as atracções e na altura não conseguia compreender os seus mecanismos e na realidade penso que ainda hoje não os compreendo. Hoje que já sou adulto sei que há hormonas e cheiros e nuances e padrões e curvas e linhas e outras coisas que tanta vez as razões não explicam como um brilho inesperado no cabelo num dia de Sol ou um sorriso suave de lábios fechados ou uma simples e honesta gargalhada ou a surpresa daquele encontro mas saber todas estas coisas não me traz mais compreensão nem me facilita tudo o resto.

Todos tínhamos alguma inveja do Rubinudo mas esse não era um sentimento maldoso ao ponto de lhe desejarmos que algo menos simpático acontecesse ou que um dia ele acordasse com uma borbulha vermelhona e luzidia no nariz diminuto e direitinho e arrebitado ou que o cabelo de repente deixasse de ser fino e claro para se parecer com o ninho dos hamsters do Piloto ou que os olhos que eram cinzento azulados se estragassem de alguma forma, longe disso, apenas tínhamos alguma inveja e tínhamos mais que razão e razões para isso.

Nenhum de nós conseguia perceber como é que ele fazia mas era uma coisa quase sobrenatural que podia impressionar qualquer estreante nas nossas andanças e não havia dúvida que gostava de ter aquele poder e não se abstinha de o pôr à prova e não foram nem uma nem duas nem sequer vinte ou mais vezes em que entrava na pastelaria e punha-se a olhar para as vitrinas com ar perdido de cãozinho sem dono e para os bolos em forma de passarinho encorpados em creme e mais creme ou para as tortas de chocolate recheadas e cobertas ou outra qualquer doçaria que nascera da explosão de gemas de ovo com cascatas de açúcar e nos fazia crescer água na boca pelos olhos e havia sempre, mas sempre alguém que lhe passava a mão pela cabeça e com um: “coitadinho do menino que tem fome…”, lhe comprava a guloseima. Estranhamente ou talvez não, na maior parte das vezes eram senhoras que nós achávamos que tinham idade suficiente para serem nossas mães ou até mais velhas como as nossas avós mas nós naquela idade achávamos que todos os adultos tinham idade suficiente para serem nossos pais ou até mais velhos como os nossos avós.

Afinal o Rubinudo era um miúdo porreiro e invariavelmente dividia os bolos connosco, dentada a um mordidela a outro e lambidela a todos e ninguém se enojava com isso nem com a outra questão que a alguns de nós começava a comichar porque embora já pensássemos nisso das miúdas não pensávamos muito, mas no fundo todos sabíamos que viria um dia em que o iríamos odiar. Elas eram ainda pequenos seres ruidosos de voz estridente e que gritavam por tudo e por nada e que choravam por nada e por tudo e não percebiam nada de nada de tudo o que nos interessava e não as queríamos por perto mas ele parecia que as atraía como os bolos de creme e chocolate nos atraíam a nós e entre risinhos e cotoveladas e piscadelas cúmplices bastava que alguém se distraísse e lá vinham convidá-lo para um cházinho e bolachinhas e outras brincadeiras inaceitáveis a um membro efectivo de um grupo de aventureiros como o nosso mas ele não lhes ligava muito e limitava-se a sorrir e tinha um jeito de o fazer com os olhos enquanto se afastava que as derretia em suspiros e ais e no fundo todos sabíamos que já o odiávamos um bocadinho.

(À Suivre)

Corpo de sal  

Posted by Mag in

É quando o meu corpo se fantasia de estátua de sal, neste mar onde o azul e o verde se beijam em despudoradas e translúcidas mesclas de cores, é quando sinto o frio imenso e salgado lamber-me a pele, é quando me banho nua e só neste pequeno local que é meu, é agora que mais sinto, voraz, a tua ausência.
A ausência de quem nunca comigo esteve, de quem nunca me saboreou, a quem nunca ofereci este abraço moreno e este corpo que sonha entregar-se ao teu, numa vontade que começou discreta e sensata e se transformou numa cobra que me estrangula de desejo, de cada vez que te penso.
E esta luxúria dos sentidos que me consome sem te ter liberta-se agora nas mãos doces de Iemanjá, que me afaga a tristeza e me embala devagar, levando-me para longe da areia da praia…

Os segundos da dúvida  

Posted by Mag in

Fui eu que sonhei, ou aconteceu?
As memórias escapam-se-me por entre as sinopses gastas do meu coração cansado das milhas áridas que já percorreu.
Talvez tenha sido apenas um momento fabricado com cuidado pelo meu desejo. Talvez tenha sido o meu leve querer, um misto de gosto/desgosto que por algum motivo te elegeu de entre um milhar de rostos, corpos e almas.
Ou talvez tenha sido a palpitante realidade, um universo que me abriu a porta timidamente, mostrando-me um caminho que podia ter percorrido. Mas o medo apanhou-me à traição... por isso nunca o saberei.

Uns segundos.
Foi o tempo em que o teu olhar se alambazou no meu.
O tempo em que a tua mão se estendeu ávida para a minha, enquanto me deixavas naquele cais de embarque, na despedida.
O tempo em que me estendeste um beijo destinado aos meus lábios... o beijo a que eu cobardemente fugi.

O tempo que não dá meia volta, e se perdeu.

Fui eu que sonhei, ou aconteceu?

O momento que tudo mudou  

Posted by Mag in

Furioso, atirou o capacete para o chão e começou a andar para bem longe da multidão que o olhava.
Fervia de indignação, misturada com uma irracional raiva contra si mesmo.
Pressionava-se para ser o melhor, mas no fundo continuava a criança assustada que precisava de apoio emocional.

Ela viu-o partir e, suspirando, seguiu calmamente no seu encalço.
Já o conhecia o suficiente para saber que por debaixo daquele corpo de homem adulto se silenciava uma alma sensível em busca de carinho e amor. Que nunca admitiria. E sabia que os primeiros momentos seriam de ira, pelo que convinha deixá-lo só.

Ele sentiu-a chegar muito antes de a ver. O seu corpo dava o alarme de cada vez que a sentia perto. Tinha de esconder esse sentimento crescente e responder à urgência do toque com momentos de fingida descontracção no grupo. Eram tão fugazes e deixavam-no tão insatisfeito que de noite, com a namorada nos braços, percebia-se a imaginar que era a ela quem abraçava e beijava... e se torturava em seguida, achando-se o pior de todos os homens.

Naquele momento a raiva misturava-se com o desejo forte de lhe sentir a pele, o gosto, o corpo contra o seu, e a ira parecia incendiar, a ponto de ameaçar ensandecê-lo, a loucura dos sentidos.

O seu olhar chamou-a, sem palavras.
Devagar, ela chegou ao pé dele e passou-lhe uma mão ao de leve num dos braços. Não precisava de muito para o fazer sentir que estava ali. Era o papel dela, e fazia-o com todos os membros da equipa. Claro que ele era especial... mas isso não o podia deixar saber. Não sabia mais como o esconder, na verdade, porque o sentimento que a consumia parecia-lhe transbordar por todos os poros da pele.

Sem pensar, ele puxou-a com força contra o seu peito e enlaçou-a pela cintura. Chorava de raiva, dor, carência, paixão, desejo e medo. Os dedos dela tocaram-lhe nas lágrimas e os dois olharam-se durante uns segundos que pareceram durar uma eternidade.

E depois o Mundo desabou.

Com sede, ele procurou-lhe os lábios, enquanto os dedos matavam a fome explorando o seu corpo. Ardia. E já não havia volta atrás no caminho que escolhera.
O corpo dela parecia convidá-lo à descoberta. Não o esperava, de todo, mas pressentia nela a mesma voraz vontade que o acordava de noite depois de horas a sonhar amá-la.

Apercebeu-se de repente que o estava a fazer naquele momento.
Encostara-a contra uma pedra e beijava-lhe os seios, enquanto os seus dedos traçavam a rota tão ansiada de encontro ao centro do seu desejo, encontrando-a húmida. Respirando ofegantemente, ela olhava-o bem nos olhos enquanto o guiava para dentro de si, num óbvio convite à consumação do prazer.

Ambos gritaram baixinho no momento da penetração.
Tinham vivenciado mil vezes aquele encontro, mas nem nas suas fantasias mais loucas supuseram uma união tão completa e uma entrega tão imensa.

O mergulho veio abençoado e rápido, em simultâneo, um embutir de todos os sentidos conjugados num único instante. A descida ao abismo esgotou-lhes as forças e deixaram-se ficar abraçados e perdidos, mais juntos que nunca.

E tudo mudou nesse momento.

Um dia destes  

Posted by Anónimo in

Num dia, que não este, vais dizer-me o que quero ouvir, mesmo que as comportas da barragem se abram e uma nova albufeira apareça.
Num dia, que não este, vou ter a coragem de dizer o que penso.
Num dia, que não este, vou fazer o que deve ser feito.
Num dia, que não este, vou deixar de mentir, vou dizer que não, não estou bem.
Num dia, que não este, vou aceitar que não posso racionalizar sentimentos.
Num dia, que não este, vou aparecer à tua porta, de mala na mão à espera de um para sempre.
Nesse dia, vou acordar como sempre, com saudades de ti, de nós. Vou abrir os olhos e saber, que o dia chegou. Ainda não é hoje, o dia, mas em breve.

A sacerdotisa  

Posted by Mag in

Abro os olhos pestanejando com a luz amorosa do Sol a refastelar-se já pelo quarto adentro, descobrindo-me os segredos enfiados em gavetas.

Enquanto sacudo de mim a réstia do sonho, abraçando o novo dia que se descobre diante de mim e aplaudindo-o com a alma aberta, entranha-se-me a ideia de que aquele será um dia verdadeiramente especial no meu caminho. Alegram-se-me os olhos e pula-me o coração no peito em antecipação da noite mágica, o familiar medo apertando-me o pescoço. Mas aprendi que o medo é apenas a manifestação do que nos é querido. E este passo, sem dúvida, será a oficialização do meu destino sagrado.

Aquele para onde os meus passos me conduziram, primeiro a menina tímida e diferente, com o vento do Norte a soprar-lhe ainda em sussurro distante no ventre, depois a jovem em busca de se encontrar na sabedoria ancestral, apalpando o caminho apenas com a candeia daquilo que a alma reconhecia como seu, e por fim a mulher que hoje contemplo ao espelho, olhos dourados de esperança e amor.

De pequena mendiga de amor a sacerdotisa da fecundidade e da fé.

De semente fincada na terra a flor vibrante de cor exposta aos elementos. Que tanto amo e protejo – Ar, Terra, Água e Fogo, cruzando-se nas minhas veias de maga, fundindo-se no quinto, que deles depende: o Homem.

E seria na noite indicada nas cartas da Vida da minha madrinha, noite em que a Lua se enche de prata no céu, gorda de orgulho e prenha de luz, que ela me nomearia sua sucessora nos caminhos de Maga, a nova Sacerdotisa do Povo.

Enquanto sonho acordada com a cerimónia que Rayna, minha madrinha, me havia descrito, preparo tudo o que precisaremos para a noite: o vinho quente com especiarias e ervas, receita (diz-se) que descende da primeira Sacerdotisa, Lydia, os pães de mel para forrar o estômago, lenha para a fogueira, a mistura de cinza, mirra e incenso para desenhar o pentagrama na terra, os tambores para animar aquilo que se pretende ser uma festa, um júbilo.

O meu vestido, sonhado por mim em noite de Lua minguante, precisamente 21 dias após o final da minha aprendizagem, está pendurado no roupeiro do meu quarto. Olho-o com orgulho, pois é o traje mais belo que alguma vez vi: veludo em tom lilás, bordado com desenhos de estrelas, luas, sóis e animais inventados, debruado a fios de prata como manda a tradição. Ruborizo-me de gozo só de pensar em envergá-lo.

Finalmente tudo está pronto e, como se adivinhasse o momento certo para aparecer, Rayna chega para me ajudar a vestir e me purificar a mente, o corpo, coração e alma, preparando-me para receber a bênção mais importante do meu Povo.

Seguimos para a floresta, para o local de culto, guiadas pela luz cúmplice da Lua e a magia que se sente na pele, a todo o tempo.

As pedras do altar recortam-se no céu negro e se não conhecesse este lugar como a palma da minha mão assustar-me-ia com a força que nele habita. Força de séculos de magia que aqui se celebraram, de sabedoria espalhada para o bem de todos.

Rayna e eu acendemos a fogueira, com cuidado, e colocamos o vinho e o mel sobre uma das pedras.

Os habitantes da aldeia começam a chegar aos poucos, as faces coradas dos afazeres diários e da expectativa antecipada. Eram celebrados com grande alegria, aqueles actos. Somos uma família, quando nos unimos em cânticos ao redor das chamas.

Estamos todos, e distribuo o vinho. Bebe-se generosamente, solta-se a língua, canta-se aqui e acolá até que, embalados ao mesmo ritmo, damos conta que estamos em roda, a vibrar. E eu, Lilith, no centro.

Rayna rompe pelo círculo e busca-me pela mão até ao charco de água. Estou em meio transe, ouço as vozes a cantar como se de um ruído distante se tratasse. Despe-me as roupas e diz-me para me baptizar no charco. Em voz alta, grita o meu nome, e anuncia-me como a nova Sacerdotisa.

Não tenho vergonha nem sinto pudor da minha nudez, antes um calor se me enrola no corpo enquanto me encaminho, guiada pelo meu espírito-guia, para o centro do pentagrama.

O Povo rodeia-me e sinto a força nas suas vozes e o orgulho nos seus olhos.

A energia invade-me, preenche-me, domina-me, emprenha-me. Deixo-me ir, ao sabor do vento do Norte, senhora do meu caminho.

E tudo se faz luz, e tudo se faz negro, e tudo se faz uno.

Amo-te  

Posted by Anónimo in


Nunca o tinha dito a ninguém. Não porque nunca o tivesse sentido, achava que sim. Que a determinada altura até amou, ou não. Não sabia, nunca teve a certeza suficiente para que a palavra lhe saísse naturalmente, por isso nunca o disse. Gosto de ti, quero-te, desejo-te, sim, imensas vezes às pessoas que lhe tinham passado pela vida. Nunca amo-te, a ninguém.
Ouvia muitas vezes as pessoas a dizê-lo como quem diz um « bom dia, como estás », banalizando a palavra, transformando-a em algo vulgar.
Mas, a verdade é que era apenas uma palavra, não era ? Uma palavra à qual se atribuía demasiado significado, pelo menos ela fazia-o. Tinham-lhe perguntado, há tempos, Amas-me ? ela sorriu e respondeu com outra pergunta, o que achas ? ele disse-lhe que sim, que achava que sim, então isso deve bastar, foi a resposta dela. Terminaram a relação pouco tempo depois, ele terminou na verdade. Acusando-a de ser fria, sem sentimentos, incapaz de amar. Apenas porque não lho disse. Talvez tivesse razão, talvez ela fosse mesmo uma pessoa fria, porque para além de não o dizer, também nunca quis ouvir, nunca o perguntou a ninguém. Se lho diziam, era bom, mas se não o fizessem, era igual.
Até agora. Agora dava por si a engasgar-se com a palavra que parecia querer saltar-lhe da boca. Agora olhava para ele e tudo o que lhe apetecia dizer era Amo-te. Eu amo-te. Logo agora, quando não era suposto dizer, quando nem sequer sabia se era algo que ele queria ouvir.
Era engraçado, que logo agora que o queria dizer, estivesse numa posição em que nunca o faria, não o diria em voz alta. Mas podia pensá-lo, e dizê-lo para si própria, não havia mal nenhum nisso, ninguém teria de ouvi-la dizer Amo-te, Eu amo-te, ninguém precisava saber. Só ela…

Retorno  

Posted by LBJ in

-Desculpa, dás-me um cigarro?

-Porque não… até te faço companhia.

-Há muito que não te vejo por aqui.

-Costumava vir todos meses, às vezes com tempo e outras apressado, um dia distrai-me…

-E deixaste de vir!?

-Esqueci-me do caminho.

-E como chegaste cá hoje?

-Por acaso, deambulava sem destino e quando dei por mim estava por aqui.

-E encontraste-me?

-Parece-me que foste mais tu que me encontraste.

-Eu esperava por ti.

-Por mim?

-Ou por um dos teus personagens.

-E tens algum que prefiras?

-Tenho vários, gosto sobretudo dos loucos e dos perdidos e dos imprevistos.

-Porquê?

-Não sei, não tem que haver uma razão para tudo.

-Pois não.

-Vais voltar?

-Quando? Onde?

-Na próxima vez, aqui onde podemos partilhar um cigarro.

-E partilhar um caminho perdido ou um devaneio ou a imprevisibilidade de uma palavra sem contexto?

-Tinha saudades de te ter por cá.

-Parece-me que tinha falta de cá vir.

-Dás-me outro cigarro?

Num mundo que não este, o teu(0)...  

Posted by I.D.Pena in

Reside mais mundos que não ves , um deles diz se que é o passado ainda a correr a repercutir-se pelos ouvidos mais abertos resolvidos a entender os absurdos . E é nesse plano que me vi enclausurada . Vivendo o passado descompassadamente e repetidamente , pensei que tinha enlouquecido , e enlouqueci perdi o rumo mas encontrei-o quando tentei perceber a razão para este labirinto psiquico, cai por um portal e para outro mundo onde a razão o tempo e a gravidade nao coexiste, um microcosmos onde poderiamos contemplar o tamanho do nucleo de um atomo enquanto percorriamos distancias inimagináveis e desafiantes à paciencia de qualquer resistente de controle mental . Nesse mundo entendi que não sou nada mas que faço parte do tudo, essa conclusão pareceu-me mais lógica na altura , agora nem tanto , em todos eles descobri a emoção amor na origem simbólica da vida como que se fosse eu a relembrar-me a mim mesma que em todos os lugares existe o amor , ate neste 3º mundo que dizem ser nosso. Que ilusão enorme , nós é que somos do Mundo.

Vais voltar?  

Posted by Anónimo in

O som de uma mensagem recebida no telemóvel acordou-o. O relógio marcava 3 da manhã. Olhou para a mulher que continuava a dormir placidamente ao seu lado. Àquela hora, só podia ser uma pessoa. A mensagem, uma palavra apenas : amanhã. Ia vê-la amanhã. Sentiu o estômago contrair-se instantâneamente, algo que acontecia sempre que pensava nela. Já não se viam há muito tempo, demasiado até.
Lembrava-se perfeitamente da última vez em que se viram, conseguia ainda ver com clareza a expressão do rosto dela, quando ele lhe fez a pergunta de sempre : Vais voltar ? Sentiu a hesitação dela, prendeu a respiração esperando, esperando que dessa vez ela lhe dissesse que sim, que ia voltar. Estava convencido que daquela vez, a resposta quase foi diferente, mas no último momento, ela voltou-se e disse que não, não voltaria.
Mas amanhã, sim, amanhã encontrar-se-iam outra vez. No sítio de sempre. Onde por momentos, sempre tão breves, a teria nos braços e a amaria. Fingindo que não, fingindo que não a conhecia tão bem como a si próprio. Tratando-a como a uma estranha com quem partilhava apenas o corpo e umas horas de prazer.
Ao contrário do que ela pensava, conhecia-a, demasiado bem até. Por isso aceitava jogar nos termos dela, aceitava as condições dela, mas conhecia-a. Antes até de lhe ter falado pela primeira vez já a conhecia. Costumava vê-la ao longe, frequentavam os mesmos lugares, despertou-lhe a atenção pela primeira vez numa tarde em que a viu sentada sozinha numa mesa do café. Sempre foi observador e num momento de tédio enquanto esperava a mulher que tinha ficado de se encontrar com ele ali depois de uma expedição de compras, entreteve-se a observar os restantes clientes.
O olhar prendeu-se nela. Apesar do aspecto cuidado, havia nela um ar de desalinho que achou curioso. Como se tivesse passado no meio de um grande vendaval que deixou tudo ligeiramente fora do sítio. Era Inverno e ela trazia um casaco de fazenda pesado com um dos botões pendurado, o cachecol estava desfiado numa das pontas e várias madeixas de cabelo escapavam do rabo de cavalo com que o tinha prendido. O rosto era bonito, se bem que não harmonioso, o nariz era demasiado grande e destoava do resto das feições, os labios eram finos e as maçãs do rosto salientes, mas os olhos… foram os olhos que o prenderam. Nunca tinha visto olhos daquela cor, não conseguia dizer com certeza se eram azuis, verdes ou cinzentos, mas mais do que a cor, foi a expressão que o cativou.
Viu-a mais vezes, muitas mais, antes daquele dia em que a abordou na livraria. Antes da primeira vez. Sabia que o nome que lhe dissera ser o seu não era verdadeiro, não foi preciso muito para o descobrir. Sabia tudo o que ela a tanto custo lhe tentava esconder, aprendera-o nas entrelinhas, de tudo o que ela lhe tinha dito, não querendo dizer a verdade. E amava-a. Amanhã, amanhã voltaria a perguntar e talvez desta vez ela respondesse que sim quando lhe perguntasse : Vais voltar ?

Até ti...  

Posted by Bruno Fehr in

Não estás aqui. Gostava que estivesses nem que fosse por um minuto. Queria perguntar-te tudo aquilo que nunca me disseste. (...) Culpo-me por algo que possa ter feito ou dito. Culpo-me por tudo aquilo que não fiz e não disse. Culpo-me principalmente por nunca te ter dito que te amo. 

Será que te vou voltar a ver? Entraste na minha vida como um furacão. Destruíste tudo à minha volta. Tu, só tu. Nada mais restou do meu velho mundo, nada mais importava. Só tu. Saíste da minha minha vida da mesma maneira que a invadiste, destruindo tudo outra vez. Deixaste a dor, a tristeza, o vazio e a devastação do pequeno mundo que construí à tua volta. Não estás aqui. A minha vida ficou vazia. Não tive um aviso, um sinal, um adeus. Nada! Deixaste-me um bilhete, que recebi meses depois da tua partida. Li-o. Sorri. Foi a primeira vez que sorri desde que partiste. Uma mensagem curta, que terminava com um "amo-te".
Se me amas fica! Não dizem que o amor vence todas barreiras ? Eu também te amo! Fica!
Que injusto, tiveste a última palavra. Escreveste o que eu mais queria ouvir e dizer-te. Ao ler o teu "amo-te", sorri com um rio de lágrimas a descer pela minha face. Respondi-te em voz alta, "amo-te, amo-te, também te amo", na infantil esperança que me ouvisses. Em vão…?
Se me amas porque não me disseste? Se me amas porque partiste? Se tinhas mesmo de partir, devias ter-me dito o que sentias. Se me amas… Se alguém que eu amo me ama, por que motivo me sinto tão só, tão vazio? Vazio mas cheio de amor para dar. Para te dar. Só tu importas. 

Pergunto-me constantemente quando te voltarei a ver, se é que te voltarei a ver. Começo a pensar que não, pois não te mereço, caso contrário estarias aqui, e eu não estaria a escrever nestas linhas, na esperança que estas minhas palavras cheguem até ti. 
Apesar de não acreditar, sinto algo dentro de mim, uma faísca de esperança, que parece dizer-me, "um dia, um dia". Esse dia, soa a um dia distante, tão distante, que posso já ter sofrido tudo o que há para sofrer. O sofrimento destrói os bons sentimentos. Tenho medo de chegar a esse dia e já não sentir. Tenho medo de não te reconhecer. Pior ainda, que tu não me reconheças.

Lembro-me de ti a toda a hora, mas a tua imagem na minha memoria vai-se desvanecendo com o tempo. Obrigo-me a lembrar; da tua voz doce, dos teus olhos tão azuis nos quais me parecia perder, do teu cabelo louro, fino, brilhante, do teu sorriso encantador em que ao sorrir parecias iluminar uma sala, um sorriso tão contagiante que era impossível não sorrir contigo, o teu toque, suave, quente, meigo. É impossível esquecer o que representaste para mim, não vou esquecer a pessoa que foste na minha vida. Nunca te vou deixar de amar mesmo amando outra mulher. Tens e terás sempre um cantinho só teu no meu coração... O problema é que esse cantinho é ainda todo o meu coração. Não quero esquecer nada, por isso todos os dia me obrigo a lembrar. Lembrar para não esquecer.

Dói. Ainda dói muito, mas já não custa tanto. Não sei se dói menos, ou se me habituei à dor. Não importa. Já não choro como chorava pois as memórias que guardo são boas. Sorrio. Tristemente, sorrio.
O tempo passa. Voltei a gostar de alguém, mas nunca lhes falei de ti. Tentei mas nunca falei. Acredito que se soubessem quem tu foste na minha vida, as ajudava a perceber quem eu sou. Estou certo que sim, mas não consegui invadir a minha própria privacidade. Consigo escrever mas não falar sobre o passado. As palavras saem soluçantes e parecem ser sempre as palavras erradas. Admito que tive medo, medo de as fazer sentir que estariam a competir contigo. Medo de elas acharem que não estavam à tua altura. Medo que elas sentissem que eram uma segunda escolha. Eu não tenho a certeza se o são ou não, mas isso não significa que queira magoar alguém, pois para dor já basta a minha. Por isso, nesta minha nova vida sem ti, tu és só minha, és o meu mais bem guardado segredo. Ninguém sabe. Infelizmente não és só minha como eu sonhava, mas na medida do possível, só minha. 

Adoro este termo, "medida do possível", como se o possível, fosse possível medir.
Eu não quero falar de ti. Quero falar contigo. Onde estás? Diz-me onde! Só quero saber se continuas com aquele sorriso encantador, se continuas feliz, pois bela sempre serás. Ainda te lembras de mim?

Dentro de mim há amor. Dentro de mim há raiva. Não sei. Sinto um misto de amor e raiva. Amor por ti, raiva por não poder estar contigo. É provavelmente este conflito de sentimentos que me faz acreditar que nada, NADA me pode impedir de te voltar a ver, de estar contigo. Sei que não será hoje, nem amanhã, mas um dia...! Enquanto esse dia não chega, espero, sofro e lembro, lembro-me de não esquecer.

Anos... Incrível, já passaram mais anos do que dedos que os contabilizem, desde a última vez que te vi. Doze anos desde a primeira lágrima que chorei por ti. Doze anos de dor, saudade, tristeza, raiva, amor e esperança. 
O tempo passa é verdade, mas é mentira que o tempo cure tudo. Quanto tempo precisa o tempo para curar? Será que quando o tempo tiver tempo de curar a minha dor, eu terei ainda tempo de viver sem ela?
Sempre que recuo todo este tempo na minha memória, sinto a mesma dor que senti naquele dia, a mesma confusão na minha cabeça, volto a fazer as mesmas perguntas e os meus olhos mais uma vez enchem-se de lágrimas que tento a todo o custo conter. Não quero chorar mais por ti. De vez em quando, lá me foge uma lágrima ou outra. Quero sorrir por ti, para ti. Quero viver o resto da minha vida a sorrir e sorrir quando te voltar a ver. 
Por agora recordo, enquanto recordo escrevo, escrevo-te, desejando que estas palavras encontrem o caminho até ti. No fundo talvez escreva para mim mesmo como uma maneira de ter esquecer, lembrando-me de ti. Na verdade, sem ti não sou ninguém, por isso se não é para ti escrevo então é inútil escrever, pois todas estas palavras estão condenadas a perderem-se em frases que nunca ninguém irá ler, palavras espalhadas por folhas de papel que serão dispersas pelo tempo e impossíveis de reordenar, pois estas palavras são sentimentos. Se fosse possível organizar sentimentos que são desorganizados por natureza, não existiria a dor, pois ela seria suavizada pela organização sentimental. 

Escolho viver o momento fugindo do passado, mas o que posso fazer quando os meus momentos estão cheios de passado? Se a vida são dois dias e um já passou, qual é o problema de passar o dia que me resta a recordar? O futuro não me pode preocupar, pois o dia está a acabar e quero chegar ao fim dele com as tuas palavras a ressoar na minha mente como se em vez de escritas tivessem saído da tua boca:

«Vejo o teu esforço para esconder as lágrimas. Vejo o teu sorriso tentando esconder a dor. Não chores nunca por mim, eu não sinto nem dor nem medo. Fui feliz, muito feliz contigo e estou feliz por te ter conhecido, feliz por ter sentido sempre, que me amas.Um dia quando voltares a amar, vais sentir um empurrãozinho em direcção a ela e isso, serei eu a teu lado sorrindo e dizendo-te, "força".O meu único desejo é poder abraçar-te segundos antes de partir e poder dizer-te não Adeus, mas sim Amo-te.»

Querer ver-te, envolver-te nos meus braços, beijar-te, falar contigo podem ser desejos impossíveis, mas tudo o que é possível hoje, foi impossível um dia. Se me for permitido, tornar um dos meus impossíveis em possível, que seja; estas palavras chegarem até ti enquanto espero um sinal teu. Até lá continuo a construir o meu caminho que me levará onde ninguém foi ainda, caminhando sozinho, procurando a tua cara na multidão.

Um dia quando partir, não haverá dor nem tristesa, lágrimas ou saudade, nem céu ou inferno, santos ou demónios, bem ou mal. Não haverá medo só certeza. A certeza que o meu caminho só termina em ti. 


(Excerto de Amor e Perda, por Bruno Fehr) 

Lust  

Posted by Mag

Se tu andasses movido apenas ao meu desejo, os teus pés correriam velozes sobre a cidade.
Se o teu corpo se sacudisse ao som dos meus pensamentos (que, mudos, te chamam), dançarias todos os ritmos com graciosidade felina.
Se os meus gritos surdos de loucura pudessem dotar-te de força, nascer-te-iam asas nas costas, e tocarias as nuvens com a ponta dos dedos.

Porque me povoas as noites com a luxúria dos sonhos livres, que me ensopam a pele e me consomem a razão.
Porque os meus olhos falsificam, ao olhar-te, o crescente murmúrio do meu corpo que se quer fundir no teu.
Porque a dança dos meus sentidos é teia invisível em teu redor, adormecida para que dela nunca suspeites.

É desejo nú o que me atormenta, meu bem.
Que o meu coração não te pertence, nem se deleita com o ouvir da tua voz ou o sentir do teu perfume.
Não.
Eu não te amo,  guerreiro.
Mas este desejo sim, tem o teu nome tatuado em brasa.