(À Suivre - 07)  

Posted by LBJ in

Sempre me fascinaram as atracções e na altura não conseguia compreender os seus mecanismos e na realidade penso que ainda hoje não os compreendo. Hoje que já sou adulto sei que há hormonas e cheiros e nuances e padrões e curvas e linhas e outras coisas que tanta vez as razões não explicam como um brilho inesperado no cabelo num dia de Sol ou um sorriso suave de lábios fechados ou uma simples e honesta gargalhada ou a surpresa daquele encontro mas saber todas estas coisas não me traz mais compreensão nem me facilita tudo o resto.

Todos tínhamos alguma inveja do Rubinudo mas esse não era um sentimento maldoso ao ponto de lhe desejarmos que algo menos simpático acontecesse ou que um dia ele acordasse com uma borbulha vermelhona e luzidia no nariz diminuto e direitinho e arrebitado ou que o cabelo de repente deixasse de ser fino e claro para se parecer com o ninho dos hamsters do Piloto ou que os olhos que eram cinzento azulados se estragassem de alguma forma, longe disso, apenas tínhamos alguma inveja e tínhamos mais que razão e razões para isso.

Nenhum de nós conseguia perceber como é que ele fazia mas era uma coisa quase sobrenatural que podia impressionar qualquer estreante nas nossas andanças e não havia dúvida que gostava de ter aquele poder e não se abstinha de o pôr à prova e não foram nem uma nem duas nem sequer vinte ou mais vezes em que entrava na pastelaria e punha-se a olhar para as vitrinas com ar perdido de cãozinho sem dono e para os bolos em forma de passarinho encorpados em creme e mais creme ou para as tortas de chocolate recheadas e cobertas ou outra qualquer doçaria que nascera da explosão de gemas de ovo com cascatas de açúcar e nos fazia crescer água na boca pelos olhos e havia sempre, mas sempre alguém que lhe passava a mão pela cabeça e com um: “coitadinho do menino que tem fome…”, lhe comprava a guloseima. Estranhamente ou talvez não, na maior parte das vezes eram senhoras que nós achávamos que tinham idade suficiente para serem nossas mães ou até mais velhas como as nossas avós mas nós naquela idade achávamos que todos os adultos tinham idade suficiente para serem nossos pais ou até mais velhos como os nossos avós.

Afinal o Rubinudo era um miúdo porreiro e invariavelmente dividia os bolos connosco, dentada a um mordidela a outro e lambidela a todos e ninguém se enojava com isso nem com a outra questão que a alguns de nós começava a comichar porque embora já pensássemos nisso das miúdas não pensávamos muito, mas no fundo todos sabíamos que viria um dia em que o iríamos odiar. Elas eram ainda pequenos seres ruidosos de voz estridente e que gritavam por tudo e por nada e que choravam por nada e por tudo e não percebiam nada de nada de tudo o que nos interessava e não as queríamos por perto mas ele parecia que as atraía como os bolos de creme e chocolate nos atraíam a nós e entre risinhos e cotoveladas e piscadelas cúmplices bastava que alguém se distraísse e lá vinham convidá-lo para um cházinho e bolachinhas e outras brincadeiras inaceitáveis a um membro efectivo de um grupo de aventureiros como o nosso mas ele não lhes ligava muito e limitava-se a sorrir e tinha um jeito de o fazer com os olhos enquanto se afastava que as derretia em suspiros e ais e no fundo todos sabíamos que já o odiávamos um bocadinho.

(À Suivre)

Corpo de sal  

Posted by Mag in

É quando o meu corpo se fantasia de estátua de sal, neste mar onde o azul e o verde se beijam em despudoradas e translúcidas mesclas de cores, é quando sinto o frio imenso e salgado lamber-me a pele, é quando me banho nua e só neste pequeno local que é meu, é agora que mais sinto, voraz, a tua ausência.
A ausência de quem nunca comigo esteve, de quem nunca me saboreou, a quem nunca ofereci este abraço moreno e este corpo que sonha entregar-se ao teu, numa vontade que começou discreta e sensata e se transformou numa cobra que me estrangula de desejo, de cada vez que te penso.
E esta luxúria dos sentidos que me consome sem te ter liberta-se agora nas mãos doces de Iemanjá, que me afaga a tristeza e me embala devagar, levando-me para longe da areia da praia…

Os segundos da dúvida  

Posted by Mag in

Fui eu que sonhei, ou aconteceu?
As memórias escapam-se-me por entre as sinopses gastas do meu coração cansado das milhas áridas que já percorreu.
Talvez tenha sido apenas um momento fabricado com cuidado pelo meu desejo. Talvez tenha sido o meu leve querer, um misto de gosto/desgosto que por algum motivo te elegeu de entre um milhar de rostos, corpos e almas.
Ou talvez tenha sido a palpitante realidade, um universo que me abriu a porta timidamente, mostrando-me um caminho que podia ter percorrido. Mas o medo apanhou-me à traição... por isso nunca o saberei.

Uns segundos.
Foi o tempo em que o teu olhar se alambazou no meu.
O tempo em que a tua mão se estendeu ávida para a minha, enquanto me deixavas naquele cais de embarque, na despedida.
O tempo em que me estendeste um beijo destinado aos meus lábios... o beijo a que eu cobardemente fugi.

O tempo que não dá meia volta, e se perdeu.

Fui eu que sonhei, ou aconteceu?

O momento que tudo mudou  

Posted by Mag in

Furioso, atirou o capacete para o chão e começou a andar para bem longe da multidão que o olhava.
Fervia de indignação, misturada com uma irracional raiva contra si mesmo.
Pressionava-se para ser o melhor, mas no fundo continuava a criança assustada que precisava de apoio emocional.

Ela viu-o partir e, suspirando, seguiu calmamente no seu encalço.
Já o conhecia o suficiente para saber que por debaixo daquele corpo de homem adulto se silenciava uma alma sensível em busca de carinho e amor. Que nunca admitiria. E sabia que os primeiros momentos seriam de ira, pelo que convinha deixá-lo só.

Ele sentiu-a chegar muito antes de a ver. O seu corpo dava o alarme de cada vez que a sentia perto. Tinha de esconder esse sentimento crescente e responder à urgência do toque com momentos de fingida descontracção no grupo. Eram tão fugazes e deixavam-no tão insatisfeito que de noite, com a namorada nos braços, percebia-se a imaginar que era a ela quem abraçava e beijava... e se torturava em seguida, achando-se o pior de todos os homens.

Naquele momento a raiva misturava-se com o desejo forte de lhe sentir a pele, o gosto, o corpo contra o seu, e a ira parecia incendiar, a ponto de ameaçar ensandecê-lo, a loucura dos sentidos.

O seu olhar chamou-a, sem palavras.
Devagar, ela chegou ao pé dele e passou-lhe uma mão ao de leve num dos braços. Não precisava de muito para o fazer sentir que estava ali. Era o papel dela, e fazia-o com todos os membros da equipa. Claro que ele era especial... mas isso não o podia deixar saber. Não sabia mais como o esconder, na verdade, porque o sentimento que a consumia parecia-lhe transbordar por todos os poros da pele.

Sem pensar, ele puxou-a com força contra o seu peito e enlaçou-a pela cintura. Chorava de raiva, dor, carência, paixão, desejo e medo. Os dedos dela tocaram-lhe nas lágrimas e os dois olharam-se durante uns segundos que pareceram durar uma eternidade.

E depois o Mundo desabou.

Com sede, ele procurou-lhe os lábios, enquanto os dedos matavam a fome explorando o seu corpo. Ardia. E já não havia volta atrás no caminho que escolhera.
O corpo dela parecia convidá-lo à descoberta. Não o esperava, de todo, mas pressentia nela a mesma voraz vontade que o acordava de noite depois de horas a sonhar amá-la.

Apercebeu-se de repente que o estava a fazer naquele momento.
Encostara-a contra uma pedra e beijava-lhe os seios, enquanto os seus dedos traçavam a rota tão ansiada de encontro ao centro do seu desejo, encontrando-a húmida. Respirando ofegantemente, ela olhava-o bem nos olhos enquanto o guiava para dentro de si, num óbvio convite à consumação do prazer.

Ambos gritaram baixinho no momento da penetração.
Tinham vivenciado mil vezes aquele encontro, mas nem nas suas fantasias mais loucas supuseram uma união tão completa e uma entrega tão imensa.

O mergulho veio abençoado e rápido, em simultâneo, um embutir de todos os sentidos conjugados num único instante. A descida ao abismo esgotou-lhes as forças e deixaram-se ficar abraçados e perdidos, mais juntos que nunca.

E tudo mudou nesse momento.

Um dia destes  

Posted by Anónimo in

Num dia, que não este, vais dizer-me o que quero ouvir, mesmo que as comportas da barragem se abram e uma nova albufeira apareça.
Num dia, que não este, vou ter a coragem de dizer o que penso.
Num dia, que não este, vou fazer o que deve ser feito.
Num dia, que não este, vou deixar de mentir, vou dizer que não, não estou bem.
Num dia, que não este, vou aceitar que não posso racionalizar sentimentos.
Num dia, que não este, vou aparecer à tua porta, de mala na mão à espera de um para sempre.
Nesse dia, vou acordar como sempre, com saudades de ti, de nós. Vou abrir os olhos e saber, que o dia chegou. Ainda não é hoje, o dia, mas em breve.

A sacerdotisa  

Posted by Mag in

Abro os olhos pestanejando com a luz amorosa do Sol a refastelar-se já pelo quarto adentro, descobrindo-me os segredos enfiados em gavetas.

Enquanto sacudo de mim a réstia do sonho, abraçando o novo dia que se descobre diante de mim e aplaudindo-o com a alma aberta, entranha-se-me a ideia de que aquele será um dia verdadeiramente especial no meu caminho. Alegram-se-me os olhos e pula-me o coração no peito em antecipação da noite mágica, o familiar medo apertando-me o pescoço. Mas aprendi que o medo é apenas a manifestação do que nos é querido. E este passo, sem dúvida, será a oficialização do meu destino sagrado.

Aquele para onde os meus passos me conduziram, primeiro a menina tímida e diferente, com o vento do Norte a soprar-lhe ainda em sussurro distante no ventre, depois a jovem em busca de se encontrar na sabedoria ancestral, apalpando o caminho apenas com a candeia daquilo que a alma reconhecia como seu, e por fim a mulher que hoje contemplo ao espelho, olhos dourados de esperança e amor.

De pequena mendiga de amor a sacerdotisa da fecundidade e da fé.

De semente fincada na terra a flor vibrante de cor exposta aos elementos. Que tanto amo e protejo – Ar, Terra, Água e Fogo, cruzando-se nas minhas veias de maga, fundindo-se no quinto, que deles depende: o Homem.

E seria na noite indicada nas cartas da Vida da minha madrinha, noite em que a Lua se enche de prata no céu, gorda de orgulho e prenha de luz, que ela me nomearia sua sucessora nos caminhos de Maga, a nova Sacerdotisa do Povo.

Enquanto sonho acordada com a cerimónia que Rayna, minha madrinha, me havia descrito, preparo tudo o que precisaremos para a noite: o vinho quente com especiarias e ervas, receita (diz-se) que descende da primeira Sacerdotisa, Lydia, os pães de mel para forrar o estômago, lenha para a fogueira, a mistura de cinza, mirra e incenso para desenhar o pentagrama na terra, os tambores para animar aquilo que se pretende ser uma festa, um júbilo.

O meu vestido, sonhado por mim em noite de Lua minguante, precisamente 21 dias após o final da minha aprendizagem, está pendurado no roupeiro do meu quarto. Olho-o com orgulho, pois é o traje mais belo que alguma vez vi: veludo em tom lilás, bordado com desenhos de estrelas, luas, sóis e animais inventados, debruado a fios de prata como manda a tradição. Ruborizo-me de gozo só de pensar em envergá-lo.

Finalmente tudo está pronto e, como se adivinhasse o momento certo para aparecer, Rayna chega para me ajudar a vestir e me purificar a mente, o corpo, coração e alma, preparando-me para receber a bênção mais importante do meu Povo.

Seguimos para a floresta, para o local de culto, guiadas pela luz cúmplice da Lua e a magia que se sente na pele, a todo o tempo.

As pedras do altar recortam-se no céu negro e se não conhecesse este lugar como a palma da minha mão assustar-me-ia com a força que nele habita. Força de séculos de magia que aqui se celebraram, de sabedoria espalhada para o bem de todos.

Rayna e eu acendemos a fogueira, com cuidado, e colocamos o vinho e o mel sobre uma das pedras.

Os habitantes da aldeia começam a chegar aos poucos, as faces coradas dos afazeres diários e da expectativa antecipada. Eram celebrados com grande alegria, aqueles actos. Somos uma família, quando nos unimos em cânticos ao redor das chamas.

Estamos todos, e distribuo o vinho. Bebe-se generosamente, solta-se a língua, canta-se aqui e acolá até que, embalados ao mesmo ritmo, damos conta que estamos em roda, a vibrar. E eu, Lilith, no centro.

Rayna rompe pelo círculo e busca-me pela mão até ao charco de água. Estou em meio transe, ouço as vozes a cantar como se de um ruído distante se tratasse. Despe-me as roupas e diz-me para me baptizar no charco. Em voz alta, grita o meu nome, e anuncia-me como a nova Sacerdotisa.

Não tenho vergonha nem sinto pudor da minha nudez, antes um calor se me enrola no corpo enquanto me encaminho, guiada pelo meu espírito-guia, para o centro do pentagrama.

O Povo rodeia-me e sinto a força nas suas vozes e o orgulho nos seus olhos.

A energia invade-me, preenche-me, domina-me, emprenha-me. Deixo-me ir, ao sabor do vento do Norte, senhora do meu caminho.

E tudo se faz luz, e tudo se faz negro, e tudo se faz uno.