Um dia destes  

Posted by Anónimo in

Num dia, que não este, vais dizer-me o que quero ouvir, mesmo que as comportas da barragem se abram e uma nova albufeira apareça.
Num dia, que não este, vou ter a coragem de dizer o que penso.
Num dia, que não este, vou fazer o que deve ser feito.
Num dia, que não este, vou deixar de mentir, vou dizer que não, não estou bem.
Num dia, que não este, vou aceitar que não posso racionalizar sentimentos.
Num dia, que não este, vou aparecer à tua porta, de mala na mão à espera de um para sempre.
Nesse dia, vou acordar como sempre, com saudades de ti, de nós. Vou abrir os olhos e saber, que o dia chegou. Ainda não é hoje, o dia, mas em breve.

A sacerdotisa  

Posted by Mag in

Abro os olhos pestanejando com a luz amorosa do Sol a refastelar-se já pelo quarto adentro, descobrindo-me os segredos enfiados em gavetas.

Enquanto sacudo de mim a réstia do sonho, abraçando o novo dia que se descobre diante de mim e aplaudindo-o com a alma aberta, entranha-se-me a ideia de que aquele será um dia verdadeiramente especial no meu caminho. Alegram-se-me os olhos e pula-me o coração no peito em antecipação da noite mágica, o familiar medo apertando-me o pescoço. Mas aprendi que o medo é apenas a manifestação do que nos é querido. E este passo, sem dúvida, será a oficialização do meu destino sagrado.

Aquele para onde os meus passos me conduziram, primeiro a menina tímida e diferente, com o vento do Norte a soprar-lhe ainda em sussurro distante no ventre, depois a jovem em busca de se encontrar na sabedoria ancestral, apalpando o caminho apenas com a candeia daquilo que a alma reconhecia como seu, e por fim a mulher que hoje contemplo ao espelho, olhos dourados de esperança e amor.

De pequena mendiga de amor a sacerdotisa da fecundidade e da fé.

De semente fincada na terra a flor vibrante de cor exposta aos elementos. Que tanto amo e protejo – Ar, Terra, Água e Fogo, cruzando-se nas minhas veias de maga, fundindo-se no quinto, que deles depende: o Homem.

E seria na noite indicada nas cartas da Vida da minha madrinha, noite em que a Lua se enche de prata no céu, gorda de orgulho e prenha de luz, que ela me nomearia sua sucessora nos caminhos de Maga, a nova Sacerdotisa do Povo.

Enquanto sonho acordada com a cerimónia que Rayna, minha madrinha, me havia descrito, preparo tudo o que precisaremos para a noite: o vinho quente com especiarias e ervas, receita (diz-se) que descende da primeira Sacerdotisa, Lydia, os pães de mel para forrar o estômago, lenha para a fogueira, a mistura de cinza, mirra e incenso para desenhar o pentagrama na terra, os tambores para animar aquilo que se pretende ser uma festa, um júbilo.

O meu vestido, sonhado por mim em noite de Lua minguante, precisamente 21 dias após o final da minha aprendizagem, está pendurado no roupeiro do meu quarto. Olho-o com orgulho, pois é o traje mais belo que alguma vez vi: veludo em tom lilás, bordado com desenhos de estrelas, luas, sóis e animais inventados, debruado a fios de prata como manda a tradição. Ruborizo-me de gozo só de pensar em envergá-lo.

Finalmente tudo está pronto e, como se adivinhasse o momento certo para aparecer, Rayna chega para me ajudar a vestir e me purificar a mente, o corpo, coração e alma, preparando-me para receber a bênção mais importante do meu Povo.

Seguimos para a floresta, para o local de culto, guiadas pela luz cúmplice da Lua e a magia que se sente na pele, a todo o tempo.

As pedras do altar recortam-se no céu negro e se não conhecesse este lugar como a palma da minha mão assustar-me-ia com a força que nele habita. Força de séculos de magia que aqui se celebraram, de sabedoria espalhada para o bem de todos.

Rayna e eu acendemos a fogueira, com cuidado, e colocamos o vinho e o mel sobre uma das pedras.

Os habitantes da aldeia começam a chegar aos poucos, as faces coradas dos afazeres diários e da expectativa antecipada. Eram celebrados com grande alegria, aqueles actos. Somos uma família, quando nos unimos em cânticos ao redor das chamas.

Estamos todos, e distribuo o vinho. Bebe-se generosamente, solta-se a língua, canta-se aqui e acolá até que, embalados ao mesmo ritmo, damos conta que estamos em roda, a vibrar. E eu, Lilith, no centro.

Rayna rompe pelo círculo e busca-me pela mão até ao charco de água. Estou em meio transe, ouço as vozes a cantar como se de um ruído distante se tratasse. Despe-me as roupas e diz-me para me baptizar no charco. Em voz alta, grita o meu nome, e anuncia-me como a nova Sacerdotisa.

Não tenho vergonha nem sinto pudor da minha nudez, antes um calor se me enrola no corpo enquanto me encaminho, guiada pelo meu espírito-guia, para o centro do pentagrama.

O Povo rodeia-me e sinto a força nas suas vozes e o orgulho nos seus olhos.

A energia invade-me, preenche-me, domina-me, emprenha-me. Deixo-me ir, ao sabor do vento do Norte, senhora do meu caminho.

E tudo se faz luz, e tudo se faz negro, e tudo se faz uno.

Amo-te  

Posted by Anónimo in


Nunca o tinha dito a ninguém. Não porque nunca o tivesse sentido, achava que sim. Que a determinada altura até amou, ou não. Não sabia, nunca teve a certeza suficiente para que a palavra lhe saísse naturalmente, por isso nunca o disse. Gosto de ti, quero-te, desejo-te, sim, imensas vezes às pessoas que lhe tinham passado pela vida. Nunca amo-te, a ninguém.
Ouvia muitas vezes as pessoas a dizê-lo como quem diz um « bom dia, como estás », banalizando a palavra, transformando-a em algo vulgar.
Mas, a verdade é que era apenas uma palavra, não era ? Uma palavra à qual se atribuía demasiado significado, pelo menos ela fazia-o. Tinham-lhe perguntado, há tempos, Amas-me ? ela sorriu e respondeu com outra pergunta, o que achas ? ele disse-lhe que sim, que achava que sim, então isso deve bastar, foi a resposta dela. Terminaram a relação pouco tempo depois, ele terminou na verdade. Acusando-a de ser fria, sem sentimentos, incapaz de amar. Apenas porque não lho disse. Talvez tivesse razão, talvez ela fosse mesmo uma pessoa fria, porque para além de não o dizer, também nunca quis ouvir, nunca o perguntou a ninguém. Se lho diziam, era bom, mas se não o fizessem, era igual.
Até agora. Agora dava por si a engasgar-se com a palavra que parecia querer saltar-lhe da boca. Agora olhava para ele e tudo o que lhe apetecia dizer era Amo-te. Eu amo-te. Logo agora, quando não era suposto dizer, quando nem sequer sabia se era algo que ele queria ouvir.
Era engraçado, que logo agora que o queria dizer, estivesse numa posição em que nunca o faria, não o diria em voz alta. Mas podia pensá-lo, e dizê-lo para si própria, não havia mal nenhum nisso, ninguém teria de ouvi-la dizer Amo-te, Eu amo-te, ninguém precisava saber. Só ela…

Retorno  

Posted by LBJ in

-Desculpa, dás-me um cigarro?

-Porque não… até te faço companhia.

-Há muito que não te vejo por aqui.

-Costumava vir todos meses, às vezes com tempo e outras apressado, um dia distrai-me…

-E deixaste de vir!?

-Esqueci-me do caminho.

-E como chegaste cá hoje?

-Por acaso, deambulava sem destino e quando dei por mim estava por aqui.

-E encontraste-me?

-Parece-me que foste mais tu que me encontraste.

-Eu esperava por ti.

-Por mim?

-Ou por um dos teus personagens.

-E tens algum que prefiras?

-Tenho vários, gosto sobretudo dos loucos e dos perdidos e dos imprevistos.

-Porquê?

-Não sei, não tem que haver uma razão para tudo.

-Pois não.

-Vais voltar?

-Quando? Onde?

-Na próxima vez, aqui onde podemos partilhar um cigarro.

-E partilhar um caminho perdido ou um devaneio ou a imprevisibilidade de uma palavra sem contexto?

-Tinha saudades de te ter por cá.

-Parece-me que tinha falta de cá vir.

-Dás-me outro cigarro?

Num mundo que não este, o teu(0)...  

Posted by I.D.Pena in

Reside mais mundos que não ves , um deles diz se que é o passado ainda a correr a repercutir-se pelos ouvidos mais abertos resolvidos a entender os absurdos . E é nesse plano que me vi enclausurada . Vivendo o passado descompassadamente e repetidamente , pensei que tinha enlouquecido , e enlouqueci perdi o rumo mas encontrei-o quando tentei perceber a razão para este labirinto psiquico, cai por um portal e para outro mundo onde a razão o tempo e a gravidade nao coexiste, um microcosmos onde poderiamos contemplar o tamanho do nucleo de um atomo enquanto percorriamos distancias inimagináveis e desafiantes à paciencia de qualquer resistente de controle mental . Nesse mundo entendi que não sou nada mas que faço parte do tudo, essa conclusão pareceu-me mais lógica na altura , agora nem tanto , em todos eles descobri a emoção amor na origem simbólica da vida como que se fosse eu a relembrar-me a mim mesma que em todos os lugares existe o amor , ate neste 3º mundo que dizem ser nosso. Que ilusão enorme , nós é que somos do Mundo.

Vais voltar?  

Posted by Anónimo in

O som de uma mensagem recebida no telemóvel acordou-o. O relógio marcava 3 da manhã. Olhou para a mulher que continuava a dormir placidamente ao seu lado. Àquela hora, só podia ser uma pessoa. A mensagem, uma palavra apenas : amanhã. Ia vê-la amanhã. Sentiu o estômago contrair-se instantâneamente, algo que acontecia sempre que pensava nela. Já não se viam há muito tempo, demasiado até.
Lembrava-se perfeitamente da última vez em que se viram, conseguia ainda ver com clareza a expressão do rosto dela, quando ele lhe fez a pergunta de sempre : Vais voltar ? Sentiu a hesitação dela, prendeu a respiração esperando, esperando que dessa vez ela lhe dissesse que sim, que ia voltar. Estava convencido que daquela vez, a resposta quase foi diferente, mas no último momento, ela voltou-se e disse que não, não voltaria.
Mas amanhã, sim, amanhã encontrar-se-iam outra vez. No sítio de sempre. Onde por momentos, sempre tão breves, a teria nos braços e a amaria. Fingindo que não, fingindo que não a conhecia tão bem como a si próprio. Tratando-a como a uma estranha com quem partilhava apenas o corpo e umas horas de prazer.
Ao contrário do que ela pensava, conhecia-a, demasiado bem até. Por isso aceitava jogar nos termos dela, aceitava as condições dela, mas conhecia-a. Antes até de lhe ter falado pela primeira vez já a conhecia. Costumava vê-la ao longe, frequentavam os mesmos lugares, despertou-lhe a atenção pela primeira vez numa tarde em que a viu sentada sozinha numa mesa do café. Sempre foi observador e num momento de tédio enquanto esperava a mulher que tinha ficado de se encontrar com ele ali depois de uma expedição de compras, entreteve-se a observar os restantes clientes.
O olhar prendeu-se nela. Apesar do aspecto cuidado, havia nela um ar de desalinho que achou curioso. Como se tivesse passado no meio de um grande vendaval que deixou tudo ligeiramente fora do sítio. Era Inverno e ela trazia um casaco de fazenda pesado com um dos botões pendurado, o cachecol estava desfiado numa das pontas e várias madeixas de cabelo escapavam do rabo de cavalo com que o tinha prendido. O rosto era bonito, se bem que não harmonioso, o nariz era demasiado grande e destoava do resto das feições, os labios eram finos e as maçãs do rosto salientes, mas os olhos… foram os olhos que o prenderam. Nunca tinha visto olhos daquela cor, não conseguia dizer com certeza se eram azuis, verdes ou cinzentos, mas mais do que a cor, foi a expressão que o cativou.
Viu-a mais vezes, muitas mais, antes daquele dia em que a abordou na livraria. Antes da primeira vez. Sabia que o nome que lhe dissera ser o seu não era verdadeiro, não foi preciso muito para o descobrir. Sabia tudo o que ela a tanto custo lhe tentava esconder, aprendera-o nas entrelinhas, de tudo o que ela lhe tinha dito, não querendo dizer a verdade. E amava-a. Amanhã, amanhã voltaria a perguntar e talvez desta vez ela respondesse que sim quando lhe perguntasse : Vais voltar ?