Roteiro  

Posted by mf in

Perde-te no mapa do meu corpo
Sente o vento que suspira
A mansidão dos cumes

Há azimutes que não seguiste
Linhas rectas, linhas curvas
Por onde teu dedo não passou

Faz contas, sonha o caminho
Que serpenteia por minha pele
E traça teu rumo de nómada

Pousa bússola em terra chã
Olha o Norte nos meus olhos
E avança pelos trilhos

Trepa pelas curvas de nível
Galga montes sinuosos
Demora-te em vales recônditos

Arranca o fôlego à brisa
Incendeia a lenha rasteira
E repousa no teu destino

Passatempo de Fevereiro - texto 3  

Posted by Bruno Fehr in

Este é o terceiro e último texto deste passatempo. Eram para ser 4 mas um foi retirado a pedido da autora.
Tencionamos em breve fazer um novo passatempo de tema livre. Os interessados podem começar já a escrever.

Amor Eterno  

Posted by Bruno Fehr in


Era uma vez...
Há muito, muito tempo, numa fortaleza do Norte de África, governava uma rainha, de nome Íris. Bela e delicada como uma flor, Íris era apreciada e amada pelo seu povo... Mas odiada por quem queria apoderar-se do poder...

No quarto, iluminado pela lua cheia e percorrido por uma brisa agradável que agitava ligeiramente as cortinas do mosquiteiro, um casal repousava.
Nos braços de Ismael, Íris não dormia. Tinha tanto em que pensar, tantas responsabilidades, para com o reino, para com o povo, mas a respiração calma do amado que dormia, da paz que os unia, acabou por embala-la e o sono chegou.

Os dias decorriam serenos, com as responsabilidades de ambos divididas, pois ela governava o povo, e ele vinha do povo. No entanto, a força dos sentimentos unira-os e era um casal dedicado ao bem-estar do reino, do povo que adoravam e que lhes retribuía esse afecto. O reino crescia, próspero e em paz, longe de guerras e tumultos.
A vida corria sem grandes sobressaltos mas o perigo espreitava.

Teresa, a sacerdotisa, desejava o poder, e começou a conspirar para derrubar Íris.
Em pouco tempo, descobre que a única forma de destronar a governante seria através do marido, de conseguir quebrar a ligação que os unia. Tirando-lhe o Amor que a alimentava, Íris fraquejaria e estaria à mercê dela.

Teresa, sedutora e inteligente, procura e encontra aliados.
O primeiro, seria o irmão de Íris, que não pudera governar devido às leis de sucessão e que cobiçava ser rei. Não sendo, nem de longe, tão apreciado pelo povo, era um trunfo forte devido à sua origem.
Depois, Teresa começou um jogo de sedução, com Ismael. Conquistou a sua confiança para o conhecer melhor, e descobrir-lhe as fraquezas. A tarefa revelou-se simples. Usou a insegurança dele, devida à diferença de estatuto. Disse-lhe que as pessoas nem sempre entendiam os sentimentos dele. Que o consideravam interesseiro e materialista. Aproveitando estas fragilidades, Teresa começa a envenenar-lhe o espírito, insinuando que Íris lhe seria infiel.

Ao mesmo tempo que esta conspiração se desenrolava apareceu na corte um embaixador vindo de uma tribo vizinha. Querendo manter a paz na região, que tanto tinha custado a alcançar, Ísis vê-se obrigada a passar algum tempo com esta visita, em reuniões e encontros políticos, descurando um pouco a harmonia familiar.
Por sua vez, o embaixador sente-se logo atraído pela governante, a qual não suspeita de nada.

Ismael, cada vez mais só, cada vez mais influenciado por Teresa, começa a acreditar na infidelidade da esposa.
Algum tempo decorre e o clima entre o casal começa a deteriorar-se. As insinuações de Teresa e alguns factos que não passam de coincidências e de coisas banais, são agora, aos olhos de Ismael, prenúncios de traições.

Teresa, prosseguindo o seu plano, consegue subornar o Guarda-Real, para a avisar de todas as movimentações de Íris. A armadilha, cada vez mais maquiavélica, estava montada!
Numa tarde de Verão, o embaixador tenta seduzir a governante. Oferece-lhe flores raras e jóias preciosas.
Ismael, de longe, observa a cena mas não percebe a resposta negativa que a esposa dá ao embaixador. Teresa, ao seu lado, “interpreta-lhe” a cena: as flores e as jóias eram uma oferta pelo amor que os uniria, pelo sexo que teriam tido.
Ismael fica louco. Chega perto de Ísis e discutem.
Da nada valeu a Íris tentar explicar o que se estava a passar. Ismael ficou irredutível. Queria acabar com o casamento, que não tolerava traições:
- Já não és a minha flor! – responde num tom frio.

O casamento deles acaba e Íris entra em depressão. Fragilizada no que lhe dava força, acaba por permitir que o irmão tomasse o seu lugar e deixa o poder. Fora desacreditada na sua essência, perdera as forças, perdera até a vontade de viver.

O irmão toma o poder, influenciado por Teresa e pelo Guarda-real e o povo sofre alguma opressão. O reino perde a prosperidade alcançada e a guerra avizinha-se, em parte devido ao incidente com o embaixador, que se retira.

Irís definha, como uma flor que murcha. Exila-se numa das suas fortalezas fora da capital do reino, ausente da realidade política e do mundo em geral. O irmão assegura-se que esteja alimentada e cuidada, mas sem interesse por nada, sem acesso às novidades da corte.

Teresa consegue seduzir Ismael, que tenta com ela uma vida em conjunto, mas com grandes dificuldades. Ele sente falta da sua flor, dos seus carinhos.

E os anos vão passando, num reino que vai perdendo o brilho próspero de outrora, sob influência gananciosa e desgoverno político.

Mas um dia...
Ismael é chamado ao reino vizinho. Pensando ir em trabalho, depara-se com o embaixador às portas da morte.
Revoltado por ter de o encarar, tenta sair da sua presença.
Mas antes de Ismael sair, o moribundo revela que Íris é inocente. Que nunca acontecera nada apesar das suas investidas, que ela sempre o recusara por Amor ao marido.
E diz-lho apenas porque sempre esperara que Íris o desejasse e amasse como amara Ismael, mas ela partira e ele nunca mais a tinha visto. E findo estes anos todos, o embaixador estava mortalmente ferido e desejava morrer com a consciência tranquila de quem dissera a verdade.

Um calafrio percorre Ismael. A revolta que sente é enorme.
O embaixador, nas suas últimas forças, revela que fora contactado por Teresa para ajudar nos seus planos. Prometera-lhe ouro e a rainha. Ele aceitara, porque a desejava. Revela também o envolvimento do irmão e do chefe da guarda.

Ismael corre para Íris.
Esta, no primeiro impulso quase que o beija.
Ainda gostava dele.
Após aqueles anos todos, ainda gostava dele.
Ele tenta pedir desculpa. Falam durante muito tempo. Ela continua magoada por ele não ter acreditado nela. Ele sente-se revoltado por se terem aproveitado dos seus sentimentos, pela sua fraqueza, por ter duvidado dela.

Regressam à capital.
Ismael confronta Teresa que nega tudo. Contudo, ele não fora o único a ouvir a confissão do embaixador. O irmão de Íris é também deposto. O Guarda-Real incrimina Teresa, que foge.
Alguns dos súbditos mais fiéis a Íris perseguem-na para que a justiça seja feita, mas acabam por morrer nas mãos dela e dos seus guardas. Apenas um regressa contando o sucedido.

Íris não regressa ao poder. Uma doença apoderara-se dela e consumira-a tanto quanto a sua tristeza e estava em fase terminal.

Os últimos dias de Íris aproximam-se.
Ismael despede-se de sua flor. Apenas a dor dele não ter acreditado nela a magoava, de resto, estava serena. E ele também sofria com isso.
- Minha flor... Perdoa-me...
Com um sorriso triste e sem forças para falar, ela toca-lhe no rosto amado e debruçado sobre a sua mão.
- Encontramo-nos noutra vida, amor...

E com estas últimas palavras, Íris fechou os olhos para sempre.
Ismael chorou.
Nada mais podia ser feito... apenas restava a esperança de se encontrarem numa próxima vida para reviver o amor verdadeiro que sempre os unira…

                                                                                                       Por: Tulipa Branca

Passatempo de Fevereiro - texto 2  

Posted by Bruno Fehr in

Abaixo podem ler o segundo texto deste passatempo. Os nomes do autores aparecem no final dos textos e clicando nesses nomes irão parar às páginas pessoais dos mesmos.

Numero errado!  

Posted by Bruno Fehr in

Uma rapariga pega no telemóvel extremamente nervosa e clica no redial para falar com a sua melhor amiga.

“Bea, não sei o que fazer. Amo-o tanto e não acho que ele sinta o mesmo por mim. Quero dizer, sempre que o vejo ou penso nele, não consigo evitar sorrir. Por vezes ele vê-me sorrir e sorri de volta. É aí que os meus joelhos se tornam gelatina e sinto borboletas no estômago. Eu sei que o achas giro, adorável mas olhando mais profundamente encontras mais... Uma pessoa carinhosa, cheia de consideração e tudo isso me faz sentir que não o mereço. Bem, na verdade eu não o mereço mesmo. Ele é perfeito demais, tanto que todas as raparigas estão caídas por ele. Eu não consigo ser como elas. Elas são todas tão bonitas e cintilantes e... eu... eu não... nem me posso comparar a elas. Quando penso nele, quando o vejo, só sorrio. Ainda não te tinha dito, mas ele ligou-me há pouco tempo para falar do trabalho da escola. Fiz figura de parva. Estava completamente embaraçada e não conseguia parar de gaguejar. Mesmo assim, ele foi um querido continuando a falar como se me tentasse fazer sentir melhor. Ele é PERFEITO e eu não o mereço... Mas porque é que continuo a desejar que ele repare em mim? Porquê? Bea? Beatriz, estás aí?

“Eu não sou a Beatriz!”

Petrificada a menina pergunta, “Quem és tu?”

Eu sou o rapaz cujo sorriso transforma os teus joelhos em gelatina. Aquele que te faz sentir borboletas no estômago e que sorri quando te vê sorrir. Só te queria dizer uma coisa: Tudo o que disseste agora, é o que não tenho tido coragem para te dizer, desde há muito tempo, mais exactamente, desde o dia em que te conheci”.  


                                                                             Por:  Shilan Nozari

Passatempo de Fevereiro  

Posted by Bruno Fehr in

Abaixo podem ler o primeiro texto enviado pelas pessoas que acompanham este blogue. No total serão publicados este mês 4 textos.

Ainda Hoje  

Posted by Bruno Fehr in

Passei horas a ouvir o nosso atendedor de chamadas. Ouvi a mensagem uma vez, e outra, e outra, e outra... Por mais estúpido que fosse, era a única forma de ouvir a tua voz. O calendário colado na porta do frigorífico marcava a data 3 de Setembro. Era a nossa data. Fazíamos 4 anos. "Quem diria?", pensei eu. Já nos conhecíamos há tanto tempo, de uma forma ou de outra fomos indo e voltando da vida um do outro, até àquele dia. O dia 3 de Setembro. O dia do primeiro beijo. O dia em que tudo mudou. O dia em que entraste e eu senti que nunca mais irias sair. 

A cada dia que passava, sentia-me mais apaixonado por ti. Cada beijo tinha a emoção e o sentimento do primeiro. Lembro-me de ficar horas acordado a ver-te dormir. "Oh, meu amor, o quanto eu te amo". Lembro-me pensar isto, e adormecer com um sorriso na cara, só por te sentir ali. E lembrar, de quando fazíamos serões no sofá, a ver daqueles romances, e te deitavas bem perto de mim. Ainda sinto a tua respiração no meu pescoço, o cheiro do teu perfume quase tão doce como tu. Ou dos passeios pela muralha, a ver o mar, a rebentação das ondas nas rochas e o pôr-do-sol. Era tudo tão belo. Parece que foi ontem que te pedi para me beliscares, porque não acreditava que podia ser assim tão feliz. 

Lembro-me do prazer que era, depois de um cansativo dia de trabalho no escritório chegar a casa, e ter sempre o teu beijo à minha espera. As tuas palavras carinhosas. Acho que nunca te disse o quanto te admirava realmente. Tu tinhas uma força que dificilmente eu algum dia virei a ter. Independentemente de como te corresse o dia, o teu sorriso estava sempre lá para me receber, por pior que tivesse sido o teu dia de trabalho, por piores que as coisas andassem. Recordo-me de discutir contigo um dia, por uma coisa tão insignificante que já nem sei ao certo o que era. Recordo-me de sair porta fora, exaltado. Recordo-me de a abrir de seguida, e mesmo sem falar, olhei para ti e pedi-te desculpa, e tu a mim. O beijo que demos de seguida foi tão forte, tão intenso, tão... ai, amor, parece que ainda o sinto aqui, nos meus lábios. As tuas mãos suaves no meu rosto, e as minhas na tua cintura. Encostaram-se os nossos corpos, quentes e desejosos um pelo do outro. Fechei a porta com o pé, agarrando-te ao colo de seguida. Essa seria talvez a mais bela noite de amor alguma vez vivida em toda a História dos amores. Fomos mais que um só, fomos o símbolo da união e perfeição. Fomos o dois, e fomos o três. Fomos o dois, o dois da união, e fomos o três, o três da perfeição. Naquela cama, por entre lençóis e suores, fluidos e gemidos, lá estávamos nós, totalmente entregues um ao outro. Eu, tu e o nosso amor. Essa fora uma noite no meio de tantas e tantas que passámos nestes quase quatro anos. 

Dei por mim, a fitar o tecto, perdido no espaço e no tempo, a recordar a memória de ti. Tinha um sorriso no rosto, e uma lágrima no canto do olho. Olhei para a nossa fotografia, aquela que tirámos quando fomos àquela que é chamada de cidade do amor. Paris. Atrás de nós, luminosa, estava a Torre Eiffel, apenas ofuscada pelo teu sempre radiante sorriso. Podiam ligar todas as luzes, aumentar o Sol, que tu brilharias sempre mais, mais que qualquer estrela. Mais que tudo.

             Dói-me sentir que já não estás aqui comigo. Dói-me mais ainda saber que me foste tirada. Não merecias. EU não merecia perder-te, não desta forma. Uma recordação que estava tão presente na minha memória era a daquela palavra. Leucemia. Pus a mão no ombro. Foi como se ainda sentisse as tuas lágrimas, quando te apoiaste nele depois de o médico dizer aquela palavra. Leucemia. Apertaste tanto a minha mão. Eu fiquei sem reacção. Não sabia que te dizer, ou fazer, ou fosse lá o que fosse. O ser humano não está concebido para situações destas. O médico deixou-nos a sós, para digerirmos tudo aquilo. Não sei quanto tempo estivemos ali. Chorámos. Estive a teu lado nos altos e baixos, por entre exames e tratamentos, e a busca de um dador compatível, que, infelizmente, nunca viria a aparecer. Tentaste afastar-me, pensando que talvez assim eu sofresse menos. Oh amor, como eu te conheço. Eu sabia que o farias, mas eu não te deixei só. Vi a vida desvanecer nos teus olhos, a cada dia que a doença se apoderava de ti. E partiste. Nesse dia o Sol nasceu e pôs-se sem que se lhe visse a cor. O céu ficou cinzento, escuro, carregado de chuva, como se também ele fizesse luto por ti. Tudo passou a ser sem cor, sem luz, sem vida. A vida, por si só no termo da palavra, já não o era. Eu não vivo sem ti, apenas sobrevivo. Ainda hoje sinto o vazio que deixaste. Ainda hoje te amo, mesmo sabendo que não estás aqui. Ainda hoje...
                                                                                     Por:  Filipe Sardinha (Pipoo)

Ensaio – A chuva  

Posted by LBJ in


Se eu pudesse postular determinava que quando chove o céu chora por alguém.

Se eu pudesse simplificar a chuva diria que ela é feita de água e de tempo assim como nós somos feitos de água e de tempo e de alma e de ainda outras coisas que se calhar não são assim tão importantes. Sei que sou mais chuva do que carne mas ainda não sei se sou mais alma do que chuva e gosto de a sentir molhada num dia sem frio e sem pressas e sem medos.

Se eu pudesse dissecar uma gota de chuva caída na palma da minha mão gostaria de chegar ao fundo da sua memória, saber por onde andou, por que rios, por que mares, saber se já escorregou pelo vidro de uma janela do quarto de dois amantes ou pelos beirais de um castelo de encantar ou apenas pelas ruínas de um casebre de pobre. Queria saber tudo desde que o tempo a fez cair do céu pela primeira vez até ao momento em que tocou na minha pele.

Se eu pudesse partilhar o espaço e o tempo com uma gota de chuva gostaria de cair sem vento sobre a árvore mais alta da floresta, folha sob folha, ramo sob ramo até me enterrar no chão tenro e ir cada vez mais fundo em busca de outras gotas em forma de fio e de rio e de mar e depois diluir-me, tornar-me indistinto sem deixar de ser único e esperar que uma brisa quente, um sopro de Sol me transformasse em ar e subisse devagarinho, bem devagarinho em direcção às estrelas até ser capturado pelo vento em flocos de nuvem e reiniciar a viagem.

Se eu pudesse explicar a chuva num dia de Sol perderia por palavras a magia de um arco colorido que tem numa ponta um sonho de menino e na outra o inalcançável. Nunca sei dizer em que ponta está o sonho e caminho sempre onde nunca consigo chegar e a chuva pára e ficam só os brilhos nas manchas de água a reflectirem o meu desejo.

Se eu pudesse dançar à chuva de gabardine comprida e chapéu de varetas ocas regressaria no tempo a um tempo fechado numa caixa de madeira sem mais outras cores que o preto e o branco e diferentes cinzentos e quem sabe não começaria a cantar com um sorriso nos olhos e nos lábios.

Se eu pudesse comandar em fúria a chuva lavaria todos os males e os meus pecados e restaria puro e vazio num Mundo sem graça e sem homens. Seria divino sem crentes e sem outras catedrais que não aquelas que se formam nas clareiras das árvores perenes.

Se eu pudesse ficar nu debaixo de uma chuva que fosse quente como a água que escorre em chuveiro, forte e compassada sobre os ombros e de braços bem abertos, gota a gota, poro a poro, isolava-me de pensar, de sentir, de me tentar perceber ou explicar.

Se eu pudesse imaginar uma chuva que não fosse chuva feita de água e de tempo iria fazê-la de algo doce e suspenso que se pudesse afastar como uma cortina que dá acesso a um outro palco. Gostaria de encontrar nesse palco um bando de actores interagindo numa performance sem ensaio, representando a minha vida em pantomina. Gostaria de ver a plateia vazia de público e cheia de letras e palavras e frases sempre a trocar de lugar e formando histórias dentro das histórias.

Se eu pudesse escolher que a chuva fosse só chuva ela seria a causa e a razão da vida e o desejo ou desespero de quem a tem ou de quem lhe falta e nada mais.

Bagagem de pano  

Posted by Mag

Abre as asas, espírito livre,

sacode as mágoas antigas do pensamento
e abraça no coração esses teus sonhos,
cobre o corpo com a cor da coragem,
ensaia o grito de liberdade na tua garganta,
amordaça no peito os medos
que te ameaçam o vôo
e lança-te,
olhos abertos sorvendo a paisagem,
vento no rosto, beijando-te as rugas que o tempo sulcou,
o Mundo pequeno lá em baixo, sossegado,
calmo e quieto no seu ritmo de cego.
E embriaga-te de luz,
de estrelas,
de Lua e de Sol,
e ouve o Mar rugir o teu nome,
homenageando quem abarca a Vida no sonho,
quem solta o coração nas ruelas do desejo
e segue andando,
bagagem leve, de pano solto.

Cartas  

Posted by M. Morstan in

Cartas. Vivo rodeada de cartas. Umas vêm, outras vão. Não mais que pedaços de papel com caracteres escritos a tinta. Às vezes têm apenas desenhos. Uma carta pode dizer tudo e pode dizer nada. Pode ter uma linha e conter toda uma vida. Pode ter sete páginas e estar recheada de trivialidades. Escrevo muito, eu. Envio. Recebo. Envio. Recebo. Leio, releio, torno a ler. As cartas são emoções. São desejos. São caprichos. São pecados. São armas. São crime. São pistas. Para o real e para o irreal. Para o consciente e para o inconsciente. Dizem que os grandes cérebros criminosos gostam de escrever cartas. Passar para o papel como é o pulsar de um coração acabado de arrancar a um peito jovem. Bate. Bate. Bate. E deixa de bater. A vida a esvair-se na mão. Na minha mão. Pena é estar sempre escuro, quando a vida desaparece. Mas a glória do dia tende a ofuscar a glória da morte. A morte de dia desvanece-se com o entardecer. A morte de noite brilha com a aurora. A descoberta de um corpo pela manhã, orvalhado, com os raios a reflectirem, é sublime... Cartas. Cartas. Cartas. Pedaços de mim que envio e que recebo. 

Branco Imenso  

Posted by Anónimo

Branco.
Um branco imenso até perder de vista.
Não gostava de neve, nunca gostou. Aceitou ir na viagem porque, bem, foi ideia dele, aceitava sempre tudo que era ideia dele. Tentou fazer-lhe ver que irem por ali não era sensato, vinham a ouvir na rádio que a tempestade tinha bloqueado as estradas, os avisos eram claros, os automobilistas não deviam tentar sequer atravessar a serra. E o carro deles não estava de todo preparado para aquelas condições. Claro que ele não a ouviu, e olhou-a da forma que sempre olhava quando ela fazia algum comentário que o contrariava. Por isso manteve-se calada quando ele passou as barreiras que fechavam a estrada e começaram a subir a serra. Ficou com medo que ele se enervasse, não gostava quando isso acontecia, sobretudo dentro do carro. O espaço era demasiado pequeno e o rosto dela ficava ali, mesmo ao alcance do punho dele.
Aguentou em silêncio o pânico que começava a apoderar-se dela, de cada vez que sentia o carro perder a aderência e a deslizar na neve. Tinham já passado várias horas desde que romperam as barreiras e começaram a subir a serra. Já há muito tinha deixado de ver o alcatrão, apenas neve, um manto imenso branco e escorregadio. Deixaram de ver casas também e agora começava a escurecer.
A altura do dia que ela mais detestava, o lusco-fusco, quando as cores se esbatiam e as sombras começavam a tomar forma. Ela conhecia bem as sombras, sabia bem o que se escondia nelas, e era nesta altura que consegui ver os contornos daquilo que apenas conseguia adivinhar na escuridão. O que ele rira quando lhe contara do medo que tinha do escuro, uma mulher adulta que dormia com as luzes acesas. Tentou curá-la do medo, terapia de choque, dizia ele, enquanto a fechava à chave no quarto com as luzes apagadas. O pai tentou fazer o mesmo quando ela era ainda miuda, e os irmãos, bem, esses divertiam-se com o pavor dela de cada vez que a fechavam num sítio escuro. Tanto o pai como os irmãos acabaram por desistir e aceitar o medo dela. Ele não, achava ridículo, e tinha ainda na testa a cicatriz que ele lhe deixara da primeira vez em que aceitou que o filho deles dormisse com a luz acesa. Acusou-a de incutir na criança os medos dela, talvez tivesse razão, era medrosa e fraca, e talvez estivesse a passar isso para o filho. Mas por outro lado, e se não fosse isso. E se o filho visse no escuro o mesmo que ela, como podia deixar que lhe fizessem a ele o que lhe fizeram e ainda faziam a ela ? Aquelas criaturas odiosas que apareciam sempre que as luzes se apagavam. Por isso levantou a voz e tentou fazê-lo ver que era normal deixar o miúdo dormir com a luz acesa, e por isso também ele levantou o braço e lhe bateu, a primeira vez. A primeira de muitas.
Manteve-se calada apesar do perigo, apesar de temer, por ela e pelo filho que dormia placidamente no banco de trás. O carro derrapou mais uma vez, a traseira deslizou e ela não emitiu um único som enquanto via o esforço dele para controlar o carro. Queria pedir-lhe para parar, para ficarem ali, tinham mantas na mala. Podiam esperar pela manhã, até que alguém viesse limpar a estrada. Tinham comida, também, podiam esperar. Mas nada disse.
- A culpa é tua sabes ? Se não insistisses para que almoçassemos antes de começar a viagem, tinhamos evitado isto. Já estávamos em casa se não fosse por ti e pelos teus queixumes estúpidos.
A culpa era dela, claro. Não o contrariou, mas o silêncio já não resultava, via pelo perfil dele que estava naquilo que ela chamava “full swing mode”, os lábios comprimidos, a veia que pulsava na têmpora… encostou-se o mais possível à porta, fora do alcance. Não foi o suficiente, o golpe veio tão rápido que não teve tempo de se desviar, acertou-lhe em cheio na face. Apesar da dor, sorriu interiormente enquanto pensou… amanhã vou ter que redobrar no blush, este vai deixar marca.
A distracção foi o suficiente para que perdesse completamente o controlo do carro, que começou a rodopiar pela estrada, em camâra lenta, cada vez mais próximo do precipício, até que parou, com as rodas do lado do condutor penduradas na berma. O carro suspenso num abismo enorme, todo branco, do qual não conseguia ver o fim.
- Não te mexas!! Ouviste, não te mexas, se te mexes desiquilibras o carro e vamos por aqui abaixo.
Mas ela mexeu-se, cuidadosamente, tirou o filho do banco de trás. Bem devagar, enquanto sentia o carro oscilar, abriu a porta, pôs primeiro um pé e depois o outro no chão, no chão firme. Bloqueou o som da voz dele, que lhe ordenava, pedia e depois implorava que não se mexesse. Num gesto só, atirou-se com o filho nos braços para o chão. Foi o suficiente para que o carro, depois de perder o ponto de equilíbrio, caísse na ravina. Ficou ali, sentada no chão frio, coberto de neve, enquanto o carro rebolava pela encosta, enquanto o ouvia gritar. Até que de repente, o silêncio, a vozinha do filho que lhe perguntava : O que aconteceu mamã ? Onde estamos ?
- Nada, filho, não aconteceu nada. Dorme, encosta a cabecinha e dorme. Vai ficar tudo bem. Nós vamos ficar bem.
Levantou-se e com o filho no colo, começou a longa caminhada até à aldeia mais próxima. Bem, eles iam ficar bem.

Passatempo de Fevereiro  

Posted by Bruno Fehr in

O Prisão de Palavras irá realizar mais um passatempo semelhante a este último. Desta vez e tendo em conta que os textos serão para publicar durante o mês de Fevereiro, o tema será, como seria de prever, O amor. O amor belo ou horrível, saboroso ou doloroso, saudável ou psicopata, fica ao vosso critério.

O passatempo está aberto à participação de todos os leitores deste blogue. Tal como aconteceu no passatempo passado (ver link acima), os textos serão lidos por todos os colaboradores deste blogue e escolhidos por maioria, no caso de ser impossível publicar todos. Os vossos textos publicados neste blogue terão menção ao respectivo autor que também receberá por mail o registo virtual (impressão digital virtual) que lhe garante a autoria da publicação.

Os interessados, devem enviar os seus textos até 10 de Fevereiro para: fehrbruno(at)googlemail(dot)com (substituir (at) por @ e (dot) por .)

Boa escrita.

Funeral anormal  

Posted by Bruno Fehr in

A história que vos vou contar é caso para lamentar, a ser verdade que aconteceu.
Um rapaz meu amigo que antes de morto era vivo e depois de morto, morreu.

Teve um funeral anormal em vésperas de Natal no dia mais frio do inverno.
Em vida teve sorte mas o primeiro dia de morte foi um verdadeiro inferno.

Vestiram-lhe uma fardeta meteram-no numa carreta e levaram-no ao comprido,
Mas por uma rua por onde passou a carreta virou e o morto ficou ferido.

Triste cena se desenrola a família deu à sola eram gritos e mais gritos.
O caixão tinha voado e o morto tinha rachado a caixa dos pirolitos.

Seu cunhado sapateiro esse foi logo o primeiro a dar os pontos naturais,
Disse em tom enlutado: Tem paciência ó cunhado mas assim rachado, não vais!

A família lá se juntou e funeral continuou direitinho ao cemitério,
Mas numa curva perigosa numa tarde invernosa a carreta tombou a sério.

Desta vez foi o caixão que rachou e o morto se estatelou na estrada estendido.
A família não chocada parecia habituada e não fizeram alarido.

Chegados ao cemitério e pensando muito a sério o que mais aconteceria,
Um problema ao portão e com grande frustração a carreta não cabia.

Seu cunhado sapateiro sendo um homem muito inteiro e de grande conhecimento,
Analisou a situação e com grande prontidão decidiu o procedimento:

"Pega um de cada lado o morto é transportado e não tem nada que saber!"
Diz o morto desesperado: "Esperem aí um bocado não me façam mais sofrer!"

O coveiro que era maneta pega na pá e na picareta e vai abrir a sepultura.
O morto observava curioso o seu local de repouso de toda esta desventura.

Só com uma mão o coveiro deixa escapar o caixão que cai na cova desamparado,
E diz o morto todo contente: "Agora sim estou ausente desse mundo tresloucado!"

A história que vos contei talvez seja verdade não sei, deixo ao vosso critério,
Mas se os mortos falassem talvez a verdade encontrassem e de certo fugiriam do cemitério.


A caixa  

Posted by Anónimo in

Posso oferecer-lhe um chá ?...
Ja reparou que vem cá ao meu consultorio já há alguns meses e ainda não sei o seu nome ?
Pois, realmente nunca lhe disse o meu nome…
E vai fazê-lo agora ?
Porquê ? é assim tão importante para si saber como me chamo ?
Na verdade, sim é importante.
Bem, podemos resolver isto então… Maria, gosto do nome Maria, é simples, puro. Pode chamar-me Maria. Tendo em conta a quadra natalícia é até adequado.
Acho que ainda não lhe contei que a minha avó tinha um ritual engraçado, um ritual que eu adoptei há algum tempo, talvez como uma forma de me aproximar dela depois de a ter perdido. Todas as noites, antes de deitar, bebia um chá com três bolachas, bolacha Maria note.  Não duas, ou quatro, três… Lembro-me de lhe perguntar, porquê três bolachas, e o que acontece se não tiveres bolachas avo ? Ela sorriu, era muito bonita a minha avó, mais ainda quando sorria, aquele sorriso lento e doce só dela.
Bem minha querida, podia dizer-te que o três é um numero poderoso, cheio de significados ocultos e de simbologias importantes para mim, e que as três bolachas são uma forma de superstição. Mas não é nada disso. E quanto a não ter bolachas, isso simplesmente não acontece. Vem comigo preparar o chá, e vais ver porquê.
Ela utilizava sempre a mesma chávena, pensava eu, na verdade tinha várias iguais, chávenas essas que assentavam num pires como é evidente. Bem ao colocar a chávena no pires com a colher ao lado, sobrava espaço para exactamente três bolachas, o mistério estava desvendado. Começamos a partilhar este ritual, as duas, sempre que ficava em casa dela, era o nosso momento. Sentava-me na cama dela, já de pijama, e juntas mergulhavamos as bolachas no cha até amolecerem. Um processo difícil, acertar no ponto em que a bolacha amolece mas não demasiado, parece simples mas na verdade não é. Demorei algum tempo a conseguir fazê-lo sem que as bolachas se desfizessem todas e formassem uma papa no fundo da chávena.
Agora é o meu filho, que trepa para a minha cama para partilhar o meu chá, ainda é demasiado pequeno para segurar na sua própria chávena, mas o meu pires é maior, cabem seis bolachas, três para mim e três para ele, bebemos o chá em goles pequenos para fazer durar o momento. O nosso momento.
Era chá que ela guardava na caixa, não tabaco como pensei na primeira vez que a abri. Uma caixa de chá.

Haverá sempre Natal ?!  

Posted by LBJ in


Por estes dias festeja-se o nascimento de um homem.

Por estes dias festeja-se o nascimento de um homem por quem se matou e se morreu. Por estes dias festeja-se o nascimento de um homem que deixou de ser vulgar para ser filho de Deus e de virgem e visionário ou revolucionário ou milagroso ou charlatão ou inspirado ou inspirador ou causa ou efeito.

Por estes dias sentimos a pressão da felicidade, a obrigação da caridade, o peso da solidão, a angustia da carência. Por estes dias fala-se de hipocrisia e de consumismo e de valores e de família e de tradição e de sagrado e de profano e de crianças e de velhos e de abundância e de fome e de certeza e de receio e de conforto e desassossego.

Por estes dias há luzes brilhantes e fitas e papel colorido e chamas a tremer em velas vermelhas. Por estes dias há lágrimas e lamentos secos e chamas apagadas em restos de vidas. Por estes dias há música e alegria e canção cantada do fundo do peito. Por estes dias há ruídos incómodos e a rouquidão de vozes que não gostamos de ouvir.

Por estes dias nos lembramos, por estes dias nos esquecemos. Por estes dias assinalamos dias que já foram melhores ou dias que já foram piores, recordamos ausências e lastimamos presenças. Por estes dias se morre e se nasce como nasceu e morreu um dia um homem. Por estes dias …

Um (velho) conto de Natal reformulado  

Posted by Mag in

Era Natal e sentia-se, uma vez mais, o contraste.

As ruas iluminadas, os sorrisos nas pessoas que passeavam, abraçadas, carregando sacos de embrulho nos braços generosos, a música suave que ecoava no ar.

E ela, sentada na casa de papelão que defendia com unhas e dentes da decrepidez que constantemente ameaçava, a única coisa que podia chamar sua, para além dos trajes gastos que lhe cobriam a nudez do corpo... mas não espantavam o frio do Inverno.

A alma, essa, continuava em chamas. Não se reconhecia como aquela jovem mulher (que parecia agora carregar cem anos em cima) andrajosa, continuava a caminhar de cabeça erguida, orgulhosa, ignorando os olhares de surpresa e desprezo que brindavam a sua aparente desobediência ao rígido código social que impunha uma atitude submissa aos menos afortunados pelo destino.

Sobrevivia a vender fósforos num Mundo em que os isqueiros eram reis. Os parcos € que acumulava gastava-os enganando o estômago, mas ficava feliz com a ideia de que os seus fósforos aqueciam a vida das pessoas. Por isso, de cada vez que vendia uma caixa, oferecia grátis um sorriso e uma palavra amável. E reparava que lhe sorriam de volta, confusos. Talvez por pensarem que uma pobre desventurada como ela nada tinha para sorrir... Ela sabia mais do que isso. Sabia que aquele era apenas um percalço no destino, que a guardava para um acto maior. Por enquanto, iluminava e aquecia, com os seus fósforos.

O dia 25 de Dezembro amanheceu cinzento e branco, a neve espalhando o seu manto por toda a cidade. Durante todo o dia caíram pedaços gelados de chuva do céu, que se amontoaram num tapete branco que tudo cobriu.

Já bem entrada a noite, o inesperado aconteceu. Reuniam-se os familiares em volta das fartas mesas para o final da ceia e as luzes de toda a cidade começaram a tremeluzir, cada vez mais rápido, até cessar por completo. Rapidamente toda a cidade estava às escuras, desamparada como alguém que de súbito deixa de ver.

A rainha das mendigas, habituada que estava à escuridão da noite, preparou uma pequena fogueira para se aquecer e iluminar. Depressa estava rodeada dos seus amigos de destino, que procuravam dois dedos de conversa e espantar o gelo.

As pessoas que vinham à porta das suas casas, procurando explicação para aquele fenómeno, apenas distinguiam aquela fogueira, como um distinto clarão que rasgava a noite e parecia indicar um porto seguro. Atraídas pela luz, reuniram os seus pertences, uma trouxa de comida e bebida e dirigiram-se para lá.

Minuto após minuto, a multidão que rodeava a mendiga começou a engrossar, e a fogueira teve de ser alargada. Imbuídas de um qualquer espírito desconhecido, as pessoas puxavam de bancos, colocavam mantas no chão gelado e conversavam com o vizinho do lado, que nunca tinham visto mais gordo. Partilhavam os seus haveres naturalmente, como se sempre o houvessem feito.

Nessa noite ninguém na cidade passou fome nem frio. Os sorrisos multiplicaram-se, os rostos farruscos iluminaram-se na esperança.

E Deus, no céu, gargalhou.

19 anos depois às 19:19  

Posted by I.D.Pena in

Lucya and Drake eram conhecidos de longa data, ambos divorciados, vistos na comunidade como encalhados, como sujos, pois só existe um unico casamento , uma unica virgindade, preconceitos que foram criados necessarios para autoridades exercerem a sua autoria falsa.
Evitaram-se no passado por vergonha, ambos eram similares e a vida proporcionou reencontros interessantes e coincidentes de tempos em tempos. Agora passados 19 anos o que  tinham em comum era mais que evidente, eram gemeos eram uma obra eram um todo que se completavam e contemplavam mutuamente.
Encontraram-se às 19 horas naquele dia e não foi por acaso, foi planeado. Precisavam de falar tanto que o tempo parecia querer parar, para eles poderem falar à vontade.
Mas só o toque,entre mãos : Aumentou o silêncio.
Nevava e não havia gente nenhuma ao redor, ele olhava -a e ela olhava-o , liam os pensamentos(ou pensavam que liam) um do outro e vice versa, ela deixou cair o olhar ele tentou entender o abismo, antes de formular questões idiotas banais costumeiras, não queria parecer vazio, porque  não é assim que se sente quando está ao pé dela .
19:19 O tempo teimava em parar, e nem ela nem ele paravam de sonhar fantasiar , apreciar aquele momento tão raro e esperado, um momento perfeito para não ser estragado.
A neve completou este quadro e convidou ao beijo.

Vais Voltar?  

Posted by Anónimo in

Vais voltar ?

Perguntava sempre isso, de cada vez que se viam, no momento em que a mão dela já estava na porta e a alma já tinha partido há muito. Ele já sabia a resposta, sempre a mesma. Não conseguia perceber porque ainda insistia em perguntar; devia saber já, que nunca faria planos para voltar, se acaso se voltassem a encontrar, seria isso mesmo, um acaso.
Tudo entre eles era obra do acaso, um conjunto de casualidades que levaram a que os seus caminhos se cruzassem. Acontecimentos improváveis, aleatórios, desde o primeiro instante. Destino ? Não acreditava nisso, acaso apenas, coincidência.
Gostava de estar com ele, dos momentos ocasionais que partilhavam. Não sabia se gostava dele, não o conhecia, nem ele a ela. Encontravam-se há anos, estranho pensar que tinham passado já vários anos desde o dia em que se cruzaram pela primeira vez. Desde aquela tarde em que ela, movida pelo vício dos livros que a levava a nunca ignorar uma livraria, entrou na sua loja preferida, apenas para ver os livros, tocar e cheirar, ler um outro prefácio, passar um pouco do tempo que lhe sobrava entre um e outro afazer.
Ele aproximou-se no momento em que ela abria um livro sobre ocultismo e o cheirava. ‘hábito curioso esse…’ ela sorriu e contrariamente ao que costumava fazer, muito raramente respondia a abordagens deste tipo, sorriu-lhe e respondeu : ‘de facto, gosto do cheiro dos livros novos, do cheiro do papel…’
‘sim ? e de que mais gosta ?’
‘gosto do outono, do frio, de pisar as folhas que caem das àrvores, do cheiro a castanhas assadas no ar…’
‘vi uma vendedora de castanhas na esquina . que me diz a comprarmos algumas e enquanto as comemos pode continuar a dizer-me quais as coisas de que gosta. ‘
Compraram as castanhas e sentaram-se num banco do parque, conversaram durante horas sobre nada em particular, livros que leram, sítios onde estiveram e onde gostariam ainda de ir. Banalidades sem importância para nenhum dos dois. Quando anoiteceu deixaram o parque e sem mencionarem nada, dirigiram-se para o hotel que ficava do outro lado da rua. Passaram a noite juntos, a primeira de muitas.
Encontravam-se sempre no mesmo sítio, quando o acaso os conduzia la, mas não se conheciam. Para além do nome dele, que duvidava até se era verdadeiro, nunca lhe dissera a ele o seu verdadeiro nome, não sabia mais nada. Não queria saber, não fazia perguntas, não responderia se ele lhas fizesse. Não queria conhecê-lo, seria demasiado perigoso para ela. Conhecia o corpo dele, todos os detalhes, todas as curvas e espaços onde gostava de ser tocado, mas era tudo. Não queria mais.
Esta pergunta, de novo… Hesitou, com a mão na porta. Durante alguns momentos pensou realmente em dar outra resposta. Pensou dizer, sim, vou voltar, amanhã e todos os dias. Uma parte dela, aquela que com muito esforço ignorava, rebelou-se contra as amarras que ela lhe impusera. Essa parte queria dizer que sim, queria ver a reacção dele. Mas a sua auto imposta frieza, o hábito de ignorar aquilo que ela considerava uma fraqueza, a parte de si que sentia, levou-a a dar a resposta de sempre :

Não, não vou voltar.

Abriu a porta e saiu. Perturbada. Desta vez… desta vez esteve tão perto de sentir. Tinha que recuperar o controlo. Não sentiria de novo. Nunca mais.

O gato  

Posted by LBJ in


Olho pela janela e noto que não há outra luz além daquela que vem da Lua e dos reflexos da humidade que já cobre os telhados. Das sombras emerge um gato de cor indistinta, talvez pardo ou mesmo negro de olhos amarelos esverdeados e que avança pelos beirais com segurança e indiferença. Sinto que me olha com aqueles olhos de gato e incomodam-me os olhos dos gatos com o seu vidrado colorido centrado por uma oval negra.
Os olhos dos gatos são como os das serpentes, cheios de significado e vazios de emoção, quando me olham sei que não se limitam a ver o que mostro, mas conseguem ver-me a alma. Aquele gato, está ali parado a julgar os meus pecados e o pior é que lhe são indiferentes, como se todo o negrume da minha alma nada significasse na imensidão da noite.
Ouço um ruído no beco abaixo e o gato também o ouviu porque desviou os olhos da minha alma. Tento perceber o que causou o ruído no meio de caixas e de lixo e de restos abandonados de coisas que um dia foram importantes para alguém. O gato desce num salto do telhado para a ombreira de uma janela e de outro salto para outra janela e ainda outra para uma varanda e já quase ao nível do solo assume a pose do caçador.
Noto que se foca num caixote de ripas velhas repleto de garrafas vazias ou cheias de restos de líquidos e água da chuva. Um novo ruído e o gato salta para a frente do caixote, de unhas de fora aterra com as quatro patas em simultâneo no chão e enfia o focinho por baixo e vejo e ouço a aflição de algo pequeno e cinzento que tenta desesperadamente meter-se mais fundo na procura de um refugio. Tudo é tão rápido que nem consigo perceber o que está acontecer, ouço um raspar e um miado e um guincho que se extingue e vejo os olhos do gato amarelos esverdeados com a sua oval negra que me olham com a vitima imóvel pendurada na boca, olhos de serpente em corpo de felino que me fazem sentir que sempre serei mais presa que predador…

Bicicleta  

Posted by M. Morstan in

Encostada à parede de tijolo estava uma bicicleta. A minha segunda pista. Não como a minha, bicicleta que é vermelha, reluzente e bem cuidada. Antes ferrugenta, de guiador torto e alguns raios partidos. Não de desleixo, mas de uso. Muito uso. E muitos anos em cima, pareceu-me. Aproximei-me. Parei. Olhei-a. Cheirei o ar em volta. Férreo. Cheiro metálico, mas ao mesmo tempo doce. Passei a minha mão pelo guiador, desci pelo quadro, subi ao selim. Esburacado à esquerda e à direita, quase intacto ao meio. A minha mão continuou a deslizar pela bicicleta até à roda traseira. Rodei-a. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. Perdi-me em pensamentos sobre o que esta bicicleta antiga já viu. Imaginei os caminhos que percorreu. Adivinhei quem se sentou em cima dela. Agora fui eu que me sentei nela. As duas pernas para o mesmo lado, como uma amazona montaria o seu garanhão. Estendi os braços e as minhas mãos rodearam os punhos. Apertei-os. Fechei os olhos. Senti a quietude da rua. Uma brisa ligeira revoltou-me os cabelos. Inspirei longamente. Abri os olhos e olhei para cima. Por entre os telhados, os raios de sol passavam filtrados pelo fumos das chaminés. Desci da bicicleta. Virei-me de costas. Afastei-me. Primeiro devagar, depois mais depressa. Corri. Sem olhar para trás uma única vez. Deixe a bicicleta encostada à parede de tijolo. Compreendi a minha segunda pista. E reli a carta.