Perde-te no mapa do meu corpo
Sente o vento que suspira
A mansidão dos cumes
Há azimutes que não seguiste
Linhas rectas, linhas curvas
Por onde teu dedo não passou
Faz contas, sonha o caminho
Que serpenteia por minha pele
E traça teu rumo de nómada
Pousa bússola em terra chã
Olha o Norte nos meus olhos
E avança pelos trilhos
Trepa pelas curvas de nível
Galga montes sinuosos
Demora-te em vales recônditos
Arranca o fôlego à brisa
Incendeia a lenha rasteira
E repousa no teu destino
Este é o terceiro e último texto deste passatempo. Eram para ser 4 mas um foi retirado a pedido da autora.
Tencionamos em breve fazer um novo passatempo de tema livre. Os interessados podem começar já a escrever.
Abaixo podem ler o segundo texto deste passatempo. Os nomes do autores aparecem no final dos textos e clicando nesses nomes irão parar às páginas pessoais dos mesmos.
Abaixo podem ler o primeiro texto enviado pelas pessoas que acompanham este blogue. No total serão publicados este mês 4 textos.
Se eu pudesse postular determinava que quando chove o céu chora por alguém.
Se eu pudesse simplificar a chuva diria que ela é feita de água e de tempo assim como nós somos feitos de água e de tempo e de alma e de ainda outras coisas que se calhar não são assim tão importantes. Sei que sou mais chuva do que carne mas ainda não sei se sou mais alma do que chuva e gosto de a sentir molhada num dia sem frio e sem pressas e sem medos.
Se eu pudesse dissecar uma gota de chuva caída na palma da minha mão gostaria de chegar ao fundo da sua memória, saber por onde andou, por que rios, por que mares, saber se já escorregou pelo vidro de uma janela do quarto de dois amantes ou pelos beirais de um castelo de encantar ou apenas pelas ruínas de um casebre de pobre. Queria saber tudo desde que o tempo a fez cair do céu pela primeira vez até ao momento em que tocou na minha pele.
Se eu pudesse partilhar o espaço e o tempo com uma gota de chuva gostaria de cair sem vento sobre a árvore mais alta da floresta, folha sob folha, ramo sob ramo até me enterrar no chão tenro e ir cada vez mais fundo em busca de outras gotas em forma de fio e de rio e de mar e depois diluir-me, tornar-me indistinto sem deixar de ser único e esperar que uma brisa quente, um sopro de Sol me transformasse em ar e subisse devagarinho, bem devagarinho em direcção às estrelas até ser capturado pelo vento em flocos de nuvem e reiniciar a viagem.
Se eu pudesse explicar a chuva num dia de Sol perderia por palavras a magia de um arco colorido que tem numa ponta um sonho de menino e na outra o inalcançável. Nunca sei dizer em que ponta está o sonho e caminho sempre onde nunca consigo chegar e a chuva pára e ficam só os brilhos nas manchas de água a reflectirem o meu desejo.
Se eu pudesse dançar à chuva de gabardine comprida e chapéu de varetas ocas regressaria no tempo a um tempo fechado numa caixa de madeira sem mais outras cores que o preto e o branco e diferentes cinzentos e quem sabe não começaria a cantar com um sorriso nos olhos e nos lábios.
Se eu pudesse comandar em fúria a chuva lavaria todos os males e os meus pecados e restaria puro e vazio num Mundo sem graça e sem homens. Seria divino sem crentes e sem outras catedrais que não aquelas que se formam nas clareiras das árvores perenes.
Se eu pudesse ficar nu debaixo de uma chuva que fosse quente como a água que escorre em chuveiro, forte e compassada sobre os ombros e de braços bem abertos, gota a gota, poro a poro, isolava-me de pensar, de sentir, de me tentar perceber ou explicar.
Se eu pudesse imaginar uma chuva que não fosse chuva feita de água e de tempo iria fazê-la de algo doce e suspenso que se pudesse afastar como uma cortina que dá acesso a um outro palco. Gostaria de encontrar nesse palco um bando de actores interagindo numa performance sem ensaio, representando a minha vida em pantomina. Gostaria de ver a plateia vazia de público e cheia de letras e palavras e frases sempre a trocar de lugar e formando histórias dentro das histórias.
Se eu pudesse escolher que a chuva fosse só chuva ela seria a causa e a razão da vida e o desejo ou desespero de quem a tem ou de quem lhe falta e nada mais.
Abre as asas, espírito livre,
sacode as mágoas antigas do pensamento
e abraça no coração esses teus sonhos,
cobre o corpo com a cor da coragem,
ensaia o grito de liberdade na tua garganta,
amordaça no peito os medos
que te ameaçam o vôo
e lança-te,
olhos abertos sorvendo a paisagem,
vento no rosto, beijando-te as rugas que o tempo sulcou,
o Mundo pequeno lá em baixo, sossegado,
calmo e quieto no seu ritmo de cego.
E embriaga-te de luz,
de estrelas,
de Lua e de Sol,
e ouve o Mar rugir o teu nome,
homenageando quem abarca a Vida no sonho,
quem solta o coração nas ruelas do desejo
e segue andando,
bagagem leve, de pano solto.
Por estes dias festeja-se o nascimento de um homem.
Por estes dias festeja-se o nascimento de um homem por quem se matou e se morreu. Por estes dias festeja-se o nascimento de um homem que deixou de ser vulgar para ser filho de Deus e de virgem e visionário ou revolucionário ou milagroso ou charlatão ou inspirado ou inspirador ou causa ou efeito.
Por estes dias sentimos a pressão da felicidade, a obrigação da caridade, o peso da solidão, a angustia da carência. Por estes dias fala-se de hipocrisia e de consumismo e de valores e de família e de tradição e de sagrado e de profano e de crianças e de velhos e de abundância e de fome e de certeza e de receio e de conforto e desassossego.
Por estes dias há luzes brilhantes e fitas e papel colorido e chamas a tremer em velas vermelhas. Por estes dias há lágrimas e lamentos secos e chamas apagadas em restos de vidas. Por estes dias há música e alegria e canção cantada do fundo do peito. Por estes dias há ruídos incómodos e a rouquidão de vozes que não gostamos de ouvir.
Por estes dias nos lembramos, por estes dias nos esquecemos. Por estes dias assinalamos dias que já foram melhores ou dias que já foram piores, recordamos ausências e lastimamos presenças. Por estes dias se morre e se nasce como nasceu e morreu um dia um homem. Por estes dias …
Evitaram-se no passado por vergonha, ambos eram similares e a vida proporcionou reencontros interessantes e coincidentes de tempos em tempos. Agora passados 19 anos o que tinham em comum era mais que evidente, eram gemeos eram uma obra eram um todo que se completavam e contemplavam mutuamente.
Encontraram-se às 19 horas naquele dia e não foi por acaso, foi planeado. Precisavam de falar tanto que o tempo parecia querer parar, para eles poderem falar à vontade.
Mas só o toque,entre mãos : Aumentou o silêncio.
Nevava e não havia gente nenhuma ao redor, ele olhava -a e ela olhava-o , liam os pensamentos(ou pensavam que liam) um do outro e vice versa, ela deixou cair o olhar ele tentou entender o abismo, antes de formular questões idiotas banais costumeiras, não queria parecer vazio, porque não é assim que se sente quando está ao pé dela .
19:19 O tempo teimava em parar, e nem ela nem ele paravam de sonhar fantasiar , apreciar aquele momento tão raro e esperado, um momento perfeito para não ser estragado.
A neve completou este quadro e convidou ao beijo.
Olho pela janela e noto que não há outra luz além daquela que vem da Lua e dos reflexos da humidade que já cobre os telhados. Das sombras emerge um gato de cor indistinta, talvez pardo ou mesmo negro de olhos amarelos esverdeados e que avança pelos beirais com segurança e indiferença. Sinto que me olha com aqueles olhos de gato e incomodam-me os olhos dos gatos com o seu vidrado colorido centrado por uma oval negra.
Os olhos dos gatos são como os das serpentes, cheios de significado e vazios de emoção, quando me olham sei que não se limitam a ver o que mostro, mas conseguem ver-me a alma. Aquele gato, está ali parado a julgar os meus pecados e o pior é que lhe são indiferentes, como se todo o negrume da minha alma nada significasse na imensidão da noite.
Ouço um ruído no beco abaixo e o gato também o ouviu porque desviou os olhos da minha alma. Tento perceber o que causou o ruído no meio de caixas e de lixo e de restos abandonados de coisas que um dia foram importantes para alguém. O gato desce num salto do telhado para a ombreira de uma janela e de outro salto para outra janela e ainda outra para uma varanda e já quase ao nível do solo assume a pose do caçador.
Noto que se foca num caixote de ripas velhas repleto de garrafas vazias ou cheias de restos de líquidos e água da chuva. Um novo ruído e o gato salta para a frente do caixote, de unhas de fora aterra com as quatro patas em simultâneo no chão e enfia o focinho por baixo e vejo e ouço a aflição de algo pequeno e cinzento que tenta desesperadamente meter-se mais fundo na procura de um refugio. Tudo é tão rápido que nem consigo perceber o que está acontecer, ouço um raspar e um miado e um guincho que se extingue e vejo os olhos do gato amarelos esverdeados com a sua oval negra que me olham com a vitima imóvel pendurada na boca, olhos de serpente em corpo de felino que me fazem sentir que sempre serei mais presa que predador…
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