Numero errado!  

Posted by Bruno Fehr in

Uma rapariga pega no telemóvel extremamente nervosa e clica no redial para falar com a sua melhor amiga.

“Bea, não sei o que fazer. Amo-o tanto e não acho que ele sinta o mesmo por mim. Quero dizer, sempre que o vejo ou penso nele, não consigo evitar sorrir. Por vezes ele vê-me sorrir e sorri de volta. É aí que os meus joelhos se tornam gelatina e sinto borboletas no estômago. Eu sei que o achas giro, adorável mas olhando mais profundamente encontras mais... Uma pessoa carinhosa, cheia de consideração e tudo isso me faz sentir que não o mereço. Bem, na verdade eu não o mereço mesmo. Ele é perfeito demais, tanto que todas as raparigas estão caídas por ele. Eu não consigo ser como elas. Elas são todas tão bonitas e cintilantes e... eu... eu não... nem me posso comparar a elas. Quando penso nele, quando o vejo, só sorrio. Ainda não te tinha dito, mas ele ligou-me há pouco tempo para falar do trabalho da escola. Fiz figura de parva. Estava completamente embaraçada e não conseguia parar de gaguejar. Mesmo assim, ele foi um querido continuando a falar como se me tentasse fazer sentir melhor. Ele é PERFEITO e eu não o mereço... Mas porque é que continuo a desejar que ele repare em mim? Porquê? Bea? Beatriz, estás aí?

“Eu não sou a Beatriz!”

Petrificada a menina pergunta, “Quem és tu?”

Eu sou o rapaz cujo sorriso transforma os teus joelhos em gelatina. Aquele que te faz sentir borboletas no estômago e que sorri quando te vê sorrir. Só te queria dizer uma coisa: Tudo o que disseste agora, é o que não tenho tido coragem para te dizer, desde há muito tempo, mais exactamente, desde o dia em que te conheci”.  


                                                                             Por:  Shilan Nozari

Passatempo de Fevereiro  

Posted by Bruno Fehr in

Abaixo podem ler o primeiro texto enviado pelas pessoas que acompanham este blogue. No total serão publicados este mês 4 textos.

Ainda Hoje  

Posted by Bruno Fehr in

Passei horas a ouvir o nosso atendedor de chamadas. Ouvi a mensagem uma vez, e outra, e outra, e outra... Por mais estúpido que fosse, era a única forma de ouvir a tua voz. O calendário colado na porta do frigorífico marcava a data 3 de Setembro. Era a nossa data. Fazíamos 4 anos. "Quem diria?", pensei eu. Já nos conhecíamos há tanto tempo, de uma forma ou de outra fomos indo e voltando da vida um do outro, até àquele dia. O dia 3 de Setembro. O dia do primeiro beijo. O dia em que tudo mudou. O dia em que entraste e eu senti que nunca mais irias sair. 

A cada dia que passava, sentia-me mais apaixonado por ti. Cada beijo tinha a emoção e o sentimento do primeiro. Lembro-me de ficar horas acordado a ver-te dormir. "Oh, meu amor, o quanto eu te amo". Lembro-me pensar isto, e adormecer com um sorriso na cara, só por te sentir ali. E lembrar, de quando fazíamos serões no sofá, a ver daqueles romances, e te deitavas bem perto de mim. Ainda sinto a tua respiração no meu pescoço, o cheiro do teu perfume quase tão doce como tu. Ou dos passeios pela muralha, a ver o mar, a rebentação das ondas nas rochas e o pôr-do-sol. Era tudo tão belo. Parece que foi ontem que te pedi para me beliscares, porque não acreditava que podia ser assim tão feliz. 

Lembro-me do prazer que era, depois de um cansativo dia de trabalho no escritório chegar a casa, e ter sempre o teu beijo à minha espera. As tuas palavras carinhosas. Acho que nunca te disse o quanto te admirava realmente. Tu tinhas uma força que dificilmente eu algum dia virei a ter. Independentemente de como te corresse o dia, o teu sorriso estava sempre lá para me receber, por pior que tivesse sido o teu dia de trabalho, por piores que as coisas andassem. Recordo-me de discutir contigo um dia, por uma coisa tão insignificante que já nem sei ao certo o que era. Recordo-me de sair porta fora, exaltado. Recordo-me de a abrir de seguida, e mesmo sem falar, olhei para ti e pedi-te desculpa, e tu a mim. O beijo que demos de seguida foi tão forte, tão intenso, tão... ai, amor, parece que ainda o sinto aqui, nos meus lábios. As tuas mãos suaves no meu rosto, e as minhas na tua cintura. Encostaram-se os nossos corpos, quentes e desejosos um pelo do outro. Fechei a porta com o pé, agarrando-te ao colo de seguida. Essa seria talvez a mais bela noite de amor alguma vez vivida em toda a História dos amores. Fomos mais que um só, fomos o símbolo da união e perfeição. Fomos o dois, e fomos o três. Fomos o dois, o dois da união, e fomos o três, o três da perfeição. Naquela cama, por entre lençóis e suores, fluidos e gemidos, lá estávamos nós, totalmente entregues um ao outro. Eu, tu e o nosso amor. Essa fora uma noite no meio de tantas e tantas que passámos nestes quase quatro anos. 

Dei por mim, a fitar o tecto, perdido no espaço e no tempo, a recordar a memória de ti. Tinha um sorriso no rosto, e uma lágrima no canto do olho. Olhei para a nossa fotografia, aquela que tirámos quando fomos àquela que é chamada de cidade do amor. Paris. Atrás de nós, luminosa, estava a Torre Eiffel, apenas ofuscada pelo teu sempre radiante sorriso. Podiam ligar todas as luzes, aumentar o Sol, que tu brilharias sempre mais, mais que qualquer estrela. Mais que tudo.

             Dói-me sentir que já não estás aqui comigo. Dói-me mais ainda saber que me foste tirada. Não merecias. EU não merecia perder-te, não desta forma. Uma recordação que estava tão presente na minha memória era a daquela palavra. Leucemia. Pus a mão no ombro. Foi como se ainda sentisse as tuas lágrimas, quando te apoiaste nele depois de o médico dizer aquela palavra. Leucemia. Apertaste tanto a minha mão. Eu fiquei sem reacção. Não sabia que te dizer, ou fazer, ou fosse lá o que fosse. O ser humano não está concebido para situações destas. O médico deixou-nos a sós, para digerirmos tudo aquilo. Não sei quanto tempo estivemos ali. Chorámos. Estive a teu lado nos altos e baixos, por entre exames e tratamentos, e a busca de um dador compatível, que, infelizmente, nunca viria a aparecer. Tentaste afastar-me, pensando que talvez assim eu sofresse menos. Oh amor, como eu te conheço. Eu sabia que o farias, mas eu não te deixei só. Vi a vida desvanecer nos teus olhos, a cada dia que a doença se apoderava de ti. E partiste. Nesse dia o Sol nasceu e pôs-se sem que se lhe visse a cor. O céu ficou cinzento, escuro, carregado de chuva, como se também ele fizesse luto por ti. Tudo passou a ser sem cor, sem luz, sem vida. A vida, por si só no termo da palavra, já não o era. Eu não vivo sem ti, apenas sobrevivo. Ainda hoje sinto o vazio que deixaste. Ainda hoje te amo, mesmo sabendo que não estás aqui. Ainda hoje...
                                                                                     Por:  Filipe Sardinha (Pipoo)

Ensaio – A chuva  

Posted by LBJ in


Se eu pudesse postular determinava que quando chove o céu chora por alguém.

Se eu pudesse simplificar a chuva diria que ela é feita de água e de tempo assim como nós somos feitos de água e de tempo e de alma e de ainda outras coisas que se calhar não são assim tão importantes. Sei que sou mais chuva do que carne mas ainda não sei se sou mais alma do que chuva e gosto de a sentir molhada num dia sem frio e sem pressas e sem medos.

Se eu pudesse dissecar uma gota de chuva caída na palma da minha mão gostaria de chegar ao fundo da sua memória, saber por onde andou, por que rios, por que mares, saber se já escorregou pelo vidro de uma janela do quarto de dois amantes ou pelos beirais de um castelo de encantar ou apenas pelas ruínas de um casebre de pobre. Queria saber tudo desde que o tempo a fez cair do céu pela primeira vez até ao momento em que tocou na minha pele.

Se eu pudesse partilhar o espaço e o tempo com uma gota de chuva gostaria de cair sem vento sobre a árvore mais alta da floresta, folha sob folha, ramo sob ramo até me enterrar no chão tenro e ir cada vez mais fundo em busca de outras gotas em forma de fio e de rio e de mar e depois diluir-me, tornar-me indistinto sem deixar de ser único e esperar que uma brisa quente, um sopro de Sol me transformasse em ar e subisse devagarinho, bem devagarinho em direcção às estrelas até ser capturado pelo vento em flocos de nuvem e reiniciar a viagem.

Se eu pudesse explicar a chuva num dia de Sol perderia por palavras a magia de um arco colorido que tem numa ponta um sonho de menino e na outra o inalcançável. Nunca sei dizer em que ponta está o sonho e caminho sempre onde nunca consigo chegar e a chuva pára e ficam só os brilhos nas manchas de água a reflectirem o meu desejo.

Se eu pudesse dançar à chuva de gabardine comprida e chapéu de varetas ocas regressaria no tempo a um tempo fechado numa caixa de madeira sem mais outras cores que o preto e o branco e diferentes cinzentos e quem sabe não começaria a cantar com um sorriso nos olhos e nos lábios.

Se eu pudesse comandar em fúria a chuva lavaria todos os males e os meus pecados e restaria puro e vazio num Mundo sem graça e sem homens. Seria divino sem crentes e sem outras catedrais que não aquelas que se formam nas clareiras das árvores perenes.

Se eu pudesse ficar nu debaixo de uma chuva que fosse quente como a água que escorre em chuveiro, forte e compassada sobre os ombros e de braços bem abertos, gota a gota, poro a poro, isolava-me de pensar, de sentir, de me tentar perceber ou explicar.

Se eu pudesse imaginar uma chuva que não fosse chuva feita de água e de tempo iria fazê-la de algo doce e suspenso que se pudesse afastar como uma cortina que dá acesso a um outro palco. Gostaria de encontrar nesse palco um bando de actores interagindo numa performance sem ensaio, representando a minha vida em pantomina. Gostaria de ver a plateia vazia de público e cheia de letras e palavras e frases sempre a trocar de lugar e formando histórias dentro das histórias.

Se eu pudesse escolher que a chuva fosse só chuva ela seria a causa e a razão da vida e o desejo ou desespero de quem a tem ou de quem lhe falta e nada mais.

Bagagem de pano  

Posted by Mag

Abre as asas, espírito livre,

sacode as mágoas antigas do pensamento
e abraça no coração esses teus sonhos,
cobre o corpo com a cor da coragem,
ensaia o grito de liberdade na tua garganta,
amordaça no peito os medos
que te ameaçam o vôo
e lança-te,
olhos abertos sorvendo a paisagem,
vento no rosto, beijando-te as rugas que o tempo sulcou,
o Mundo pequeno lá em baixo, sossegado,
calmo e quieto no seu ritmo de cego.
E embriaga-te de luz,
de estrelas,
de Lua e de Sol,
e ouve o Mar rugir o teu nome,
homenageando quem abarca a Vida no sonho,
quem solta o coração nas ruelas do desejo
e segue andando,
bagagem leve, de pano solto.

Cartas  

Posted by M. Morstan in

Cartas. Vivo rodeada de cartas. Umas vêm, outras vão. Não mais que pedaços de papel com caracteres escritos a tinta. Às vezes têm apenas desenhos. Uma carta pode dizer tudo e pode dizer nada. Pode ter uma linha e conter toda uma vida. Pode ter sete páginas e estar recheada de trivialidades. Escrevo muito, eu. Envio. Recebo. Envio. Recebo. Leio, releio, torno a ler. As cartas são emoções. São desejos. São caprichos. São pecados. São armas. São crime. São pistas. Para o real e para o irreal. Para o consciente e para o inconsciente. Dizem que os grandes cérebros criminosos gostam de escrever cartas. Passar para o papel como é o pulsar de um coração acabado de arrancar a um peito jovem. Bate. Bate. Bate. E deixa de bater. A vida a esvair-se na mão. Na minha mão. Pena é estar sempre escuro, quando a vida desaparece. Mas a glória do dia tende a ofuscar a glória da morte. A morte de dia desvanece-se com o entardecer. A morte de noite brilha com a aurora. A descoberta de um corpo pela manhã, orvalhado, com os raios a reflectirem, é sublime... Cartas. Cartas. Cartas. Pedaços de mim que envio e que recebo.