Bicicleta  

Posted by M. Morstan in

Encostada à parede de tijolo estava uma bicicleta. A minha segunda pista. Não como a minha, bicicleta que é vermelha, reluzente e bem cuidada. Antes ferrugenta, de guiador torto e alguns raios partidos. Não de desleixo, mas de uso. Muito uso. E muitos anos em cima, pareceu-me. Aproximei-me. Parei. Olhei-a. Cheirei o ar em volta. Férreo. Cheiro metálico, mas ao mesmo tempo doce. Passei a minha mão pelo guiador, desci pelo quadro, subi ao selim. Esburacado à esquerda e à direita, quase intacto ao meio. A minha mão continuou a deslizar pela bicicleta até à roda traseira. Rodei-a. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. Perdi-me em pensamentos sobre o que esta bicicleta antiga já viu. Imaginei os caminhos que percorreu. Adivinhei quem se sentou em cima dela. Agora fui eu que me sentei nela. As duas pernas para o mesmo lado, como uma amazona montaria o seu garanhão. Estendi os braços e as minhas mãos rodearam os punhos. Apertei-os. Fechei os olhos. Senti a quietude da rua. Uma brisa ligeira revoltou-me os cabelos. Inspirei longamente. Abri os olhos e olhei para cima. Por entre os telhados, os raios de sol passavam filtrados pelo fumos das chaminés. Desci da bicicleta. Virei-me de costas. Afastei-me. Primeiro devagar, depois mais depressa. Corri. Sem olhar para trás uma única vez. Deixe a bicicleta encostada à parede de tijolo. Compreendi a minha segunda pista. E reli a carta.

O mar violeta-encantado  

Posted by Mag in

Não queria acordar, não depois daquela noite.
Acordar para um dia de neve branca que traía o negro luto do seu coração, como que uma ferida aberta na paisagem, recordando-lhe que o Mundo continuava lá, apesar da dor, apesar do frio, apesar de se sentir vencida, rasgada, tolhida.
Mas a Vida, meretriz impiedosa, continuava alheia ao seu sofrimento, e para mais resolvera brindar o Universo com um dia de Inverno esplêndido, com um Sol-rei encavalitado num céu de um azul perfeito, que nada deixava a desejar a um fresco de Miguel Ângelo... daqueles dias em que sairia com o pequeno Brian no carrinho e lhe falaria das árvores e dos pássaros na floresta enquanto deixava as suas pegadas no caminho branco...
Assim que o pensamento a atravessou, a familiar dor, dormente até ali, entorpeceu-lhe o corpo. As lágrimas já não corriam, estavam secas e esgotadas da sua essência, apregoavam-lhe apenas no peito o vazio e a escuridão.
Com um suspiro magoado, convenceu-se a levantar da modorra da cama e a tratar do pequeno-almoço para os hóspedes que se encontravam alojados na pequena estalagem. Vivia daquilo, e se havia algo que a mantinha de pé no meio da névoa e da confusão era aquele entra-e-sai de pessoas, desconhecidos que com ela partilhavam um pedaço de vida.

Chania tratou da lareira apagada, do leite, do pão acabado de cozer, do mel, dos biscoitos que gostava de colocar como extra, da manteiga fresca e do café e deixou-os na mesa longa da sala, para quando os seus hóspedes se levantassem.
Afagando o xaile que a protegia, saiu para o frio do campo, tentando sorver a energia gratuita dos raios solares. O Sol brilhava e reflectia-se num ponto que Chania não conseguia enxergar. Curiosa, aproximou-se.
No centro de uma clareira, nascera uma tímida flor violeta, desconhecida por aquelas zonas. As suas delicadas pétalas sacudiam-se no vento e absorviam gulosamente a luz com que era presenteada. Mais à frente, outra flor similar, e outra, e outra, orgulhosamente desafiando o frio invernoso.

Seguindo-as, Chania chegou a um planalto. Lá, e até onde conseguia vislumbrar, morava um mar das suas belas flores de um violeta impossível, belas e selvagens, um presente de Deus para quem o quisesse contemplar.
Chania sorriu, e a dor levantou um bocadinho o seu véu. Iria ali todos os dias, sentia-se mais perto de Brian. E, silenciosamente, agradeceu a bênção que lhe fora dada.

Ausência: Presente  

Posted by A Mor..


Estou sentada na cama, encostada na cabeceira e ele dorme no meu colo. Estamos suados e seu cabelo invade minhas pernas e se mistura com minha respiração.
Não sei porque me sinto em paz. Sou uma mulher de guerra e ainda um pouco eu dominava esse cara, meu homem, tão indefeso, tão só meu agora que descobri porque me sinto em paz.
Ainda estou molhada, ainda estou pronta pra boca dele - ainda tenho fome.
Esse lobo deitado em mim, esse poço de carinho, afeto, palavras e fome - que me olha   o tempo todo com se tivesse medo que eu desaparecesse, esse cara me completa e eu não quero ser completa.
Eu quero a ausência dele, do cheiro, do olhar, da força dele me pegando. Eu quero me olhar no espelho e não ver ele.
Porque é por isso que ele me ama e sempre volta: porque eu não preciso dele. Dorme, meu lobo.


Dorme!

O armário  

Posted by Anónimo

Era um armário antigo. Pesado, feito de cedro rosa, enviado do Brasil há muitos anos pelo bisavô como presente de casamento da filha mais nova.A avô conservava-o com esmero, a única recordação do pai que emigrara para o Brasil quando ela era ainda um bébé de colo e nunca mais voltara.
Ficava no quarto das traseiras, perdera o lugar de destaque no quarto da avó em favor de móveis mais modernos e funcionais.
Mais de meio século depois, no interior ainda se sentia o cheiro adocicado e levemente acre do cedro. Deu-se conta disso numa tarde em que brincava às escondidas com os primos. O armário, habitualmente fechado à chave, sabia-o porque já tinha tentado abri-lo noutras ocasiões, tinha as portas abertas naquele dia, certamente para arejar as roupas que a avó guardava ali.
Tirou os sapatos e entrou, já bastava a eventualidade de ser apanhada ali pela avó, se para cúmulo ela a encontrasse com os sapatos calçados, bem…. Nem queria pensar! Encostou as portas sem as fechar completamente e deixou-se ficar ali, imersa na semi-obscuridade e em todos os odores que a rodeavam.
Entreteve-se a identificar os cheiros, o mais forte e pungente, naftalina claro… toda a casa estava impregnada pelo cheiro. Ficava sempre com a sensação, de cada vez que lá ia, que o cheiro a naftalina se lhe colava à pele e demorava vários dias e imensos banhos até se sentir livre do odor. A mãe dizia que tinha tudo a ver com o processo olfactivo, um cheiro assim tão intenso deixava uma marca fortíssima no hipotálamo, o que nos dava a sensação de continuar a sentir determinado cheiro muito tempo depois de este já se ter dissipado.
No entanto, apesar da presença fortíssima desse cheiro, conseguia sentir outros: lavanda, rosmaninho, hortelã, alecrim, canela. Identificava-os facilmente, tinha passado as férias da Páscoa em casa da avó, e entreteve-se durante as tardes a colher as plantas do jardim, supervisionada pela avó, que lhe ia dizendo o nome de cada uma. Para depois fazerem raminhos que secavam ao sol e usavam para perfumar as gavetas e arcas onde a avó guardava cuidadosamente aquilo que chamava as suas limpezas. Peças de linho imaculadamente brancas e ricamente bordadas que estavam já destinadas a fazerem parte dos enxovais dos netos.
Misturado com todos os outros cheiros e de tal forma indelével que se não estivesse absolutamente concentrada não o teria sentido, um outro cheiro, que não conseguiu identificar mas que associou ao cheiro do cachimbo do pai.
Tabaco, aqui? Estranho…..
Começou a remover cuidadosamente as peças de linho, tentando encontrar a fonte do odor. Os dedos tocaram em algo que lhe pareceu uma caixa de madeira. Pegou-lhe e colocou-a perto da porta por onde entrava uma réstia de luz. Estava curiosa, o cheiro vinha sem dúvida dali, e era agora mais forte. O que levaria a avó a esconder uma caixa de tabaco no meio das roupas, num armário habitualmente fechado à chave. A ideia da avó a fumar um cachimbo às escondidas, provocou-lhe um ataque de riso que tratou de sufocar com ambas as mãos, para que não se denunciasse.
A caixa felizmente não estava fechada à chave, e se em alguma altura serviu para guardar tabaco, não era esse o seu conteúdo agora. Cartas, várias, num papel fino, com a escrita já bastante desbotada mas ainda perceptível.
Curiosa como era, nem tentou resistir e começou a ler uma delas, estava datada de 1917, e começava com um “Meu Amor”. Supôs imediatamente que fossem cartas do avô para a avó, e achou extremamente romântico. Mas pensando melhor, isso não fazia sentido, desde que se conheceram, os dois nunca estiveram separados um único dia, até ao dia em que Deus o levou, como dizia a avó com ternura e sempre com as lágrimas nos olhos. Para além disso, tanto quanto sabia, o avô nunca aprendera a escrever, sendo o filho mais velho e tendo começado a trabalhar logo que tinha força suficiente para segurar uma enxada, nunca houve tempo para a escola. De quem seriam as cartas? E para quem?
A voz da prima que a chamava sobressaltou-a, já tinham desistido do jogo e esperavam-na para lanchar. Apressou-se a pôr as cartas de volta na caixa e fez os possíveis para colocar a caixa exactamente no mesmo lugar. Saiu do armário contrariada e prometeu a si mesma abordar o assunto com a avó mal tivesse oportunidade.

Diário da Terra  

Posted by Bruno Fehr in

„A liberdade foi o que de pior nos aconteceu“, foi isso que o meu capitão me disse assim que as primeiras bombas começaram a cair. „Dá-te por feliz por estares em Portugal pois os mais fortes são sempre os primeiros a cair“.
Pelas noticias vindas dos nossos aliados Europeus, a Ucrânia era neste momento o inferno na Terra onde 90% dos forças Bálticas, Polacas, Ucranianas foram dizimadas. No continente Americano as forças do sul e centro apoiadas pelos Chineses empurraram o exército Norte Americano quase até à fronteira do Canadá onde já se encontravam 5 regimentos Russos e estando o oceano pacifico a ser controlado pelo Japão e Índia a única rota de fuga era o oceano Atlântico, rota essa que traria a guerra para a Europa ocidental.

Só nos EUA 28 milhões de soldados e 55 milhões de civis perderam a vida. Portugal era agora a porta de entrada na Europa de 25 milhões de refugiados. Toda a costa portuguesa estava “minada” do que restava da armada Norte Americana.
No oceano atlântico encontrava-se toda a frota marítima Britânica, Francesa e Alemã com o objectivo de parar qualquer ataque vindo por mar, ao passo que a força aérea e terrestre da União Europeia estava centrada num corredor que se estendia de Berlim a Bucareste.

As palavras do meu capitão estavam em parte certas. A liberdade permitia-nos fazer e dizer o que queríamos, viver onde queríamos e foi dessa liberdade, ou ideia de liberdade, que nasceu a nossa arrogância alimentada pelo poder que por sua vez aliada às pressões comerciais e politicas que impúnhamos ao Médio Oriente, Ásia, América do Sul, África e Rússia deixámos, sem querer, que fosse criado um governo tirano que nos impunha uma falsa noção de liberdade fragilizada pelas cedências constantes de liberdades em troca de um falso sentimento de segurança, enquanto nos guiavam para uma guerra que só as elites loucas pensavam poder vencer.

Apesar de Norte Americanos e Chineses terem usado armamento nuclear, a aliança Indo-asiática não o tinham ainda usado contra a Europa, que vivia sob um ultimato de rendição.
Era uma questão de tempo até a Europa cair mas mesmo vivendo no chaos, o exercito e povo olhavam para as elites politicas que nos tinham arrastado para esta guerra em busca de respostas, de orientação, de soluções, e de lá nada vinha a não ser a constante propaganda orgulhosa que apelava ao nacionalismo mesmo que as nações estivessem em ruínas. Ainda assim o povo lutava, não pelo país, não pelas suas casas já destruídas mas pelas suas famílias. O que é uma nação senão um aglomerado de famílias? As nossas famílias!
A Turquia abandonou a sua posição neutral e entrou na Europa pela Grécia. A Argélia e união Africana invadiram a Itália e num acto de desespero a Europa lançou ICBM's sobre as principais cidades Turcas e Norte Africanas e foi impossível parar a multiplicação de explosões “cogumelo” um pouco por toda a Europa. Falava-se no fim da guerra. Mas como pode uma guerra ter fim se as elites que a alimentam estão vivas e de saúde exiladas na Escandinávia? Gozando da pseudo-neutralidade da união FiNorSe (Finlândia, Noruega, Suécia). Todos nós, soldados, sabíamos que a guerra não tinha terminado, sabíamos que após este inverno nuclear, os sobreviventes voltariam a guerrear-se mesmo que já ninguém soubesse porque lutava, mesmo que todos soubéssemos que estávamos no limiar do fim dos tempos. Um Apocalipse humano, um suicídio colectivo sem intervenção divina. Deus se existe, há muito que virou costas à pior das suas criações e nenhum homem ou mulher olhava para o céu à espera de intervenção divina, olhavam sim no desejo não ver mais uma chuva explosiva.

Fumo o meu último cigarro que no meio do cheiro nauseabundo a morte e químicos é o que de mais saudável os meus pulmões conhecem. Mesmo assim, decido deixar de fumar.

(excerto de Teanaris - Livro Terra)

O inicio  

Posted by LBJ in


Foi uns dias antes de tudo começar. Lembro-me de ter aberto os olhos incomodado pela luz do Sol que já ia alto e só ver verde em toda a minha volta e eu até gostava do conforto daquele verde e do cheiro da erva ainda um pouco húmida do orvalho da noite. Se hoje tenho saudades desses tempos simples em que nada acontecia, naquele dia recordo que acordei resmungão e a lamentar a monotonia de mais um dia em que nada de extraordinário ia acontecer e que o meu maior desejo era que algo extraordinário acontecesse. Naquele dia nada de extraordinário aconteceu ou pelo menos eu não reparei que algo extraordinário tivesse acontecido, mas estranhei uma revoada de pássaros lá longe sobre o pinhal que desce da colina dos arcos até ao regueiro da família Síldio e um estrondo oriundo de parte incerta que se foi esvaindo até se tornar um silvo e desaparecer.

Escusado será dizer que ninguém na nossa comunidade ligou alguma importância àquilo, tirando eu que era visto como um bicho irrequieto e trafulha e à espera de sarilhos apenas o Zoldi Ouriço conhecido por começar a mastigar bagas azuis logo que se levantava e a meio da manhã já andar a trombadar pelos caminhos, comentou que vinha ai coisa ruim e que o melhor era começar a encher a despensa. Recordo-me também que foi nesse dia que ganhei coragem para me aproximar sorrateiro do lago da fonte Castanha e espreitar o pêlo a luzir de gotas de água da Riú enquanto tomava banho…