Amor feito num 8  

Posted by Bruno Fehr in

Quando olhas para mim, o que vês? Vês quem eu sou, ou quem aparento ser? Vês quem eu quero ser, ou quem tu queres que eu seja?
Quando olhas para mim, o que sentes? Sentes o que dizes sentir, ou dizes sentir o que pensas que sentes?

Eu vejo os teus olhos a brilhar na minha direcção. Os meus estão camuflados pela escuridão dos bastidores atrás dos focos de luz que iluminam toda a tua beleza. Flash, flash, flash e mais flash, enquanto te moves e olhas para mim.

Tu és livre e por seres livre  não te posso prender aqui a meu lado e dar-te o meu amor. Tu queres viajar, ver o mundo, lutar por aquilo que acreditas e acreditas que o nosso amor estará sempre em stand by. Não! Isso não é possível.

Envias-me postais dos sítios em que não estou contigo. Escreves-me cartas que não leio. Envias mensagens a que não respondo, telefonemas que não atendo. Bates à minha porta e não abro. Não te posso receber só para te dizer adeus novamente. Não consigo abraçar-te por um segundo sabendo da eternidade de saudade que umas semanas de distancia me parecem ser.

Onde estiveres eu estou contigo. O portefólio que te levou onde estás e te levará onde irás é parte de mim, és tu sob o meu ponto de vista filtrado por uma lente. O meu portefólio és tu, não todo, mas a melhor parte. A beleza e o impacto destas fotos sobre terceiros é algo que só agora consigo explicar. Não é das maquinas, nem das lentes. Não é do cenário nem da iluminação. Não é da modelo nem do fotógrafo. A magia é do sentimento, do sexo implícito de uma sessão.

Como pode uma pessoa passar a vida inteira em busca do amor enquanto outra o encontra com facilidade, e vira-lhe as costas? Parece não fazer sentido, no entanto, fugir a um amor que não se compreende é mais comum do que simplesmente nos deixarmos amar e ser amados.

8 segundos perdido num olhar
8 minutos para me apaixonar
8 horas de quente paixão
8 dias de profunda ilusão
8 semanas para acordar
8 meses para me afastar
8 anos de azar e de sorte
8 décadas até à morte

Carta de adeus  

Posted by Mag in

“Meu amor:

Acho que o meu coração perdeu o direito de te chamar assim. Meu nunca foste (ninguém é de ninguém), e amor não posso mais albergar neste meu peito, porque não se pode amar eternamente quem não nos ama.

Sei que vais gritar aos quatro ventos o tanto que me amavas, proclamar a tua inocência, a tua virtude para quem te quiser ouvir… e não tenho dúvidas de que terás uma audiência plena, cheia daquela gente que te adula os sentidos, de quem tanto precisas e que tanto desprezei. Serão os chacais que te ajudarão a despedaçar os pedaços da minha memória… por isso desejo que se deleitem, muito. Que a minha alma, essa, está a salvo dos ataques dos seus dentes famintos, e das tuas palavras acres.

Não consigo, não consigo caminhar mais a teu lado. Porque não caminho direita, e sim encurvada com o peso daquilo que querias, e que não sou. Não concebo como amor o que me devotas (ou devotavas, já nem sei), quando não me faz brilhar o olhar sentindo-me especial, quando não me faz aquecer o peito sabendo-me única.

As tuas críticas constantes, incompreensões repetidas e esse teu jeito de viver no pódio são simplesmente demais para alguém que só pretende o seu canto para descansar e se sentir em casa. E não, bolas, não basta dizer-se que se ama que o Mundo avança, não, porque o Amor é muito mais do que aquilo que vale para ti, o Amor é ter a capacidade de mostrar ao Outro o quão especial é. E, para ti, sempre fui alguém que muito tem a provar e muito tem a mudar. Se existisse uma lei que, para além dos maus tratos físicos e verbais, proibisse os maus tratos à alma eu estaria a aplicá-la na sua mais perfeita essência... porque até agora o meu ego apenas se alimentou à custa do tão pequena que fui, a teus olhos. E basta!

Vou-te deixar. E vou ao mesmo tempo deixar aquilo em que, durante algum tempo, acreditei.

Peço-te que me deixes ir. Apenas isso."

Agora e na hora da nossa morte  

Posted by LBJ in


…Em nome do pai… não me lembro das palavras certas, nunca as quis aprender. Os homens nos momentos de aflição sempre se viraram para Deus e eu que sempre disse que este se alimentava de dor e sofrimento, aqui estou também a tentar lembrar-me das palavras que já não vou aprender. Em nome do pai e do filho… Sinto-me derreter de dentro para fora e tento tocar a dor e vejo um vermelho brilhante brilhar-me na mão. Em nome do pai e do filho e de outra coisa qualquer… Vejo tudo desfocado, sinto a cabeça húmida e algo a escorrer-me pelo pescoço que não sei se é suor ou sangue ou uma mistura dos dois. Em nome do pai… Deus terá que me aceitar mesmo não sabendo as rezas, deus vai ter que me aceitar porque se é deus sabe que terá que me escutar e que eu sou chato e persistente quando quero alguma coisa e deus vai ter que me aceitar. Em nome do pai e do filho e do espírito… Sempre acreditei no espírito, terá que haver algo maior que esta carne que sinto e não sinto entalada entre ferro e plástico. Em nome do pai e do filho… Sempre achei que neste momento preciso toda a minha vida se repetiria num reviver de avanço rápido e pausas eternas , imagens claras do que passou e os cheiros, gostava de voltar a sentir o cheiro do meu pai mas nem me consigo lembrar do que acabei de almoçar. Em nome do pai e do filho e do espírito santo... Nunca fui um santo e agora que sei que a morte está a chegar e já a vejo num manto negro de face pálida a sorrir, quero que ao menos me sorria, porque gosto de sorrisos e não sei há quanto tempo me sorriram sinceramente pela última vez. Em nome do pai e do filho e do espírito santo... Foi arroz, com frango ou talvez peru, foda-se porque é que me importa agora lembrar-me que pássaro comi ao almoço? Em nome do pai que está no céu… Deve mesmo de haver um céu para onde vão os merecedores da boa vida eterna, para onde vão os que acreditaram e veneraram o dono desse céu, mas deus sabe quem eu sou e o que fiz porque é deus, mas ainda deve de ter mais que fazer do que me julgar somente por eu não saber as ladainhas e eu não sei as ladainhas porque nunca as quis aprender porque nunca gostei de quem as ensinava e não gosto de padres, uns com aquele ar escanzelado de pecadores perdoados à nascença ou os outros anafados e bonacheirões que me faziam lembrar o pai natal já bêbado da consoada. Em nome do pai e do filho e do espírito santo… Na trindade há o pai e há o filho que dizem morreu por nós pecadores no seu egoísmo piedoso e eu sempre gracejei que não se importaria de morrer fosse por quem fosse porque sabia que tinha a cunha do papá lá sentado à espera dele, mas agora não me importava de ser eu o egoísta e que voltasse a morrer por mim. Em nome do pai e do filho e do espírito santo… Já só sinto a dor, deixei de ter corpo para só ter dor e todo o meu sangue tempera a terra de rubro, dor apenas dor. Em nome do pai e do filho e do espírito santo am…

Quem és tu?  

Posted by Bruno Fehr in

Sonhei que estava contigo. Ausente de mim observava-me a observar-te. Estavas sem expressão e nos teus olhos uma interrogação.
Viraste costas e eu disse:

-Espera!

Parecias esperar por mais palavras, querias todas as palavras que não conseguia dizer e partiste. Espera era tudo o que queria dizer. Mas não te posso pedir para esperar por um tempo que poderá não vir. Esperar pelas palavras que me recuso a sentir. Esperar pelas escolhas que me recuso a fazer. Esperar por me decidir a viver. Dizer-te espera era tudo, não percebeste e ainda bem. Não te poderia prender aqui, ao meu sonho, pois isto é só um sonho do qual acordo sempre com a sensação de pesadelo.
Querer que esperes é injusto, partir contigo é impossível pois levaria-me a um futuro eternamente ausente tendo o passado sempre presente.

-Quando olhas para mim, quem vês?

Foi esta a pergunta mais difícil que me fizeste, pois não te consigo mentir e a verdade seria dolorosa. Vejo-a em ti mas sei que não és ela. Gosto do que vejo mas não sei quem tu és. Sei que és única. Mas... o amor sente-se por pessoas e as pessoas são únicas, mas como funciona ele em relação a duas únicas aparentemente iguais? Tu serias sempre tu mas parecerias-te sempre com ela, percebes?
A melhor forma de evitar responder é questionar:

-Quem és tu?

Não há questão sobre ovo ou galinha, sobre o sentido da vida, sobre gato de Schrödinger com resposta mais difícil que um simples: Quem és tu?

E tu que acabaste de ler esta divagação: Quem és tu?


(excerto de "Velho demais para ser", por Bruno Fehr)

O Privilégio do Disparate - What else?  

Posted by LBJ in


Assim que dei os primeiros passos, caí, se calhar toda a gente cai ou talvez haja no andar já uns prodígios que uma vez que comecem já nada os faz cair. Aprendi depressa a cair de cu porque doía menos, embora custasse mais a levantar depois, havia toda uma manobra a realizar que para alguém com pouca experiência como eu era complicada além de que o cu me pesava, sobretudo depois de algum tempo sem manutenção e eu sempre fui algo cagão, então tinha que me inclinar para a frente, pôr uma mão no chão, o que comigo funcionava sempre com a direita e depois lá levantava o rabo até me conseguir ter direito e caminhar até voltar a cair, de cu, que eu aprendo depressa.

Ora eu e se calhar toda a gente, escolhe logo desde os primeiros passos uma situação de conforto em detrimento de mais facilmente andar para a frente ou se calhar não, as pessoas de sucesso que até podem ser felizes, sempre que caem, caem de forma a rapidamente se levantar e pouco importa os joelhos esfolados ou o sangue no nariz porque até lhe chamam construir e fortalecer carácter e o que não os mata fá-los mais fortes.

Somos empurrados pelo sistema que só nos quer ensinar e preparar a procurar e gostar da mudança, se estamos bem devemos estar preparados porque podemos vir a estar pior e se estamos mal devemos estar preparados porque podemos vir a estar melhor. A mudança pode ser lenta ou repentina mas é tão certa como o tempo e por muita desgraça que nos traga deve ser encarada como uma bênção porque nos dá uma oportunidade de melhorar. Por isso se criaram os incentivos que tanto podem ser os ecrãs de dois metros e meio para o qual todos gostavam de ter parede ou um lugar no céu sentado à esquerda de alguém famoso.

Tenho que saber lidar com a mudança para ser feliz mas como se define a felicidade? Que direito tem alguém de definir a forma do outro ser feliz? E se eu não quiser ser feliz e se este ou o outro for um estado que me faz sentir qualquer coisa que eu não quero catalogar ou que me expliquem o que é? Perdemos a forma de saber cair de cu no chão com o passar dos anos e não sei se isso tem a ver com a procura da felicidade ou do graal que nos tentam impingir ou se é algo evolutivo como a mudança dos dentes ou os cabelos começarem a ficar brancos. A mim nunca me nasceram os dentes do siso, acho piada gabar-me disso, podes dizer que andas com uma gaja muita boa e que tens um carro com mais cavalos que os índios e um barco que já só te cabe dentro de água, mas a mim nunca me nasceram os dentes do siso e diz-me lá se não tenho razão em ser mais feliz que tu?

Aqui há dias estava à janela do escritório e houve um senhor de branco que passou e me acenou, parece que distribuía felicidade a quem a procurava e eu que de repente estava só à janela a ver os carros passarem, fiquei sem saber o que fazer, como naquelas situações em que se vai na rua e se acha algo de valioso e ficamos com os dois bichinhos o do halo e o dos corninhos um de cada lado do ombro a soprar conselhos. Eu não procurei aquela felicidade e não queria enganar o senhor de branco que faz tanto para parecer e ser boa pessoa e não sabia mesmo se devia tentar arranjar uma forma prática de a devolver ou se a devia guardar e assumi-la como um capricho da sorte ou um sinal da trindade que eu era abençoado, talvez por não me terem nascido os dentes do siso ou compensação por já não conseguir cair de cu, quem poderá saber os desígnios do senhor de branco ou de outros transitários de felicidade.

O encontro  

Posted by Mag in

Olhas-me.
Lês-me o desejo no corpo nervoso, a saudade no olhar que simula ausência.
Ensaias palavras breves, perguntas certeiras, para te acalmar o pulso que corre.
Mentiste-me, pensei, quiseste convencer-te que já não me amavas e agora que a presença te cobra a mentira não sabes como me fugir, como te iludir.
Mas conheço-te, e sei que basta tocar-te a pele para sentir a queimadura aguilhoada da fome de mim camuflada à superfície, louca para soltar os beijos com que me queres sorver.
Por isso encosto o corpo à chapa quente do carro, languidamente, e envio-te sinais imperceptíveis de desejo, daqueles que só nós dois conhecemos.

E por isso perdes a tua pose desprendida e os teus braços puxam os meus para trás, e a tua língua brinca já no meu pescoço, e todo tu és meu de novo, como tem de ser.

Experimental.  

Posted by Jane Doe in

A

não amar. demasiado óbvio. adeus. alegria. é banal. angústia. é por aqui, se faz favor. aconchegar. pela última vez. abraçar. sentir o cheiro. adormecer. para sonhar com o dia. acordar. para voltar a dormir. sono eterno.

B

que merda é esta?! baixar defesas. conhecer o canto. beber. tenho sede de não estar aqui. barulho. demais. calem-se por favor. aBatimento. eu não consigo mais.

A

outra vez. não ser amado. dolorosamente banal. chorAr. baixinho .alterar. rotina. acordar. não querer. adormecer. sono eterno. again.

N

nada. vazio. lembrança. nenhuma. eco.

D

o pior. dor. todos os dias. dor de ausência. dor de saudades. dor dos gritos alheios. sofrimento. dor. dor como agulhas na carne.

O

oportunidade. escapar. aventura. medo. odores. meus. alheios. iguais.

N

o mesmo. igual. nada. nada. nada. nada. vazio. eco. não gravidade no ser. eco. vazio. nada. nada. nada.

A

amor. não acredito. amor. não sinto. anestesia. morrer. por dentro. finalmente. abandono.

R

recuar. não nascer. não sentir. não sofrer.

[desculpa...]

Prelúdio  

Posted by mf in

Geme o raio de sol
que invade pelas frestas nuas
meu corpo ausente de mim.

Geme o silêncio
entrecortado por chilreios
que me debicam a alvorada.

Geme o ninho
sedoso no restolhar macio
tranquilo da minha pele.

Geme tua mão
pela suavidade sinuosa
das minhas colinas.

Geme teu olhar
enquanto me desvenda
faminto sedento de mim.

Geme teu respirar
aragem fresca da manhã
no meu ventre quente.

Geme tua boca
que me aguarda o acordar
para o início do fim.

Ao longe no mar  

Posted by Bruno Fehr in


De pés na areia observo o mar. Uma visão da qual abdiquei por tudo o que vivi e por nada do queria viver. Voltei para o ver, para o sentir e para nele me fundir, pois por mais que me afaste ele está sempre em mim. Nele nasci, com ele cresci e era ele que lavava as minhas lágrimas, era ele que abraçava a minha alegria e não só nele surfava mas nele vivia.


Pego na prancha e entro, remo para além da rebentação para aquele local único de calma que me invade e me preenche, que sempre me fez sentir livre e me ajudou a descobrir quem sou. O local onde nada se ouve a não ser o seu rugir, as pessoas ao longe, pequeninas, não me podem atingir. 
Foi aqui, neste mundo à parte que decidi quem sou e o caminho para aqui chegar. Voltei pela mesma razão, para descobrir um pouco mais de mim e decidir o caminho a seguir nesta nova encruzilhada, não sinalizada e tão confusa.

Espero a onda certa, aquela que parece ter o meu nome e todas as respostas que procuro, e remo, remo com todas as minhas forças como se a minha vida dependesse disso. Ao apanhar a onda coloco-me de pé e por um segundo sou dono do mundo. Mas um pé desastrado, esquecido de tudo o que aprendeu, atraiçoa-me. Caio desamparado, volto à superfície para ser novamente submergido por onda após onda que se quebram violentamente sobre o local onde estou.

Luto por ar e recebo água em troca, e foi aqui que te vi bem à minha frente vestida de negro e sorrindo para mim. Sorri de volta, estico o braço para que a minha mão tocasse a tua e por ti esqueço tudo e sinto que consigo aqui ficar a olhar-te para sempre... Mas tudo acabou nada vejo nesta escuridão, nada sinto a não ser o meu corpo a ondular ao sabor da corrente e deixo que me leve.

Acordo na praia. O sol está escondido por um intenso nevoeiro. A minha prancha descansa a meu lado. O mar está parado. Nem uma onda. Sonhei? Julgo que sim pois estou completamente seco.
Pego na prancha e parto, voltando-me para um último olhar, e ao longe sobre as águas vejo-te, agora de branco, a sorrir dizendo-me Adeus.

Viajante clandestina  

Posted by Mag in

Sou estrangeira neste mundo, clandestina neste corpo.

Vento de pó de estrelas, soprado em noite de tempestade, que não se acomoda em lugar algum.

Vivo numa concha de areia e guardo o coração dentro da alma, para que não corra o risco de mo roubarem num qualquer passo de mágica. Entrego-o, na palma da mão, a quem mo merece, quando a paixão me consome a pele cansada da estrada do destino e suspira por beijos molhados e quentes.

Tenho pés de cigana e unhas de cores garridas, tenho o samba no corpo e a pele de África mesclada, dourado escuro, dourado quente. Sou do Mundo, sou do nada, sou do sal do Mar que me mora no olhar e sou da terra que se enterra nos meus dedos e onde me entrego a quem eu quero.

Sou estrangeira neste mundo, caminhante do pôr-do-Sol nos beirais dos telhados. Um pé atrás do outro, delicados no mover, numa dança improvisada no cair dos dias que em vermelho nos dizem adeus, até amanhã.

No peito ressoam-me perdidos os tambores dos amores que espalho no orvalho do dia que nasce, amor que não lhe conheço o fim nem saboreei o início, e que de pertencer a todos não é de pertença de ninguém. É o amor pelo Outro, tenha ele que vestes tiver. A dádiva altruísta, a luz do amor universal, a candeia dos meus olhos.

Sou clandestina neste corpo que me está alugado neste renascer em flor de lótus, sou o arfar do teu peito quanto te consomes de amor, sou os dedos que apagam rasto da lágrima que desce impune pelo rosto moído de dor, sou o abraço apertado que te afaga o soluço do corpo.

Sou tudo e não sou nada, Universo e grão de areia. Viajante dos mundos perdidos, sussurro perdido no grito surdo.

Orvalho  

Posted by LBJ in


Deixo que a mão escove suavemente a face de uma folha verde e húmida. Percorro descalço estes bosques há mais luas cheias do que me consigo lembrar. Envelheço como as árvores em crescendo na direcção do Sol e permito que os meus cabelos se entrelacem como troncos finos que se afastam do meu corpo ao sabor do vento que me visita como um amigo de todos os tempos, os bons e os maus e aqueles que passaram sem voltar.

Nunca olho para trás no sentido contrário ao que sei ser o caminho. Não sei se as marcas que abandono no chão são visíveis para quem me possa um dia seguir nem quero que me sigam na ideia que possa saber para onde vou ou que os possa conduzir a outro lado que seja melhor ou pior. Não quero ser pastor nem parte do rebanho. Sou aquele por que se espera e pelo qual se desespera, a ínfima parte do infinito na ignorância de algo saber e nada significar.

Rastejo enquanto corro e nado sem asas por isso não me posso afogar no mel ou no fel que se destila de uma gota do meu orvalho, aquele que me escorre do vitral dos olhos. Lamento o destino dos que não vão lá chegar e o destino daqueles que já chegaram no fim do caminho sem ter sentido a suavidade da erva ou a agrura da pedra. Pior do que não ter esperança é esperançar o que não se pode nem faz sentido ter.

Romanceio a minha forma de ver a vida numa comédia trágica de enganos e trocadilhos. Falta-me ainda despir o preconceito da escolha para poder abraçar a doutrina do arbítrio. Saberás tu que me olhas sem perceber quem sou que sou apenas o que vês sem mais nem porém e que o fascínio da minha causalidade não te deve ser causa nem devoção? Saberás tu que o que me ainda me sobra não te deve ser a ambição do que te resta?

Gosto desta noite que me orvalha…

 

Posted by Jane Doe

"Não queiras estragar o que temos de bonito. É uma pena, por favor, eu sei que fui uma burra, perdoa-me, por favor não vás."

Acabei de acordar. Ligo o pc, aquele hábito matinal de quem tem algum vício, que não consegue deixar e enquanto inicia, fumo um cigarro à janela. Dois vícios juntos logo de manhã, penso, mas não estou nem aí. Hoje é sábado, consegui dormir mais que nos outros dias mas acordei mais cedo do que queria. Não sei bem o que vou fazer. Sei que há jogo, sei que o pessoal se vai reunir todo no sítio habitual, mas não sei realmente se me apetece ir. Apetece-me ficar em casa, a beber cerveja, comer amendoins, tipo macaco. Não sei.

O cigarro acaba, o pc já está mais que pronto a me receber, e eu vou, e sento-me e abro as páginas do costume. O mail, o blog, o website do trabalho. O mail tem muitas mensagens, recebo mails de todo o mundo, a minha profissão obriga-me a tal, mas no meio, na mistura, está um mail dela. Distingo-o no meio de tantos porque nunca tem título. Eu não gosto de mails sem títulos, é como caixas surpresa, e os do trabalho, e amigos também costuma vir devidamente sinalizados. Ela diz que dá trabalho a colocar títulos a mails, que não entende esta minha coisa com os mails entitulados.

Ela. Ninguém em especial, com quem partilhei duas vezes a cama, algumas vezes noites de conversa mas nada de mais. Tudo parecia correr bem, ao princípio, eu sempre deixei claro que só queria sexo, ela disse que tudo bem, que também queria o mesmo. Gostei da clareza dela. Mimei-a, porque eu mimo as mulheres com quem me deito, porque faz parte, porque também gosto que elas gostem. E apesar de muitas vezes ser one night stand, desta vez foram duas, e algumas noites de conversa. Soube bem, talvez melhor do que acreditei ao princípio, mas depois acabou. Sempre deixei claro que eu não me apaixono, nunca me apaixonei, talvez fruto de alguma estranha evolução no codigo genético. Tudo acabou, pois para completar o pacote, eu farto-me depressa, e ela, apesar das conversas interessantes, não foi excepção.

Cada vez menos entendo a cabeça das mulheres. Eu sou claro, deixo tudo esclarecido, elas dizem que sim, que conseguem lidar com isso, mas muitas das vezes a verdade é que estão na esperança de me mudar, ou de ser a the one. Não são. Dure uma noite, dure 3 ou dure 5, o meu record, elas nunca me ficam na cabeça. Nunca me fica o cheiro dos corpos, ou a vontade de continuar. Não fica saudade da voz, não fica o anseio de um telefonema ou uma sms, em suma fica nada.

Ela é igual. Talvez tenha pensado que me conquistaria pelo poder da conversa, de uma conversa inteligente, que lhe reconheço, mas eu já tive de tudo na cama. Fora dela não tenho espaço para ninguém.

Abro o mail. Sei que ontem tentou ir ter comigo ao trabalho. Ficou triste, muito, porque depois da última noite lhe disse que não queria estar mais com ela. E eu sou assim. Ela soube-o do princípio, que eu não fico por ninguém.

"Não queiras estragar o que temos de bonito. É uma pena, por favor, eu sei que fui uma burra, perdoa-me, por favor não vás."

Não sei sequer que responder. O rato ronda o botão do delete, num passo de indecisão. Não sei o que possa ser bonito no que tivemos. Umas noites de foda, outras de conversa, e nada mais. Também não sei onde se culpa ela, em quê, eu culpa-la-ia no facto de ela acreditar que com ela poderia ser diferente, que me poderia apaixonar.

"Não existe nada de mais numas noites de foda. Eu sempre te disse que eu não me apaixono, e sempre aceitaste isso. Sempre te disse que seria uma duas ou três noites e que eu iria embora. E tu disseste, sem problema. Pensei que terias entendido. Se dizes que tudo bem por ti eu posso partir do principio que entendes, e aceitas, ou não? E porque me pedes perdão? Até agora não fizeste nada de errado, a menos que me peças perdão por teres pensado que contigo seria diferente. Não tenho nada que perdoar, tu tens de te perdoar a ti mesma pela ilusão que criaste. Por mim, não tenho nada que perdoar. Nem nada a dever-te. Apenas peço que cumpras com a tua palavra de entendimento, e não me chateies mais."

Não gosto de ser rude, não gosto de dizer não me chateies, larga-me a braguilha, etc. Mas há alturas em que tenho de ser duro, um pouco mais do que sou, porque elas precisam cair na real. De que a única coisa que me interessa é o sexo. Apenas isso, nada mais.

O mail é enviado, eu marco todos os outros como lidos, leio depois, e fecho a caixa de correio. Vagueio pelos blog´s costumeiros, há sempre novas coisas para ler, e muito esta gente escreve sobre o amor, credo! Leituras rápidas, atravessadas, um comentário aqui, outro ali, o site do trabalho continua igual.
A fome começa a fazer-se sentir, quase uma hora depois de ter acordado, é sempre assim. Volto a desligar o pc.

Hoje é sábado, são 11.30 da manhã. Podia ir ao ginásio, e ir almoçar com os amigos alongando-me para o jogo de futebol. Está a chover. Alongo-me no sofá, já de pequeno almoço tomado, e deixo um cigarro a queimar entre os dedos, enquanto corro a zapping todos os canais.

Entrega  

Posted by mf in

Abraça-me
Atrai-me
À côncava suavidade
Do teu peito
Em ti descanso
Da fadiga da vida
Corpo de abrigo
Corpo mar
Que me acompanha as marés

Abraça-me
Acolhe-me
Deixa-me hoje navegar
Em ti
Ao sabor da brisa
Que és
Longe do canto
De sereia
Hino teia que seduz e mata

Abraça-me
Abriga-me
Deixa-me mergulhar
Nas profundezas
Do silêncio
Escorada
Em mar chão
Onde descanso
Protegida de ventos infernais

Abraça-me
Envolve-me
Recolhe-me as asas
Cansadas
Degreda-me
As quimeras
Embala-me
O sossego
E leva-me a casa.

A Gazela  

Posted by I.D.Pena in

Ele transfigura-a com o olhar e ela não se apercebe porque deixa cair o cachecol, mas ele está ali à espreita, só à espera que o seu olhar um dia seja correspondido.

Mas esse dia nunca mais chegou porque ele de paciente não tinha nada.

E num dia mais escuro e silencioso resolveu segui-la,  perdendo a coragem cada vez que alguém reparava nele.
 
Insistindo e quase como seguindo um cheiro, sentiu a antecipação de poder tê-la e possui-la intimamente.

Não havia um unico centimetro naquela pele nem muito alva nem completamente morena que ele não quisesse beijar... Lamber e depois morder, por essa ordem.

Encurralou-a, e pela primeira vez reparou nos seus olhos. 

A profundeza daquele olhar e o facto de todo esse acontecimento ter existido sem que um som se tenha ouvido fez com que ele paralisasse em contemplação.
 
Os corpos chocaram e só se ouvia a respiração de um e outro, alternadamente, por segundos  paralisados sem que tenha ocorrido o pior...

A respiração daquele lobo tranloucado em forma de homem  recuperou o ritmo de um animal selvagem, levantou-se esfregou as mãos na sua própria cara arranhando-se e ferindo-se a si próprio até sair sangue.

E eu pergunto:

Será crime ser uma mulher bela e bem sucedida hoje em dia ?


Estreia  

Posted by Mag in


Estreias a minha pele na tua, com avidez.

Estreias-me no mover das ancas, no par e passo sem trajecto, sem partitura que nos recorde de onde estamos, para onde vamos.

Estreio-te no coração, às colheradas, o sabor a mel com a pitada picante do medo, fogo-fátuo que me borda a alma da tua luz. Assim, encadeada, abraçando-te. Como se temesse que fosses feito de espuma e, num abrir das portadas da janela, saísses de encontro às nuvens...

Estreias-me nos teus sonhos, devagarinho, sem dares conta, sou como o aroma da tua pele que já se não desprende de ti.

Estreias a tua voz no meu pescoço e os teus dedos no meu cabelo. Queimas-me até às entranhas, sem dares conta.

Estreias-me nesse teu mundo de corações e letras desenhadas no tejadilho, cantas-me e encantas-me, de mansinho. E dizes-me impunemente que me queres, com a boca cheia de "amo-te" vorazes que me formigam nas pernas que não me obedecem.

Estreias-te nos meus sentidos despertos, invades-me os espaços vazios, preenches-me o corpo com o teu calor e a tua boca vermelha e doce.

E eu estreio-me nessa tua casa desarrumada, nesse teu coração imenso, aninho-me no canto do quarto e deixo-me embalar nessa tua dança leve, vens-me buscar pela mão e sussurras-me os passos correctos, ensinas-me a bailar-te e eu ensino-te a amar-te e seguimos assim, seguros um no outro, esvoaçando...

Sagrado e Profano  

Posted by Bruno Fehr in

A escuridão seduz-me e por vezes dou por mim a esticar a mão para a tocar só para imediatamente recuar. É nestas alturas, quando estou só que tenho medo, sei que preciso de pouco para me perder nela eternamente, para perder o pouco de humano que ainda tenho e que é a minha única razão para viver. Medo de me deixar dominar pelo lado negro da pessoa que sou, da pessoa em que me tornaram.
Pouco ou nada durmo e sempre que adormeço entro numa queda sem fim, num buraco negro. Sinto toda a adrenalina a percorrer o meu corpo, todos os meus músculos contraídos, expectante, desejando e temendo o fim do precipício. 

Como sempre e involuntariamente agarro-me aos lençóis e acordo coberto de suor e sempre, sempre ao acordar vejo-a perante mim, graciosa como me lembro mas séria com nunca a vi. Questiono-me sobre o que ela sente enquanto a observo: Alegria? Medo? Pois sei que não sou o homem que ela conheceu e que sou um monstro perigoso para estar a seu lado. Amo-a e quero protege-la. Sei que tenho o poder de a proteger de todos os males, excepto de mim. Não sei se resistiria ao frenezim criado pelo sei cheiro. Questiono-me se fiz bem ou mal em ter partido. Mas como poderia ficar quando eu tão facilmente mato uma mosca como mato um homem? Pois no mundo em que vivemos as ferramentas do mal facilmente anulam as do bem.

Todos nós passamos uma vida em busca do verdadeiro amor e no entanto quando o encontramos viramos-lhes costas como se a vida fosse unicamente uma busca. Dividimos um átomo em busca Deus com a mesma facilidade que o fazemos para destruir um país.
O meu pai sempre me disse que a vida é um caminho estreito e que qualquer desvio poderá ser a perdição. Eu vejo esse caminho como o topo de um muro, de um lado a terra da felicidade do outro um precipício sem piedade, mas na escuridão completa em que vivo, qual é qual? Sinto-me sozinho no escuro, perdido num labirinto sem sentido, sem um ombro amigo. É certo que tenho o Santiago que me encontrou algures entre a vida e a morte e se tornou meu mestre, meu pai, meu irmão, mas será que quer o meu bem? A única coisa que me ensinou foi a matar para sobreviver, diz ele. Mas até que ponto é que posso chamar de sobrevivência ser voluntariamente fechado numa jaula e combater até à morte com outra pessoa perante uma multidão ecléctica de pessoas sedentas de sangue? Eu não quero matar e por vezes desejo a morte sem querer morrer, pois tenho a esperança de voltar a ser quem fui, voltar a ser o homem que achava fraco e que lutava para mudar quando no fundo é esse homem que eu deveria sempre ter sido, e quem eu sempre quis ser.

Santiago entra no meu quarto e diz:

Está na hora!

Partimos para mais um local remoto onde nos espera uma multidão, alguns querendo ver-me matar, outros querendo ver-me morrer. Durante todo o caminho observo a lua tentando lembrar-me da última vez que vi o sol. 
Ao chegar sou encaminhado a uma sala húmida e escura onde Santiago me diz para começar a aquecer. 30 minutos depois ele volta e enquanto me massaja os ombros diz-me quem vou enfrentar. O meu adversário é Aristos, um mito entre os imortais e o mais antigo que já enfrentei. Será Aristos o meu carrasco?

Um homem com os seus 45 anos entra de romapante na sala onde estou dizendo em voz alta:

Atenção...

Ele não termina a frase pois os olhos dele encontram os meus e o seu tom muda dizendo com uma voz consumida pelo medo:

O combate começa dentro de 5 minutos.

Digo a Santiago para me largar e olho-o nos olhos nada vendo. Este homem que se diz ser meu pai, meu irmão e meu amigo parece nada sentir, parece não estar nada importado com o facto de eu poder morrer em combate, começo a sentir que para ele eu sou unicamente um troféu, o seu campeão de morte. No entanto sempre que venço um combate, quebrado, magoado e coberto de sangue sinto aquela faísca, que é o que mais se parece com o há muito ausente sentimento de felicidade, sempre que ele me abraça e me diz:

Vencemos, bom trabalho.


(Excerto de Basiliüs - Sagrado e Profano)

S.  

Posted by LBJ in



Julgaste-me sem saberes o que me faz rir. Condenaste-me sem saberes o que me seca a garganta e o que me turva os olhos. Concedeste a ti mesma o direito de me julgares e condenares e fazes-me caminhar por um caminho de pó solto com uma mão dependurada, sinto o vazio da tua palma contra a minha, os dedos finos que não se enroscam nos meus, sem anéis ainda com a inocência de criança sem mácula nem compromisso. Vejo o teu cabelo solto escorrido a brilhar sob o Sol e peço-te um sorriso e que seja simples, sincero, espontâneo, quero um sorriso teu que possa cruzar com um sorriso meu. Vejo os teus olhos doces e perdidos e peço-te uma lágrima, quero misturar as nossas lágrimas e sentir os teus olhos molharem-me a cara. Um Sorriso e uma lágrima e algumas palavras, eu sei que te faltei e que por isso agora me queres faltar, matas o nosso futuro porque não tivemos passado. Já não poderei ver o corpo que descerás à terra, nem tu o passado que não conseguirás enterrar com ele e sinto agora a dor que sentirás depois quando já nos for tarde de mais. Vejo o teu cabelo solto e vejo os teus olhos doces e olho-te como se olhasse um espelho que me reflecte um lamento pela semelhança com que me vejo quando te olho.

Nota de Suicídio  

Posted by Jane Doe in

- Olha, encontrei isto. Estava na secretária dela, do quarto que ela alugou antes de.
- Podes-me ler? Por favor?
- Claro.

"É como ter uma corda a sufocar-me o pescoço. E não poder respirar. Simplesmente isto.

E é o irritar-me com o estado das coisas, e não poder fazer nada. No sentido de que todo o ser humano tem direito a uma vida digna, e para a termos temos de ser escravos. A supra ironia, pois isso de vida digna não tem nada.

Se diz na declaração universal dos direitos humanos que todos temos direito a uma casa e condições para uma vida digna, porque é que temos de nos esfarrapar para que isso aconteça? Afinal essa declaração serve para quê? Manifestações de activistas?

O mundo tornou-se, mas desde há séculos num sitio insuportável de viver, ainda que paradoxalmente fascinante.

Ninguém pensa em mudar as coisas. E mea culpa nisto, pois precisei de ficar sem dinheiro, e passar fome para olhar por fora. Antes olhava mas pensava um pouco menos. Pois sabia que não podia fazer muito e a melhor forma era tentar fazer alguma coisa a partir de dentro. Fiz muita merda pelo caminho. Porque muita gente se dedica a foder a vida de outros. E dedicaram-se a destruir a minha. Simples. Criaram-me medos, destruiram-me a vida deixando-me pesadelos eternos, e desconfianças infinitas que transformaram a minha vida numa eterna fuga. Dentro disto tudo sempre tentei fazer o melhor com os outros. E sei, que mudei a vida a algumas pessoas. Que as fiz mais felizes. Que ao ter gestos pequenos fui mudando ainda que por instantes a vida dessas pessoas. Mas ainda assim não resultou. O mundo não se tornou num lugar melhor, bastante pelo contrário. Cada vez mais megalónamos nos tentam - e conseguem - controlar. Cada vez mais as pessoas vão de encontro ao desespero enquanto um punhado de animais decide o seu (meu) destino. Que eu escrevi dentro de mim. Que teria um caminho e uma direcção mas que estes animais decidiram - talvez muito antes de eu nascer - que iria ter a direcção contrária. E por isso o meu caminho está no limiar da minha humanidade. Ou da minha animalidade. Pois tanto uma como outra ficam comprometidas quando a questão é de viver ou morrer. É um ciclo gigante que estes animais controlam. E algo tem de parar o fluxo deste controlo. Acordar as mentes.

É por isso que eu renuncio à minha vida. Porque renuncio a uma vida imposta por outrem, privada de dignidade, e condições básicas enquanto um Vaticano tem torneiras de ouro na casa de banho.

E espero que esta nota final faça parar o fluxo. Nem precisa ser em todo o mundo, mas na cidade onde decido fazer a minha escolha final. Espero que esta escolha contribua para que as pessoas possam fazer as suas escolhas vivendo. Lutando por aquilo que é seu por direito.

E devolvendo ao pó aqueles que pensam ser deuses. "

1, 2, 3, 4, 1, 2, 3, 4, 1, 2, 3, 4, 1, 2, 3, 4, 1, 2, 3, 4, 1, 2, 3, 4, 1, 2, 3, 4, 1, 2, 3, 4, 1, 2, 3, 4, 1, 2, 3, 4
Something's got to stop the flow.

Súplica  

Posted by mf in

Avança tuas mãos
incandescentes
por sobre todos
os interstícios
do meu corpo.

Deixa rasto de fogo
dilacerante
à tua passagem
fazendo-me
pasto de chamas.

Faz-me rugir
sedento
cada poro calcinado
nesta dança
em labareda.

Suga sem tréguas
inclemente
todo o ar
deste incêndio
em fúria.

Extingue o vulcão
luminescente
em vapor de suor
que fervilha
em mim.

Arrasa impiedoso
arrogante
todos os sentidos
até à ruína
da devastação.

E faz de mim
terra queimada
em flor.

Mercador de almas  

Posted by LBJ in


“I sold my soul to the devil”. As palavras ecoam-me na cabeça até saírem pela boca, como um verso repetido de uma canção de que só me lembrava esta linha. “I sold my soul to the devil”. Se não se pode iludir a morte, poderia eu tentar iludir o diabo? Esconder a minha alma para que não a pudesse cobrar, simular aos olhos do demo a minha continuidade em vida mesmo depois de morto.

Troquei a alma por um punhado de sucesso, nem sequer estava desesperado faminto ou sedento nem desalentado somente quis atalhar caminho e não perder mais tempo. Não fiquei imensamente rico nem dormi com quem quis dormir, foi apenas um punhado de sucesso e agora não queria pagar o preço. Clamei por deus que me acudisse.

Imaginei que o melhor meio de falar com deus era de joelhos com os dedos das mãos entrelaçados e num tom de súplica. Queria propor a deus que roubasse uma alma ao diabo e que me deixasse continuar vivo mesmo depois de morto. Sabia da disputa de deus e do diabo na contabilidade das almas dos homens e por isso parecia-me um acordo justo, vendi a alma ao diabo mas só a poderia cobrar depois de morrer, assim pedi a deus que aceitasse agora uma hipoteca pela minha alma na troca da ilusão da vida e que juntos ludibriássemos o diabo. Tinha a certeza que deus teria sentido de humor e que tiraria algum prazer em enganar o rival. Estive de joelhos em súplica mas deus não me ouviu.

Falhado o contrato com deus, restava-me a possibilidade de tentar esconder a minha alma longe dos olhos do diabo. Alguém me disse que o mundo dos sonhos é feito de almas perdidas e tentei deixá-la por lá num sonho esquecido. Andei assim neste mundo meses vagueando sem alma mas os sons não me soavam, nem os cheiros me cheiravam, nem os sabores me sabiam, nem as imagens me imaginavam, nem os toques me sentiam e de repente o punhado de sucesso se pouco sentido fazia, passou a fazer nenhum e voltei a mergulhar nas águas dos sonhos e procurei pela minha alma dias a fio até a encontrar quase tão murcha como a sombra de algo que já morreu. Trouxe-a de volta.

Quis devolver ao diabo o punhado de sucesso mas o diabo não aceita reembolsos. Quis fazer ver ao diabo que a minha alma era coisa de pouca valia mas o diabo riu-se e disse-me que pouco era mais que nada. Quis implorar ao diabo mas o diabo não é piedoso mas somente um fornecedor de penitências. Por fim olhou para mim e perguntou-me se queria renegociar a minha alma e eu disse que sim e tornei-me a seu serviço um angariador de almas, troquei a minha por outras, estranhamente não deixei de ter medo da morte.