O encontro  

Posted by Mag in

Olhas-me.
Lês-me o desejo no corpo nervoso, a saudade no olhar que simula ausência.
Ensaias palavras breves, perguntas certeiras, para te acalmar o pulso que corre.
Mentiste-me, pensei, quiseste convencer-te que já não me amavas e agora que a presença te cobra a mentira não sabes como me fugir, como te iludir.
Mas conheço-te, e sei que basta tocar-te a pele para sentir a queimadura aguilhoada da fome de mim camuflada à superfície, louca para soltar os beijos com que me queres sorver.
Por isso encosto o corpo à chapa quente do carro, languidamente, e envio-te sinais imperceptíveis de desejo, daqueles que só nós dois conhecemos.

E por isso perdes a tua pose desprendida e os teus braços puxam os meus para trás, e a tua língua brinca já no meu pescoço, e todo tu és meu de novo, como tem de ser.

Experimental.  

Posted by Jane Doe in

A

não amar. demasiado óbvio. adeus. alegria. é banal. angústia. é por aqui, se faz favor. aconchegar. pela última vez. abraçar. sentir o cheiro. adormecer. para sonhar com o dia. acordar. para voltar a dormir. sono eterno.

B

que merda é esta?! baixar defesas. conhecer o canto. beber. tenho sede de não estar aqui. barulho. demais. calem-se por favor. aBatimento. eu não consigo mais.

A

outra vez. não ser amado. dolorosamente banal. chorAr. baixinho .alterar. rotina. acordar. não querer. adormecer. sono eterno. again.

N

nada. vazio. lembrança. nenhuma. eco.

D

o pior. dor. todos os dias. dor de ausência. dor de saudades. dor dos gritos alheios. sofrimento. dor. dor como agulhas na carne.

O

oportunidade. escapar. aventura. medo. odores. meus. alheios. iguais.

N

o mesmo. igual. nada. nada. nada. nada. vazio. eco. não gravidade no ser. eco. vazio. nada. nada. nada.

A

amor. não acredito. amor. não sinto. anestesia. morrer. por dentro. finalmente. abandono.

R

recuar. não nascer. não sentir. não sofrer.

[desculpa...]

Prelúdio  

Posted by mf in

Geme o raio de sol
que invade pelas frestas nuas
meu corpo ausente de mim.

Geme o silêncio
entrecortado por chilreios
que me debicam a alvorada.

Geme o ninho
sedoso no restolhar macio
tranquilo da minha pele.

Geme tua mão
pela suavidade sinuosa
das minhas colinas.

Geme teu olhar
enquanto me desvenda
faminto sedento de mim.

Geme teu respirar
aragem fresca da manhã
no meu ventre quente.

Geme tua boca
que me aguarda o acordar
para o início do fim.

Ao longe no mar  

Posted by Bruno Fehr in


De pés na areia observo o mar. Uma visão da qual abdiquei por tudo o que vivi e por nada do queria viver. Voltei para o ver, para o sentir e para nele me fundir, pois por mais que me afaste ele está sempre em mim. Nele nasci, com ele cresci e era ele que lavava as minhas lágrimas, era ele que abraçava a minha alegria e não só nele surfava mas nele vivia.


Pego na prancha e entro, remo para além da rebentação para aquele local único de calma que me invade e me preenche, que sempre me fez sentir livre e me ajudou a descobrir quem sou. O local onde nada se ouve a não ser o seu rugir, as pessoas ao longe, pequeninas, não me podem atingir. 
Foi aqui, neste mundo à parte que decidi quem sou e o caminho para aqui chegar. Voltei pela mesma razão, para descobrir um pouco mais de mim e decidir o caminho a seguir nesta nova encruzilhada, não sinalizada e tão confusa.

Espero a onda certa, aquela que parece ter o meu nome e todas as respostas que procuro, e remo, remo com todas as minhas forças como se a minha vida dependesse disso. Ao apanhar a onda coloco-me de pé e por um segundo sou dono do mundo. Mas um pé desastrado, esquecido de tudo o que aprendeu, atraiçoa-me. Caio desamparado, volto à superfície para ser novamente submergido por onda após onda que se quebram violentamente sobre o local onde estou.

Luto por ar e recebo água em troca, e foi aqui que te vi bem à minha frente vestida de negro e sorrindo para mim. Sorri de volta, estico o braço para que a minha mão tocasse a tua e por ti esqueço tudo e sinto que consigo aqui ficar a olhar-te para sempre... Mas tudo acabou nada vejo nesta escuridão, nada sinto a não ser o meu corpo a ondular ao sabor da corrente e deixo que me leve.

Acordo na praia. O sol está escondido por um intenso nevoeiro. A minha prancha descansa a meu lado. O mar está parado. Nem uma onda. Sonhei? Julgo que sim pois estou completamente seco.
Pego na prancha e parto, voltando-me para um último olhar, e ao longe sobre as águas vejo-te, agora de branco, a sorrir dizendo-me Adeus.

Viajante clandestina  

Posted by Mag in

Sou estrangeira neste mundo, clandestina neste corpo.

Vento de pó de estrelas, soprado em noite de tempestade, que não se acomoda em lugar algum.

Vivo numa concha de areia e guardo o coração dentro da alma, para que não corra o risco de mo roubarem num qualquer passo de mágica. Entrego-o, na palma da mão, a quem mo merece, quando a paixão me consome a pele cansada da estrada do destino e suspira por beijos molhados e quentes.

Tenho pés de cigana e unhas de cores garridas, tenho o samba no corpo e a pele de África mesclada, dourado escuro, dourado quente. Sou do Mundo, sou do nada, sou do sal do Mar que me mora no olhar e sou da terra que se enterra nos meus dedos e onde me entrego a quem eu quero.

Sou estrangeira neste mundo, caminhante do pôr-do-Sol nos beirais dos telhados. Um pé atrás do outro, delicados no mover, numa dança improvisada no cair dos dias que em vermelho nos dizem adeus, até amanhã.

No peito ressoam-me perdidos os tambores dos amores que espalho no orvalho do dia que nasce, amor que não lhe conheço o fim nem saboreei o início, e que de pertencer a todos não é de pertença de ninguém. É o amor pelo Outro, tenha ele que vestes tiver. A dádiva altruísta, a luz do amor universal, a candeia dos meus olhos.

Sou clandestina neste corpo que me está alugado neste renascer em flor de lótus, sou o arfar do teu peito quanto te consomes de amor, sou os dedos que apagam rasto da lágrima que desce impune pelo rosto moído de dor, sou o abraço apertado que te afaga o soluço do corpo.

Sou tudo e não sou nada, Universo e grão de areia. Viajante dos mundos perdidos, sussurro perdido no grito surdo.

Orvalho  

Posted by LBJ in


Deixo que a mão escove suavemente a face de uma folha verde e húmida. Percorro descalço estes bosques há mais luas cheias do que me consigo lembrar. Envelheço como as árvores em crescendo na direcção do Sol e permito que os meus cabelos se entrelacem como troncos finos que se afastam do meu corpo ao sabor do vento que me visita como um amigo de todos os tempos, os bons e os maus e aqueles que passaram sem voltar.

Nunca olho para trás no sentido contrário ao que sei ser o caminho. Não sei se as marcas que abandono no chão são visíveis para quem me possa um dia seguir nem quero que me sigam na ideia que possa saber para onde vou ou que os possa conduzir a outro lado que seja melhor ou pior. Não quero ser pastor nem parte do rebanho. Sou aquele por que se espera e pelo qual se desespera, a ínfima parte do infinito na ignorância de algo saber e nada significar.

Rastejo enquanto corro e nado sem asas por isso não me posso afogar no mel ou no fel que se destila de uma gota do meu orvalho, aquele que me escorre do vitral dos olhos. Lamento o destino dos que não vão lá chegar e o destino daqueles que já chegaram no fim do caminho sem ter sentido a suavidade da erva ou a agrura da pedra. Pior do que não ter esperança é esperançar o que não se pode nem faz sentido ter.

Romanceio a minha forma de ver a vida numa comédia trágica de enganos e trocadilhos. Falta-me ainda despir o preconceito da escolha para poder abraçar a doutrina do arbítrio. Saberás tu que me olhas sem perceber quem sou que sou apenas o que vês sem mais nem porém e que o fascínio da minha causalidade não te deve ser causa nem devoção? Saberás tu que o que me ainda me sobra não te deve ser a ambição do que te resta?

Gosto desta noite que me orvalha…