Sagrado e Profano  

Posted by Bruno Fehr in

A escuridão seduz-me e por vezes dou por mim a esticar a mão para a tocar só para imediatamente recuar. É nestas alturas, quando estou só que tenho medo, sei que preciso de pouco para me perder nela eternamente, para perder o pouco de humano que ainda tenho e que é a minha única razão para viver. Medo de me deixar dominar pelo lado negro da pessoa que sou, da pessoa em que me tornaram.
Pouco ou nada durmo e sempre que adormeço entro numa queda sem fim, num buraco negro. Sinto toda a adrenalina a percorrer o meu corpo, todos os meus músculos contraídos, expectante, desejando e temendo o fim do precipício. 

Como sempre e involuntariamente agarro-me aos lençóis e acordo coberto de suor e sempre, sempre ao acordar vejo-a perante mim, graciosa como me lembro mas séria com nunca a vi. Questiono-me sobre o que ela sente enquanto a observo: Alegria? Medo? Pois sei que não sou o homem que ela conheceu e que sou um monstro perigoso para estar a seu lado. Amo-a e quero protege-la. Sei que tenho o poder de a proteger de todos os males, excepto de mim. Não sei se resistiria ao frenezim criado pelo sei cheiro. Questiono-me se fiz bem ou mal em ter partido. Mas como poderia ficar quando eu tão facilmente mato uma mosca como mato um homem? Pois no mundo em que vivemos as ferramentas do mal facilmente anulam as do bem.

Todos nós passamos uma vida em busca do verdadeiro amor e no entanto quando o encontramos viramos-lhes costas como se a vida fosse unicamente uma busca. Dividimos um átomo em busca Deus com a mesma facilidade que o fazemos para destruir um país.
O meu pai sempre me disse que a vida é um caminho estreito e que qualquer desvio poderá ser a perdição. Eu vejo esse caminho como o topo de um muro, de um lado a terra da felicidade do outro um precipício sem piedade, mas na escuridão completa em que vivo, qual é qual? Sinto-me sozinho no escuro, perdido num labirinto sem sentido, sem um ombro amigo. É certo que tenho o Santiago que me encontrou algures entre a vida e a morte e se tornou meu mestre, meu pai, meu irmão, mas será que quer o meu bem? A única coisa que me ensinou foi a matar para sobreviver, diz ele. Mas até que ponto é que posso chamar de sobrevivência ser voluntariamente fechado numa jaula e combater até à morte com outra pessoa perante uma multidão ecléctica de pessoas sedentas de sangue? Eu não quero matar e por vezes desejo a morte sem querer morrer, pois tenho a esperança de voltar a ser quem fui, voltar a ser o homem que achava fraco e que lutava para mudar quando no fundo é esse homem que eu deveria sempre ter sido, e quem eu sempre quis ser.

Santiago entra no meu quarto e diz:

Está na hora!

Partimos para mais um local remoto onde nos espera uma multidão, alguns querendo ver-me matar, outros querendo ver-me morrer. Durante todo o caminho observo a lua tentando lembrar-me da última vez que vi o sol. 
Ao chegar sou encaminhado a uma sala húmida e escura onde Santiago me diz para começar a aquecer. 30 minutos depois ele volta e enquanto me massaja os ombros diz-me quem vou enfrentar. O meu adversário é Aristos, um mito entre os imortais e o mais antigo que já enfrentei. Será Aristos o meu carrasco?

Um homem com os seus 45 anos entra de romapante na sala onde estou dizendo em voz alta:

Atenção...

Ele não termina a frase pois os olhos dele encontram os meus e o seu tom muda dizendo com uma voz consumida pelo medo:

O combate começa dentro de 5 minutos.

Digo a Santiago para me largar e olho-o nos olhos nada vendo. Este homem que se diz ser meu pai, meu irmão e meu amigo parece nada sentir, parece não estar nada importado com o facto de eu poder morrer em combate, começo a sentir que para ele eu sou unicamente um troféu, o seu campeão de morte. No entanto sempre que venço um combate, quebrado, magoado e coberto de sangue sinto aquela faísca, que é o que mais se parece com o há muito ausente sentimento de felicidade, sempre que ele me abraça e me diz:

Vencemos, bom trabalho.


(Excerto de Basiliüs - Sagrado e Profano)

S.  

Posted by LBJ in



Julgaste-me sem saberes o que me faz rir. Condenaste-me sem saberes o que me seca a garganta e o que me turva os olhos. Concedeste a ti mesma o direito de me julgares e condenares e fazes-me caminhar por um caminho de pó solto com uma mão dependurada, sinto o vazio da tua palma contra a minha, os dedos finos que não se enroscam nos meus, sem anéis ainda com a inocência de criança sem mácula nem compromisso. Vejo o teu cabelo solto escorrido a brilhar sob o Sol e peço-te um sorriso e que seja simples, sincero, espontâneo, quero um sorriso teu que possa cruzar com um sorriso meu. Vejo os teus olhos doces e perdidos e peço-te uma lágrima, quero misturar as nossas lágrimas e sentir os teus olhos molharem-me a cara. Um Sorriso e uma lágrima e algumas palavras, eu sei que te faltei e que por isso agora me queres faltar, matas o nosso futuro porque não tivemos passado. Já não poderei ver o corpo que descerás à terra, nem tu o passado que não conseguirás enterrar com ele e sinto agora a dor que sentirás depois quando já nos for tarde de mais. Vejo o teu cabelo solto e vejo os teus olhos doces e olho-te como se olhasse um espelho que me reflecte um lamento pela semelhança com que me vejo quando te olho.

Nota de Suicídio  

Posted by Jane Doe in

- Olha, encontrei isto. Estava na secretária dela, do quarto que ela alugou antes de.
- Podes-me ler? Por favor?
- Claro.

"É como ter uma corda a sufocar-me o pescoço. E não poder respirar. Simplesmente isto.

E é o irritar-me com o estado das coisas, e não poder fazer nada. No sentido de que todo o ser humano tem direito a uma vida digna, e para a termos temos de ser escravos. A supra ironia, pois isso de vida digna não tem nada.

Se diz na declaração universal dos direitos humanos que todos temos direito a uma casa e condições para uma vida digna, porque é que temos de nos esfarrapar para que isso aconteça? Afinal essa declaração serve para quê? Manifestações de activistas?

O mundo tornou-se, mas desde há séculos num sitio insuportável de viver, ainda que paradoxalmente fascinante.

Ninguém pensa em mudar as coisas. E mea culpa nisto, pois precisei de ficar sem dinheiro, e passar fome para olhar por fora. Antes olhava mas pensava um pouco menos. Pois sabia que não podia fazer muito e a melhor forma era tentar fazer alguma coisa a partir de dentro. Fiz muita merda pelo caminho. Porque muita gente se dedica a foder a vida de outros. E dedicaram-se a destruir a minha. Simples. Criaram-me medos, destruiram-me a vida deixando-me pesadelos eternos, e desconfianças infinitas que transformaram a minha vida numa eterna fuga. Dentro disto tudo sempre tentei fazer o melhor com os outros. E sei, que mudei a vida a algumas pessoas. Que as fiz mais felizes. Que ao ter gestos pequenos fui mudando ainda que por instantes a vida dessas pessoas. Mas ainda assim não resultou. O mundo não se tornou num lugar melhor, bastante pelo contrário. Cada vez mais megalónamos nos tentam - e conseguem - controlar. Cada vez mais as pessoas vão de encontro ao desespero enquanto um punhado de animais decide o seu (meu) destino. Que eu escrevi dentro de mim. Que teria um caminho e uma direcção mas que estes animais decidiram - talvez muito antes de eu nascer - que iria ter a direcção contrária. E por isso o meu caminho está no limiar da minha humanidade. Ou da minha animalidade. Pois tanto uma como outra ficam comprometidas quando a questão é de viver ou morrer. É um ciclo gigante que estes animais controlam. E algo tem de parar o fluxo deste controlo. Acordar as mentes.

É por isso que eu renuncio à minha vida. Porque renuncio a uma vida imposta por outrem, privada de dignidade, e condições básicas enquanto um Vaticano tem torneiras de ouro na casa de banho.

E espero que esta nota final faça parar o fluxo. Nem precisa ser em todo o mundo, mas na cidade onde decido fazer a minha escolha final. Espero que esta escolha contribua para que as pessoas possam fazer as suas escolhas vivendo. Lutando por aquilo que é seu por direito.

E devolvendo ao pó aqueles que pensam ser deuses. "

1, 2, 3, 4, 1, 2, 3, 4, 1, 2, 3, 4, 1, 2, 3, 4, 1, 2, 3, 4, 1, 2, 3, 4, 1, 2, 3, 4, 1, 2, 3, 4, 1, 2, 3, 4, 1, 2, 3, 4
Something's got to stop the flow.

Súplica  

Posted by mf in

Avança tuas mãos
incandescentes
por sobre todos
os interstícios
do meu corpo.

Deixa rasto de fogo
dilacerante
à tua passagem
fazendo-me
pasto de chamas.

Faz-me rugir
sedento
cada poro calcinado
nesta dança
em labareda.

Suga sem tréguas
inclemente
todo o ar
deste incêndio
em fúria.

Extingue o vulcão
luminescente
em vapor de suor
que fervilha
em mim.

Arrasa impiedoso
arrogante
todos os sentidos
até à ruína
da devastação.

E faz de mim
terra queimada
em flor.

Mercador de almas  

Posted by LBJ in


“I sold my soul to the devil”. As palavras ecoam-me na cabeça até saírem pela boca, como um verso repetido de uma canção de que só me lembrava esta linha. “I sold my soul to the devil”. Se não se pode iludir a morte, poderia eu tentar iludir o diabo? Esconder a minha alma para que não a pudesse cobrar, simular aos olhos do demo a minha continuidade em vida mesmo depois de morto.

Troquei a alma por um punhado de sucesso, nem sequer estava desesperado faminto ou sedento nem desalentado somente quis atalhar caminho e não perder mais tempo. Não fiquei imensamente rico nem dormi com quem quis dormir, foi apenas um punhado de sucesso e agora não queria pagar o preço. Clamei por deus que me acudisse.

Imaginei que o melhor meio de falar com deus era de joelhos com os dedos das mãos entrelaçados e num tom de súplica. Queria propor a deus que roubasse uma alma ao diabo e que me deixasse continuar vivo mesmo depois de morto. Sabia da disputa de deus e do diabo na contabilidade das almas dos homens e por isso parecia-me um acordo justo, vendi a alma ao diabo mas só a poderia cobrar depois de morrer, assim pedi a deus que aceitasse agora uma hipoteca pela minha alma na troca da ilusão da vida e que juntos ludibriássemos o diabo. Tinha a certeza que deus teria sentido de humor e que tiraria algum prazer em enganar o rival. Estive de joelhos em súplica mas deus não me ouviu.

Falhado o contrato com deus, restava-me a possibilidade de tentar esconder a minha alma longe dos olhos do diabo. Alguém me disse que o mundo dos sonhos é feito de almas perdidas e tentei deixá-la por lá num sonho esquecido. Andei assim neste mundo meses vagueando sem alma mas os sons não me soavam, nem os cheiros me cheiravam, nem os sabores me sabiam, nem as imagens me imaginavam, nem os toques me sentiam e de repente o punhado de sucesso se pouco sentido fazia, passou a fazer nenhum e voltei a mergulhar nas águas dos sonhos e procurei pela minha alma dias a fio até a encontrar quase tão murcha como a sombra de algo que já morreu. Trouxe-a de volta.

Quis devolver ao diabo o punhado de sucesso mas o diabo não aceita reembolsos. Quis fazer ver ao diabo que a minha alma era coisa de pouca valia mas o diabo riu-se e disse-me que pouco era mais que nada. Quis implorar ao diabo mas o diabo não é piedoso mas somente um fornecedor de penitências. Por fim olhou para mim e perguntou-me se queria renegociar a minha alma e eu disse que sim e tornei-me a seu serviço um angariador de almas, troquei a minha por outras, estranhamente não deixei de ter medo da morte.

Terra  

Posted by Bruno Fehr in

Perseguido por Kamaers, Tzallus e por todas as raças e impérios do universo conhecido, Azelmus Krest procura refugio em Taenaris, o sistema sagrado com um único planeta. Este planeta é um local de paz, um local seguro. É o único sistema que não tem guerra, não há armas e que toda a vida do universo se respeita como sagrada. Os seus habitantes Taenis, são eunucos de aparência feminina, capazes de com o seu toque aliviar qualquer dor, qualquer ferimento, curar qualquer doença física ou mental. Para viver em Taenaris as pessoas têm de prescindir de todas as suas posses, têm de prescindir do seu passado e aceitar a linha de pensamento Taenis, baseado no amor por todas as raças e renuncia à violência.

Mas nem em Taenaris, Azelmus obteve refugio, não por a cabeça de Azelmus estar a prémio, não por se recusar a prescindir do amor proibido por Gorty, mas sim por terem gerado um filho, meio Kamaer, meio Tzallu, um ser que nunca ninguém imaginou ser possível, um ser de um poder que nem os Taenis acreditavam poder controlar. Cameos Krest, uma criança de 3 meses, temida até por aqueles que eram vistos como Deuses.

“É um bebé, uma criança! Não percebem?”

Os Taenis não deram ouvidos e ordenaram que partisse.
Azelmus tinha ódio estampado na cara, expressão que fez com que todos os presentes, que habitam Taenaris virassem a cara, uma expressão de um sentimento que não existia naquele local.

Ao virar costas em direcção à sua gigantesca nave real, Azelmus é parado por Zorkan que lhe passou um pequeno transponder. Azelmus pega nele e segue o seu caminho.

Já na nave e ao sair da orbita de Taenaris, Azelmus liga o transponder e imediatamente vê-se na presença do sábio Zorkan, aquele que é o mais velho dos Taenis, aquele que dizem ter atingido o ponto máximo de iluminação, aquele que esteve certo dia às portas do penta-verso, o mítico local que poucos acreditam existir, onde quem entra atinge o conhecimento e poder totais para o bem ou para o mal, dependendo da sua essência. Mas isto por um preço, um preço que é desconhecido, pois ninguém que tentou entrar alguma vez saiu com vida. Zorkan esteve às portas do penta-verso e não entrou após ver todos os seus companheiros morrerem na tentativa de entrada. Zorkan sentiu-se iluminado só por ali estar, sentiu que aquele era o conhecimento máximo que o Penta-Verso lhe permitia e regressou.

Zorkan, deu a Azelmus as coordenadas de um campo de asteróides ainda dentro do sistema Taenaris, e por isso ninguém o poderia atacar lá, nem ninguém entraria lá com qualquer nave, mas a sua nave real Kamaer tinha a manobrabilidade necessária para atravessar esse campo de asteróides e a velocidade para evitar os danos da nuvem de gases nucleares que os acompanha. Zorkan garantiu que Azelmus encontraria lá a paz que procura.

Azelmus assim o fez. Com a destreza de um piloto Kamaer furou pelo campo de asteróides e chegou ao seu núcleo, a armadura da sua nave ficou intacta e lá, encontrou o paraíso. Aquilo que outrora foi um pequeno sistema solar, dominado por uma civilização que falhou, no seu centro um único sol com um único planeta de pequenas dimensões na sua orbita.

“Mas isto... isto...” gaguejava Azelmus ao aproximar-se do mais belo planeta que alguma vez tinha visto.

“Onde estamos?”, Perguntou Gorty fascinada, pela imensa quantidade de água e vegetação.

“Estamos no sistema solar humano... não percebo...”, dizia Anzelmus.

“Mas tudo isto não tinha sido destruído?"

“Sim, de acordo com os sábios, os humanos auto-destruíram-se numa guerra entre irmãos e uma tempestade nuclear destruiu todos os planetas do sistema, mas...”

“Mas está ainda aqui um”

“Sim a Terra, com a partida dos poucos humanos que sobreviveram à tempestade nuclear, o planeta recuperou”

“Como pode um planeta recuperar se são os habitantes que dão vida aos planetas?”

“Não aqui. Aqui o planeta é vida! Este planeta é uma forma de vida e não é comparável a nenhum dos milhões de planetas que conhecemos”

Gorty, tinha já ouvido falar do mítico planeta azul nas aulas de história galáctica e de como a raça humana destruiu tudo aquilo de que dependia. De como em lutas sem sentido entre vizinhos e irmãos por pedaços de terra que já eram seus, colocaram em causa a sua existência. Ela conhecia alguns humanos, que hoje vivem a centenas anos luz deste local, são os Wardacs. Uma raça guerreira mais fraca que os Kamaer e que os Tzallus, mas que usa da diplomacia como a sua mais forte arma, estratégias militares consideradas pouco honradas, abusando da noção de honra e do valor de palavra partilhado entre civilizações. Os Wardacs vivem hoje prisioneiros de si próprios, presos a equipamentos de suporte de vida, pois dependem de oxigénio, não tendo a capacidade de sobreviver sem ele.

A grande nave Kamaer atinge o solo. Fascinados com tudo o que os rodeia Azelmus e Gorty saem da nave, tocam a vegetação, assimilam o som de água a correr, sentem o vento na pele.

Um estrondo ecoa. Um som novo, que parecia a Azelmus ser uma pequena explosão de gás na sua nave. Gorty segundos depois, cai em seus braços. Azelmus pega nela chocado, ele não percebia o que se estava a passar, não percebia porque desfalecia Gorty. Nisto, vê seres bípedes cobertos por primitivas roupas com estranhos objectos metálicos na mão. Azelmus usa o seu desparticularizador, atingindo diversos desses seres, até que ele próprio cai. O motivo? Um projéctil de uma arma primitiva de fabrico humano, chamada de espingarda. Os seres bípedes eram humanos que de alguma forma ainda existiam neste planeta.

Azelmus e Gorty estavam mortos, Cameos Krest chorava dentro da nave e é encontrado pelos pequenos humanos que pareciam felizes pela chacina. A nave Kamaer não se auto-destruiu como seria de prever com a morte de Azelmus, a nave não estava ligada a ele, não era dele, a nave era sim de Cameos Krest.

Quando um dos humanos se preparava para matar Cameos, o pequeno bebé pára o seu choro e olha directamente para o humano que hesita. Essa hesitação foi o suficiente para que a sua mão criminosa fosse parada por um humano diferente, com menos pêlos, olhar mais doce, voz mais fina. Um elemento da outra espécie humana conhecida como mulher. Essa mulher pegou no pequeno Cameos e partiu com ele nos braços.

(excerto de Taenaris, por Bruno Fehr)