Advento  

Posted by mf in

Vem, meu Amor,
que a noite hoje
é de neve invernal
cristalina
gelada
mas por dentro há fogo
quente
crepitante.

Vem, meu Amor,
que a noite hoje
é de destino incerto
expectante
silencioso
mas por dentro há riso
festa
esperança.

Vem, meu Amor,
que a noite hoje
ainda é singular
solitária
desértica
mas por dentro há Nós
uno
eterno.

Vem, meu Amor, vem.
Repousemos descansados
no colo que é nosso
olhemos a estrela-guia
que nos marca o norte
murmuremos os nossos nomes
em doce embalo
Tu-Eu
Eu-Tu
enquanto a noite o destino
transforma em felicidade.

Deixa que neve  

Posted by I.D.Pena

Corro , fujo , procuro , e não encontro,
Ou o que encontro não me serve ,
Às vezes páro , e oiço em mim uma voz que geme ,
Diz que não adianta ,  algo atravessa-me em mim,
Não é rancor ou raiva , mas sim revolta.
Revolta essa que me força a viver.
Aqueço mas não rebento.
Borbulho de revolta por aquela voz,
Pelo o desencorajamento que oiço dentro de mim ,
Porque não há consciência, é tudo mentira.
Mas não me desencoraja pelo contrário determina-me .
Amo viver e grito recorrendo a todas as minhas forças interiores.
O eco arrepia-me , algo treme, (possivelmente eu),
Mas tudo parece impávido e sereno
Naquele manto branco de neve ...
Continuo à procura do meu abrigo, para estar perto de ti,
As pégadas relembram-me do peso do que é estar viva, tenho que voltar,
Tenho que voltar, digo a mim mesma repetidamente,
Enganando-me talvez, mas quem sabe?  É  a favor da vida.
Sei que estou a quebrar recordes pessoais,
Mas não limites, nah, limites não tenho!
E continuo... O horizonte abre-se , assim como meus olhos.

A paisagem está mais linda que nunca,
Pura e demente, quase confortável...
Ergo-me. E Constato:
Não sei se estou a chegar se a descobrir,
Ah mas sei  que vale a pena ...




Brincadeiras verbais  

Posted by LBJ in


Até que idade se pode brincar com as palavras? Jogá-las ao ar como instrumentos de malabarista e deixá-las cair em invento de novas formas e significados. Pego nas palavras que me ocorrem, naquelas que sem mais razões me surgem de repente na cabeça e não sei porquê são palavras de raiva, não sei porquê ou talvez porque a música que me inspira é vigorosa em acordes e as palavras me fluem duras e ásperas e não sei bem o que fazer com elas porque o Natal se aproxima e não é uma época para usar palavras de raiva, devia procurar palavras poéticas, mudar o tom da música que ouço e mergulhar na inspiração de palavras de harmonia e de redenção e generosidade, mas o Natal não me inspira poesias mas hipocrisias e outras heresias e eu gosto de brincar com palavras.

Hoje estou aqui para brincar com palavras e arrumo a raiva e a falta de poesia numa frase vazia sem sentido nem contra senso e avanço com um jogo de palavras que confesso me é fácil jogar, tenho jeito para brincar com palavras, é para mim uma habilidade natural, não será com certeza um talento mas uma simples habilidade a de encaixar palavras, estou mais próximo de um pantomineiro de palavras do que um cantor de palavras e assumo a pele de um palhaço triste que pega em letras e compõe frases que não se tornarão obras de arte mas quando muito jingles de ficar no ouvido.

Eu hoje estou aqui e nada mais consigo fazer com elas do que brincar com as palavras e ensaio um arranjo verbal que possa ainda usar nesta época de Natal, monto acentos em bolas de letras e em fitas alternadas de muitas cores adjectivadas mas não consigo escamotear da cabeça algumas das palavras que me vão azedar os próximos dias, nas ruas há muitas luzes e brilhos e tudo me contradiz a não dever incorporar alegria nas frases que componho enquanto brinco com as palavras mas eu sou um trambiqueiro de palavras, limitado pela ausência, pela dor, pela falta, pela mudança que trás mas também tira e porque quando as faço rodopiar no ar sempre deixo cair algumas palavras em sentido ou no sentir.

Gosto de brincar com as palavras mas sei compreender o poeta que fingia e eu finjo com as palavras, finjo realidades e fingimentos nas entradas sem saída, finjo brincar com as palavras enquanto me escondo por dentro delas…

Era uma vez...  

Posted by Bruno Fehr in



Era uma vez a Cinderela que trabalhava imenso e ganhava pouco, um dia conheceu um príncipe que disse que a amava e entregou-se a ele de corpo e alma. O príncipe uso-a e nunca mais lhe ligou. Ele era só um príncipe sem titulo, um de muitos com os quais ela não iria ser feliz para sempre.

Era uma vez um senhor muito mau que falava mal de tudo e de todos. Um senhor desonesto que acusava toda a gente de desonestidade. Esse senhor conseguiu punir muitos inocentes pelo que não fizeram e nunca foi punido.

Era uma vez um rapaz que não defendeu a honra da sua amada e fugiu. Ela foi violada e marcada para toda a vida. Esse rapaz viveu para fugir um outro dia. O violador viveu para violar um outro dia. A menina morreu por dentro nesse dia.

Era uma vez uma menina que disse a um menino que o amava e ele amava-a de volta. Casaram com os votos de serem felizes para sempre. Um dia essa menina conheceu outro menino a quem disse que o amava, deixando o primeiro menino sozinho, sem casa, sem carro, longe dos filhos, e tendo de sustentar essa menina durante os anos vindouros. O crime do menino foi ter amado e ser deixado.

           Era uma vez um mundo cinzento pintado de cor-de-rosa em livros de sonhos.
           Era uma vez um mundo de ilusão. Esse mundo era perfeito e nele viviam todos os meninos e meninas do mundo. Esse mundo era uma vez pois nunca foi nem será vez nenhuma. 

           Era uma vez um menino que certo dia viu o mundo como ele é, sem o véu da inocência, e sentiu medo pela primeira vez. Medo de um mundo não perfeito. E era uma vez todas as ilusões. Este era um mundo onde as princesas e príncipes não trocam posição social por amor. Um mundo onde os sapos serão sempre sapos e condenados ao charco, mas felizes de nenúfar em nenúfar sem princesas por perto. Um mundo onde as pessoas amadas morrem, partem, sofrem. Um mundo onde tristeza e dor andam de mãos dadas com sorrisos e alegria. Um mundo em  que se estamos tristes, esperamos ser felizes um dia, e se somos felizes que a felicidade dure mais um dia. 

            Era uma vez todos os finais felizes, pois nesta vez que é e não era, ser covarde é ser normal, ser herói é ter morrido, os maus da fita podem vencer, e é possível ser-se infeliz para sempre. Nesta vez, a realidade são todas as vezes que não eram uma. A vez que é e não era, é a vez em que tudo o que vemos e mais ninguém vê é mentira, pois se os outros não vêem é porque não existe. 

            Era uma vez um estranho mundo do qual o menino não gostava e fechava os olhos com muita força na esperança de voltar ao mundo do era uma vez...







Diálogo  

Posted by mf in

Na noite
Cansada
Adormecida
Cerrada
Pressinto
O crepitar do meu brasido.

Chispas de fogo sobem
Pelo céu do teu olhar.
Promessa em potência
De incêndio por lavrar.

Em minha boca
Entreaberta
Incandescida
Em oferta
Ensaio
O cautério que se avizinha.

Entrecorto-me em soluços
Ofegantes e fervilho.
É pólvora minha pele
Quando acendes o rastilho.

Minha língua
Impiedosa
Engole
Consome
Devora
Todo o ar à tua volta.

Vinte raízes beijadas
Assoladas por vento forte
Ateiam chamas em fúria
Em direcção ao meu norte.

Minha frente
De fogo
Avança
Cobre
Abrasa
Cada centímetro do teu chão.

Ferve-me a pele escalda-me o toque
Arde-me cada nervo em tição
Range-me a voz vão-se os sentidos
Deliro em delírio no furor do vulcão.

Estendo lava
Pela terra
Queimada
Fervente
Regada
Húmida de cinzas.

Expludo em centelhas
De espasmos rutilantes
Quando me rasgas os sentidos
Com ígneo círio chamejante.

É tua a campina aberta
Calcinada por meu desejo.
No rescaldo não te esgotas
E por ti de novo rastejo.

Home is where the heart is  

Posted by I.D.Pena

Numa noite calma e serena , Angi acordou sem qualquer razão aparente ou audível, abriu os olhos no escuro, e reparou numa minúscula luz num canto do quarto.

Era irresístivel, e de lá de dentro uma voz femenina ouviu-se:


-Pssssssss !! Segue-me.

Assim o fez, a luz aumentou iluminando uma pequena porta verde que não existia dantes, mais pequena que o normal ,  e do outro lado estava um túnel, Angi pôs-se de gatas e entrou.
Perdeu o chão, e sentiu-se a mergulhar bem fundo.
Não era água, era bem mais denso que água, e se bem que era impossivel respirar, Angi não sentiu essa necessidade.
Estava morno e suave, não se ouvia nada. Um confortável silêncio banhava-a. Maravilhosas luzes nadavam naquele mar, correntes de cores frias e ou quentes.
Angi sentiu-se chupada por aquela luz e deixou-se levar, aproveitando para contemplar todo aquele fantastico cenário.
Quanto mais perto da luz, mais claro ficava, e quente, tão quente que perdeu os sentidos.

Voltou a acordar numa sala e perto de uma lareira, não reconheceu a decoração, mas parecia estar dentro de um castelo.
Levantou-se a custo e reparou nos objectos por cima da lareira, pareciam antiguidades, uma taça com esmeraldas embutidas, e uma chave cativaram a sua atenção. Por cima da lareira e na parede uma pintura de um jovem cavaleiro, imponente.
Um espelho de ferro enorme estava do lado esquerdo, Angi não reconheceu o seu próprio reflexo, para além do mais reparou que não estava só, por trás estava alguém deitado e caído no chão...

Angi tinha morrido sem se dar conta disso mesmo.
 

Fim