"Porra, vai-te embora! Já chega! Se não queres estar aqui, se não me queres ouvir a chorar, vai-te embora! Eu sei que tu queres ir embora, mas porque não vais já? Tens pena de mim? Tens pena deste corpo? Tens pena destas cicatrizes? Elas não se vão embora por ti! E tu não me vais impedir de nada! Chega de estares aqui só porque eu preciso, porque estupidamente tu tens medo que eu me corte! Mas afinal qual é o teu problema?!!!"
Ela está nua à minha frente. A chorar, com o seu longo cabelo negro colado ao seu rosto perfeito. E eu consigo olhar para ela. Para aquele corpo, salpicado de cicatrizes. E realmente eu quero ir embora, como ela diz. Mas não consigo. É demasiado paralisante ver alguém assim, quanto mais ela.
Eu não sabia destas cicatrizes. Descobri há muito pouco tempo. E não sei, não faço ideia porque o faz. Mas sim, eu quero ir-me embora. Ainda assim não consigo mover um pé. Agora a única coisa que nos separa é o seu grito de silêncio, que eu consigo ouvir até ao âmago da minha alma. E eu acabo por querer dar um passo em direcção a ela, mas o seu grito mudo impede-me. Enche a sala.
E ela fala uma vez mais.
"Agora, o teu único caminho é voltar atrás. Este monstro não é partilhável!"
Eu não entendo, mas acho que na cabeça dela está um monstro e não uma mulher. E volto a tentar dar um passo. E volto a não conseguir.
Sem ter qualquer outra opção... Volto atrás.
O Grito mudo estilhaça os vidros da sala, que se espetam nas minhas costas.
Caminho perdido em pensamentos confusos, dissecando um passado esquecido, de forma tentada, magoado por um olhar pensado que me cortou bem fundo.
Olha para trás, não passamos bons momentos?
Olha para trás, lembra-te do teu sorriso.
Olha para trás, foste feliz! Não valeu a pena?
Sigo o meu caminho sem saber se estou perdido, se é o caminho correcto mas seja como for é o meu caminho e levar-me-à onde eu nunca estive a quem eu nunca fui e pelo caminho irei encontrar caras novas de pessoas que nunca irei conhecer. Neste caminho não busco um destino, quero sim usufruir da viagem.
A teu lado não havia viagem, havia o frio das correntes com que me prendias a ti, o calor do teu amor que queimava os meus sonhos, o meu sorriso de agradecimento por me achar mais do que o que sou, a dor interna de estar a abdicar de mim por ti.
Nunca te pedi para deixares de me amar e muito menos te pedi para me odiares, simplesmente te pedi para me libertares, para me deixares ser simplesmente eu, e não me moldares no homem que querias que fosse.
Errei, desculpa. Ainda erro, desculpa. Irei errar imenso por toda a minha vida, desculpa.
Desculpa pelo que disse, pelo que não disse, pelo que fiz e pelo que deveria ter feito. Não te peço para esquecer, unicamente desculpar. Eu nunca te esqueci, nunca deixei de te amar, mas há muito que te perdoei.
Querias estar a meu lado para sempre, querias amar-te para sempre, querias ser minha e que eu fosse teu para sempre. Disseste "toma-me, sou tua", mas não ponderaste a eternidade das tuas palavras. Errei por te tornar no que sou. Errei por sugar de ti a tua vida mortal e te dar em troca a imortalidade, mas pensava inocentemente estar a dar-te o que querias... a imortalidade a meu lado.
O homem que amaste é o monstro que odeias, um monstro que eu já era mas que não vias ou não querias ver. Estive a teus pés, à tua mercê, poderias ter posto um fim àquilo que sou mas optaste por poupar a minha vida sabendo que a tua lamina de prata é a única que poderá mortalizar a minha imortalidade. Nada disseste mas o teu olhar feriu de uma forma brutal enquanto para mim, a tua lamina seria a libertação de quem sou.
Um minuto sem ti é um pesadelo mas a eternidade do teu ódio é um inferno. Sabes que nunca irei erguer a minha lamina contra ti e por isso a minha imortalidade estará nas tuas mãos. Se não me libertaste na tua vida humana, poderás fazê-lo na tua imortalidade, tomando a minha, alimentando-te de mim. Assim poderá ser que a tua dor, o teu ódio seja apaziguado pelo derramar do meu sangue gelado.
Parte 1
Angi era uma bela mulher de 19 anos, sentada no banco de seu jardim debaixo da pérgola de plumbago azul. A beleza familiar era donde retirava os seus momentos de paz.
Amava aquele lugar, sentia-se bem e acostumara-se com o lugar e com toda aquela frescura, e até em sonhos aquele lugar tinha espaço para existir. Num belo dia de Fevereiro, quando praticava flauta, os sons da natureza deixaram de se fazer ouvir. Intuitivamente Angi também parou.
Angi desconhecia a origem daquela voz , mas mesmo a medo respondeu o mais delicadamente que conseguira:
E automaticamente como quem espera o Sol. Toda a animação da fauna e até da flora fez-se novamente notar, interrompendo e recomeçando o ritmo sonoro da vida, o resfolegar das folhas pelo vento, em conjunto os pássaros assumiram os seus compromissos audíveis, e o que Angi julgou ouvir transformou-se numa ilusão.
Confusa e atordida, inspirou-se ainda assim numa pequena melodia, tal e qual como quando era mesmo menina e não mulher, como quando criança e inventava canções. Canções sobre mundos inventados muito pouco explorados.

Hoje sou abstracto na escrita e uso a palavra porque não sou firme no risco nem hábil no cinzel. Falo de uma rosa sem pétalas nem cheiro que se secou debaixo de um Sol que não se vê sobre as nuvens que não choram chuva porque são brancas como a imaginação de um sonhador de castiçais ou de um pasteleiro de bolos de sal e barro salobro e de uma menina de saia de vento que sopra balões de sabão sentada numa cadeira a quem lhe falta uma perna.
Debaixo do manto da noite esconde-se o némesis do medo apenas reflectido em charcos de água negra ou visível sobre a forma de sombras difusas que me fogem por becos de ruas que já não existem e onde já não há velhas à janela a invejar o par de namorados que se beija numa esquina ou o homem triste que fuma o último cigarro do maço amachucado e jogado ao chão.
Se todo o saber se puder concentrar num ponto fulcral e da ignorância se fizer alavanca qualquer vontade poderá içar a incerteza à altura da dúvida. O amor e o ódio medem-se pela mesma quantidade de letras e são ambos insignificantes em tamanho e tamanhos em significado e fazem-se oscilantes entre o amor que odeio e o ódio que amo.
Romanceio a vida de alguém que ainda não conheci porque hoje não saí deste quarto que não tem portas nem janelas nem há luz além daquela que trouxe comigo e sei que sou incómodo e que estas palavras sabem a um gosto azedo na ponta da língua se lidas em voz alta e que arrepiam a base da nuca se lidas sem som tal como a morte que paciente nos espera sem a sabermos fruto negro ou caminho de mel.
Hoje fui abstracto na escrita e usei a palavra porque não pude ser firme no risco nem hábil no cinzel e queria apenas um dia ser guerreiro armado da mais poderosa palavra que usarei redonda na defesa e afiada na estocada, assim o prometo assim o comprometo assim me submeto.
Não me toques
Olha-me
Despe-me devagar
Fazendo-me sentir
A cada peça imaginada caída
O fogo do teu olhar
Não me toques
Pressente
Da pele a maciez
Que tua boca cobiça
Ânsia prenhe do sabor
Que arrasa a lucidez
Não me toques
Escuta
Cada murmúrio soltado
Que teu coração cuida
Desejo em investida
Do momento desejado
Não me toques
Fareja
De minha pele o odor
Agridoce sinfonia
Que enevoa o pensamento
E te busca o impudor
Não me toques
Avizinha
Os dedos em frenesi
Augurando a paixão
Pandora livre atiçada
Que me abandona a ti
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