Um reinado esquecido  

Posted by I.D.Pena

Parte 1


Angi era uma bela mulher de 19 anos, sentada no banco de seu jardim debaixo da pérgola de plumbago azul. A beleza familiar era donde retirava os seus momentos de paz.

Amava aquele lugar, sentia-se bem e acostumara-se com o lugar e com toda aquela frescura, e até em sonhos aquele lugar tinha espaço para existir. Num belo dia de Fevereiro, quando praticava flauta, os sons da natureza deixaram de se fazer ouvir. Intuitivamente Angi também parou.



Sentiu frio, e uma atmosfera mais densa, olhou para o céu, e nenhuma nuvem escondia o Sol.
Sem sombra para dúvidas, era um momento estranho.

Um som de respiração, (provavelmente o seu próprio) fez-se ouvir seguindo de seu próprio coração, uma espécie de tambor,  reconheceu reassegurando-se.

-Bom dia menina Angi, como tem passado ?

Angi desconhecia a origem daquela voz , mas mesmo a medo respondeu o mais delicadamente que conseguira:

Bom dia.

Talvez não te lembres de mim , tal como me lembro de ti.
Talvez até o meu tamanho influencie o meu timbre, mas não o tom da minha voz.
Não sentes o meu cheiro?

-Sinto... Cheira a terra molhada , a humidade e a pólen dissolvido, cheira tão bem ...

Disse Angi ao mesmo tempo que inspirava.

E automaticamente como quem espera o Sol. Toda a animação da fauna e até da flora fez-se novamente notar, interrompendo e recomeçando o ritmo sonoro da vida, o resfolegar das folhas pelo vento, em conjunto os pássaros assumiram os seus compromissos audíveis, e o que Angi julgou ouvir transformou-se numa ilusão.

Confusa e atordida, inspirou-se ainda assim numa pequena melodia, tal e qual como quando era mesmo menina e não mulher, como quando criança e inventava canções. Canções sobre mundos inventados muito pouco explorados.

-Ainda estás aí ?
Ouviste?
Quem és tu ? Propriamente ?


Continua

Passatempo - Prisão de Palavras - Natal.  

Posted by Jane Doe


Os autores do Prisão de Palavras lançam um desafio aos seus leitores.

O desafio consiste em escrever um conto - de estilo e formato livres - com a temática do Natal. O mesmo não deve ultrapassar os 1000 caracteres, não tendo limite mínimo.

Deverão enviar o conto em formato word para o mail abaixo mencionado a partir de hoje e até dia 10 de Dezembro. Os três melhores, escolhidos pelos autores do Prisão de Palavras serão publicados a partir de dia 20 do mesmo mês.

Participem, e dêem asas à vossa criatividade!

E-mail de envio de textos: cljjanedoe@gmail.com

Palavra  

Posted by LBJ in


Hoje sou abstracto na escrita e uso a palavra porque não sou firme no risco nem hábil no cinzel. Falo de uma rosa sem pétalas nem cheiro que se secou debaixo de um Sol que não se vê sobre as nuvens que não choram chuva porque são brancas como a imaginação de um sonhador de castiçais ou de um pasteleiro de bolos de sal e barro salobro e de uma menina de saia de vento que sopra balões de sabão sentada numa cadeira a quem lhe falta uma perna.

Debaixo do manto da noite esconde-se o némesis do medo apenas reflectido em charcos de água negra ou visível sobre a forma de sombras difusas que me fogem por becos de ruas que já não existem e onde já não há velhas à janela a invejar o par de namorados que se beija numa esquina ou o homem triste que fuma o último cigarro do maço amachucado e jogado ao chão.

Se todo o saber se puder concentrar num ponto fulcral e da ignorância se fizer alavanca qualquer vontade poderá içar a incerteza à altura da dúvida. O amor e o ódio medem-se pela mesma quantidade de letras e são ambos insignificantes em tamanho e tamanhos em significado e fazem-se oscilantes entre o amor que odeio e o ódio que amo.

Romanceio a vida de alguém que ainda não conheci porque hoje não saí deste quarto que não tem portas nem janelas nem há luz além daquela que trouxe comigo e sei que sou incómodo e que estas palavras sabem a um gosto azedo na ponta da língua se lidas em voz alta e que arrepiam a base da nuca se lidas sem som tal como a morte que paciente nos espera sem a sabermos fruto negro ou caminho de mel.

Hoje fui abstracto na escrita e usei a palavra porque não pude ser firme no risco nem hábil no cinzel e queria apenas um dia ser guerreiro armado da mais poderosa palavra que usarei redonda na defesa e afiada na estocada, assim o prometo assim o comprometo assim me submeto.

Prelúdio  

Posted by mf in

Não me toques
Olha-me
Despe-me devagar
Fazendo-me sentir
A cada peça imaginada caída
O fogo do teu olhar

Não me toques
Pressente
Da pele a maciez
Que tua boca cobiça
Ânsia prenhe do sabor
Que arrasa a lucidez

Não me toques
Escuta
Cada murmúrio soltado
Que teu coração cuida
Desejo em investida
Do momento desejado

Não me toques
Fareja
De minha pele o odor
Agridoce sinfonia
Que enevoa o pensamento
E te busca o impudor

Não me toques
Avizinha
Os dedos em frenesi
Augurando a paixão
Pandora livre atiçada
Que me abandona a ti

A menina do baloiço.  

Posted by Jane Doe

Sentada na sua cadeira de baloiço, com a manta a tapar-lhe o colo, e um cachecol a protegê-la do frio, começa, enquanto acaba a minha camisola de lã:

"Segundo a lenda, há muitos anos, (como qualquer boa lenda...) vivia nesta casa uma mulher com a filha. Era mãe solteira, e na altura viva aqui isolada, pois a sua condição era mal vista pela aldeia. As pessoas que a vinham ajudar - trazer-lhe comida, e o padre que a vinha benzer - contavam que ela nunca falava, e que estava quase sempre sentada numa cadeira de baloiço. A filha é que lhe fazia a comida, e a levava para dentro a dormir. A menina nunca ia à escola, e cuidava sempre da mãe, e também das coisas da casa. Era como se a mãe vivesse noutro planeta. Às vezes, a mãe ausentava-se durante horas, ou dias, e a menina ficava à espera dela no baloiço que estava na árvore. Às vezes baloiçava-se sossegada, outras vezes esgravatava as unhas, como fazem os gatos, até fazer sangue. Às vezes chorava sem parar. Um choro miúdo, mas que parecia propagar-se pelo ar e chegar a todas as casas da aldeia. Nunca ninguém ousou aproximar-se da menina quando a mãe desaparecia. Era como se emanasse uma atmosfera de medo que ninguém se atrevia tocar. Uma vez, a mãe desapareceu, mas antes de sair levou a menina até ao baloiço, e -la subir, ficando a observá-la baloiçar. Passadas umas horas, levantou-se, e sem dizer palavra, como sempre, foi embora. A menina viu-a partir, não foi atrás, sabia que ela voltava sempre, e deixou-se a baloiçar. Ao fim de três dias a baloiçar, sem comer, sem dormir, começou a chorar, da forma que sempre fazia. Um choro suave que se propagava pela aldeia. A mãe não voltou. E a menina nunca mais deixou de chorar. Dia e noite a aldeia era envolvida naquele choro agoniante, até já não ligarem , até fazer parte do burburinho da aldeia. Um dia, a meio da noite, muitos dos aldeões foram despertados por algo. A ausência do choro. "Morreu", pensaram. Tinha desaparecido. Em breve as especulações começaram, e havia quem dissesse que o seu espírito estava junto do baloiço. Tolices de pessoas que não encontram explicações lógicas, é claro. Dizem que às vezes se ouve o choro da menina, apesar de eu - que moro aqui - nunca o ter ouvido. Esta casa deixou de ser habitada, e as pessoas ainda têm medo de se aproximar, nem sei porquê. Já passou tanto tempo..."

"Mas a bisavó comprou a casa. Não teve medo?"

"Não. Era a casa ideal para mim, para envelhecer como eu queria e o facto de as pessoas não se aproximarem muito ajuda sempre a uma bem vinda solidão. Nunca tive problemas, as pessoas é que criam medos dos medos de outras pessoas que os criam de lendas. Tolices... E aqui tens a história da casa.
Olha, traz-me um copo de água, que tenho sede."

Levanto-me, e quando volto com o copo de água ela dorme. Adormece cada vez com mais frequência, mas não me preocupo, ela não teme a morte.

Saio, aproximo-me do baloiço, sento-me e baloiço, num gesto que me é familiar. Sorrio ante as coisas que foram sendo ditas, ao longo do tempo, e sorrio por estar de novo aqui.

A menina do baloiço...
...Sou eu.

A última noite da minha primeira noite  

Posted by Bruno Fehr in

Estou sozinho no meio de todo este frio, tudo à minha volta está gelado, tudo tão branco. Sou um homem na neve sem forças para lutar mas luto internamente contra mim mesmo querendo livrar-me destes pensamentos que não entendo.
Se isto é um sonho eu quero acordar, quero gritar bem alto, quero chorar.

Tudo começou no dia 21 de Janeiro de 1899 durante um passeio ao fim da tarde durante uma visita a Oulu, o local mais bonito do mundo. Escureceu e continuei a caminhada por uma cidade que após o por-do-sol parece fantasma. Nas janelas vejo luzes quentes que ninguém quer deixar. Fazia-me acompanhar por uma garrafa de Stolichnaya, pois nestas temperaturas a vodka é a nossa melhor amiga. Já ébrio entro numa rua escura e foi aí que escutei uma bela melodia. Atraído e guiado por ela entrei numa pequena taberna iluminada somente por velas que não me permitiam ver mais do que vultos sentados nos cantos da sala.
Pedi um vodka, e sem me responder o taberneiro trouxe-me absinto, notei quando o provei, Pontarlier sem dúvida.
Olho para o ponto de onde a música vem e vejo um vulto nada mais. Há medida que a minha visão de habitua à escuridão vejo que se trata de uma mulher, alta, longos cabelos negros, cara branca sem expressão, uma mulher linda da qual não consigo desviar o olhar, os olhos dela estão fechados como que visualizando o choro que sai do seu violino.
Pergunto ao taberneiro o nome dela ao que ele responde: "Taija - a violinista".
A música termina, ela abre os olhos revelando um azul incrivelmente claro e caminha na minha direcção.

Fogo. Noite. Dia. Céu. Pessoas. Frio. Calor. Palavras soltas. Imagens sem nexo. Risos. Choros. Gritos. Gemidos. Flashs do meu passado. Flashs do que não vivi. Cheiro a sexo.

Quando recuperei a consciência estava despido numa cama desconhecida em lençóis ensanguentados. Desorientado saí a correr sem rumo, dei por mim rodeado de árvores e gritei, ri, chorei em dor, sentia-me a partir de mim mesmo, sentia-me mais forte que nunca. Sentia-me vivo mas morto por dentro, e adormeci.

Acordo incomodado pela aurora matinal, sentindo-me preso num local perdido no tempo, preso a uma vida passada, preso num pesadelo do qual não consigo acordar, sem saídas à vista sem forças para gritar. Gritei enquanto tive voz e ninguém me ouviu, ninguém quis saber, ninguém me respondeu.
Sinto que já vivi e que já morri mas que de certa forma revivo tudo novamente. Não sei dizer precisamente quando mas há muito tempo eu fui o que sou agora, um homem na neve, um homem de neve, um homem gelado.

Os primeiros raios de sol permitem-me ver onde estou, e ver a minha roupa ensanguentada, junto a mim uma lápide onde leio: „Taija, 31.12.1776 – 21.01.1799“, nome e data circundado pelo desenho de um violino e uma pequena pauta musical esculpida na pedra com o título:
"Pahoittelen, Basiliüs".