Na segunda pessoa  

Posted by LBJ in



Saltou por cima da corda suspensa entre dois troncos de madeira, a corda bamba estremeceu quando lhe tocou com a ponta do pé, a corda bamba como a sua vida, estremeceu como estremecia a sua vontade de continuar em frente. Ontem como hoje como amanhã tentaria fazer este caminho, festejando como objectivo alcançado, cada metro, cada passo a mais que na véspera. Por vezes recaia, voltava para trás mais cedo, mais longe.

O próximo passo fazia-o chegar à esquina e de lá conseguiria já vê-lo, pleno, suave, fascinante, o retomar de um sonho perdido e desejado no complexo labirinto que se tornara a sua cabeça, uma arquitectura de ignorante louco na forma com que os seus neurónios se organizaram. Parou e hesitou, o ângulo frio das paredes protegia-o ainda, um passo mais… Um passo mais e conseguiria vê-lo e desta vez não iria ficar torpe pela visão, desta vez iria continuar, mas os pés não lhe obedeceram, ficaram ali imóveis agarrados às pernas, como se os músculos num repente se tivessem desligado de qualquer linha de comando.

Teimou e conseguiu avançar e dobrou a esquina e fechou os olhos, não queria que o choque da visão o fizesse parar e na escuridão do seu interior veio-lhe à memória aquele dia longínquo, os risos de criança excitada que antecipava a maior aventura do mundo e a mancha laranja que sempre lhe ofuscava a lembrança do rosto, a mancha cor de laranja que deveria ser protectora, infalível e que tinha falhado e que agora lhe ofuscava a lembrança do rosto mais importante de todos os rostos.

Lembrava-se da promessa que tinha feito, se conseguires isto fazemos aquilo, nem se lembrava mais qual tinha sido o objectivo, qualquer coisa tonta, alcançável com pouco esforço e apenas alguma vontade e ele fez num instantinho e voltou aos saltos para cobrar a promessa, vamos? Quando? Amanhã? Foram mesmo no dia seguinte.

Abriu os olhos, conseguiu abrir os olhos e ver, mas estava de novo parado e desta vez sabia que tinha chegado ao limite, não iria conseguir avançar mais e voltou as costas e fez o caminho inverso, de novo em direcção ao vazio, à ausência dos dias.

Foi num dia de verão, num pequeno barco a remos, as canas suspensas na borda, as linhas que furavam a água levando convites aos peixes que nem sequer por ali nadavam, mas não importava, era a alegria de estar com o filho, que de repente desaparecera, apenas porque alguém bebera de mais e os abalroou com um iate branco, de novo rico que não sabia o que fazer ao dinheiro e a mancha cor de laranja que o devia ter protegido de nada mais serviu do que agora lhe esconder um rosto que tanto queria voltar a ver e o mar que ficou tão longe.

Cadáver Esquisito IX  

Posted by Bruno Fehr in

Mais dois meios textos da série "Cadáver Esquisito". Eu escrevi a primeira, passando apenas a última palavra do meu texto à Ipsis Verbis a qual ela usou para começar a escrever a sua parte.

(a palavra passada entre nós é "Banco" e aparecerá no texto apenas uma vez)


Ipsis Verbis - vermelho vinho
Bruno Fehr - verde garrafa

Banco  

Posted by Bruno Fehr in

No momento em que a vi apeteceu-me tocar-lhe, abraça-la como se ela fosse chorar. Dizer-lhe "está tudo bem e vai continuar tudo bem", mas um estranho não pode fazer isso. Nos primeiros segundos senti que a conhecia, via-a como especial. Os meus pensamentos saltitavam entre o sonho e a realidade. Sonhando pensava "podes ser tu", para de seguida pensar "podes ser tu quem me irá magoar". Porque é assim mesmo, o nosso lado sonhador sonha, ilude-se enquanto o outro nos diz "vais-te lixar". Qual ouvimos? O sonhador, claro.

É este o poder que uma mulher exerce sobre um homem, o de conseguir deixar o mais seguro dos homens, o mais confiante dos homens a sonhar como um adolescente perdido e confuso. Perdido em pensamentos banais, planos banais de uma vida activamente banal.
Os nossos olhares tocaram-se. Tocaram-se distraidamente. Não a esperava ver, ela não me esperava ver mas o olhar não foi desviado. Olhei-a bem, olhei bem fundo nos seus olhos enormes e muito abertos. Vi muito mais do que queria ver, vi beleza, vi carinho, vi curiosidade e vi dor, muita dor e vi algo de perturbador. Sorri para ti com segurança insegura de quem viu o seu coração invadido por um simples olhar. De quem viu os seu sentimentos remexidos até aqui escondidos num local mais escuro e protegido que a caixa forte de um

banco


... dinheiro... tempo... e agora já não consigo pensar noutra coisa senão em férias. Férias de tudo! Férias permanentes em praias desertas, com água cristalina e areal a perder de vista. Saladas e sumos naturais. Carradas de protector solar e depois mais carradas de hidratantes pós-sol... ahhh, lembro-me das longas tardes de verão que se estendiam até às 10h da noite. As massagens em spas de fim-de-semana. Os mojitos, caipirinhas, águas de coco e sumos naturais. E o de maçã e lima, fresco (e não com gelo) era divinal. Bebia sempre dois de seguida. Começava a arrefecer-nos de baixo para cima. Primeiro na zona do estômago, depois todo o peito e garganta, e segundos depois, já sentíamos a testa mais fresca (sorrio). Vem-me à memória, outras memórias... Lembro-me, por exemplo, do pequeno banco branco de madeira, onde me sentava ao sol, na casa de férias dos meus avós, enquanto construía pequenas catedrais com areia molhada. Aquelas manhãs quentes em que era necessário molhar o banco antes que me pudesse sentar nele. E a piscina era apenas a segunda distracção desses dias. Anos mais tarde, aquele beijo dado no banco do jardim, em frente à escola secundária, no último dia de aulas antes das férias grandes.. O calor nesse Junho estava insuportável. E aquela sombra, mesmo junto à fonte que, com a ajuda de algum vento nos trazia gotas de água para nos molhar, pediu aquele momento. Seria o primeiro beijo a fazer estremecer-me por dentro. E foi lindo.

Entrega  

Posted by mf in

Teus dedos
De doçura dolorosa
Sobem por meu corpo acima
Desvendando cada trilho
Franqueando cada trincheira

Sinto-te o desejo, a audácia, a procura
Em minhas pernas
Buscando garupa firme
Por galgar

Tua boca
Guiada por bússola invisível
Mergulha em seu pólo magnético
Torturando meu mundo
Invadindo minha coutada

Sinto-te o repto, o duelo, a mestria
Nas curvas esconsas
Desvendando segredos
Urdindo a capitulação

Tua pele
De suavidade suada
Une-se ardente à minha
Despertando o fogo
Entorpecendo os sentidos

Sinto-te a investida, o furor, a dureza
Em meu ventre
Acirrando o desejo
Por extinguir

Teus dentes
Incitados ao banquete
Devoram a maciez salgada
Provocando a súplica
Saciando a paixão

Sinto-te o toque, a ânsia, a firmeza
Na curva suave do peito
Ondulando ao sabor
Da tua vontade

Tua língua
Desejada em murmúrio
Marca minhas veias latejantes
Delimitando território
Assenhoreando-se de mim

Sinto-te o domínio, o ardor, o prazer
Na cerviz inclinada
Fervilhando ao toque
Da tua dança

Tuas mãos
De vontade maciça
Estiram meus cabelos
Expondo minha face nua
Descobrindo meu acordar

Sinto-te o deslumbre, a reverência, o espanto
Nos corpos em doce aconchego
Deixando nascer em silêncio
O mais sentido abraço

Teus olhos
De ternura infinita
Contemplam meu mundo
Conquistando meu sossego
Devastando meu coração

Sinto-te a paz, o carinho, o encanto
Nas mãos que se entrelaçam
Deixando sentir o prenúncio
De amor imenso e devasso.

O Privilégio do Disparate – Parte incontável de uma série fora de série noutro lado qualquer que não é um lado qualquer  

Posted by LBJ in



Normalmente quando escrevo estas coisas, o mais difícil é a primeira palavra e o curioso é que desta vez escolhi a palavra normalmente, o que deveria ser um bom sinal, mas como pelo contrário nada do que se me tem assomado à cabeça ultimamente roça a normalidade, criei na partida para esta dissertação um reflexo de contrariedade e quando digo contrariedade não quero dizer que este privilégio me vai causar um sentimento de oposição a um estado de conforto, mas sim que por um desígnio qualquer que podemos considerar divino ou de karma ou mesmo instintivo, me levou a pegar na coisa dentro da normalidade numa fase onde tudo me parece anormal.

Como podemos nós estabelecer um padrão de normalidade para os nossos comportamentos, decisões, interacções e formas de andarmos pela vida? De manhã todas as pessoas acordam, porque dormir é uma necessidade normal, desperdício de tempo dirão alguns, tão bom dirão outros, mas o que importa é que o ser humano, à semelhança de outros bichos, precisa de dormir para funcionar normalmente e por isso assumo que num dia normal, primeiro acordamos, depois podemos ser higiénicos e meter água para cima do corpo e lavar os dentes ou viciados e fumar um cigarro ou coisas mais divertidas ou atléticos e brincar com uns pesos ou esfomeados e comer o que se encontrar no frigorifico ou modernos e espreitar a rede, os mails, os blogs e aquele site porno que durante a noite se carrega de filmes de gajas mamalhudas, voluntariosas e que conseguem fazer coisas que não pensávamos ser anatomicamente possível e está fora de causa que num dia normal se comece com sexo, porque isso só mesmo nos filmes. Eu normalmente no inicio de um dia normal faço isso tudo, sem uma ordem normal e é normal que gaste uma horita ou mais o que me leva a que normalmente saia de casa atrasado para qualquer coisa e já cheio de stress, mas se o stress é normal será que o poderemos chamar de stress? Mas pronto, como não sou dotado de conhecimentos de terapia mental ou capaz de identificar comportamentos desviados, não vou mais falar de stress e depois de sair de casa, normalmente existe à nossa espera um meio de transporte que nos leva para o trabalho.

No meu caso é um automóvel, que à semelhança de muitos como eu é um complemento importante da minha virilidade, eu dentro da viatura sou o mestre daquele espermatozóide com rodas e compito como os outros espermatozóides no objectivo de chegar primeiro ao meu objectivo o que não deixa de ser divertido porque o meu espermatozóide é preto e faz-me lembrar aquele filme velhinho do meu guru Woody Allen, naquela cena em que o espermatozóide preto na fila para o lançamento se perguntava o que é que estava ali a fazer e reconheço que não será normal estar a falar de espermatozóides numa dissertação sobre normalidade, mas deu-me para isto.

Chegados ao trabalho, será normal a peregrinação à maquina do café, antes ou depois de ligar o portátil, assumindo que é normal que hoje em dia todos nós temos tarefas de contribuição para a sociedade ou modos de ganhar a vida, que impliquem a interacção com computadores. Depois é ver os mails e agir em conformidade e aturar os desaforos dos superiores hierárquicos que normalmente são umas bestas, enquanto espreitamos aqui e ali os sites habituais, sem sequer nos apercebermos que é normal que a malta da gestão da rede saiba tudo o que fazemos e que um dia nos lixamos com a brincadeira se a administração decide começar a meter o bedelho nas nossas indiscrições, porque um local de trabalho não é sitio para engates ou brincadeiras ou de conjecturas ou associação a movimentos de oposição à normalidade mundial.

Depois normalmente se chega à hora de almoçar e normalmente existe aquele agrupar de gentes que se identificam uns com os outros e comem juntos, será um processo hormonal ou socialmente dependente mas as pessoas assumem comportamentos de grupos em manada quando ruminam juntos e depois os homens falam de bola e de gajas e as mulheres não faço puto de ideia, porque não quero ser acusado de preconceito sexual, mas imagino que falem de coisas importantes, porque as mulheres são muito mais bem adaptadas que nós para funcionar em grupo.

Depois vem o período da tarde com o cafezinho a meio e em que acima de tudo nos apercebemos que o tempo é uma coisa que estica e que se encolhe e lá para a tardinha saímos do emprego e as pessoas normais podem ir jantar com os amigos, beber um copo, frequentar cinemas e teatros e discotecas ou passear nos centros comerciais ou namorar ou praticar sexo ou voltar para casa e estar com a família e os outros que definitivamente não são normais entretêm-se a escrever em blogs.


Nota: Este texto se não fosse colocado aqui faria parte de uma série e seria o nono e para quem não conhece estes textos, eles desobedecem a qualquer regra, são escritos de ponta a ponta sem paragens para pensar, respirar , cafezinho, sem intervalo para fazer chichi ou mesmo qualquer correcção, escrita crua para quem acha que o açúcar ou tempero adultera o sabor natural dos alimentos.

Acordar  

Posted by Jane Doe in

"Acordo num campo de trigo. Não me lembro de ter ali adormecido, pensava que tinha adormecido na minha cama, no meio de uma grande cidade, mas no entanto acordo um campo de trigo no meio de lado nenhum. Aquilo é, de facto, diferente. Levanto-me estranhando a paisagem dourada, o chão impressionantemente macio. E tenho fome. Após um longo suspiro estico as pernas e decido começar a andar. Tenho fome, e não sei o que estou ali a fazer, nem como ali fui parar.

Lembro-me de que tenho de ir trabalhar, que deveria ter em conta as horas, mas estar ali sabe-me bem, e essa realidade parece-me longe. Por falar em longe, estreito a vista, e acabo por perceber uma casa. Comida, penso. E acelero o passo.

O campo de trigo dá lugar a um campo de girassóis. E o campo de girassóis guarda uma casa que me espera. Olho o céu. Um laranja dourado de amanhecer. Sorrio. E começo a correr para encurtar a distância. "Terei morrido e chegado ao céu?" Não importa. Sorrio à ideia de tomar o pequeno almoço naquele lugar. E ao fundo vejo aquilo que me parece ser o animal dos meus sonhos. Uma pantera negra à minha espera. Aquele ar faz-me bem, aquelas flores a adorar o sol fazem-me por momentos feliz. E aquela pantera negra não me deixa esquecer o que eu realmente sou. Tudo parece perfeito, num equilíbrio que eu jamais pensei existir, ou mesmo desejar. Porque nunca desejei o equilíbrio, mas agora não faz mal. A pantera está ali. É eu, negra, em toda a minha essência. Extasiada pela visão corro para a casa, que me parece cada vez mais irreal. Amarela com tons de verde, como se fosse uma extensão do campo de girassóis. A pantera aproxima-se de mim, um caminhar suave e forte ao mesmo tempo, o negro a reluzir ao sol, os seus olhos profundamente verdes. Sem medo toco-lhe, sem medo, acaricio-a e o animal deixa-se acariciar. Por pouco tempo. Nunca é preciso ser demais. "E há quem pense que quanto mais abraça mais gosta. Detesto abraços...".

A pantera não vai muito longe. Está ligada a mim. Sempre a mim. E entro na casa e vejo o tão aguardado pequeno almoço. Pão com manteiga, pão com doce, pão com marmelada, é só escolher. Leite, sumo de laranja, chá, café, é só escolher. Morangos, mangas, uvas, bananas, cerejas, é só escolher. E sento-me. E escolho. A cereja."

Pi Pi Pi Pi Pi Pi Pi Pi Pi!

Merda do despertador!