O próximo texto do "Cadáver Esquisito" está dividido em 2 partes. Eu escrevi a primeira, passando apenas a última palavra do meu texto ao Bruno Fehr a qual ele usou para começar a escrever a sua parte.
(a palavra passada entre nós é "cabeça" e aparecerá no texto apenas uma vez)
Ipsis Verbis - vermelho vinho
Bruno Fehr - verde garrafa
Preparava-se para escrever. Sentada ao computador, de cigarro na mão e à espera do café que já cheirava da cozinha.
Não estava inspirada. Olhava para o fumo e demorava-se a imaginar pequenas nuvens animadas. Levantou-se para ir buscar o café. Estava um calor estranho naquela noite, mas o café quente soube-lhe bem.
Voltou a sentar-se de frente para o monitor branco. Olhou para a estante dos cds e tirou um sem escolher.
Colocou os fones.
Encostou-se na cadeira, com a cabeça para trás e fechou os olhos. Agora sentia apenas a mistura do café, de um segundo cigarro e da música.
Acabou o cigarro e o café. A música continuava... terá adormecido?
Estava tanto calor naquela que a ideia de um duche frio não lhe saía da cabeça, a minha que parece querer explodir ou implodir, já não consigo pensar logicamente se é que alguma vez o fiz. Apesar da ressaca ainda me lembro dela. A sua imagem vem-me à memória como se fossem diapositivos, imagens estáticas de um passado distante, que afinal, foi só há algumas horas mas anos luz de álcool.
Estava eu divertido a beber submarinos, uma actividade normal nos últimos tempos tentando colocar-me numa espécie de coma que é a única forma de eu dormir, quando ela entrou. Estragou-me logo a noite, pois ela é linda. Depois disto tive de beber mais, beber para dormir e beber para a esquecer. Mas como posso eu esquece-la quando ela está sempre presente?
Fecho os olhos e vejo-a, abro os olhos e vejo-a, olho para o outro lado da cama e lá está ela. Sim, ela está na minha cama e ao vê-la tenho de me levantar e beber mais um pouco. Sei que logo à noite ela estará lá, no mesmo bar, à mesma hora e sei que vou acabar na mesma cama que ela.
20 anos de casamento tem destas coisas.
Gosto do meu namorado, que me está a beijar o pescoço, e acho que não era capaz de o trair. Ele não repara que o gajo está a olhar para mim. Pelo menos não é um daqueles monhés que se fixam no meu rosto como se nunca tivessem visto uma mulher. Parece europeu, quem sabe português ou espanhol. Norueguês não é com certeza. Eu ainda tento desviar o olhar, mas ele está sempre lá. E olhá-lo directamente, também não resulta. Ele simplesmente não desvia o olhar. E é um dos olhares mais perturbadores que já vi... É como se conseguisse congelar tudo à volta dele só pela presença. Não gosto disto, não gosto. Será que se eu me levantar e lhe der um estalo ele acorda para a vida, e deixa de olhar para mim, para nós? Deus queira que saia na próxima estação de metro...
Online.
Eu sou Cerilis, Eurobot XI, unidade 3009 da brigada de leste. Tenho... o meu mecanismo está seco não funciono na perfeição. A minha base de dados dá-me uma data que não coincide com a minha memória central, isto poderá ter dois motivos: Primeiro, que o meu sistema foi manipulado de alguma forma. Segundo, que eu estive desligado durante séculos.
Eu sou Cerilis, Eurobot XI, unidade...ou fui. Não sei o que sou na verdade, mas a minha memória central permanece intacta.
As estrelas sobre mim formam os padrões da Terra no meu banco de memória. No entanto este não é o mundo que conheço, o berço da humanidade. Olho o chão na minha base, o aspecto do solo é terrestre e familiar. Coníferas e vegetação perene atingem a altura de um terço da minha estrutura. Na minha base de dados isto era um deserto. O céu está livre de sinais electromagnéticos. Contraditório, tendo em conta que o ar está altamente contaminado e não é possível o ser humano sobreviver nestas condições. De alguma forma a vegetação adaptou-se e o planeta vive.
Sou uma máquina de guerra. A minha missão é defender a fronteira Euro-Asiática e não deixar que humanos passem esta linha de defesa, para isso estou armado para exterminar quem o tente fazer. A federação Euro-Americana está em guerra com a união Indo-Ásia, civis asiáticos tentam fugir para território Europeu aos milhões. Sou uma máquina de guerra que precisa do seu comandante humano, sem ele, sem ordens a seguir a minha existência não tem sentido.
A minha comandante é a Lituana Nina Fiodorova, ela de certa forma alterou a minha programação. Ela reprogramou-me para diferenciar humanos adultos de crianças. A minha nova missão é não exterminar os segundos. O meu cérebro é electrónico mas com capacidade de recolher novas informações e agir consoante a minha análise lógica. As informações da minha comandante faziam todo o sentido, até aos acontecimentos que tenho registados à data que fui desligado.
Tanques Indo-Asiáticos aproximavam-se da fronteira, sobre eles estavam sentadas dezenas desses humanos crianças, o meu sistema entrou em conflito entre exterminar a ameaça que avançava e não atingir esses humanos. A análise lógica foi não disparar. Suportei 8 impactos, ao nono fiquei offline.
A minha escotilha abre. Vejo algo num bunker à minha frente camuflado numa colina. A vegetação afasta-se para deixar um longo tubo metálico passar. Dele, algo que reconheço ser uma cápsula de lançamento voa na minha direcção. Controlo a sua trajectória criando um campo electromagnético. Mesmo sabendo que a minha armadura é de cybercrómio, não tenho ilusões dos danos que me causaria se a cápsula falhasse a escotilha e atingisse a minha armadura.
Eu tenho uma escotilha inferior, eu tenho escadas de acesso a ela, a cápsula de lançamento é para ser usada em casos extremos de radiação, de modo a salvaguardar a vida humana dentro dela.
Eu sou Cerilis. Não questiono nem confronto o meu comandante ou as directivas dos seus superiores.
Desta cápsula sai não a Nina Fiodorova pois de acordo com os meus dados eu estive desligado durante 648 anos e a vida dela há muito que expirou, mas sim um desses humanos criança. Activa o meu sistema de comando e apresenta-se como Aisuke Hiromi meu novo comandante. A idade, o aspecto, a linguagem que reconheço é não de um comandante das unidades Eurobot mas sim do inimigo. Manualmente este intruso insere dados no meu computador central. No ecrã aparece um asiático de bigode ao qual Aisuke baixa o olhar em respeito.
“O exercito de libertação não resistirá aos ataques da federação, tu és a nossa última esperança ”, afirma a cara no ecrã.
“Não o desapontarei professor”, responde o meu intruso.
O meu sistema assume a programação inserida manualmente. De uma unidade exterior recebo um upload de armas, máquinas, símbolos, estratégias, novas ordens.
Eu sou Cerilis, Eurobot XI, unidade 3009 da brigada de leste.
Eu não sou Cerilis, Eurobot XI, unidade 3009 da brigada de leste.
O conflito no meu sistema paralisa-me. O meu computador central e o meu banco de memória são dois sistemas distintos, onde a reprogramação do primeiro exige uma análise lógica do meu banco de memória e tudo nele é contraditório. Detecto diversos sistemas de armamento que desconheço ligados a mim a serem activados e lentamente a serem reconhecidos pelo meu computador central. Os meus reactores parecem-me ter sido substituídos com uma tecnologia que desconheço. A minha armadura está reforçada por um campo de forças electromagnético que não faz parte do meu sistema.
O meu computador afirma “programação concluída”, Aisuke grita: “as Zikons estão a escapar”. Automaticamente identifico o que é uma Zikon devido à alteração na minha programação e disparo dois misseis MrxIII em direcção a esses objectos voadores. Os meus misseis embatem nos escudos das Zikons não causando qualquer dano. Como? Nenhuma máquina humana resiste a estes misseis. Mudo automaticamente para os meus seis canhões Trakon com misseis de fusão.
O inimigo cai em chamas.
Estou em conflito de programação.
Na queda noto o símbolo do inimigo as letras FEA (Federação Euro-Americana) dentro de um logótipo que representa um olho, é o símbolo dos meus construtores, da Federação por quem fui construído e programado para defender. Sei disso, mas a minha análise lógica é um sistema externo à minha programação central e essa foi alterada para os ver como inimigos.
Ao longe vejo máquinas de guerra, centenas delas. Parecem-me Eurobots mas não o são. A minha análise à sua constituição mostra materiais que não conheço, armas que não possuo no meu banco de dados e 3.000 toneladas a mais do que eu.
Eu fui Cerilis, Eurobot XI, unidade 3009 da brigada de leste. A lógica diz-me que estou obsoleto, mas a energia que corre no meu sistema dá-me a ilusão do contrário.
Lanço uma bateria de misseis que não faz parte da minha linha de fabrico e não sei porque a lancei, atinjo diversos Eurobots que me parecem ficar offline. Detecto 18 morteiros plasma na minha direcção e automaticamente lanço 40 pods que atraem esses misseis.
Aisuke grita,”relatório de danos”. O meu computador central responde “integridade intacta” e Aisuke ri.
Observo a retirada da forças Federativas. Aisuke coloca-me em vigia automática.
A Federação é o meu novo inimigo. Eu sou uma máquina de guerra programada para defender o ser humano e atacar o ser humano. Uma contradição que é explicada na minha programação pela forma de cores, símbolos, bandeiras, estandartes, línguas e raças dentro da raça.
648 anos após ter ficado offline. 459 anos após a minha activação, o ser humano continua em guerra com ele mesmo em nome de ideologias de homens que esgotaram o seu tempo terreno e tudo por um palmo de terra.
Agora que já foi tudo dormir, eu penso ir também. Apago tudo, deixando a casa numa doce escuridão, e vou para o meu quarto. Espero que o sono se apodere logo de mim. Pode ser à bruta ou não, o que eu quero é dormir. Dou uma volta, dou duas, dou três. Penso naquele texto que tenho de escrever. Penso no que quero realmente escrever. O sono não vem. Acendo a luz do quarto, pego no bloco de notas, e na caneta. Começo a escrever, mas chegada a um ponto leio o que escrevi e sinto que falta uma coisa. Sentimento. Sinto apatia a escrever uma coisa que me devia causar lágrimas, porque afinal estou a escrever sobre mim. É uma apatia que esconde lágrimas e dor. Rasgo as páginas porque já não fazem sentido. Não consigo dormir. Penso em vestir-me e ir até ao mar, a meio da noite, mas fico-me pelo pensamento. Penso que quero morrer. Saio do quarto, vou para a sala onde o frio e a escuridão imperam. Na janela vislumbro o mar, mais perto a ponte. Na mesa os comprimidos e a garrafa de vodka. E tudo me chama. Eu fico a pensar nas possibilidades, fico a concretizar tudo na minha mente, mas apenas na minha mente porque no fundo até sei que não é o que quero. Sou capaz, mas não é por aí.
A ponte é de todas a solução menos elegante. Menos romântica. Seria a que eu nunca tomaria. Gosto do mar, gosto de sentir que o mar tomaria conta de mim, mas aqui sempre existe a hipótese de tubarões. A minha forma favorita de morrer, é como a das estrelas. As que brilham mas não aguentam esse brilho e acabam por se apagar. A garrafa de vodka e os comprimidos em cima da mesa chamam por mim, tal como chama a ponte, tal como chama o mar, porque eles não me chamam, eles estão simplesmente ali e é a Noite quem me chama. Deito-me no sofá, e continuo a imaginar o processo. Gosto de imaginar como seria, não morrer, mas o depois. Encontrarem o corpo. Chocarem-se. Quem sabe até chorarem por mim. Imagino a família a receber a noticia e a chorar. E é nesta parte que fantasio mais. Imagino o funeral, as palavras falsas que diriam de mim, os falsos sentimentos. E sei que também é por isso que não quero. Porque não quero as lágrimas falsas, porque não quero que digam depois da morte o que nunca sentiram em vida, só para parecer bem.
O sofá não resulta. 5 da manha, marca o relógio. Tarde, muito tarde. Para quem tem de se levantar daqui a 3 horas e passar 5 em viagem seguidas mais não sei quantas em reunião. Decido que é tempo de ir dormir. Mesmo que não queira. Num último relance à garrafa e aos comprimidos, constato que nunca estiveram lá. Abro a porta do quarto, deito-me na cama, e continuo a imaginar. Até de manhã.
Eu escrevi a primeira, passando apenas a última palavra do meu texto à Ipsis Verbis a qual ela usou para escrever a sua parte e me deu a sua última palavra e assim sucessivamente.
(As palavras passadas entre nós, aparecem no texto apenas uma vez)
Bruno Fehr - verde garrafa
Ipsis Verbis - vermelho vinho
Palavra passada entre nós - "Chamas"; "Casamentos" e "Viver"
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