Cadáver Esquisito VI  

Posted by ipsis verbis in

O próximo texto é o sexto da rubrica "Cadáver Esquisito". Desta vez só houve 2 partes. Eu escrevi a primeira, passando apenas a última palavra do meu texto ao Bruno Fehr a qual ele usou para começar a escrever a sua parte.
(Como ambos usámos essa palavra, a mesma aparecerá no texto apenas uma vez)

Bruno Fehr - verde garrafa
Ipsis Verbis - vermelho vinho
Palavra passada entre nós - "Frio"

Semi-frio  

Posted by ipsis verbis in

Estava uma manhã solarenga e havia já movimento na rua principal. Seriam umas 8h...
Acordar sem relógio ou telemóvel por perto obriga-nos a observar outras coisas primeiro e eu observei tudo, enquanto fumava o primeiro cigarro à varanda.
O calor que já se sentia e fizera desabrochar as peles que agora se mostravam coloridas pelas marcas de outras roupas. Os sons de diferentes línguas e o cheiro de vários perfumes... a calma e a paz... isto tudo inundava-me de prazer e eu não pensava em sair daquele sítio tão depressa. Estou de férias. Sozinho e, para já, não preciso de mais nada, a não ser o meu portátil e o meu tabaco.
O primeiro café do dia, surgiu por volta das 10h da manhã, numa esplanada cheia de pombos e gentes. Bebi-o como quem bebe um copo de vinho... e demorei-me nele até ficar
Frio.
Gelado é como me sinto. Não sei por que estou assim, tremo por todos os lados. Estou só. Caminhando na neve sozinho no mundo. Este mundo é branco, lindo mas gelado e eu congelado sem forças para lutar. Combato-me tentando escapar, quero ser livre sair desta prisão, mas sem sucesso. Sinto que estou algures no tempo ou quem sabe numa vida passada. Choro, grito mas ninguém me responde, ninguém me ouve, ninguém quer saber. Tenho medo. Já vivi esta vida não sei dizer bem quando, mas há muito, muito tempo já aqui estive, neste local, sentido o mesmo... frio. Luto novamente, revivo a dor.
Se conseguisse falar não saberia o que dizer. Se conseguisse mexer as pernas eu fugiria, mas se conseguisse mexer os braços tomaria a minha vida, só para não tomar a tua.
Por favor ajuda-me a sair daqui, está frio deixa-me entrar, abre-me a porta, ajuda-me a acordar.



Fim

...  

Posted by mf in

Minha
a cruz
de te ter
preso
em meu
coração
eterna
tormenta
mar chão
onde me deito, onde sossego, onde me deleito e me entrego, oceano perfeito onde navego.
Da dormência, do desencanto brota clarividência e espanto, pela efervescência que decanto,
pelo renascimento, renovação, reacendimento, ressurreição, abrasamento em tua compleição
sedutora
senhora
que me
conquista.
E tudo é
respiração
ternura
roçagar
procura
um botão
pundonor
pesquisa
e rubor
contacto
encarar
acicate
arquejar
gemido
ardência
sussurro
cedência
rompante
e clarão
desvario
paixão
tremura
abraço
placidez
cansaço
lábios
sudação
frescura
lassidão
âncora
cravada
perpétua
e amada.

Levada...  

Posted by Jane Doe in

Fecho a porta. Com estrondo. Porque me apetece. E sei que não vem atrás para dizer "Não vás!". Até porque desta vez nem sabe onde vou. Nem eu. Mas, para o caso de não voltar, fecho a porta com estrondo. Para que nunca se esqueça de mim.

Está a chover. E eu não sei por onde vou. Sei que estou a ir. Como se alguém puxasse os cordelinhos das minhas pernas e as fizesse mover ao som da sua vontade. Eu deixo. Quero ser levada. Não quero ir, se não ser levada. A chuva está a começar a empapar-me a roupa, mas isso deixa-me indiferente. Quem sabe devesse ir tirando a roupa pedaço a pedaço. Porque empapada, torna-se apenas uma extensão da chuva. Nada mais.

E as peças de roupa vão voando para os lados, como se obedecessem assim, prontamente a apenas um pensamento. E eu vou continuando a ser levada. Sem norte, sem sul, sem direcção. As pernas continuam a andar, sempre movidas por alguma força alheia. E eu vou sendo levada sem saber onde nem porque. Parece que já andei horas. Não estou cansada, não tenho fome, nem frio. E tudo parece acontecer à velocidade do meu pensamento. Mas por agora a única coisa que pensei, foi mesmo que a roupa já não fazia sentido, empapada. E a roupa desapareceu.

Penso no mar, e ali está o mar. Calmo tal e qual como eu pensei nele. E continuo a andar com o mar à minha volta. E tudo à minha volta é mar. Estranhamente mar. Já não há terra, já não há pessoas, apenas o mar e uns quantos sóis. Porque eu pensei no por do sol. Pensei no princepezinho, que gostava muito do por do sol. E que via muitos. E ali estão sóis a porem-se para mim. A pintar o mar com as cores douradas de um fim de tarde de verão. E Arco-íris porque a chuva não deixa de cair.

Continuo a andar. Continuo a ser levada. Sinto as ervas roçarem nas minhas pernas, mas mal sinto os meus pés no chão. Sinto a brisa do vasto campo de flores silvestres, o aroma do amanhecer. E continuo a caminhar. Sem frio, sem fome, sem cansaço. Sem norte, sem sul, sem direcção.

Estou ao teu lado, parada, sentada. Continuo a ser levada. Sinto o teu olhar, e sinto uma paz que é impossível vir de ti. E sinto o meu pensamento, logo a minha voz perguntar...

Porquê?

E vejo-te de pistola na mão, a olhar para o meu corpo sangrento, sem qualquer expressão.

E o Vazio da noite toma conta de mim.

Capitulo II  

Posted by John Doe in

Jorge estava sentado à secretária a comer uma maçã. A secretária impecavelmente arrumada, com os papéis todos no cesto dividido por categorias. Apesar de ser alvo de chacota por todos os colegas de brigada, não dispensava a gravata, uma diferente todos os dias, numa camisa impecavelmente passada e bem vincada, sempre fazendo conjunto com o fato cinza, igualmente bem vincado. Os sapatos andavam sempre a brilhar e até a correia de couro que segurava a arma ao peito brilhava, com os cuidados que ele lhe prestava. Era metódico e contrastante com o resto do pessoal, com mais gosto pelos jeans e pelas t-shirts ou polos coloridos. Ele destacava-se pelo que vestia e pelo que era. Todas as investigações eram levadas por critérios firmes, sempre seguindo as regras. A sua taxa de sucesso de resolução dos casos era prova que tinha um bom método. Apesar de saber que alguns colegas davam uns "amigáveis" safanões aos suspeitos de ilícitos, "para acordar os que estão a dormir" na palavra deles, ele não conseguia fazer uso dessas metodologias. Preferia vencer pelo cansaço. Era conhecida a sua maratona de 4 horas em que, numa sala de entrevista, tinha feito exactamente a mesma pergunta a um suspeito durante o tempo todo. Apenas uma pergunta, nada mais que isso.
Quando escolheu a Polícia Judiciária foi para as brigadas dos crimes económicos. Após meio ano ali, decidiu que não era bem aquela função que tinha sonhado dentro da polícia. Estudou e candidatou-se a uma vaga nos Crimes Violentos. Tenaz como sempre, conseguiu a transferência. Há 6 anos que estava na brigada e com bons resultados. Apreciado pelas chefias, eram-lhe entregues os casos mais delicados. A sua equipa era constituída por mais dois agentes que, devido às horas que passavam juntos, eram considerados quase da família. Sendo alvo de riso por parte deles, não deixava de tolerar por saber que não era mais que uma forma de se rirem um pouco no meio dos crimes que investigavam. Ao fim e ao cabo, as vezes até ele se ria de si próprio. Sabia aceitar uma crítica, embora não gostasse de ser alvo delas.
Embrulhou o resto da maçã num guardanapo de papel e lançou para o cesto do lixo. Levantou-se, dirigiu-se à casa de banho no corredor para lavar as mãos. Enquanto ali, olhou pela janela minúscula e viu a chuva miudinha a bater na vidraça. Limpou as mãos às toalhas de papel e olhou-se no espelho. Ajeitou o cabelo, o nó da gravata impecavelmente feito e saiu. Ao chegar de novo à secretária o telefone tocou. Sentou-se cuidadosamente, puxando um pouco das calças para não vincarem e atendeu o telefone.

- Jorge, vem ao meu gabinete.
- Já estou a ir Dr. - desligando de seguida.

Apanhou o casaco do bengaleiro à porta e saiu. Um telefonema do chefe queria dizer trabalho e do sério. Normalmente os processos chegavam à sua mão pelas chefias intermédias, mas quando o Inspector Chefe o chamava directamente era sarilho dos complicados. Subiu os lances das escadas em passo acelerado e correu o corredor até à porta da chefia. A secretária olhou para ele e sorriu.

- O Inspector Chefe espera-me.

Ela pegou no telefone e marcou a extensão devida.

- O inspector Rodrigues está aqui.

Depois da resposta desligou o telefone e encarou-o

- Pode entrar inspector.

Ele abriu a porta e entrou. A sala era três vezes maior que as salas das brigadas, alcatifada em vez dos tacos de madeira e decorada, ao contrário das paredes nuas das outras. Por trás da secretária, na parede, uma fotografia do Presidente da Republica de ar grave. O Inspector Chefe era um sujeito magro, com fama de duro, que tinha subido dentro da polícia por mérito próprio. Era estimado pelos restantes porque sabiam que era justo e nas alturas das promoções não se esquecia de quem verdadeiramente merecia. Era um homem astuto, sabia ler as pessoas e não era raro os comentários que para o chefe saber tudo bastava olhar para as pessoas. Jorge sabia que não era assim, mas quase.

- Senta-te Jorge.

Ele puxou uma cadeira que estava junto à secretária e sentou-se. Era bem mais confortável que a cadeira em que habitualmente se sentava à sua secretária.

- Temos caso? - perguntou, recostando-se muito direito para não enrugar o casaco.

- Temos e dos grandes.

O Inspector Chefe pegou numa pasta que estava à sua frente e passou-lha para as mãos. Era uma pasta grossa, cheia de documentos e fotografias. Jorge abriu-a. Os olhos abriram-se ao máximo enquanto folheava as fotografias do processo. Já tinha visto muita coisa, mais do que o comum dos homens alguma vez veria em toda a sua vida, mas nunca tinha visto algo assim. Depois de percorrer os olhos por todo o processo, contou pelo menos 5 vítimas de uma selvajaria descomunal. Fechou a pasta e olhou para o Inspector Chefe.

Freedom  

Posted by Bruno Fehr in

The flag danced in the mild breeze, its swells and crests an impression of the verdant hills that surrounded our camp. Its two black horizontal stripes framed a central white one. It was a constant reminder of our conquerors, not that we needed one. The seamless wooden walls and the sentries rooted in equal intervals along its perimeter were enough.

A great horned owl hooted a farewell to the departing night. I rolled off my mat, and massaged my lower back in attempt to alleviate my numerous aches. Sliding into my leather boots, I moved silently so as to not to wake the others. Two buckets lay nearby, attached to an oak pole as thick as my wrist. I slung it behind my shoulders and headed to the slithering stream that bisected the camp. The dull monotony of my task and the hypnotic rushing of the waters encouraged reflection.

It must have been over forty seasons ago. I had been out washing my car, taking care to ensure that every harsh line gleamed in the Citadel sun. The hiss of static had suddenly blared from the radio and a wavering screaming voice appeared and warned of invaders from above. I laughed at first, thinking it a grand joke. It had been done before, after all.

The laughter died as they landed. I watched in awe. According to everything I had learned in school, what I was seeing was impossible. But there they were, sharply dressed, and carrying weapons designed for their appendages. I stood my ground, watching them amongst the piercing screams and the sounds of fleeing footsteps. They quickly overcame what little defense we managed to muster.

Gathering all the citizens together, they locked us into schools and community centres. There was an irony to that. Our emergency shelters were being used to cage us, but I was in no mood for humour. After a few weeks, the smells of rotting flesh and human waste, and the cries of the sick and starving enveloped me. Amongst all that decay, the lone bright spot was finding my brother, stunned but in good health. We stuck close together after that, sleeping in shifts with makeshift clubs close at hand to ward off attacks by those desperately seeking food, any food.

One day, without warning, they opened the doors. They told us we would be moving away from the coast. “It is no longer safe here,” they said. “Humans were not meant to inhabit these regions. Gather what little you can carry.”

My brother contributed to the shouts of protest. “This is our land you fuckers. We're not moving,” he said.

In the end we had no choice. They radio tagged us and roped us together. Thus began our migration. They were kind to us, I suppose. It was no death march. The pace was manageable and they flew in food and water.

Along the way, we joined with other bands composed mainly of dreary, desperate stragglers hoping for some way to escape the predicament. They were unwelcome, more mouths to feed. But at least they had news of the outside. I was shocked to learn that the entire world had been overwhelmed and the major powers defeated in a large military operation, their industrial capacity left in ruins. Oil refineries, fisheries, weapons factories and power plants were among the long list of industries destroyed.

“This is madness,” my brother said. "We have to get rid of them. This is our land. They can’t just come here and destroy our civilization. What are they going to do with us anyway? How do they plan on feeding us, on providing shelter and warmth? They’re leading us to our deaths. We need to fight back. We outnumber them. We can kill them.”

“Delendi erunt.” They must be destroyed. That was the motto of Humans for Humanity, the group my brother formed. They were a small and disorganized bunch of men playing at resisting, meeting in shadows and speaking Pig Latin. It hasn’t changed much in the intervening years. The zeal of its membership is as blind as ever. They’ve managed to murder a few of our captors, but no more.

A guard’s shout woke me from my reverie. “You there. The hunters have arrived. See to them.”

I knew little about the hunters. They were always grimy, their ripped clothing hinting at lithe muscled bodies beneath. They looked above us and they limited themselves to short, unrevealing sentences. They would return to the camp every couple of weeks and trade their meats and furs for the goods and supplies that we produced. I do not understand why they were trusted to leave the camps when no others were. Why they returned was an even greater mystery.

Moving to fill the leather canteens at their sides, I asked the first one, “What’s it like out there? Any news?” He didn’t reply. “Listen,” I said, “we don’t have much in the way of flowers in here. If you can bring me some fresh ones the next time you return, I’ll make a new shirt for you. If you can find some roses, it’ll be boots instead.”

“Done,” he replied.

Even in the camp, flowers still worked. Why we were allowed to breed, I do not know. Suffice it to say, there is something to be said for sustainability.

I made my way back to the stream to re-fill the buckets and my memories enveloped me once more.

After a few months, we had arrived in the hilly rolling countryside that I have learned to call home. Without any equipment, any fuel and with only the most basic of implements, we constructed our first camp.

We built two more in different locations over the years and each year we moved to a different camp and allowed the old one to lie fallow. Our captors initially brought in supplies, but eventually we learned to provide for ourselves. We farmed. We chopped wood. We planted groves. We made tools. We fished. We did everything that was needed. Over time, our camps began to feel more like rustic villages than prisons.

I guess that was the first sign that I had embraced the new way of life. It seemed the best way to adapt to the present situation and is not so bad. It’s a hard life, but I’ve found more satisfaction these past few years than I ever did being an accountant. Many others however, still dream of regaining our old way of life.

“Whose side are you on?” My brother’s voice cut through my daydream.

“What?” I asked.

“I’ve been watching you. You haven’t been to a meeting in nearly six months. You don’t even try to resist anymore. You just wake up every day and do your job. You even spend your free time helping out. Don’t you see? You’re doing exactly what they want you to. You’ve been pacified. You disgust me.”

A guard saved me from having to reply. He walked up to us awkwardly and flipped the switch on the small voicebox he wore around his throat. Looking at my brother he spoke, “Get back to work.”

My brother looked at me and spat. “Collaborator,” he said.

When he had left, I turned to the guard, head bowed. “How may I help you.”

“We’ve been watching you,” he said. “It is time for you to leave and join the hunters. You can learn nothing else here. You may join a band or wander alone. You may trade and rest at any camp. We ask only that you speak of this to no one. You are free.”

“I do not understand,” I finally whispered, hardly daring believe what I had just heard.

“Yes,” the guard replied. “You do. That is why you may go.”


(Retirado de "Tales of Taenaris, volume 3", que está em fase de tradução para Português)