Cadáver Esquisito V  

Posted by Bruno Fehr in

O próximo texto será o quinto da rubrica "Cadáver Esquisito". Eu escrevi a primeira parte, passando o ultimo parágrafo à Ipsis, o qual ela usou para escrever a segunda parte, tendo-me passado unicamente o seu ultimo parágrafo e assim sucessivamente até ao final.

Bruno Fehr - verde garrafa
Ipsis Verbis - vermelho vinho
Paragrafos passado entre nós - Cinza

Se conduzir...  

Posted by Bruno Fehr in

Não sei quem sou nem o que faço aqui. Sei que estava em casa e resolvi sair. Bebi, bebi muito. Não sei quanto nem importa. Olho em volta e não conheço ninguém. Mais um cigarro, mais um vodka e sigo viagem. Estou zonzo, sinto-me a querer vomitar. Abro a porta do carro e mesmo antes de entrar vomito. Sinto-me mais leve mas mais zonzo. Ligo o carro e sigo sem rumo.

Nem duzentos metros conduzi e bati em algo... uma pessoa.

- Foda-se!
Deixei o carro ir abaixo. Travei-o depois e olhei pelo retrovisor. E antes de ver mais alguma coisa, vi os meus olhos cheios de medo.
Eu estava a tremer por todos os lado. Desliguei o rádio. Respirei fundo, e desapertei o cinto.
Não queria ver o que tinha feito. Esperava que a pessoa estivesse bem, que tivesse sido só um arranhão.
Mas acho que o arranhão estava no meu carro e não naquela pessoa.
Abri a porta, pus um pé no chão e... Foda-se o que é esta merda?! E era mesmo merda, e parecia humana.

Com a sorte que tenho, o mais certo foi ter atropelado alguém que estava a aliviar-se mesmo aqui.

Parei o carro e saio. Vejo um jovem imóvel no asfalto, "que fiz eu?". Hesito entre fugir ou ficar, não fujo pois uma multidão já se encontra no local muitos mais se aproximam. Na minha cabeça está um furacão de pensamentos afogados em álcool. Não consigo parar de olhar para o rapaz no chão, "destruí a minha vida. Pior, destruí a vida de alguém, pois a minha já não valia nada".

As vozes das pessoas à minha volta, não passam de ruídos dos quais só distingo as palavras "bêbedo" e "morto".

- Calem-se, caralho!
Sento-me no chão, com as mãos a tapar a cara. Não me sinto bêbedo e nem sequer estou nervoso.
Sinto-me no limite entre o que penso que sei e o que é mesmo. E aquele corpo ali no chão rodeado de pessoas faz-me acreditar que estou mesmo acordado e que isto foi mesmo um crime.
Sinto o cheiro do sangue. Mas não quero saber se aquilo ali, apenas a uns passos de mim, é já um cadáver.
Quero voltar atrás no tempo. Quero não ter feito aquele brinde, que se viria a repetir pela noite fora. Quero acordar...
Foda-se! Estou atrasado para o casamento.

Contos Egóticos  

Posted by Bruno Fehr in

Ele é o Pedro Renato e ela a Maria Rita, este casal ama-se e sente um tesão constante um pelo outro, o único problema é que não sabem dizer os R's. Neste caso nem os sabem dizer, nem os sabem escrever. Sinceramente duvidamos que eles próprios se tenham apercebido deste problema de expressão.

Neste conto ele encontra-se no Brasil em trabalho e resolve escrever uma carta à sua amada. Ela por sua vez reponde-lhe.

Os "Contos Egóticos" é uma rubrica escrita por Afrodite e Bruno Fehr.

Contos Egóticos III  

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Guio de Janeigo, Bguasil, 03 de Magço de 2009

Minha queguida Guita,

nem imaginas as saudades que tenho tuas, queguia que aqui estivesses a meu lado.
Estas gapaguigas bgasileigas são gigas, com uns bons cagueigos, mas não como o teu cagueigo lindo, bganco, o qual adogo deixague vegmelho das minhas pancadinhas de amogue.
Que megda de altuga paga a minha empguesa me mandague paga aqui. Sonho todos as noites, no dia em que vou voltague paga ti, pegdegue-me nos teus bgaços, chupague-te os teus lábios, lambegue-te a tua gata húmida bganquinha e gapadinha. Não há outga gata assim no mundo. Quego ouvigue-te a sussuggague a meu ouvido "engaba-me de fogça" amogue, e aí eu sacaguia do meu bacamaguete e penetgava-te esse fantástico cagueigo que está sempgue pguesente na minha memóguia.
Hoje mastuguebei-me quatgo vezes só de pensague em ti, no teu gabo, na tua gata, nas tuas mama guedondas e na tua caga lida.

Tenho muitas saudades tuas e das nossas fodas à bguta, minha pguincesa.

Do sempgue teu,

Pedgo Guenato


Bagancos, Pogtugal, 3 de Magço de 2009
Queguido Guenato, a tua paguetida deixou-me foga de mim, não me apetece comegue, bebegue, fodegue, nada...fiquei um guesto de mim quando paguetiste. Não me apetece sequegue afagague a gata...só de te imaginague aí com essas bgasileigas ofeguecidas, cheias de comichão na gata, com a gata aos pulos, fico enfuguecida, apetece-me pegague no pguimeigo avião e paguetigue paga junto de ti, amogue! Não sei como vou vivegue tanto tempo sem te vegue, sem te sentigue, sem te tegue dentgo de mim. Ainda me lembgo do dia que te levei ao aegopogto, que me puxaste paga a casa de banho e ali mesmo me engabaste a sangue fguio, és tão gomantico amogue, nem sei como me dizem que não és boa guês paga mim, és tudo o que sempgue sonhei. Quego-te tanto! Já instalei a webcam amogue, hoje à noite posso vegue-te a afagague o São Beguenado enquanto eu afago a gata! Aiii que dogue não te tegue pegueto de mim...que saudades!
Da paga sempgue tua,

Guita Magaguida

Coma (parte 3/3)  

Posted by Bruno Fehr in

Falhei mais uma vez, como em tudo vida nem na morte tive sucesso. Como é possível falhar na vida e na morte? O que preciso eu fazer para morrer?
Uma enfermeira, diz-me: "bem vindo de volta", como se ela se importasse. Como se alguém pudesse ser bem vindo de partida. Como se eu devesse estar feliz por aqui estar.
Quero voltar para onde estava. Não era vida, não era morte, era sim o melhor dos dois mundos, o meu coma.
Um médico informa-me que sofri danos graves na coluna vertebral. Ora, aqui está um informação útil, mas a intenção era mesmo essa, mas os danos deveriam ter-me levado à morte e não aqui, neste antro de malucos que constatam o óbvio.

"Temo que não voltará a andar"
"Desculpe?"
"Você encontra-se paralisado do pescoço para baixo. Lamento"

Lamenta, diz ele. Eu lamento que ele lamente quando não tem nada que lamentar, como se o facto deste parvinho lamentar me fizesse sentir melhor. Lamento mas não faz.
Não vou voltar a andar, nem sequer ficar de pé. Nunca irei conseguir comer sozinho, abraçar alguém, nem pegar numa caneta e perder-me de desabafos. Vou ser uma cabeça com um corpo parasita. Um inútil. Inútil, sempre fui, mas agora serei um inútil dependente. O mais triste é que serei dependente das pessoas que tentei abandonar.
Toda a gente tem direito a uma segunda oportunidade, mas eu só tive uma. Uma única chance de me matar. Falhei e como castigo não poderei conseguir esse objectivo. Eu não me queria tentar matar, eu queria conseguir.

"Foi-te dada uma segunda oportunidade de viver, segura-te a ela com toda a tua força", diz-me a enfermeira em tom sussurrante, interrompendo os meu choro silencioso.
Eu não pedi uma segunda oportunidade de viver. Uma segunda oportunidade de viver, deveria vir acompanhada por uma segunda oportunidade de morrer, e não vem. Mais um vez, e tal como à nascença a vida é-me imposta de uma forma cruel e a minha vontade de morrer não é aceite. Quero libertar-me, deixem-me ir...

A eutanásia é crime, mas só é crime porque alguém com poder dado por mim, com ordenado pago por mim o diz. A eutanásia deve ser uma escolha, uma recusa de vida imposta, uma vontade de ser finalmente livre e de libertar quem nos rodeia. Eu quero, eu sei que quero, nem mais nem menos que queria quando saltei daquele terceiro andar. Quero morrer.
Este meu estado clínico deprime-me por não poder escolher, por não ter controlo sobre mim. Choro numa dor tremenda, a dor de viver.

Só confio na Renata e por isso peco-lhe para ela escrever um E-mail a um amigo na Áustria. Ela não sabe Alemão, mas escreve o que lhe dito. Enquanto escreve, chora, perguntando "o que estás a fazer?". Não lhe respondo, mas as lágrimas dela queimam-me por dentro, ela é a única pessoa no mundo que não quero magoar, é a única pessoa no mundo com valor para mim e se pudesse, seria a única pessoa do meu mundo, do mundo que nunca criei.
A Renata tenta ler o que escreveu, mas não o sabe ler. Mostra-me e eu leio:

"Dr. Kusch, necessito com o máximo de urgência dos serviços da sua invenção. Irei transferir o dobro do valor que o senhor cobra pela máquina, para que me seja entregue o mais rápido possível"

O E-mail é enviado. Não cedo às pressões da Renata de lhe dizer o que acabei de fazer. Sem perceber o que está a fazer ela faz a transferência online em meu nome.
A Renata não sabe o que fez e nem imagina o quanto vou necessitar dela.

Já em casa, sou cuidado por duas enfermeiras que fazem turnos entre si. Recusei a ajuda de familiares, pois enquanto tiver dinheiro, poderei pagar e quando o dinheiro terminar, já cá não estarei.
Afinal há uma segunda, que é também a ultima oportunidade e que acaba de chegar pelo correio.
Dispenso as enfermeiras, não as quero em minha casa, a Renata tem a chave e deve estar quase a chegar, tal como prometeu.

"Abre-me essa caixa"
"O que tem dentro?"
"É um aparelho médico"

A Renata abre e vê um estranho aparelho, acompanhado de umas seringas e tubos.

"Para que serve isto, tudo?"
"É para um tratamento"
"Tratamento?"
"Sim, a minha única chance"
"E podes ficar melhor com isto?"
"Não posso. Vou ficar melhor!"

Ela liberta um sorriso, acreditando em tudo o que disse. Não lhe quero mentir, mas não lhe posso dizer a verdade, por isso digo meias verdades.
Antes de ela seguir as minhas instruções, digo-lhe para calçar umas luvas que as enfermeira lá tinham deixado. Não poderia partir e deixar que ela fosse punida pela minha morte.
O aparelho que comprei foi um exemplar da polémica invenção de um médico Alemão a viver na Áustria, chama-se a Máquina Da Morte, na verdade é uma máquina que efectua a eutanásia sem que alguém comenta um crime ao olhos da lei. Após a maquina ser montada e ligada à veia de quem quer morrer, poderá ser o próprio a activá-la.
A máquina está ponta, está ligada à corrente e só falta ligar a máquina a mim. Peço à Renata para substituir o meu tubo do soro, pelo da máquina. Os olhos dela brilham repletos de lágrimas, os lábios tremem. Ela sabe.

"Não tenhas medo, confia em mim"

Digo eu sorrindo. Ela acena a cabeça e continua.
Está tudo pronto.
Digo-lhe para colocar o controlo remoto debaixo do meu queixo, as luvas no lixo, onde se vão misturar com todas as outras e peço-lhe para partir. Preciso que ela saia, preciso de lhe dar tempo para sair e ser vista por outras pessoas. Preciso de esperar uma horas até ao meu fim.
Antes de partir, ela beija-me a face e de coração destroçado, diz:

"Não me deixes assim..."

Apesar da dor no coração de a ver daquela maneira. Saber que estou a magoar alguém que adoro, custa-me, mas tenho de ser forte, pois é isto que eu quero. Respondo-lhe unicamente:

"Não me obrigues a viver, assim..."



FIM

Coma (parte 2/3)  

Posted by Bruno Fehr in

Olho em volta e nada vejo. Escuridão total. Isto certamente não é o céu nem o inferno. Não tenho frio nem calor. Em algum lugar estarei com toda a certeza e tudo não termina com a morte.
Gosto disto. É como se estivesse numa sala sem paredes. Talvez tenha paredes, eu é que não as vejo.
Reparo que não falo comigo, simplesmente penso. Quem bom. Pensar é sem duvida a melhor maneira de conversar com alguém que nos ouve realmente. Alguém, que mesmo que não nos entenda, nos ouve e nos apresenta uma infinidade de possíveis soluções, respostas, argumentos, tal como as que eu me apresentei, tendo no final optado pelo suicídio.
Não estou minimamente preocupado com a reacção das pessoas ao verem-me pendurado pelo pescoço, do alto da minha varanda. Rio, ao imaginar-me pendurado ao nível da janela da sala do meu vizinho do primeiro andar, fazendo-lhe uma careta.

Aqui, neste estranho e escuro local para onde fui transportado após a minha morte, ninguém me pode incomodar, ninguém me pode chatear. É o oposto do mundo em que eu vivia, não querendo viver. Gosto de aqui estar e mesmo agora cheguei. Gostaria que pudessem ver toda esta paz. É lindo, pois não tem nada para ver. Mas, não posso mostrar a ninguém e ainda bem, pois se o fizesse mais gente quereria para aqui vir tornando este mundo, no inferno do qual acabei de fugir, no qual a vida me foi imposta, obrigando-me a suportá-la. É aqui quero morar, eu e o meu pensamento, que juntos somos um.
Aqui posso-me perder em pensamentos, estar sozinho sem nunca estar só. Eu gosto de estar comigo de conversar comigo, nem sempre me compreendo, mas ouço-me e no fundo é só isso que precisamos, de alguém que nos ouça, mais do que isso, que nos compreenda ou pelo menos tente.
Aqui, já não ouço vozes, só o meu pensamento, que na verdade parece não ser unicamente dentro da minha cabeça, pois ouço-o com o eco deste local que me parece infinito.
Não me sinto a passar pelo tempo, é como se ele não existisse, tal como nunca existiu, mas que mesmo assim sempre controlou a minha vida. Não me sinto cansado, sinto-me novo e livre.

O meu silencio é interrompido por sussurros... são vozes, mas não as que ouvia antes. Estas parecem falar de um local fora do meu infinito. Vozes de pessoas atarefadas que quebram o meu silencio. Não. Não quero ser interrompido, quero o meu ruidoso silencio de pensamentos, quero perder-me em divagações sem sentido, quero tentar perceber o que penso e conversar comigo próprio. Deixem-me.

"Não vais ouvir o que dizem!"
"Voltaste?"
"Eu nunca parti"
"Mas..."
"Podes tentar matar-te, que eu não te vou deixar"
"Tentar?"
"Vida. Morte. Nem tudo é preto e branco, há o cinzento"
"Eu matei-me"
"Há coisas piores que a morte"
"Eu estou vivo?"
"Não"
"Morto?"
"Não"
"Então mas..."
"Ouve as vozes"
"Estão longe, não consigo ouvir"
"Não ouves porque não as queres ouvir, elas falam para ti. Luta"
"Luto? Passaste a minha vida a dizer-me para desistir"
"Ahahah, luta"

Não estou morto, não estou vivo, onde estou? Como estou?
Não vejo uma luz ao fundo do túnel que me levará ao céu, nem um buraco sem fim que me levará ao inferno. Nada!
Sinto dor. Não é bem dor, sinto uma dormência pelo corpo, uma inércia que me parece dor, mas não dói, é... Estranho.
A minha escuridão é quebrada por uma linha de luminosidade horizontal que ocupa todo o meu campo de visão. Uma linha semelhante à do horizonte que dividia o mar do céu, em todos os por-do-sol que vi. Gostaria de ter visto mais.
A linha aumenta de tamanho invadindo o meu confortável mundo. Nada vejo, a luz cega-me. Vejo sombras, e lentamente os meus olhos habituam-se à luz o que me permite finalmente ver...

... Não!!!!



Final dia 23.02.2009