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(À Suivre - 07)  

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Sempre me fascinaram as atracções e na altura não conseguia compreender os seus mecanismos e na realidade penso que ainda hoje não os compreendo. Hoje que já sou adulto sei que há hormonas e cheiros e nuances e padrões e curvas e linhas e outras coisas que tanta vez as razões não explicam como um brilho inesperado no cabelo num dia de Sol ou um sorriso suave de lábios fechados ou uma simples e honesta gargalhada ou a surpresa daquele encontro mas saber todas estas coisas não me traz mais compreensão nem me facilita tudo o resto.

Todos tínhamos alguma inveja do Rubinudo mas esse não era um sentimento maldoso ao ponto de lhe desejarmos que algo menos simpático acontecesse ou que um dia ele acordasse com uma borbulha vermelhona e luzidia no nariz diminuto e direitinho e arrebitado ou que o cabelo de repente deixasse de ser fino e claro para se parecer com o ninho dos hamsters do Piloto ou que os olhos que eram cinzento azulados se estragassem de alguma forma, longe disso, apenas tínhamos alguma inveja e tínhamos mais que razão e razões para isso.

Nenhum de nós conseguia perceber como é que ele fazia mas era uma coisa quase sobrenatural que podia impressionar qualquer estreante nas nossas andanças e não havia dúvida que gostava de ter aquele poder e não se abstinha de o pôr à prova e não foram nem uma nem duas nem sequer vinte ou mais vezes em que entrava na pastelaria e punha-se a olhar para as vitrinas com ar perdido de cãozinho sem dono e para os bolos em forma de passarinho encorpados em creme e mais creme ou para as tortas de chocolate recheadas e cobertas ou outra qualquer doçaria que nascera da explosão de gemas de ovo com cascatas de açúcar e nos fazia crescer água na boca pelos olhos e havia sempre, mas sempre alguém que lhe passava a mão pela cabeça e com um: “coitadinho do menino que tem fome…”, lhe comprava a guloseima. Estranhamente ou talvez não, na maior parte das vezes eram senhoras que nós achávamos que tinham idade suficiente para serem nossas mães ou até mais velhas como as nossas avós mas nós naquela idade achávamos que todos os adultos tinham idade suficiente para serem nossos pais ou até mais velhos como os nossos avós.

Afinal o Rubinudo era um miúdo porreiro e invariavelmente dividia os bolos connosco, dentada a um mordidela a outro e lambidela a todos e ninguém se enojava com isso nem com a outra questão que a alguns de nós começava a comichar porque embora já pensássemos nisso das miúdas não pensávamos muito, mas no fundo todos sabíamos que viria um dia em que o iríamos odiar. Elas eram ainda pequenos seres ruidosos de voz estridente e que gritavam por tudo e por nada e que choravam por nada e por tudo e não percebiam nada de nada de tudo o que nos interessava e não as queríamos por perto mas ele parecia que as atraía como os bolos de creme e chocolate nos atraíam a nós e entre risinhos e cotoveladas e piscadelas cúmplices bastava que alguém se distraísse e lá vinham convidá-lo para um cházinho e bolachinhas e outras brincadeiras inaceitáveis a um membro efectivo de um grupo de aventureiros como o nosso mas ele não lhes ligava muito e limitava-se a sorrir e tinha um jeito de o fazer com os olhos enquanto se afastava que as derretia em suspiros e ais e no fundo todos sabíamos que já o odiávamos um bocadinho.

(À Suivre)

Retorno  

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-Desculpa, dás-me um cigarro?

-Porque não… até te faço companhia.

-Há muito que não te vejo por aqui.

-Costumava vir todos meses, às vezes com tempo e outras apressado, um dia distrai-me…

-E deixaste de vir!?

-Esqueci-me do caminho.

-E como chegaste cá hoje?

-Por acaso, deambulava sem destino e quando dei por mim estava por aqui.

-E encontraste-me?

-Parece-me que foste mais tu que me encontraste.

-Eu esperava por ti.

-Por mim?

-Ou por um dos teus personagens.

-E tens algum que prefiras?

-Tenho vários, gosto sobretudo dos loucos e dos perdidos e dos imprevistos.

-Porquê?

-Não sei, não tem que haver uma razão para tudo.

-Pois não.

-Vais voltar?

-Quando? Onde?

-Na próxima vez, aqui onde podemos partilhar um cigarro.

-E partilhar um caminho perdido ou um devaneio ou a imprevisibilidade de uma palavra sem contexto?

-Tinha saudades de te ter por cá.

-Parece-me que tinha falta de cá vir.

-Dás-me outro cigarro?

Ensaio – A chuva  

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Se eu pudesse postular determinava que quando chove o céu chora por alguém.

Se eu pudesse simplificar a chuva diria que ela é feita de água e de tempo assim como nós somos feitos de água e de tempo e de alma e de ainda outras coisas que se calhar não são assim tão importantes. Sei que sou mais chuva do que carne mas ainda não sei se sou mais alma do que chuva e gosto de a sentir molhada num dia sem frio e sem pressas e sem medos.

Se eu pudesse dissecar uma gota de chuva caída na palma da minha mão gostaria de chegar ao fundo da sua memória, saber por onde andou, por que rios, por que mares, saber se já escorregou pelo vidro de uma janela do quarto de dois amantes ou pelos beirais de um castelo de encantar ou apenas pelas ruínas de um casebre de pobre. Queria saber tudo desde que o tempo a fez cair do céu pela primeira vez até ao momento em que tocou na minha pele.

Se eu pudesse partilhar o espaço e o tempo com uma gota de chuva gostaria de cair sem vento sobre a árvore mais alta da floresta, folha sob folha, ramo sob ramo até me enterrar no chão tenro e ir cada vez mais fundo em busca de outras gotas em forma de fio e de rio e de mar e depois diluir-me, tornar-me indistinto sem deixar de ser único e esperar que uma brisa quente, um sopro de Sol me transformasse em ar e subisse devagarinho, bem devagarinho em direcção às estrelas até ser capturado pelo vento em flocos de nuvem e reiniciar a viagem.

Se eu pudesse explicar a chuva num dia de Sol perderia por palavras a magia de um arco colorido que tem numa ponta um sonho de menino e na outra o inalcançável. Nunca sei dizer em que ponta está o sonho e caminho sempre onde nunca consigo chegar e a chuva pára e ficam só os brilhos nas manchas de água a reflectirem o meu desejo.

Se eu pudesse dançar à chuva de gabardine comprida e chapéu de varetas ocas regressaria no tempo a um tempo fechado numa caixa de madeira sem mais outras cores que o preto e o branco e diferentes cinzentos e quem sabe não começaria a cantar com um sorriso nos olhos e nos lábios.

Se eu pudesse comandar em fúria a chuva lavaria todos os males e os meus pecados e restaria puro e vazio num Mundo sem graça e sem homens. Seria divino sem crentes e sem outras catedrais que não aquelas que se formam nas clareiras das árvores perenes.

Se eu pudesse ficar nu debaixo de uma chuva que fosse quente como a água que escorre em chuveiro, forte e compassada sobre os ombros e de braços bem abertos, gota a gota, poro a poro, isolava-me de pensar, de sentir, de me tentar perceber ou explicar.

Se eu pudesse imaginar uma chuva que não fosse chuva feita de água e de tempo iria fazê-la de algo doce e suspenso que se pudesse afastar como uma cortina que dá acesso a um outro palco. Gostaria de encontrar nesse palco um bando de actores interagindo numa performance sem ensaio, representando a minha vida em pantomina. Gostaria de ver a plateia vazia de público e cheia de letras e palavras e frases sempre a trocar de lugar e formando histórias dentro das histórias.

Se eu pudesse escolher que a chuva fosse só chuva ela seria a causa e a razão da vida e o desejo ou desespero de quem a tem ou de quem lhe falta e nada mais.

Haverá sempre Natal ?!  

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Por estes dias festeja-se o nascimento de um homem.

Por estes dias festeja-se o nascimento de um homem por quem se matou e se morreu. Por estes dias festeja-se o nascimento de um homem que deixou de ser vulgar para ser filho de Deus e de virgem e visionário ou revolucionário ou milagroso ou charlatão ou inspirado ou inspirador ou causa ou efeito.

Por estes dias sentimos a pressão da felicidade, a obrigação da caridade, o peso da solidão, a angustia da carência. Por estes dias fala-se de hipocrisia e de consumismo e de valores e de família e de tradição e de sagrado e de profano e de crianças e de velhos e de abundância e de fome e de certeza e de receio e de conforto e desassossego.

Por estes dias há luzes brilhantes e fitas e papel colorido e chamas a tremer em velas vermelhas. Por estes dias há lágrimas e lamentos secos e chamas apagadas em restos de vidas. Por estes dias há música e alegria e canção cantada do fundo do peito. Por estes dias há ruídos incómodos e a rouquidão de vozes que não gostamos de ouvir.

Por estes dias nos lembramos, por estes dias nos esquecemos. Por estes dias assinalamos dias que já foram melhores ou dias que já foram piores, recordamos ausências e lastimamos presenças. Por estes dias se morre e se nasce como nasceu e morreu um dia um homem. Por estes dias …

O gato  

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Olho pela janela e noto que não há outra luz além daquela que vem da Lua e dos reflexos da humidade que já cobre os telhados. Das sombras emerge um gato de cor indistinta, talvez pardo ou mesmo negro de olhos amarelos esverdeados e que avança pelos beirais com segurança e indiferença. Sinto que me olha com aqueles olhos de gato e incomodam-me os olhos dos gatos com o seu vidrado colorido centrado por uma oval negra.
Os olhos dos gatos são como os das serpentes, cheios de significado e vazios de emoção, quando me olham sei que não se limitam a ver o que mostro, mas conseguem ver-me a alma. Aquele gato, está ali parado a julgar os meus pecados e o pior é que lhe são indiferentes, como se todo o negrume da minha alma nada significasse na imensidão da noite.
Ouço um ruído no beco abaixo e o gato também o ouviu porque desviou os olhos da minha alma. Tento perceber o que causou o ruído no meio de caixas e de lixo e de restos abandonados de coisas que um dia foram importantes para alguém. O gato desce num salto do telhado para a ombreira de uma janela e de outro salto para outra janela e ainda outra para uma varanda e já quase ao nível do solo assume a pose do caçador.
Noto que se foca num caixote de ripas velhas repleto de garrafas vazias ou cheias de restos de líquidos e água da chuva. Um novo ruído e o gato salta para a frente do caixote, de unhas de fora aterra com as quatro patas em simultâneo no chão e enfia o focinho por baixo e vejo e ouço a aflição de algo pequeno e cinzento que tenta desesperadamente meter-se mais fundo na procura de um refugio. Tudo é tão rápido que nem consigo perceber o que está acontecer, ouço um raspar e um miado e um guincho que se extingue e vejo os olhos do gato amarelos esverdeados com a sua oval negra que me olham com a vitima imóvel pendurada na boca, olhos de serpente em corpo de felino que me fazem sentir que sempre serei mais presa que predador…

O inicio  

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Foi uns dias antes de tudo começar. Lembro-me de ter aberto os olhos incomodado pela luz do Sol que já ia alto e só ver verde em toda a minha volta e eu até gostava do conforto daquele verde e do cheiro da erva ainda um pouco húmida do orvalho da noite. Se hoje tenho saudades desses tempos simples em que nada acontecia, naquele dia recordo que acordei resmungão e a lamentar a monotonia de mais um dia em que nada de extraordinário ia acontecer e que o meu maior desejo era que algo extraordinário acontecesse. Naquele dia nada de extraordinário aconteceu ou pelo menos eu não reparei que algo extraordinário tivesse acontecido, mas estranhei uma revoada de pássaros lá longe sobre o pinhal que desce da colina dos arcos até ao regueiro da família Síldio e um estrondo oriundo de parte incerta que se foi esvaindo até se tornar um silvo e desaparecer.

Escusado será dizer que ninguém na nossa comunidade ligou alguma importância àquilo, tirando eu que era visto como um bicho irrequieto e trafulha e à espera de sarilhos apenas o Zoldi Ouriço conhecido por começar a mastigar bagas azuis logo que se levantava e a meio da manhã já andar a trombadar pelos caminhos, comentou que vinha ai coisa ruim e que o melhor era começar a encher a despensa. Recordo-me também que foi nesse dia que ganhei coragem para me aproximar sorrateiro do lago da fonte Castanha e espreitar o pêlo a luzir de gotas de água da Riú enquanto tomava banho…

A garça de Deus  

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Andava um dia um pastor a pastorar o seu rebanho que tinha cabras e tinha ovelhas e tinha carneiros e tinha dois cães que eram pouco peludos e compridos de rabo e perna alta quando sentado debaixo de uma árvore de folha caduca mesmo no final do Verão num daqueles dias que quando se sai de casa faz frio mas depois ainda se sua lá para o final da manhã lhe apareceu Deus. O pastor que não sendo beato nem daqueles que queriam ser sempre dos primeiros a comungar era crente na medida em que não tinha nenhuma razão para acreditar que não existisse um Deus e que esse Deus era o pai de todos mesmo dos bastardos e dos desgraçados e dos ricos e dos pobres e até do tonto lá da aldeia que gostava de levantar a saia às moças para lhes pôr à vista as truces à vista de toda a malta que se riam que se fartavam e sempre lhe iam pagando um copito na tasca. Por isso quando Deus apareceu ao pastor ele imediatamente percebeu que Deus era Deus e que até era parecido com as imagens que vira em miúdo num livro que havia na casa de já não se lembrava de quem e quando Deus lhe falou num vozeirão tremendo que parecia soprado dentro de um tubo comprido e estreito na boca mas que depois se alargava como uma corneta das grandes e bojudas ele assustou-se e só não se borrou todo porque tinha vergonha de o admitir em público.

Deus estava vestido de cinzento com um manto que lhe tapava o corpo todo com excepção das mãos e dos pés e da cabeça e tinha barba e um pássaro branco de bico bicudo parecido ou igual àqueles que costumavam andar no meio das vacas pousado no ombro. Uma graça como lhes chamava o marceneiro da casa do moinho e uma bela graça de penas brilhantes. Deus disse ao pastor que o tinha ajuizado e julgado digno de uma das suas garças divinas pela sua bondade e vontade de não querer mal ao próximo e de ser simples e humilde e de não invejar nem as posses nem as mulheres dos vizinhos e o pastor ficou contente porque afinal não era tão parvo como todos lhe chamavam e ia ter uma graça de Deus o que tinha de ser uma coisa boa. O pastor aceitou de Deus sem perceber muito bem porquê o pássaro e levou-o para casa e dá-lhe todos os dias água e farelos de pão que o animal ignora porque prefere comer baratas e um ou outro gafanhoto que apanha por ali e ainda espera um dia perceber ou receber de Deus as instruções para pôr o bicho a funcionar como deve ser e se não for daqueles que cagam ovos de ouro ao menos que diga palavrões como o papagaio da taberna.

Bicho  

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Bicho maldito. Maldito sejas tu que devoras e que sorves e que chafurdas nos restos das tuas conquistas. Maldito tu que esgravataste a terra e secaste o mar e sujaste o ar com o que sempre procuras e que nunca encontras. Maldito que nunca achas o que ainda te falta. Maldito que ainda e sempre te falta. Maldito tu que te aglomeras e que te espalhas e que te rodeias e que te enches e que te vazas. Maldito.

Maldito tu que procuras nos deuses uma razão e nas preces uma absolvição. Maldito tu que ensaias o riso e simulas o choro. Maldito tu que tens orgulho da avareza e luxúria da gula e inveja da preguiça e que te iras por isto ou por aquilo ou porque sim e porque não? Maldito tu que já não comes para viver e agora vives para comer. Maldito tu que sintetizas o esquecimento no fundo de uma garrafa, maldito tu que fumas ilusões, maldito tu que cheiras e que chupas e que chutas e que mastigas outras realidades de bicho maldito.

Maldito tu que gritas e te calas e que te incomodas e te acomodas e que te sentes e te consentes. Maldito bicho que rastejaste do nada para ambicionares o todo. Maldito tu que queres ser mais, mais que um bicho, mais que um enxame, mais que um deus. Maldito bicho hipócrita que te amaldiçoas.

Male partum, male disperit  

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Assimetrias. Preto e branco, recto e curvo, inodoro e pestilento, nascimento e morte. Vivemos a vida entre assimetrias. Já não gosto de me vestir de preto e ainda gosto de ver alguém vestir de branco e desconforta-me o inodoro e incomoda-me o pestilento, estou cada vez mais longe de ter nascido e mais perto de morrer. Na cultura em que me criaram o preto é a cor da morte e o branco é a cor do nascimento. Na fé que me impuseram vestiram-me de branco no baptismo e vestiram-se de preto no luto. Mas nunca gostei de me vestir de branco e não me lembro da dor de nascer, somos preservados pela memória do acto de nascer, apenas restamos como memória no acto de morrer, mas gostei um dia me vestir de preto sem ter que o associar à dor de alguém morrer.

Eu estou na minha assimetria ainda empurrado pelo bramir de mentiras que sei reconhecer como assimetrias de verdades. A verdade e a mentira serão talvez as únicas assimetrias que necessitam de juiz para serem julgadas na sua condição. A alegria é uma assimetria imprópria da tristeza e a verdade é a alegria que resta quando todas as tristezas das mentiras se revelam. Eu estou na minha assimetria seguro e alegre da minha verdade e triste pelas consequências das tuas mentiras. Tu estás na tua assimetria segura e alegre da tua mentira e triste pelas consequências das minhas verdades. Somos assimetrias a viver nas nossas assimetrias e seremos ajuizados nas nossas condições, eu seguro na minha verdade e tu segura na tua mentira.

Não estarei alegre na tua tristeza como tu estarás triste na minha alegria.

Agora e na hora da nossa morte  

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…Em nome do pai… não me lembro das palavras certas, nunca as quis aprender. Os homens nos momentos de aflição sempre se viraram para Deus e eu que sempre disse que este se alimentava de dor e sofrimento, aqui estou também a tentar lembrar-me das palavras que já não vou aprender. Em nome do pai e do filho… Sinto-me derreter de dentro para fora e tento tocar a dor e vejo um vermelho brilhante brilhar-me na mão. Em nome do pai e do filho e de outra coisa qualquer… Vejo tudo desfocado, sinto a cabeça húmida e algo a escorrer-me pelo pescoço que não sei se é suor ou sangue ou uma mistura dos dois. Em nome do pai… Deus terá que me aceitar mesmo não sabendo as rezas, deus vai ter que me aceitar porque se é deus sabe que terá que me escutar e que eu sou chato e persistente quando quero alguma coisa e deus vai ter que me aceitar. Em nome do pai e do filho e do espírito… Sempre acreditei no espírito, terá que haver algo maior que esta carne que sinto e não sinto entalada entre ferro e plástico. Em nome do pai e do filho… Sempre achei que neste momento preciso toda a minha vida se repetiria num reviver de avanço rápido e pausas eternas , imagens claras do que passou e os cheiros, gostava de voltar a sentir o cheiro do meu pai mas nem me consigo lembrar do que acabei de almoçar. Em nome do pai e do filho e do espírito santo... Nunca fui um santo e agora que sei que a morte está a chegar e já a vejo num manto negro de face pálida a sorrir, quero que ao menos me sorria, porque gosto de sorrisos e não sei há quanto tempo me sorriram sinceramente pela última vez. Em nome do pai e do filho e do espírito santo... Foi arroz, com frango ou talvez peru, foda-se porque é que me importa agora lembrar-me que pássaro comi ao almoço? Em nome do pai que está no céu… Deve mesmo de haver um céu para onde vão os merecedores da boa vida eterna, para onde vão os que acreditaram e veneraram o dono desse céu, mas deus sabe quem eu sou e o que fiz porque é deus, mas ainda deve de ter mais que fazer do que me julgar somente por eu não saber as ladainhas e eu não sei as ladainhas porque nunca as quis aprender porque nunca gostei de quem as ensinava e não gosto de padres, uns com aquele ar escanzelado de pecadores perdoados à nascença ou os outros anafados e bonacheirões que me faziam lembrar o pai natal já bêbado da consoada. Em nome do pai e do filho e do espírito santo… Na trindade há o pai e há o filho que dizem morreu por nós pecadores no seu egoísmo piedoso e eu sempre gracejei que não se importaria de morrer fosse por quem fosse porque sabia que tinha a cunha do papá lá sentado à espera dele, mas agora não me importava de ser eu o egoísta e que voltasse a morrer por mim. Em nome do pai e do filho e do espírito santo… Já só sinto a dor, deixei de ter corpo para só ter dor e todo o meu sangue tempera a terra de rubro, dor apenas dor. Em nome do pai e do filho e do espírito santo am…

O Privilégio do Disparate - What else?  

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Assim que dei os primeiros passos, caí, se calhar toda a gente cai ou talvez haja no andar já uns prodígios que uma vez que comecem já nada os faz cair. Aprendi depressa a cair de cu porque doía menos, embora custasse mais a levantar depois, havia toda uma manobra a realizar que para alguém com pouca experiência como eu era complicada além de que o cu me pesava, sobretudo depois de algum tempo sem manutenção e eu sempre fui algo cagão, então tinha que me inclinar para a frente, pôr uma mão no chão, o que comigo funcionava sempre com a direita e depois lá levantava o rabo até me conseguir ter direito e caminhar até voltar a cair, de cu, que eu aprendo depressa.

Ora eu e se calhar toda a gente, escolhe logo desde os primeiros passos uma situação de conforto em detrimento de mais facilmente andar para a frente ou se calhar não, as pessoas de sucesso que até podem ser felizes, sempre que caem, caem de forma a rapidamente se levantar e pouco importa os joelhos esfolados ou o sangue no nariz porque até lhe chamam construir e fortalecer carácter e o que não os mata fá-los mais fortes.

Somos empurrados pelo sistema que só nos quer ensinar e preparar a procurar e gostar da mudança, se estamos bem devemos estar preparados porque podemos vir a estar pior e se estamos mal devemos estar preparados porque podemos vir a estar melhor. A mudança pode ser lenta ou repentina mas é tão certa como o tempo e por muita desgraça que nos traga deve ser encarada como uma bênção porque nos dá uma oportunidade de melhorar. Por isso se criaram os incentivos que tanto podem ser os ecrãs de dois metros e meio para o qual todos gostavam de ter parede ou um lugar no céu sentado à esquerda de alguém famoso.

Tenho que saber lidar com a mudança para ser feliz mas como se define a felicidade? Que direito tem alguém de definir a forma do outro ser feliz? E se eu não quiser ser feliz e se este ou o outro for um estado que me faz sentir qualquer coisa que eu não quero catalogar ou que me expliquem o que é? Perdemos a forma de saber cair de cu no chão com o passar dos anos e não sei se isso tem a ver com a procura da felicidade ou do graal que nos tentam impingir ou se é algo evolutivo como a mudança dos dentes ou os cabelos começarem a ficar brancos. A mim nunca me nasceram os dentes do siso, acho piada gabar-me disso, podes dizer que andas com uma gaja muita boa e que tens um carro com mais cavalos que os índios e um barco que já só te cabe dentro de água, mas a mim nunca me nasceram os dentes do siso e diz-me lá se não tenho razão em ser mais feliz que tu?

Aqui há dias estava à janela do escritório e houve um senhor de branco que passou e me acenou, parece que distribuía felicidade a quem a procurava e eu que de repente estava só à janela a ver os carros passarem, fiquei sem saber o que fazer, como naquelas situações em que se vai na rua e se acha algo de valioso e ficamos com os dois bichinhos o do halo e o dos corninhos um de cada lado do ombro a soprar conselhos. Eu não procurei aquela felicidade e não queria enganar o senhor de branco que faz tanto para parecer e ser boa pessoa e não sabia mesmo se devia tentar arranjar uma forma prática de a devolver ou se a devia guardar e assumi-la como um capricho da sorte ou um sinal da trindade que eu era abençoado, talvez por não me terem nascido os dentes do siso ou compensação por já não conseguir cair de cu, quem poderá saber os desígnios do senhor de branco ou de outros transitários de felicidade.

Orvalho  

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Deixo que a mão escove suavemente a face de uma folha verde e húmida. Percorro descalço estes bosques há mais luas cheias do que me consigo lembrar. Envelheço como as árvores em crescendo na direcção do Sol e permito que os meus cabelos se entrelacem como troncos finos que se afastam do meu corpo ao sabor do vento que me visita como um amigo de todos os tempos, os bons e os maus e aqueles que passaram sem voltar.

Nunca olho para trás no sentido contrário ao que sei ser o caminho. Não sei se as marcas que abandono no chão são visíveis para quem me possa um dia seguir nem quero que me sigam na ideia que possa saber para onde vou ou que os possa conduzir a outro lado que seja melhor ou pior. Não quero ser pastor nem parte do rebanho. Sou aquele por que se espera e pelo qual se desespera, a ínfima parte do infinito na ignorância de algo saber e nada significar.

Rastejo enquanto corro e nado sem asas por isso não me posso afogar no mel ou no fel que se destila de uma gota do meu orvalho, aquele que me escorre do vitral dos olhos. Lamento o destino dos que não vão lá chegar e o destino daqueles que já chegaram no fim do caminho sem ter sentido a suavidade da erva ou a agrura da pedra. Pior do que não ter esperança é esperançar o que não se pode nem faz sentido ter.

Romanceio a minha forma de ver a vida numa comédia trágica de enganos e trocadilhos. Falta-me ainda despir o preconceito da escolha para poder abraçar a doutrina do arbítrio. Saberás tu que me olhas sem perceber quem sou que sou apenas o que vês sem mais nem porém e que o fascínio da minha causalidade não te deve ser causa nem devoção? Saberás tu que o que me ainda me sobra não te deve ser a ambição do que te resta?

Gosto desta noite que me orvalha…

S.  

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Julgaste-me sem saberes o que me faz rir. Condenaste-me sem saberes o que me seca a garganta e o que me turva os olhos. Concedeste a ti mesma o direito de me julgares e condenares e fazes-me caminhar por um caminho de pó solto com uma mão dependurada, sinto o vazio da tua palma contra a minha, os dedos finos que não se enroscam nos meus, sem anéis ainda com a inocência de criança sem mácula nem compromisso. Vejo o teu cabelo solto escorrido a brilhar sob o Sol e peço-te um sorriso e que seja simples, sincero, espontâneo, quero um sorriso teu que possa cruzar com um sorriso meu. Vejo os teus olhos doces e perdidos e peço-te uma lágrima, quero misturar as nossas lágrimas e sentir os teus olhos molharem-me a cara. Um Sorriso e uma lágrima e algumas palavras, eu sei que te faltei e que por isso agora me queres faltar, matas o nosso futuro porque não tivemos passado. Já não poderei ver o corpo que descerás à terra, nem tu o passado que não conseguirás enterrar com ele e sinto agora a dor que sentirás depois quando já nos for tarde de mais. Vejo o teu cabelo solto e vejo os teus olhos doces e olho-te como se olhasse um espelho que me reflecte um lamento pela semelhança com que me vejo quando te olho.

Mercador de almas  

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“I sold my soul to the devil”. As palavras ecoam-me na cabeça até saírem pela boca, como um verso repetido de uma canção de que só me lembrava esta linha. “I sold my soul to the devil”. Se não se pode iludir a morte, poderia eu tentar iludir o diabo? Esconder a minha alma para que não a pudesse cobrar, simular aos olhos do demo a minha continuidade em vida mesmo depois de morto.

Troquei a alma por um punhado de sucesso, nem sequer estava desesperado faminto ou sedento nem desalentado somente quis atalhar caminho e não perder mais tempo. Não fiquei imensamente rico nem dormi com quem quis dormir, foi apenas um punhado de sucesso e agora não queria pagar o preço. Clamei por deus que me acudisse.

Imaginei que o melhor meio de falar com deus era de joelhos com os dedos das mãos entrelaçados e num tom de súplica. Queria propor a deus que roubasse uma alma ao diabo e que me deixasse continuar vivo mesmo depois de morto. Sabia da disputa de deus e do diabo na contabilidade das almas dos homens e por isso parecia-me um acordo justo, vendi a alma ao diabo mas só a poderia cobrar depois de morrer, assim pedi a deus que aceitasse agora uma hipoteca pela minha alma na troca da ilusão da vida e que juntos ludibriássemos o diabo. Tinha a certeza que deus teria sentido de humor e que tiraria algum prazer em enganar o rival. Estive de joelhos em súplica mas deus não me ouviu.

Falhado o contrato com deus, restava-me a possibilidade de tentar esconder a minha alma longe dos olhos do diabo. Alguém me disse que o mundo dos sonhos é feito de almas perdidas e tentei deixá-la por lá num sonho esquecido. Andei assim neste mundo meses vagueando sem alma mas os sons não me soavam, nem os cheiros me cheiravam, nem os sabores me sabiam, nem as imagens me imaginavam, nem os toques me sentiam e de repente o punhado de sucesso se pouco sentido fazia, passou a fazer nenhum e voltei a mergulhar nas águas dos sonhos e procurei pela minha alma dias a fio até a encontrar quase tão murcha como a sombra de algo que já morreu. Trouxe-a de volta.

Quis devolver ao diabo o punhado de sucesso mas o diabo não aceita reembolsos. Quis fazer ver ao diabo que a minha alma era coisa de pouca valia mas o diabo riu-se e disse-me que pouco era mais que nada. Quis implorar ao diabo mas o diabo não é piedoso mas somente um fornecedor de penitências. Por fim olhou para mim e perguntou-me se queria renegociar a minha alma e eu disse que sim e tornei-me a seu serviço um angariador de almas, troquei a minha por outras, estranhamente não deixei de ter medo da morte.

Prelúdio  

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Estas ruas sufocam-me. Por aqui respira-se o ar fétido do desespero de quem nada tem a perder e de quem nunca conheceu mais do que a miséria, prostitutas e ladrões e assassinos e restos de carne humana que sobrou de todas as nossas guerras, estas ruas que se encaixam neste rio em forma de serpente sem cabeça, são como escamas que não brilham e deviam de envergonhar o Império, mas na realidade sei que elas são parte das veias que o fazem funcionar. Políticos e nobres procuram aqui nestas ruas os criminosos para os seus trabalhos sujos e as raparigas e os rapazes para satisfazer os seus vícios sórdidos. Estas ruas sentem-te a falta meu amigo, ficaram mais fluidas de podridão desde que desapareceste e eu também te sinto a falta, até do feitio e do arranhar no violino e dos cheiros estranhos que te envolviam e da soberba inconsciente e sobretudo do que nunca me foi elementar meu caro Holmes.

Serve-me o consolo de que me espera o mais bonito sorriso do mundo, um sorriso que também te devo meu amigo, faz dois anos que caíste e eu quero continuar a acreditar que alguém como tu é imortal, às vezes imagino-te provido de asas ou melhor com a capacidade de prever a sua necessidade e de as inventar e carregar bem escondidas nos ombros, debaixo da casaca prontas para serem soltas por um cordel e que foste ainda capaz na queda de as abrir e planar em segurança e que agora andas por ai, como um anjo negro à espera de uma grande razão para retornar. A minha doce Mary espera-me e hoje vou voltar a falar-lhe de ti, vou-lhe contar uma das nossas aventuras e sorrir com o brilho de antecipação que lhe vou ver nos olhos, sempre treme durante a narrativa com a expectativa do desenrolar da história e anseia saber como conseguiste desvendar tamanhos mistérios e castigar quem perpetrou aqueles horrendos crimes.

(rascunho do início do Caso de Mary Morsten quem sabe a publicar por aí…)

Brincadeiras verbais  

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Até que idade se pode brincar com as palavras? Jogá-las ao ar como instrumentos de malabarista e deixá-las cair em invento de novas formas e significados. Pego nas palavras que me ocorrem, naquelas que sem mais razões me surgem de repente na cabeça e não sei porquê são palavras de raiva, não sei porquê ou talvez porque a música que me inspira é vigorosa em acordes e as palavras me fluem duras e ásperas e não sei bem o que fazer com elas porque o Natal se aproxima e não é uma época para usar palavras de raiva, devia procurar palavras poéticas, mudar o tom da música que ouço e mergulhar na inspiração de palavras de harmonia e de redenção e generosidade, mas o Natal não me inspira poesias mas hipocrisias e outras heresias e eu gosto de brincar com palavras.

Hoje estou aqui para brincar com palavras e arrumo a raiva e a falta de poesia numa frase vazia sem sentido nem contra senso e avanço com um jogo de palavras que confesso me é fácil jogar, tenho jeito para brincar com palavras, é para mim uma habilidade natural, não será com certeza um talento mas uma simples habilidade a de encaixar palavras, estou mais próximo de um pantomineiro de palavras do que um cantor de palavras e assumo a pele de um palhaço triste que pega em letras e compõe frases que não se tornarão obras de arte mas quando muito jingles de ficar no ouvido.

Eu hoje estou aqui e nada mais consigo fazer com elas do que brincar com as palavras e ensaio um arranjo verbal que possa ainda usar nesta época de Natal, monto acentos em bolas de letras e em fitas alternadas de muitas cores adjectivadas mas não consigo escamotear da cabeça algumas das palavras que me vão azedar os próximos dias, nas ruas há muitas luzes e brilhos e tudo me contradiz a não dever incorporar alegria nas frases que componho enquanto brinco com as palavras mas eu sou um trambiqueiro de palavras, limitado pela ausência, pela dor, pela falta, pela mudança que trás mas também tira e porque quando as faço rodopiar no ar sempre deixo cair algumas palavras em sentido ou no sentir.

Gosto de brincar com as palavras mas sei compreender o poeta que fingia e eu finjo com as palavras, finjo realidades e fingimentos nas entradas sem saída, finjo brincar com as palavras enquanto me escondo por dentro delas…

Resíduos tóxicos e outras coisas redundantes  

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-Bom dia posso entrar?
-Faça favor e faça favor de se sentar ali naquela cadeira de pé ao alto.
-Eu preferia ficar de pé se não se importasse?
-Na verdade importo-me porque seria indelicado da minha parte obrigar tão gentil criatura a ficar de pé quando existe assim disponível assento e olhe que é confortável.
-Pois percebo o seu ponto de vista mas não queria abusar da sua hospitalidade e ficando de pé mantenho a postura.
-Pois… Não sei que lhe diga, talvez lhe possa ao menos oferecer algo para beber, um refrescante ou um digestivo ou algo mais forte.
-Não por favor não insista, não posso de modo algum chegar aqui e sentar-me a beber das suas bebidas e algo mais forte poderia tolher-me o raciocínio, eu reajo mal a bebidas brancas.
-Tenho whisky, é amarelado ou dourado, já não seria branco embora o teor de álcool seja parecido.
-Não gosto muito do cheiro, enjoa-me, embora se for velho e maltado o consiga suportar, mas arranha-me a garganta e tendo a fazer caretas o que poderia ser mal interpretado dadas as circunstancias.
-Na realidade um liquido dificilmente pode arranhar, é tudo uma questão de percepção, os nossos sentidos iludem-se nestas coisas e depois eu nunca teria a ousadia de interpretar de forma errada uma expressão facial por muito esgar que ela demonstrasse, seria presunção da minha parte tentar entender algo que ultrapassa ao seu controlo.
-Mas não deixaria de ficar a pensar sobre o que pensaria de mim e da forma como não me consigo controlar, imagine que ficava a pensar que era incontinente e que de repente me podia ter mijado.
-Isso talvez se fizesse notar doutra forma, mas depende da incontinência, às vezes há apenas umas gotas que se escapam e poderão ser absorvidas pelo próprio tecido da roupa interior, também pode acontecer uma situação mais dramática e fluida que acabe por escorrer pelas pernas abaixo.
-Eu uso peças bastante absorventes mas claro que tudo tem o seu limite e a capacidade de absorção não é ilimitada, mas penso que no caso de fluidez visível poderia também notar um certo odor almiscarado, é que eu gosto de comer doces.
-É pouco provável porque tenho falta de olfacto, embora por exemplo as marcações dos gatos me deixem louco.
-Os gatos tem realmente essa particularidade, sobretudo se existem vários machos há a questão dos territórios.
-É por isso que gosto mais de cães e as questões territoriais são sempre importantes, sobretudo se faltam recursos, como a água e terrenos férteis.
-É verdade a falta de água é um problema incontornável do nosso tempo e creio que se irá agravar com esta nossa mania de usar e abusar e a poluição só piora.
-Eu tento reciclar e contribuir com a minha parte mas sei que não basta e temos mesmo que sensibilizar os outros.
-Sim tem toda a razão se não nos acautelarmos chegaremos a um ponto que será tarde de mais.
-Eu sempre digo que nunca é tarde, se for preciso mantenho a porta aberta até haver gente que queira entrar porque isto não está fácil e cada vez há menos dinheiro para gastar.
-A quem o diz, quando chego a meio do mês já começo a imaginar que ainda falta e pouco sobra.
-Porque se calhar não racionaliza ou gere mal a coisa, às vezes pequenos gestos somados, resolvem grandes obstáculos.
-Eu bem tento mas não consigo e acaba por ser superior às minhas forças.
-Pois a falta de força deve de ser tida como um sinal… Mas diga-me o que pretendia afinal?
-Três repolhos e um molho de cenouras.
-Isso é ao lado, aqui é um escritório de advocacia.

Palavra  

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Hoje sou abstracto na escrita e uso a palavra porque não sou firme no risco nem hábil no cinzel. Falo de uma rosa sem pétalas nem cheiro que se secou debaixo de um Sol que não se vê sobre as nuvens que não choram chuva porque são brancas como a imaginação de um sonhador de castiçais ou de um pasteleiro de bolos de sal e barro salobro e de uma menina de saia de vento que sopra balões de sabão sentada numa cadeira a quem lhe falta uma perna.

Debaixo do manto da noite esconde-se o némesis do medo apenas reflectido em charcos de água negra ou visível sobre a forma de sombras difusas que me fogem por becos de ruas que já não existem e onde já não há velhas à janela a invejar o par de namorados que se beija numa esquina ou o homem triste que fuma o último cigarro do maço amachucado e jogado ao chão.

Se todo o saber se puder concentrar num ponto fulcral e da ignorância se fizer alavanca qualquer vontade poderá içar a incerteza à altura da dúvida. O amor e o ódio medem-se pela mesma quantidade de letras e são ambos insignificantes em tamanho e tamanhos em significado e fazem-se oscilantes entre o amor que odeio e o ódio que amo.

Romanceio a vida de alguém que ainda não conheci porque hoje não saí deste quarto que não tem portas nem janelas nem há luz além daquela que trouxe comigo e sei que sou incómodo e que estas palavras sabem a um gosto azedo na ponta da língua se lidas em voz alta e que arrepiam a base da nuca se lidas sem som tal como a morte que paciente nos espera sem a sabermos fruto negro ou caminho de mel.

Hoje fui abstracto na escrita e usei a palavra porque não pude ser firme no risco nem hábil no cinzel e queria apenas um dia ser guerreiro armado da mais poderosa palavra que usarei redonda na defesa e afiada na estocada, assim o prometo assim o comprometo assim me submeto.

Contra o tempo com contratempos  

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Tenho na minha frente um teclado cheio de letras que olho de forma vazia. Uma vez mais o tempo que não consigo organizar, a vida que não consigo organizar levam-me a olhar o teclado e desafiá-lo para uma corrida contra um relógio que teima em não parar. Coloco os dedos sobre as teclas como se houvesse uma força interior que os vai animar e começar a escrever palavras num ecrã que ainda está em branco. A primeira palavra sai sem ter conhecimento da segunda e a terceira já se encaixa na quarta e a quinta dá significado à sexta e a sétima e a oitava e começo a escrever sobre alguém com que me confundo e que olha um relógio que muda a cada segundo, alguém que acordou de uma noite mal dormida ou de uma vida mal passada e que tem que escrever palavras nesta página que abandona o branco, palavras que tem que ser semeadas por ordem para poderem florescer em significado, palavras que tem que ser orientadas para serem lidas no encaminhar de sentimentos na direcção de uma ideia, palavras que escolho com preconceitos e sem preceitos.

Hoje sinto-me apenas um semeador de palavras com um compromisso de colheita e não sei se isso me agrada. Apetecia-me contar uma história que ainda não foi contada mas que não consigo encontrar no sufoco do relógio. Apetecia-me falar de diferentes sentires ou coisas novas mas confronto cada ideia com apenas outro mas. Não gosto do compromisso do relógio mas sei que a vida é mesmo assim, há sempre um relógio e sei que este é generoso e que me deu tempo para ter tempo de não ser agora apenas um semeador de palavras.

Abandono tudo e começo a escrever sobre alguém que não quero ser eu e que tem a ambição de ser escritor e que de repente se viu confrontado com um prazo para escrever algo e que não sabe o quê mas sabe porquê. Imagino-me como personagem desta história e pergunto-me a mim mesmo se me agradaria ler uma história em que eu fosse personagem e pergunto-me a mim mesmo se um escritor consegue criar histórias em que não seja ele próprio o personagem, mesmo que representado sobre outras formas e géneros e idades e envolvido em cenários que nunca viu mas que certamente imaginou. De repente cresce-me um sentimento de abandono porque eu realmente não me agradaria ler uma história em que eu fosse o personagem e se todos os personagens que consiga criar são apenas outras formas ou outros géneros e idades de mim mesmo então estou a perder o meu tempo ou mais grave estou desesperado com o passar de um tempo sem sentido.

Desisto e escrevo sobre flores e depois sobre o vento que não sopra porque está calor e sobre uma caixa de cartão sem nada escrito que foi deixada na porta de um prédio e que constitui um mistério para quem passa e a olha e se sente tentado a abri-la e escrevo tudo isto para tentar fugir de um personagem que não quero ser porque não percebo muito de flores e sei que mesmo quando está calor o vento ainda sopra e que na caixa não há nada porque fui eu que lá a deixei ou teria sido um personagem que imaginei que lá a deixou sem qualquer intenção de que constituísse um mistério para quem passasse e porque mesmo quem passasse na minha história seria um personagem com pouca relevância ou muito secundário mas ainda uma variante de mim mesmo e começo a perder-me no texto que escrevo e a achar que não farei sentido para quem o ler mas o relógio não parou e este personagem que imaginei como escritor ainda tem um compromisso de escrever um texto e resiste a apagar tudo e continua a escrever sobre rodas que rodam sobre rodas e de que quando nos olhamos num espelho o que vemos é apenas um capricho de luz que se reflecte e que acreditamos ser a nossa imagem e se calhar somos também nós personagens de uma história e eu sinto sempre uma enorme atracção para espreitar a ultima página ou a ultima palavra e que uma vez mais não deixa de ser o fim.

Na segunda pessoa  

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Saltou por cima da corda suspensa entre dois troncos de madeira, a corda bamba estremeceu quando lhe tocou com a ponta do pé, a corda bamba como a sua vida, estremeceu como estremecia a sua vontade de continuar em frente. Ontem como hoje como amanhã tentaria fazer este caminho, festejando como objectivo alcançado, cada metro, cada passo a mais que na véspera. Por vezes recaia, voltava para trás mais cedo, mais longe.

O próximo passo fazia-o chegar à esquina e de lá conseguiria já vê-lo, pleno, suave, fascinante, o retomar de um sonho perdido e desejado no complexo labirinto que se tornara a sua cabeça, uma arquitectura de ignorante louco na forma com que os seus neurónios se organizaram. Parou e hesitou, o ângulo frio das paredes protegia-o ainda, um passo mais… Um passo mais e conseguiria vê-lo e desta vez não iria ficar torpe pela visão, desta vez iria continuar, mas os pés não lhe obedeceram, ficaram ali imóveis agarrados às pernas, como se os músculos num repente se tivessem desligado de qualquer linha de comando.

Teimou e conseguiu avançar e dobrou a esquina e fechou os olhos, não queria que o choque da visão o fizesse parar e na escuridão do seu interior veio-lhe à memória aquele dia longínquo, os risos de criança excitada que antecipava a maior aventura do mundo e a mancha laranja que sempre lhe ofuscava a lembrança do rosto, a mancha cor de laranja que deveria ser protectora, infalível e que tinha falhado e que agora lhe ofuscava a lembrança do rosto mais importante de todos os rostos.

Lembrava-se da promessa que tinha feito, se conseguires isto fazemos aquilo, nem se lembrava mais qual tinha sido o objectivo, qualquer coisa tonta, alcançável com pouco esforço e apenas alguma vontade e ele fez num instantinho e voltou aos saltos para cobrar a promessa, vamos? Quando? Amanhã? Foram mesmo no dia seguinte.

Abriu os olhos, conseguiu abrir os olhos e ver, mas estava de novo parado e desta vez sabia que tinha chegado ao limite, não iria conseguir avançar mais e voltou as costas e fez o caminho inverso, de novo em direcção ao vazio, à ausência dos dias.

Foi num dia de verão, num pequeno barco a remos, as canas suspensas na borda, as linhas que furavam a água levando convites aos peixes que nem sequer por ali nadavam, mas não importava, era a alegria de estar com o filho, que de repente desaparecera, apenas porque alguém bebera de mais e os abalroou com um iate branco, de novo rico que não sabia o que fazer ao dinheiro e a mancha cor de laranja que o devia ter protegido de nada mais serviu do que agora lhe esconder um rosto que tanto queria voltar a ver e o mar que ficou tão longe.