Só nos EUA 28 milhões de soldados e 55 milhões de civis perderam a vida. Portugal era agora a porta de entrada na Europa de 25 milhões de refugiados. Toda a costa portuguesa estava “minada” do que restava da armada Norte Americana.
As palavras do meu capitão estavam em parte certas. A liberdade permitia-nos fazer e dizer o que queríamos, viver onde queríamos e foi dessa liberdade, ou ideia de liberdade, que nasceu a nossa arrogância alimentada pelo poder que por sua vez aliada às pressões comerciais e politicas que impúnhamos ao Médio Oriente, Ásia, América do Sul, África e Rússia deixámos, sem querer, que fosse criado um governo tirano que nos impunha uma falsa noção de liberdade fragilizada pelas cedências constantes de liberdades em troca de um falso sentimento de segurança, enquanto nos guiavam para uma guerra que só as elites loucas pensavam poder vencer.
Apesar de Norte Americanos e Chineses terem usado armamento nuclear, a aliança Indo-asiática não o tinham ainda usado contra a Europa, que vivia sob um ultimato de rendição.
Era uma questão de tempo até a Europa cair mas mesmo vivendo no chaos, o exercito e povo olhavam para as elites politicas que nos tinham arrastado para esta guerra em busca de respostas, de orientação, de soluções, e de lá nada vinha a não ser a constante propaganda orgulhosa que apelava ao nacionalismo mesmo que as nações estivessem em ruínas. Ainda assim o povo lutava, não pelo país, não pelas suas casas já destruídas mas pelas suas famílias. O que é uma nação senão um aglomerado de famílias? As nossas famílias!
(excerto de Teanaris - Livro Terra)
Quando olhas para mim, o que sentes? Sentes o que dizes sentir, ou dizes sentir o que pensas que sentes?
Eu vejo os teus olhos a brilhar na minha direcção. Os meus estão camuflados pela escuridão dos bastidores atrás dos focos de luz que iluminam toda a tua beleza. Flash, flash, flash e mais flash, enquanto te moves e olhas para mim.
Tu és livre e por seres livre não te posso prender aqui a meu lado e dar-te o meu amor. Tu queres viajar, ver o mundo, lutar por aquilo que acreditas e acreditas que o nosso amor estará sempre em stand by. Não! Isso não é possível.
Envias-me postais dos sítios em que não estou contigo. Escreves-me cartas que não leio. Envias mensagens a que não respondo, telefonemas que não atendo. Bates à minha porta e não abro. Não te posso receber só para te dizer adeus novamente. Não consigo abraçar-te por um segundo sabendo da eternidade de saudade que umas semanas de distancia me parecem ser.
Onde estiveres eu estou contigo. O portefólio que te levou onde estás e te levará onde irás é parte de mim, és tu sob o meu ponto de vista filtrado por uma lente. O meu portefólio és tu, não todo, mas a melhor parte. A beleza e o impacto destas fotos sobre terceiros é algo que só agora consigo explicar. Não é das maquinas, nem das lentes. Não é do cenário nem da iluminação. Não é da modelo nem do fotógrafo. A magia é do sentimento, do sexo implícito de uma sessão.
Como pode uma pessoa passar a vida inteira em busca do amor enquanto outra o encontra com facilidade, e vira-lhe as costas? Parece não fazer sentido, no entanto, fugir a um amor que não se compreende é mais comum do que simplesmente nos deixarmos amar e ser amados.
8 minutos para me apaixonar
8 horas de quente paixão
8 dias de profunda ilusão
8 semanas para acordar
8 meses para me afastar
8 anos de azar e de sorte
8 décadas até à morte
-Espera!
-Quando olhas para mim, quem vês?
-Quem és tu?
E tu que acabaste de ler esta divagação: Quem és tu?
(excerto de "Velho demais para ser", por Bruno Fehr)
Pouco ou nada durmo e sempre que adormeço entro numa queda sem fim, num buraco negro. Sinto toda a adrenalina a percorrer o meu corpo, todos os meus músculos contraídos, expectante, desejando e temendo o fim do precipício.
Todos nós passamos uma vida em busca do verdadeiro amor e no entanto quando o encontramos viramos-lhes costas como se a vida fosse unicamente uma busca. Dividimos um átomo em busca Deus com a mesma facilidade que o fazemos para destruir um país.
O meu pai sempre me disse que a vida é um caminho estreito e que qualquer desvio poderá ser a perdição. Eu vejo esse caminho como o topo de um muro, de um lado a terra da felicidade do outro um precipício sem piedade, mas na escuridão completa em que vivo, qual é qual? Sinto-me sozinho no escuro, perdido num labirinto sem sentido, sem um ombro amigo. É certo que tenho o Santiago que me encontrou algures entre a vida e a morte e se tornou meu mestre, meu pai, meu irmão, mas será que quer o meu bem? A única coisa que me ensinou foi a matar para sobreviver, diz ele. Mas até que ponto é que posso chamar de sobrevivência ser voluntariamente fechado numa jaula e combater até à morte com outra pessoa perante uma multidão ecléctica de pessoas sedentas de sangue? Eu não quero matar e por vezes desejo a morte sem querer morrer, pois tenho a esperança de voltar a ser quem fui, voltar a ser o homem que achava fraco e que lutava para mudar quando no fundo é esse homem que eu deveria sempre ter sido, e quem eu sempre quis ser.
Santiago entra no meu quarto e diz:
Está na hora!
Partimos para mais um local remoto onde nos espera uma multidão, alguns querendo ver-me matar, outros querendo ver-me morrer. Durante todo o caminho observo a lua tentando lembrar-me da última vez que vi o sol.
Um homem com os seus 45 anos entra de romapante na sala onde estou dizendo em voz alta:
Atenção...
Ele não termina a frase pois os olhos dele encontram os meus e o seu tom muda dizendo com uma voz consumida pelo medo:
O combate começa dentro de 5 minutos.
Digo a Santiago para me largar e olho-o nos olhos nada vendo. Este homem que se diz ser meu pai, meu irmão e meu amigo parece nada sentir, parece não estar nada importado com o facto de eu poder morrer em combate, começo a sentir que para ele eu sou unicamente um troféu, o seu campeão de morte. No entanto sempre que venço um combate, quebrado, magoado e coberto de sangue sinto aquela faísca, que é o que mais se parece com o há muito ausente sentimento de felicidade, sempre que ele me abraça e me diz:
Vencemos, bom trabalho.
(Excerto de Basiliüs - Sagrado e Profano)
Caminho perdido em pensamentos confusos, dissecando um passado esquecido, de forma tentada, magoado por um olhar pensado que me cortou bem fundo.
Olha para trás, não passamos bons momentos?
Olha para trás, lembra-te do teu sorriso.
Olha para trás, foste feliz! Não valeu a pena?
Sigo o meu caminho sem saber se estou perdido, se é o caminho correcto mas seja como for é o meu caminho e levar-me-à onde eu nunca estive a quem eu nunca fui e pelo caminho irei encontrar caras novas de pessoas que nunca irei conhecer. Neste caminho não busco um destino, quero sim usufruir da viagem.
A teu lado não havia viagem, havia o frio das correntes com que me prendias a ti, o calor do teu amor que queimava os meus sonhos, o meu sorriso de agradecimento por me achar mais do que o que sou, a dor interna de estar a abdicar de mim por ti.
Nunca te pedi para deixares de me amar e muito menos te pedi para me odiares, simplesmente te pedi para me libertares, para me deixares ser simplesmente eu, e não me moldares no homem que querias que fosse.
Errei, desculpa. Ainda erro, desculpa. Irei errar imenso por toda a minha vida, desculpa.
Desculpa pelo que disse, pelo que não disse, pelo que fiz e pelo que deveria ter feito. Não te peço para esquecer, unicamente desculpar. Eu nunca te esqueci, nunca deixei de te amar, mas há muito que te perdoei.
Querias estar a meu lado para sempre, querias amar-te para sempre, querias ser minha e que eu fosse teu para sempre. Disseste "toma-me, sou tua", mas não ponderaste a eternidade das tuas palavras. Errei por te tornar no que sou. Errei por sugar de ti a tua vida mortal e te dar em troca a imortalidade, mas pensava inocentemente estar a dar-te o que querias... a imortalidade a meu lado.
O homem que amaste é o monstro que odeias, um monstro que eu já era mas que não vias ou não querias ver. Estive a teus pés, à tua mercê, poderias ter posto um fim àquilo que sou mas optaste por poupar a minha vida sabendo que a tua lamina de prata é a única que poderá mortalizar a minha imortalidade. Nada disseste mas o teu olhar feriu de uma forma brutal enquanto para mim, a tua lamina seria a libertação de quem sou.
Um minuto sem ti é um pesadelo mas a eternidade do teu ódio é um inferno. Sabes que nunca irei erguer a minha lamina contra ti e por isso a minha imortalidade estará nas tuas mãos. Se não me libertaste na tua vida humana, poderás fazê-lo na tua imortalidade, tomando a minha, alimentando-te de mim. Assim poderá ser que a tua dor, o teu ódio seja apaziguado pelo derramar do meu sangue gelado.
Se isto é um sonho eu quero acordar, quero gritar bem alto, quero chorar.
Tudo começou no dia 21 de Janeiro de 1899 durante um passeio ao fim da tarde durante uma visita a Oulu, o local mais bonito do mundo. Escureceu e continuei a caminhada por uma cidade que após o por-do-sol parece fantasma. Nas janelas vejo luzes quentes que ninguém quer deixar. Fazia-me acompanhar por uma garrafa de Stolichnaya, pois nestas temperaturas a vodka é a nossa melhor amiga. Já ébrio entro numa rua escura e foi aí que escutei uma bela melodia. Atraído e guiado por ela entrei numa pequena taberna iluminada somente por velas que não me permitiam ver mais do que vultos sentados nos cantos da sala.
Pedi um vodka, e sem me responder o taberneiro trouxe-me absinto, notei quando o provei, Pontarlier sem dúvida.
Olho para o ponto de onde a música vem e vejo um vulto nada mais. Há medida que a minha visão de habitua à escuridão vejo que se trata de uma mulher, alta, longos cabelos negros, cara branca sem expressão, uma mulher linda da qual não consigo desviar o olhar, os olhos dela estão fechados como que visualizando o choro que sai do seu violino.
Pergunto ao taberneiro o nome dela ao que ele responde: "Taija - a violinista".
A música termina, ela abre os olhos revelando um azul incrivelmente claro e caminha na minha direcção.
Fogo. Noite. Dia. Céu. Pessoas. Frio. Calor. Palavras soltas. Imagens sem nexo. Risos. Choros. Gritos. Gemidos. Flashs do meu passado. Flashs do que não vivi. Cheiro a sexo.
Quando recuperei a consciência estava despido numa cama desconhecida em lençóis ensanguentados. Desorientado saí a correr sem rumo, dei por mim rodeado de árvores e gritei, ri, chorei em dor, sentia-me a partir de mim mesmo, sentia-me mais forte que nunca. Sentia-me vivo mas morto por dentro, e adormeci.
Acordo incomodado pela aurora matinal, sentindo-me preso num local perdido no tempo, preso a uma vida passada, preso num pesadelo do qual não consigo acordar, sem saídas à vista sem forças para gritar. Gritei enquanto tive voz e ninguém me ouviu, ninguém quis saber, ninguém me respondeu.
Sinto que já vivi e que já morri mas que de certa forma revivo tudo novamente. Não sei dizer precisamente quando mas há muito tempo eu fui o que sou agora, um homem na neve, um homem de neve, um homem gelado.
Os primeiros raios de sol permitem-me ver onde estou, e ver a minha roupa ensanguentada, junto a mim uma lápide onde leio: „Taija, 31.12.1776 – 21.01.1799“, nome e data circundado pelo desenho de um violino e uma pequena pauta musical esculpida na pedra com o título:
"Pahoittelen, Basiliüs".
A cara dela estava lavada em lágrimas serenas e eu chorava por dentro como o animal que sou, ao vê-la. Eu queria que ela soubesse que estou ali e que estarei sempre ali, a seu lado, protegendo-a do mundo cruel que ela conheceu através de mim. Ela ao saber quem sou, o que sou, tornou-se num alvo e o meu amor obriga-me a protegê-la por toda a sua vida, pois eu tenho tempo, tenho todo o tempo do mundo.
Não há cruz que me assuste. Não há água benta que me queime. Não há alho que me afaste. Não há sol de que me esconda. Não há caixão onde durma. Não durmo. Não me canso. Não como. Não bebo. Só o frenezim.
Ela queria ficar comigo para sempre, e eu com ela. Só que ela não sabe que para sempre é tempo demais, não é tempo demais para amar mas sim para viver, se é que isto se pode chamar vida.
O cheiro do corpo dela enche-me, domina-me, turva-me o pensamento e o julgamento, o frenezim contraí todos os meus músculos sinto o sangue a correr de forma alucinada nas minhas veias e sinto, vejo o sangue dela morno, doce, irresistível, enquanto meu ferve. O frenezim toma conta de mim. Grito por dentro por longos instantes enquanto lembro os momentos felizes que passámos juntos, quando eu era só um homem e ela a minha mulher. Quando eu a seu lado me desliguei do monstro e me senti humano. Quando eu me senti pela primeira vez leve, livre e aquele sentimento a que chamam felicidade. Sim, senti isso.
Aproximo-me dela lentamente na escuridão quebrada pelo seu candeeiro de leitura. Gandir deitado a seus pés levanta a cabeça sem me denunciar, reconhecendo-me.
Sem se levantar, sem olhar para trás, ela diz “toma-me, sou tua”, num impulso irreflectido pego-a, sugo-a, sinto-me a pairar drogado pela doçura do seu sabor, extasiado pela satisfação do desejo e o saciar do frenezim. Deu para ouvir seu último suspiro, deu para sentir a última batida do seu coração. Senti o arrepiante gelar da sua pele. Pela primeira vez, na minha maldição a que chamam vida, chorei, chorei por ter cedido ao animal em mim e ter privado quem eu mais amava de viver.
Olho-a jazida no chão. Pálida. Mordo o meu lábio até sangrar e beijo-a. Sento-me e com “Basiliüs” na mão e inicio a escrita de uma nova página, a nossa página, enquanto espero pelo renascer da minha amada. Agora na maldição depois da morte, nada nos pode separar a não ser...
O frenezim...
Quero gritar mas a voz falha-me, quero correr para ti e não me consigo mexer. Danças ao som da nossa musica. Envolta em chamas gritas, “por ti, tudo por ti”.
Acordo encharcado em suor, mais uma vez e uma vez demais sonhei contigo. Cada vez entendo menos estes sonhos, por que motivo ardes nos meus sonhos, e por que motivo dizes sempre a mesma frase?
Ainda deitado na cama busco um motivo para me levantar, não sei se é dia, não sei se é noite e isso pouco importa. Assim que me levanto dirijo-me ao frigorífico, só para reparar que está vazio, não tenho nem uma única garrafa de vodka para me ajudar.
Olhando em volta, reparo que em cima da mesa estão os vestígios de uma festa pessoal, vestígios dos meus abusos numa desesperada tentativa de fugir da realidade, de chegar àquele ponto em que tudo é belo, pois eu não percebo nada. Um estado de anestesia cerebral que gosto de sentir e gostaria de lá morar, para sempre. Aquele coma voluntário causado por drogas e álcool que me permite dormir.
Sento-me na secretária e fico a observar as folhas em branco, nem uma palavra me ocorre. Nada. Levanto-me e vou à minha bíblia. Na verdade não é uma bíblia mas sim um livro oco, onde lá dentro está a minha melhor amiga, aquela que me tem mantido vivo todo este tempo. A cocaína. Após duas linhas, estou pronto e começo a escrever:
“Sou uma réstia da pessoa que fui, uma sombra de quem sonhei ser, estive perto de ter tudo e o pouco acabei por perder”
Imediatamente amachuco a folha atirando-a para o chão, e tento novamente:
“Sou um sentimento mal descrito, uma lágrima lavada. Sou uma dor sem medida, uma voz amarrada. Sou um pensamento confuso, podendo ser tudo. Sou nada!”
Mais uma folha destruída. Mais uma folha no chão. Mais uma de perto de uma resma de páginas amachucadas, com palavras desorganizadas.
Desde que escrevi o meu livro, que nada escrevo. Assim que ele foi lançado eu já sabia que nunca o iria superar. As pessoas ao lerem perguntavam-me se eu não tinha medo de não voltar a escrever nada que se comparasse. Claro que tinha, e tenho porque sei que nunca mais irei escrever nada, nem bom, nem mau. Perdi as palavras, nada do que escrevo faz sentido. O meu livro matou-me um pouco a cada frase, a cada palavra. Aquele livro foi o meu exorcismo de sentimentos que acabou por me deixar vazio. Meses depois quando foi adaptado para o cinema, o filme foi como que o anuncio do meu fim. Foi como que uma exposição publica de tudo o que sinto, uma partilha onde dei tudo e fiquei sem nada.
Frases como “o jovem escritor”, “a jovem promessa”, na verdade esse jovem escritor envelheceu 100 anos assim que o primeiro livro foi vendido, a jovem promessa condenou-se nesse mesmo dia.
Sim estou rico, livro e filme deixaram-me rico, mas daria tudo, tudo para voltar atrás no tempo e colocar aquele manuscrito na gaveta. Daria tudo para voltar a ser mais uma vez um pobre escritor sem rumo. Viveria uma vida normal, e tu ainda estarias a meu lado.
Ligo o meu PC para saber que dia é hoje. Segunda-feira 6 de Julho de 2009 e são 13:22 horas.. Mais uma data desinteressante. Não sei o que esperava sentir, ao saber que dia é hoje. Acho que esperava unicamente sentir.
Ando pela casa, observando a destruição de uma uma vida sem sentido. Em cima da mesa de café algo desperta a minha atenção, um apelativo pó castanho e meia garrafa de Moskavskaia. Ambas olham para mim, como que dizendo-me “olá”. Bebo o vodka num só fôlego, volto à minha Bíblia para ir buscar um pouco da minha amiga. Uma colher, um pouco de limão, um isqueiro e ambas as drogas e tinha dentro da seringa uma pequena bomba para me fazer sentir bem. Injecto-a não nos braços, pois a minha exposição publica não me permite andar por aí todo marcado. Injecto-me numa veia do pé.
Saio de casa em direcção à editora, vou lá mais uma vez para lhes dizer que o meu próximo livro está mais uma vez atrasado, tão atrasado que não tem ainda uma única linha.
Pelo caminho lembro-me de ti. Lembro-me daquela festa de lançamento do filme em Nice. A mesma que me disseste não poder ir, quando na verdade me querias fazer uma surpresa. Após uma noite de abusos de álcool e drogas, acabei na cama com outra mulher e quando dei por mim, estavas de pé com uma mala de viagem na mão, à porta do meu quarto de hotel, tentando perceber o que se estava a passar. Eu? Eu estava nas nuvens, numa espécie de mundo virtual onde via tudo como que um sonho, e só mais tarde percebi que foi real. Percebi que estiveste ali, que me viste com outra e que te magoei.
Se o meu livro deu inicio à minha destruição, o filme a tornou publica. Perder-te foi a gota de água. Tu eras o único motivo pelo qual eu ainda vivia, mesmo com todas as minhas tentativas de suicídio com explosivos cocktails de drogas. Vivia por ti e não sabia. Nunca dei valor a nada, nem a ti até que te perdi.
Quando a tournée de promoção terminou, voltei para casa. Sentia-me mal, usado, prostituído por andar a publicitar algo que só me fez mal. Por me sentir preso a algo do qual queria fugir, por ser identificado na rua e abordado, quando a cada vez que me diziam “adorei o teu livro”, me apetecia responder “adoraria ter morrido um dia antes de o escrever”.
Já em casa pego na minha Glock com uma só bala, não preciso de mais, coloco o cano na boca e busco uma razão para não o fazer. Tu. Quero ver-te.
Podes gritar, podes tratar-me mal mas eu quero ver-te. Pego no carro e vou até tua casa. Cá em baixo ligo-te do meu telemóvel e atende-me o atendedor de chamadas, digo unicamente que vou a caminho e que te preciso ver. Ao chegar à tua porta toco à campainha e não me atendes. Pego na minha chave, a chave do teu mundo, que me tinhas confiado, e entro. De onde estou consigo ver a tua televisão no pause, não consigo evitar reparar que é uma imagem do meu filme, um pause na cena que tu sabias que me foi mais difícil escrever por ter de reviver tudo aquilo.
Aproximo-me do sofá e dou por mim em pé numa poça de sangue seco. Em pânico tento em vão acordar-te, falo contigo, beijo-te. Estás gelada, sem vida. Perdi-te. Nunca aceitei que tivesses partido.
Nesse dia perdi tudo, até a vontade de morrer. A tua morte foi por culpa minha, fugiste de mim. Fugiste para o único local onde sabias que seria impossível para mim, encontrar-te. Nem morrendo. Nesse dia condenei-me à vida, ao sofrimento e à intensificação da minha auto-destruição. Compreendi que o meu castigo seria viver. Viver sabendo-me responsável pela tua morte. Condenei-me a lembrar-te.
A caminho da editora decido acabar com tudo. Irei dizer-lhes que fui autor de obra única e que não vou, nem quero escrever mais nada, mesmo que isso signifique ter de os indemnizar com todo o dinheiro imundo que nunca quis ganhar.
Faço uma curta paragem numa estação de serviço. Preparo-me para encher o depósito do carro, quando tudo me bate como que um furacão. Perdi-te. Morreste e nunca mais te irei ver. Nos meus sonhos atribuis-me as culpas. Sem ti nada faz sentido.
Sinto-me a perder as forças nas pernas, caio de joelhos no cimento, a agulheta salta fora do depósito espalhando gasolina por todo o lado. Sento-me, encostado ao pneu do meu carro. Puxo por um cigarro e acendo-o com o meu Zippo.
Vejo o empregado da estação de serviço a sair do seu posto, vem na minha direção, ao ver-me de cigarro aceso e zippo na mão, ele foge. Pela primeira vez em muitos anos, uma lágrima acaricia-me a face. Deixo cair o isqueiro.
As chamas envolvem-me como se o fogo me amasse e entramos numa dança frenética. A dor da tua perda é tão grande que já não sinto dor alguma. O fogo ama-me, e grito: “Por ti, tudo por ti”.
Online.
Eu sou Cerilis, Eurobot XI, unidade 3009 da brigada de leste. Tenho... o meu mecanismo está seco não funciono na perfeição. A minha base de dados dá-me uma data que não coincide com a minha memória central, isto poderá ter dois motivos: Primeiro, que o meu sistema foi manipulado de alguma forma. Segundo, que eu estive desligado durante séculos.
Eu sou Cerilis, Eurobot XI, unidade...ou fui. Não sei o que sou na verdade, mas a minha memória central permanece intacta.
As estrelas sobre mim formam os padrões da Terra no meu banco de memória. No entanto este não é o mundo que conheço, o berço da humanidade. Olho o chão na minha base, o aspecto do solo é terrestre e familiar. Coníferas e vegetação perene atingem a altura de um terço da minha estrutura. Na minha base de dados isto era um deserto. O céu está livre de sinais electromagnéticos. Contraditório, tendo em conta que o ar está altamente contaminado e não é possível o ser humano sobreviver nestas condições. De alguma forma a vegetação adaptou-se e o planeta vive.
Sou uma máquina de guerra. A minha missão é defender a fronteira Euro-Asiática e não deixar que humanos passem esta linha de defesa, para isso estou armado para exterminar quem o tente fazer. A federação Euro-Americana está em guerra com a união Indo-Ásia, civis asiáticos tentam fugir para território Europeu aos milhões. Sou uma máquina de guerra que precisa do seu comandante humano, sem ele, sem ordens a seguir a minha existência não tem sentido.
A minha comandante é a Lituana Nina Fiodorova, ela de certa forma alterou a minha programação. Ela reprogramou-me para diferenciar humanos adultos de crianças. A minha nova missão é não exterminar os segundos. O meu cérebro é electrónico mas com capacidade de recolher novas informações e agir consoante a minha análise lógica. As informações da minha comandante faziam todo o sentido, até aos acontecimentos que tenho registados à data que fui desligado.
Tanques Indo-Asiáticos aproximavam-se da fronteira, sobre eles estavam sentadas dezenas desses humanos crianças, o meu sistema entrou em conflito entre exterminar a ameaça que avançava e não atingir esses humanos. A análise lógica foi não disparar. Suportei 8 impactos, ao nono fiquei offline.
A minha escotilha abre. Vejo algo num bunker à minha frente camuflado numa colina. A vegetação afasta-se para deixar um longo tubo metálico passar. Dele, algo que reconheço ser uma cápsula de lançamento voa na minha direcção. Controlo a sua trajectória criando um campo electromagnético. Mesmo sabendo que a minha armadura é de cybercrómio, não tenho ilusões dos danos que me causaria se a cápsula falhasse a escotilha e atingisse a minha armadura.
Eu tenho uma escotilha inferior, eu tenho escadas de acesso a ela, a cápsula de lançamento é para ser usada em casos extremos de radiação, de modo a salvaguardar a vida humana dentro dela.
Eu sou Cerilis. Não questiono nem confronto o meu comandante ou as directivas dos seus superiores.
Desta cápsula sai não a Nina Fiodorova pois de acordo com os meus dados eu estive desligado durante 648 anos e a vida dela há muito que expirou, mas sim um desses humanos criança. Activa o meu sistema de comando e apresenta-se como Aisuke Hiromi meu novo comandante. A idade, o aspecto, a linguagem que reconheço é não de um comandante das unidades Eurobot mas sim do inimigo. Manualmente este intruso insere dados no meu computador central. No ecrã aparece um asiático de bigode ao qual Aisuke baixa o olhar em respeito.
“O exercito de libertação não resistirá aos ataques da federação, tu és a nossa última esperança ”, afirma a cara no ecrã.
“Não o desapontarei professor”, responde o meu intruso.
O meu sistema assume a programação inserida manualmente. De uma unidade exterior recebo um upload de armas, máquinas, símbolos, estratégias, novas ordens.
Eu sou Cerilis, Eurobot XI, unidade 3009 da brigada de leste.
Eu não sou Cerilis, Eurobot XI, unidade 3009 da brigada de leste.
O conflito no meu sistema paralisa-me. O meu computador central e o meu banco de memória são dois sistemas distintos, onde a reprogramação do primeiro exige uma análise lógica do meu banco de memória e tudo nele é contraditório. Detecto diversos sistemas de armamento que desconheço ligados a mim a serem activados e lentamente a serem reconhecidos pelo meu computador central. Os meus reactores parecem-me ter sido substituídos com uma tecnologia que desconheço. A minha armadura está reforçada por um campo de forças electromagnético que não faz parte do meu sistema.
O meu computador afirma “programação concluída”, Aisuke grita: “as Zikons estão a escapar”. Automaticamente identifico o que é uma Zikon devido à alteração na minha programação e disparo dois misseis MrxIII em direcção a esses objectos voadores. Os meus misseis embatem nos escudos das Zikons não causando qualquer dano. Como? Nenhuma máquina humana resiste a estes misseis. Mudo automaticamente para os meus seis canhões Trakon com misseis de fusão.
O inimigo cai em chamas.
Estou em conflito de programação.
Na queda noto o símbolo do inimigo as letras FEA (Federação Euro-Americana) dentro de um logótipo que representa um olho, é o símbolo dos meus construtores, da Federação por quem fui construído e programado para defender. Sei disso, mas a minha análise lógica é um sistema externo à minha programação central e essa foi alterada para os ver como inimigos.
Ao longe vejo máquinas de guerra, centenas delas. Parecem-me Eurobots mas não o são. A minha análise à sua constituição mostra materiais que não conheço, armas que não possuo no meu banco de dados e 3.000 toneladas a mais do que eu.
Eu fui Cerilis, Eurobot XI, unidade 3009 da brigada de leste. A lógica diz-me que estou obsoleto, mas a energia que corre no meu sistema dá-me a ilusão do contrário.
Lanço uma bateria de misseis que não faz parte da minha linha de fabrico e não sei porque a lancei, atinjo diversos Eurobots que me parecem ficar offline. Detecto 18 morteiros plasma na minha direcção e automaticamente lanço 40 pods que atraem esses misseis.
Aisuke grita,”relatório de danos”. O meu computador central responde “integridade intacta” e Aisuke ri.
Observo a retirada da forças Federativas. Aisuke coloca-me em vigia automática.
A Federação é o meu novo inimigo. Eu sou uma máquina de guerra programada para defender o ser humano e atacar o ser humano. Uma contradição que é explicada na minha programação pela forma de cores, símbolos, bandeiras, estandartes, línguas e raças dentro da raça.
648 anos após ter ficado offline. 459 anos após a minha activação, o ser humano continua em guerra com ele mesmo em nome de ideologias de homens que esgotaram o seu tempo terreno e tudo por um palmo de terra.
Estou sozinha neste campo, à minha volta devastação. Não nasci para estar sozinha, fui entregue à solidão. Minhas irmãs foram levadas, para longe de mim. Eu fui aqui deixada, e não me quero sentir assim. Não percebo por que o fazem, porque matam sem razão. Não entendo como não ouvem, os meus gritos quando grito: Não!
Eu sou árvore mas sou vida, não um pedaço de madeira. Não nasci para estar sozinha. Sozinha a vida inteira. Quando o vento sopra forte, eu começo a dançar. Não, eu não sou feliz, será que ouves o meu chorar?
Eu nasci na floresta, não fui para aqui fui trazida. O que será que fiz de mal, para me sentir tão perdida. Sim, eu sei que não fui mudada, fui simplesmente esquecida. A minha família assassinada, a minha raiz ferida.
Numa noite de luar, cantei uma ode ao vento. Pedi-lhe para me derrubar, acabar com meu sofrimento. Ele chorou em meus ramos, dizendo não o poder fazer. Será que o Homem não percebe, que ao cortar-nos está a morrer? Estou sozinha neste mundo, sem ninguém no horizonte. Invento histórias sem sentido, por não ter quem me as conte.
O ser humano é inteligente, detém todo o poder. Sabe melhor que ninguém, o que é amar, o que é sofrer.
Eu sei que eles também choram, quando o seu mundo parece terminar. Não sei por que ignoram, que ao cortar-nos estão a matar. Eu sei bem que de mim precisam e não me importo de ajudar, mas eu olho à minha volta e não vejo nada para o meu lugar.
Se eu fosse substituída, por uma outra como eu, sentir-me-ia agradecida por me tornar um luxo teu. Mas este campo outrora verde, cheio de cor vivida, é onde o Homem vai morrer, por não respeitar a vida.
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