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Até ti...  

Posted by Bruno Fehr in

Não estás aqui. Gostava que estivesses nem que fosse por um minuto. Queria perguntar-te tudo aquilo que nunca me disseste. (...) Culpo-me por algo que possa ter feito ou dito. Culpo-me por tudo aquilo que não fiz e não disse. Culpo-me principalmente por nunca te ter dito que te amo. 

Será que te vou voltar a ver? Entraste na minha vida como um furacão. Destruíste tudo à minha volta. Tu, só tu. Nada mais restou do meu velho mundo, nada mais importava. Só tu. Saíste da minha minha vida da mesma maneira que a invadiste, destruindo tudo outra vez. Deixaste a dor, a tristeza, o vazio e a devastação do pequeno mundo que construí à tua volta. Não estás aqui. A minha vida ficou vazia. Não tive um aviso, um sinal, um adeus. Nada! Deixaste-me um bilhete, que recebi meses depois da tua partida. Li-o. Sorri. Foi a primeira vez que sorri desde que partiste. Uma mensagem curta, que terminava com um "amo-te".
Se me amas fica! Não dizem que o amor vence todas barreiras ? Eu também te amo! Fica!
Que injusto, tiveste a última palavra. Escreveste o que eu mais queria ouvir e dizer-te. Ao ler o teu "amo-te", sorri com um rio de lágrimas a descer pela minha face. Respondi-te em voz alta, "amo-te, amo-te, também te amo", na infantil esperança que me ouvisses. Em vão…?
Se me amas porque não me disseste? Se me amas porque partiste? Se tinhas mesmo de partir, devias ter-me dito o que sentias. Se me amas… Se alguém que eu amo me ama, por que motivo me sinto tão só, tão vazio? Vazio mas cheio de amor para dar. Para te dar. Só tu importas. 

Pergunto-me constantemente quando te voltarei a ver, se é que te voltarei a ver. Começo a pensar que não, pois não te mereço, caso contrário estarias aqui, e eu não estaria a escrever nestas linhas, na esperança que estas minhas palavras cheguem até ti. 
Apesar de não acreditar, sinto algo dentro de mim, uma faísca de esperança, que parece dizer-me, "um dia, um dia". Esse dia, soa a um dia distante, tão distante, que posso já ter sofrido tudo o que há para sofrer. O sofrimento destrói os bons sentimentos. Tenho medo de chegar a esse dia e já não sentir. Tenho medo de não te reconhecer. Pior ainda, que tu não me reconheças.

Lembro-me de ti a toda a hora, mas a tua imagem na minha memoria vai-se desvanecendo com o tempo. Obrigo-me a lembrar; da tua voz doce, dos teus olhos tão azuis nos quais me parecia perder, do teu cabelo louro, fino, brilhante, do teu sorriso encantador em que ao sorrir parecias iluminar uma sala, um sorriso tão contagiante que era impossível não sorrir contigo, o teu toque, suave, quente, meigo. É impossível esquecer o que representaste para mim, não vou esquecer a pessoa que foste na minha vida. Nunca te vou deixar de amar mesmo amando outra mulher. Tens e terás sempre um cantinho só teu no meu coração... O problema é que esse cantinho é ainda todo o meu coração. Não quero esquecer nada, por isso todos os dia me obrigo a lembrar. Lembrar para não esquecer.

Dói. Ainda dói muito, mas já não custa tanto. Não sei se dói menos, ou se me habituei à dor. Não importa. Já não choro como chorava pois as memórias que guardo são boas. Sorrio. Tristemente, sorrio.
O tempo passa. Voltei a gostar de alguém, mas nunca lhes falei de ti. Tentei mas nunca falei. Acredito que se soubessem quem tu foste na minha vida, as ajudava a perceber quem eu sou. Estou certo que sim, mas não consegui invadir a minha própria privacidade. Consigo escrever mas não falar sobre o passado. As palavras saem soluçantes e parecem ser sempre as palavras erradas. Admito que tive medo, medo de as fazer sentir que estariam a competir contigo. Medo de elas acharem que não estavam à tua altura. Medo que elas sentissem que eram uma segunda escolha. Eu não tenho a certeza se o são ou não, mas isso não significa que queira magoar alguém, pois para dor já basta a minha. Por isso, nesta minha nova vida sem ti, tu és só minha, és o meu mais bem guardado segredo. Ninguém sabe. Infelizmente não és só minha como eu sonhava, mas na medida do possível, só minha. 

Adoro este termo, "medida do possível", como se o possível, fosse possível medir.
Eu não quero falar de ti. Quero falar contigo. Onde estás? Diz-me onde! Só quero saber se continuas com aquele sorriso encantador, se continuas feliz, pois bela sempre serás. Ainda te lembras de mim?

Dentro de mim há amor. Dentro de mim há raiva. Não sei. Sinto um misto de amor e raiva. Amor por ti, raiva por não poder estar contigo. É provavelmente este conflito de sentimentos que me faz acreditar que nada, NADA me pode impedir de te voltar a ver, de estar contigo. Sei que não será hoje, nem amanhã, mas um dia...! Enquanto esse dia não chega, espero, sofro e lembro, lembro-me de não esquecer.

Anos... Incrível, já passaram mais anos do que dedos que os contabilizem, desde a última vez que te vi. Doze anos desde a primeira lágrima que chorei por ti. Doze anos de dor, saudade, tristeza, raiva, amor e esperança. 
O tempo passa é verdade, mas é mentira que o tempo cure tudo. Quanto tempo precisa o tempo para curar? Será que quando o tempo tiver tempo de curar a minha dor, eu terei ainda tempo de viver sem ela?
Sempre que recuo todo este tempo na minha memória, sinto a mesma dor que senti naquele dia, a mesma confusão na minha cabeça, volto a fazer as mesmas perguntas e os meus olhos mais uma vez enchem-se de lágrimas que tento a todo o custo conter. Não quero chorar mais por ti. De vez em quando, lá me foge uma lágrima ou outra. Quero sorrir por ti, para ti. Quero viver o resto da minha vida a sorrir e sorrir quando te voltar a ver. 
Por agora recordo, enquanto recordo escrevo, escrevo-te, desejando que estas palavras encontrem o caminho até ti. No fundo talvez escreva para mim mesmo como uma maneira de ter esquecer, lembrando-me de ti. Na verdade, sem ti não sou ninguém, por isso se não é para ti escrevo então é inútil escrever, pois todas estas palavras estão condenadas a perderem-se em frases que nunca ninguém irá ler, palavras espalhadas por folhas de papel que serão dispersas pelo tempo e impossíveis de reordenar, pois estas palavras são sentimentos. Se fosse possível organizar sentimentos que são desorganizados por natureza, não existiria a dor, pois ela seria suavizada pela organização sentimental. 

Escolho viver o momento fugindo do passado, mas o que posso fazer quando os meus momentos estão cheios de passado? Se a vida são dois dias e um já passou, qual é o problema de passar o dia que me resta a recordar? O futuro não me pode preocupar, pois o dia está a acabar e quero chegar ao fim dele com as tuas palavras a ressoar na minha mente como se em vez de escritas tivessem saído da tua boca:

«Vejo o teu esforço para esconder as lágrimas. Vejo o teu sorriso tentando esconder a dor. Não chores nunca por mim, eu não sinto nem dor nem medo. Fui feliz, muito feliz contigo e estou feliz por te ter conhecido, feliz por ter sentido sempre, que me amas.Um dia quando voltares a amar, vais sentir um empurrãozinho em direcção a ela e isso, serei eu a teu lado sorrindo e dizendo-te, "força".O meu único desejo é poder abraçar-te segundos antes de partir e poder dizer-te não Adeus, mas sim Amo-te.»

Querer ver-te, envolver-te nos meus braços, beijar-te, falar contigo podem ser desejos impossíveis, mas tudo o que é possível hoje, foi impossível um dia. Se me for permitido, tornar um dos meus impossíveis em possível, que seja; estas palavras chegarem até ti enquanto espero um sinal teu. Até lá continuo a construir o meu caminho que me levará onde ninguém foi ainda, caminhando sozinho, procurando a tua cara na multidão.

Um dia quando partir, não haverá dor nem tristesa, lágrimas ou saudade, nem céu ou inferno, santos ou demónios, bem ou mal. Não haverá medo só certeza. A certeza que o meu caminho só termina em ti. 


(Excerto de Amor e Perda, por Bruno Fehr) 

Funeral anormal  

Posted by Bruno Fehr in

A história que vos vou contar é caso para lamentar, a ser verdade que aconteceu.
Um rapaz meu amigo que antes de morto era vivo e depois de morto, morreu.

Teve um funeral anormal em vésperas de Natal no dia mais frio do inverno.
Em vida teve sorte mas o primeiro dia de morte foi um verdadeiro inferno.

Vestiram-lhe uma fardeta meteram-no numa carreta e levaram-no ao comprido,
Mas por uma rua por onde passou a carreta virou e o morto ficou ferido.

Triste cena se desenrola a família deu à sola eram gritos e mais gritos.
O caixão tinha voado e o morto tinha rachado a caixa dos pirolitos.

Seu cunhado sapateiro esse foi logo o primeiro a dar os pontos naturais,
Disse em tom enlutado: Tem paciência ó cunhado mas assim rachado, não vais!

A família lá se juntou e funeral continuou direitinho ao cemitério,
Mas numa curva perigosa numa tarde invernosa a carreta tombou a sério.

Desta vez foi o caixão que rachou e o morto se estatelou na estrada estendido.
A família não chocada parecia habituada e não fizeram alarido.

Chegados ao cemitério e pensando muito a sério o que mais aconteceria,
Um problema ao portão e com grande frustração a carreta não cabia.

Seu cunhado sapateiro sendo um homem muito inteiro e de grande conhecimento,
Analisou a situação e com grande prontidão decidiu o procedimento:

"Pega um de cada lado o morto é transportado e não tem nada que saber!"
Diz o morto desesperado: "Esperem aí um bocado não me façam mais sofrer!"

O coveiro que era maneta pega na pá e na picareta e vai abrir a sepultura.
O morto observava curioso o seu local de repouso de toda esta desventura.

Só com uma mão o coveiro deixa escapar o caixão que cai na cova desamparado,
E diz o morto todo contente: "Agora sim estou ausente desse mundo tresloucado!"

A história que vos contei talvez seja verdade não sei, deixo ao vosso critério,
Mas se os mortos falassem talvez a verdade encontrassem e de certo fugiriam do cemitério.


Diário da Terra  

Posted by Bruno Fehr in

„A liberdade foi o que de pior nos aconteceu“, foi isso que o meu capitão me disse assim que as primeiras bombas começaram a cair. „Dá-te por feliz por estares em Portugal pois os mais fortes são sempre os primeiros a cair“.
Pelas noticias vindas dos nossos aliados Europeus, a Ucrânia era neste momento o inferno na Terra onde 90% dos forças Bálticas, Polacas, Ucranianas foram dizimadas. No continente Americano as forças do sul e centro apoiadas pelos Chineses empurraram o exército Norte Americano quase até à fronteira do Canadá onde já se encontravam 5 regimentos Russos e estando o oceano pacifico a ser controlado pelo Japão e Índia a única rota de fuga era o oceano Atlântico, rota essa que traria a guerra para a Europa ocidental.

Só nos EUA 28 milhões de soldados e 55 milhões de civis perderam a vida. Portugal era agora a porta de entrada na Europa de 25 milhões de refugiados. Toda a costa portuguesa estava “minada” do que restava da armada Norte Americana.
No oceano atlântico encontrava-se toda a frota marítima Britânica, Francesa e Alemã com o objectivo de parar qualquer ataque vindo por mar, ao passo que a força aérea e terrestre da União Europeia estava centrada num corredor que se estendia de Berlim a Bucareste.

As palavras do meu capitão estavam em parte certas. A liberdade permitia-nos fazer e dizer o que queríamos, viver onde queríamos e foi dessa liberdade, ou ideia de liberdade, que nasceu a nossa arrogância alimentada pelo poder que por sua vez aliada às pressões comerciais e politicas que impúnhamos ao Médio Oriente, Ásia, América do Sul, África e Rússia deixámos, sem querer, que fosse criado um governo tirano que nos impunha uma falsa noção de liberdade fragilizada pelas cedências constantes de liberdades em troca de um falso sentimento de segurança, enquanto nos guiavam para uma guerra que só as elites loucas pensavam poder vencer.

Apesar de Norte Americanos e Chineses terem usado armamento nuclear, a aliança Indo-asiática não o tinham ainda usado contra a Europa, que vivia sob um ultimato de rendição.
Era uma questão de tempo até a Europa cair mas mesmo vivendo no chaos, o exercito e povo olhavam para as elites politicas que nos tinham arrastado para esta guerra em busca de respostas, de orientação, de soluções, e de lá nada vinha a não ser a constante propaganda orgulhosa que apelava ao nacionalismo mesmo que as nações estivessem em ruínas. Ainda assim o povo lutava, não pelo país, não pelas suas casas já destruídas mas pelas suas famílias. O que é uma nação senão um aglomerado de famílias? As nossas famílias!
A Turquia abandonou a sua posição neutral e entrou na Europa pela Grécia. A Argélia e união Africana invadiram a Itália e num acto de desespero a Europa lançou ICBM's sobre as principais cidades Turcas e Norte Africanas e foi impossível parar a multiplicação de explosões “cogumelo” um pouco por toda a Europa. Falava-se no fim da guerra. Mas como pode uma guerra ter fim se as elites que a alimentam estão vivas e de saúde exiladas na Escandinávia? Gozando da pseudo-neutralidade da união FiNorSe (Finlândia, Noruega, Suécia). Todos nós, soldados, sabíamos que a guerra não tinha terminado, sabíamos que após este inverno nuclear, os sobreviventes voltariam a guerrear-se mesmo que já ninguém soubesse porque lutava, mesmo que todos soubéssemos que estávamos no limiar do fim dos tempos. Um Apocalipse humano, um suicídio colectivo sem intervenção divina. Deus se existe, há muito que virou costas à pior das suas criações e nenhum homem ou mulher olhava para o céu à espera de intervenção divina, olhavam sim no desejo não ver mais uma chuva explosiva.

Fumo o meu último cigarro que no meio do cheiro nauseabundo a morte e químicos é o que de mais saudável os meus pulmões conhecem. Mesmo assim, decido deixar de fumar.

(excerto de Teanaris - Livro Terra)

Cavaleiro da Alvorada  

Posted by Bruno Fehr in

Foi numa noite apagada que tudo começou
Fugindo da madrugada e daquilo que eu sou
Encontrei um caminhante que me disse sem falar
Para parar correr e viver a vida a caminhar

Caminhei na noite eterna em busca da alvorada
Seguindo sempre em frente a cada encruzilhada
Cavaleiro sem cavalo, reino, espada ou destino
Frio, ausente e distante, um parvo armado em paladino

Ansiei em encontrar o calor de um sentimento
Em tudo diferente do fingimento do momento
Foi então que encontrei a mais bela das mulheres
Num campo verdejante salpicado de malmequeres

Ao longe o oceano da minha vida que já não é
O teu longo cabelo a ondular ao som da maré
As estrelas ofuscadas pelo brilho do teu olhar
Perdemo-nos num abraço de quem aprendeu a amar

Os nossos olhos cantaram uma canção que não escrevi
Mas uma nuvem negra levou o melhor momento que vivi
Perdido, olho em volta e não vejo vestígios de um caminho
Sigo em frente consciente de que sigo só mas não sozinho

Amor feito num 8  

Posted by Bruno Fehr in

Quando olhas para mim, o que vês? Vês quem eu sou, ou quem aparento ser? Vês quem eu quero ser, ou quem tu queres que eu seja?
Quando olhas para mim, o que sentes? Sentes o que dizes sentir, ou dizes sentir o que pensas que sentes?

Eu vejo os teus olhos a brilhar na minha direcção. Os meus estão camuflados pela escuridão dos bastidores atrás dos focos de luz que iluminam toda a tua beleza. Flash, flash, flash e mais flash, enquanto te moves e olhas para mim.

Tu és livre e por seres livre  não te posso prender aqui a meu lado e dar-te o meu amor. Tu queres viajar, ver o mundo, lutar por aquilo que acreditas e acreditas que o nosso amor estará sempre em stand by. Não! Isso não é possível.

Envias-me postais dos sítios em que não estou contigo. Escreves-me cartas que não leio. Envias mensagens a que não respondo, telefonemas que não atendo. Bates à minha porta e não abro. Não te posso receber só para te dizer adeus novamente. Não consigo abraçar-te por um segundo sabendo da eternidade de saudade que umas semanas de distancia me parecem ser.

Onde estiveres eu estou contigo. O portefólio que te levou onde estás e te levará onde irás é parte de mim, és tu sob o meu ponto de vista filtrado por uma lente. O meu portefólio és tu, não todo, mas a melhor parte. A beleza e o impacto destas fotos sobre terceiros é algo que só agora consigo explicar. Não é das maquinas, nem das lentes. Não é do cenário nem da iluminação. Não é da modelo nem do fotógrafo. A magia é do sentimento, do sexo implícito de uma sessão.

Como pode uma pessoa passar a vida inteira em busca do amor enquanto outra o encontra com facilidade, e vira-lhe as costas? Parece não fazer sentido, no entanto, fugir a um amor que não se compreende é mais comum do que simplesmente nos deixarmos amar e ser amados.

8 segundos perdido num olhar
8 minutos para me apaixonar
8 horas de quente paixão
8 dias de profunda ilusão
8 semanas para acordar
8 meses para me afastar
8 anos de azar e de sorte
8 décadas até à morte

Quem és tu?  

Posted by Bruno Fehr in

Sonhei que estava contigo. Ausente de mim observava-me a observar-te. Estavas sem expressão e nos teus olhos uma interrogação.
Viraste costas e eu disse:

-Espera!

Parecias esperar por mais palavras, querias todas as palavras que não conseguia dizer e partiste. Espera era tudo o que queria dizer. Mas não te posso pedir para esperar por um tempo que poderá não vir. Esperar pelas palavras que me recuso a sentir. Esperar pelas escolhas que me recuso a fazer. Esperar por me decidir a viver. Dizer-te espera era tudo, não percebeste e ainda bem. Não te poderia prender aqui, ao meu sonho, pois isto é só um sonho do qual acordo sempre com a sensação de pesadelo.
Querer que esperes é injusto, partir contigo é impossível pois levaria-me a um futuro eternamente ausente tendo o passado sempre presente.

-Quando olhas para mim, quem vês?

Foi esta a pergunta mais difícil que me fizeste, pois não te consigo mentir e a verdade seria dolorosa. Vejo-a em ti mas sei que não és ela. Gosto do que vejo mas não sei quem tu és. Sei que és única. Mas... o amor sente-se por pessoas e as pessoas são únicas, mas como funciona ele em relação a duas únicas aparentemente iguais? Tu serias sempre tu mas parecerias-te sempre com ela, percebes?
A melhor forma de evitar responder é questionar:

-Quem és tu?

Não há questão sobre ovo ou galinha, sobre o sentido da vida, sobre gato de Schrödinger com resposta mais difícil que um simples: Quem és tu?

E tu que acabaste de ler esta divagação: Quem és tu?


(excerto de "Velho demais para ser", por Bruno Fehr)

Ao longe no mar  

Posted by Bruno Fehr in


De pés na areia observo o mar. Uma visão da qual abdiquei por tudo o que vivi e por nada do queria viver. Voltei para o ver, para o sentir e para nele me fundir, pois por mais que me afaste ele está sempre em mim. Nele nasci, com ele cresci e era ele que lavava as minhas lágrimas, era ele que abraçava a minha alegria e não só nele surfava mas nele vivia.


Pego na prancha e entro, remo para além da rebentação para aquele local único de calma que me invade e me preenche, que sempre me fez sentir livre e me ajudou a descobrir quem sou. O local onde nada se ouve a não ser o seu rugir, as pessoas ao longe, pequeninas, não me podem atingir. 
Foi aqui, neste mundo à parte que decidi quem sou e o caminho para aqui chegar. Voltei pela mesma razão, para descobrir um pouco mais de mim e decidir o caminho a seguir nesta nova encruzilhada, não sinalizada e tão confusa.

Espero a onda certa, aquela que parece ter o meu nome e todas as respostas que procuro, e remo, remo com todas as minhas forças como se a minha vida dependesse disso. Ao apanhar a onda coloco-me de pé e por um segundo sou dono do mundo. Mas um pé desastrado, esquecido de tudo o que aprendeu, atraiçoa-me. Caio desamparado, volto à superfície para ser novamente submergido por onda após onda que se quebram violentamente sobre o local onde estou.

Luto por ar e recebo água em troca, e foi aqui que te vi bem à minha frente vestida de negro e sorrindo para mim. Sorri de volta, estico o braço para que a minha mão tocasse a tua e por ti esqueço tudo e sinto que consigo aqui ficar a olhar-te para sempre... Mas tudo acabou nada vejo nesta escuridão, nada sinto a não ser o meu corpo a ondular ao sabor da corrente e deixo que me leve.

Acordo na praia. O sol está escondido por um intenso nevoeiro. A minha prancha descansa a meu lado. O mar está parado. Nem uma onda. Sonhei? Julgo que sim pois estou completamente seco.
Pego na prancha e parto, voltando-me para um último olhar, e ao longe sobre as águas vejo-te, agora de branco, a sorrir dizendo-me Adeus.

Sagrado e Profano  

Posted by Bruno Fehr in

A escuridão seduz-me e por vezes dou por mim a esticar a mão para a tocar só para imediatamente recuar. É nestas alturas, quando estou só que tenho medo, sei que preciso de pouco para me perder nela eternamente, para perder o pouco de humano que ainda tenho e que é a minha única razão para viver. Medo de me deixar dominar pelo lado negro da pessoa que sou, da pessoa em que me tornaram.
Pouco ou nada durmo e sempre que adormeço entro numa queda sem fim, num buraco negro. Sinto toda a adrenalina a percorrer o meu corpo, todos os meus músculos contraídos, expectante, desejando e temendo o fim do precipício. 

Como sempre e involuntariamente agarro-me aos lençóis e acordo coberto de suor e sempre, sempre ao acordar vejo-a perante mim, graciosa como me lembro mas séria com nunca a vi. Questiono-me sobre o que ela sente enquanto a observo: Alegria? Medo? Pois sei que não sou o homem que ela conheceu e que sou um monstro perigoso para estar a seu lado. Amo-a e quero protege-la. Sei que tenho o poder de a proteger de todos os males, excepto de mim. Não sei se resistiria ao frenezim criado pelo sei cheiro. Questiono-me se fiz bem ou mal em ter partido. Mas como poderia ficar quando eu tão facilmente mato uma mosca como mato um homem? Pois no mundo em que vivemos as ferramentas do mal facilmente anulam as do bem.

Todos nós passamos uma vida em busca do verdadeiro amor e no entanto quando o encontramos viramos-lhes costas como se a vida fosse unicamente uma busca. Dividimos um átomo em busca Deus com a mesma facilidade que o fazemos para destruir um país.
O meu pai sempre me disse que a vida é um caminho estreito e que qualquer desvio poderá ser a perdição. Eu vejo esse caminho como o topo de um muro, de um lado a terra da felicidade do outro um precipício sem piedade, mas na escuridão completa em que vivo, qual é qual? Sinto-me sozinho no escuro, perdido num labirinto sem sentido, sem um ombro amigo. É certo que tenho o Santiago que me encontrou algures entre a vida e a morte e se tornou meu mestre, meu pai, meu irmão, mas será que quer o meu bem? A única coisa que me ensinou foi a matar para sobreviver, diz ele. Mas até que ponto é que posso chamar de sobrevivência ser voluntariamente fechado numa jaula e combater até à morte com outra pessoa perante uma multidão ecléctica de pessoas sedentas de sangue? Eu não quero matar e por vezes desejo a morte sem querer morrer, pois tenho a esperança de voltar a ser quem fui, voltar a ser o homem que achava fraco e que lutava para mudar quando no fundo é esse homem que eu deveria sempre ter sido, e quem eu sempre quis ser.

Santiago entra no meu quarto e diz:

Está na hora!

Partimos para mais um local remoto onde nos espera uma multidão, alguns querendo ver-me matar, outros querendo ver-me morrer. Durante todo o caminho observo a lua tentando lembrar-me da última vez que vi o sol. 
Ao chegar sou encaminhado a uma sala húmida e escura onde Santiago me diz para começar a aquecer. 30 minutos depois ele volta e enquanto me massaja os ombros diz-me quem vou enfrentar. O meu adversário é Aristos, um mito entre os imortais e o mais antigo que já enfrentei. Será Aristos o meu carrasco?

Um homem com os seus 45 anos entra de romapante na sala onde estou dizendo em voz alta:

Atenção...

Ele não termina a frase pois os olhos dele encontram os meus e o seu tom muda dizendo com uma voz consumida pelo medo:

O combate começa dentro de 5 minutos.

Digo a Santiago para me largar e olho-o nos olhos nada vendo. Este homem que se diz ser meu pai, meu irmão e meu amigo parece nada sentir, parece não estar nada importado com o facto de eu poder morrer em combate, começo a sentir que para ele eu sou unicamente um troféu, o seu campeão de morte. No entanto sempre que venço um combate, quebrado, magoado e coberto de sangue sinto aquela faísca, que é o que mais se parece com o há muito ausente sentimento de felicidade, sempre que ele me abraça e me diz:

Vencemos, bom trabalho.


(Excerto de Basiliüs - Sagrado e Profano)

Terra  

Posted by Bruno Fehr in

Perseguido por Kamaers, Tzallus e por todas as raças e impérios do universo conhecido, Azelmus Krest procura refugio em Taenaris, o sistema sagrado com um único planeta. Este planeta é um local de paz, um local seguro. É o único sistema que não tem guerra, não há armas e que toda a vida do universo se respeita como sagrada. Os seus habitantes Taenis, são eunucos de aparência feminina, capazes de com o seu toque aliviar qualquer dor, qualquer ferimento, curar qualquer doença física ou mental. Para viver em Taenaris as pessoas têm de prescindir de todas as suas posses, têm de prescindir do seu passado e aceitar a linha de pensamento Taenis, baseado no amor por todas as raças e renuncia à violência.

Mas nem em Taenaris, Azelmus obteve refugio, não por a cabeça de Azelmus estar a prémio, não por se recusar a prescindir do amor proibido por Gorty, mas sim por terem gerado um filho, meio Kamaer, meio Tzallu, um ser que nunca ninguém imaginou ser possível, um ser de um poder que nem os Taenis acreditavam poder controlar. Cameos Krest, uma criança de 3 meses, temida até por aqueles que eram vistos como Deuses.

“É um bebé, uma criança! Não percebem?”

Os Taenis não deram ouvidos e ordenaram que partisse.
Azelmus tinha ódio estampado na cara, expressão que fez com que todos os presentes, que habitam Taenaris virassem a cara, uma expressão de um sentimento que não existia naquele local.

Ao virar costas em direcção à sua gigantesca nave real, Azelmus é parado por Zorkan que lhe passou um pequeno transponder. Azelmus pega nele e segue o seu caminho.

Já na nave e ao sair da orbita de Taenaris, Azelmus liga o transponder e imediatamente vê-se na presença do sábio Zorkan, aquele que é o mais velho dos Taenis, aquele que dizem ter atingido o ponto máximo de iluminação, aquele que esteve certo dia às portas do penta-verso, o mítico local que poucos acreditam existir, onde quem entra atinge o conhecimento e poder totais para o bem ou para o mal, dependendo da sua essência. Mas isto por um preço, um preço que é desconhecido, pois ninguém que tentou entrar alguma vez saiu com vida. Zorkan esteve às portas do penta-verso e não entrou após ver todos os seus companheiros morrerem na tentativa de entrada. Zorkan sentiu-se iluminado só por ali estar, sentiu que aquele era o conhecimento máximo que o Penta-Verso lhe permitia e regressou.

Zorkan, deu a Azelmus as coordenadas de um campo de asteróides ainda dentro do sistema Taenaris, e por isso ninguém o poderia atacar lá, nem ninguém entraria lá com qualquer nave, mas a sua nave real Kamaer tinha a manobrabilidade necessária para atravessar esse campo de asteróides e a velocidade para evitar os danos da nuvem de gases nucleares que os acompanha. Zorkan garantiu que Azelmus encontraria lá a paz que procura.

Azelmus assim o fez. Com a destreza de um piloto Kamaer furou pelo campo de asteróides e chegou ao seu núcleo, a armadura da sua nave ficou intacta e lá, encontrou o paraíso. Aquilo que outrora foi um pequeno sistema solar, dominado por uma civilização que falhou, no seu centro um único sol com um único planeta de pequenas dimensões na sua orbita.

“Mas isto... isto...” gaguejava Azelmus ao aproximar-se do mais belo planeta que alguma vez tinha visto.

“Onde estamos?”, Perguntou Gorty fascinada, pela imensa quantidade de água e vegetação.

“Estamos no sistema solar humano... não percebo...”, dizia Anzelmus.

“Mas tudo isto não tinha sido destruído?"

“Sim, de acordo com os sábios, os humanos auto-destruíram-se numa guerra entre irmãos e uma tempestade nuclear destruiu todos os planetas do sistema, mas...”

“Mas está ainda aqui um”

“Sim a Terra, com a partida dos poucos humanos que sobreviveram à tempestade nuclear, o planeta recuperou”

“Como pode um planeta recuperar se são os habitantes que dão vida aos planetas?”

“Não aqui. Aqui o planeta é vida! Este planeta é uma forma de vida e não é comparável a nenhum dos milhões de planetas que conhecemos”

Gorty, tinha já ouvido falar do mítico planeta azul nas aulas de história galáctica e de como a raça humana destruiu tudo aquilo de que dependia. De como em lutas sem sentido entre vizinhos e irmãos por pedaços de terra que já eram seus, colocaram em causa a sua existência. Ela conhecia alguns humanos, que hoje vivem a centenas anos luz deste local, são os Wardacs. Uma raça guerreira mais fraca que os Kamaer e que os Tzallus, mas que usa da diplomacia como a sua mais forte arma, estratégias militares consideradas pouco honradas, abusando da noção de honra e do valor de palavra partilhado entre civilizações. Os Wardacs vivem hoje prisioneiros de si próprios, presos a equipamentos de suporte de vida, pois dependem de oxigénio, não tendo a capacidade de sobreviver sem ele.

A grande nave Kamaer atinge o solo. Fascinados com tudo o que os rodeia Azelmus e Gorty saem da nave, tocam a vegetação, assimilam o som de água a correr, sentem o vento na pele.

Um estrondo ecoa. Um som novo, que parecia a Azelmus ser uma pequena explosão de gás na sua nave. Gorty segundos depois, cai em seus braços. Azelmus pega nela chocado, ele não percebia o que se estava a passar, não percebia porque desfalecia Gorty. Nisto, vê seres bípedes cobertos por primitivas roupas com estranhos objectos metálicos na mão. Azelmus usa o seu desparticularizador, atingindo diversos desses seres, até que ele próprio cai. O motivo? Um projéctil de uma arma primitiva de fabrico humano, chamada de espingarda. Os seres bípedes eram humanos que de alguma forma ainda existiam neste planeta.

Azelmus e Gorty estavam mortos, Cameos Krest chorava dentro da nave e é encontrado pelos pequenos humanos que pareciam felizes pela chacina. A nave Kamaer não se auto-destruiu como seria de prever com a morte de Azelmus, a nave não estava ligada a ele, não era dele, a nave era sim de Cameos Krest.

Quando um dos humanos se preparava para matar Cameos, o pequeno bebé pára o seu choro e olha directamente para o humano que hesita. Essa hesitação foi o suficiente para que a sua mão criminosa fosse parada por um humano diferente, com menos pêlos, olhar mais doce, voz mais fina. Um elemento da outra espécie humana conhecida como mulher. Essa mulher pegou no pequeno Cameos e partiu com ele nos braços.

(excerto de Taenaris, por Bruno Fehr)

Era uma vez...  

Posted by Bruno Fehr in



Era uma vez a Cinderela que trabalhava imenso e ganhava pouco, um dia conheceu um príncipe que disse que a amava e entregou-se a ele de corpo e alma. O príncipe uso-a e nunca mais lhe ligou. Ele era só um príncipe sem titulo, um de muitos com os quais ela não iria ser feliz para sempre.

Era uma vez um senhor muito mau que falava mal de tudo e de todos. Um senhor desonesto que acusava toda a gente de desonestidade. Esse senhor conseguiu punir muitos inocentes pelo que não fizeram e nunca foi punido.

Era uma vez um rapaz que não defendeu a honra da sua amada e fugiu. Ela foi violada e marcada para toda a vida. Esse rapaz viveu para fugir um outro dia. O violador viveu para violar um outro dia. A menina morreu por dentro nesse dia.

Era uma vez uma menina que disse a um menino que o amava e ele amava-a de volta. Casaram com os votos de serem felizes para sempre. Um dia essa menina conheceu outro menino a quem disse que o amava, deixando o primeiro menino sozinho, sem casa, sem carro, longe dos filhos, e tendo de sustentar essa menina durante os anos vindouros. O crime do menino foi ter amado e ser deixado.

           Era uma vez um mundo cinzento pintado de cor-de-rosa em livros de sonhos.
           Era uma vez um mundo de ilusão. Esse mundo era perfeito e nele viviam todos os meninos e meninas do mundo. Esse mundo era uma vez pois nunca foi nem será vez nenhuma. 

           Era uma vez um menino que certo dia viu o mundo como ele é, sem o véu da inocência, e sentiu medo pela primeira vez. Medo de um mundo não perfeito. E era uma vez todas as ilusões. Este era um mundo onde as princesas e príncipes não trocam posição social por amor. Um mundo onde os sapos serão sempre sapos e condenados ao charco, mas felizes de nenúfar em nenúfar sem princesas por perto. Um mundo onde as pessoas amadas morrem, partem, sofrem. Um mundo onde tristeza e dor andam de mãos dadas com sorrisos e alegria. Um mundo em  que se estamos tristes, esperamos ser felizes um dia, e se somos felizes que a felicidade dure mais um dia. 

            Era uma vez todos os finais felizes, pois nesta vez que é e não era, ser covarde é ser normal, ser herói é ter morrido, os maus da fita podem vencer, e é possível ser-se infeliz para sempre. Nesta vez, a realidade são todas as vezes que não eram uma. A vez que é e não era, é a vez em que tudo o que vemos e mais ninguém vê é mentira, pois se os outros não vêem é porque não existe. 

            Era uma vez um estranho mundo do qual o menino não gostava e fechava os olhos com muita força na esperança de voltar ao mundo do era uma vez...







Yasmin  

Posted by Bruno Fehr in

(De Basiliüs sobre Yasmin)

Caminho perdido em pensamentos confusos, dissecando um passado esquecido, de forma tentada, magoado por um olhar pensado que me cortou bem fundo.

Olha para trás, não passamos bons momentos?
Olha para trás, lembra-te do teu sorriso.
Olha para trás, foste feliz! Não valeu a pena?

Sigo o meu caminho sem saber se estou perdido, se é o caminho correcto mas seja como for é o meu caminho e levar-me-à onde eu nunca estive a quem eu nunca fui e pelo caminho irei encontrar caras novas de pessoas que nunca irei conhecer. Neste caminho não busco um destino, quero sim usufruir da viagem.
A teu lado não havia viagem, havia o frio das correntes com que me prendias a ti, o calor do teu amor que queimava os meus sonhos, o meu sorriso de agradecimento por me achar mais do que o que sou, a dor interna de estar a abdicar de mim por ti.
Nunca te pedi para deixares de me amar e muito menos te pedi para me odiares, simplesmente te pedi para me libertares, para me deixares ser simplesmente eu, e não me moldares no homem que querias que fosse.

Errei, desculpa. Ainda erro, desculpa. Irei errar imenso por toda a minha vida, desculpa.
Desculpa pelo que disse, pelo que não disse, pelo que fiz e pelo que deveria ter feito. Não te peço para esquecer, unicamente desculpar. Eu nunca te esqueci, nunca deixei de te amar, mas há muito que te perdoei.

Querias estar a meu lado para sempre, querias amar-te para sempre, querias ser minha e que eu fosse teu para sempre. Disseste "toma-me, sou tua", mas não ponderaste a eternidade das tuas palavras. Errei por te tornar no que sou. Errei por sugar de ti a tua vida mortal e te dar em troca a imortalidade, mas pensava inocentemente estar a dar-te o que querias... a imortalidade a meu lado.

O homem que amaste é o monstro que odeias, um monstro que eu já era mas que não vias ou não querias ver. Estive a teus pés, à tua mercê, poderias ter posto um fim àquilo que sou mas optaste por poupar a minha vida sabendo que a tua lamina de prata é a única que poderá mortalizar a minha imortalidade. Nada disseste mas o teu olhar feriu de uma forma brutal enquanto para mim, a tua lamina seria a libertação de quem sou.

Um minuto sem ti é um pesadelo mas a eternidade do teu ódio é um inferno. Sabes que nunca irei erguer a minha lamina contra ti e por isso a minha imortalidade estará nas tuas mãos. Se não me libertaste na tua vida humana, poderás fazê-lo na tua imortalidade, tomando a minha, alimentando-te de mim. Assim poderá ser que a tua dor, o teu ódio seja apaziguado pelo derramar do meu sangue gelado.

A última noite da minha primeira noite  

Posted by Bruno Fehr in

Estou sozinho no meio de todo este frio, tudo à minha volta está gelado, tudo tão branco. Sou um homem na neve sem forças para lutar mas luto internamente contra mim mesmo querendo livrar-me destes pensamentos que não entendo.
Se isto é um sonho eu quero acordar, quero gritar bem alto, quero chorar.

Tudo começou no dia 21 de Janeiro de 1899 durante um passeio ao fim da tarde durante uma visita a Oulu, o local mais bonito do mundo. Escureceu e continuei a caminhada por uma cidade que após o por-do-sol parece fantasma. Nas janelas vejo luzes quentes que ninguém quer deixar. Fazia-me acompanhar por uma garrafa de Stolichnaya, pois nestas temperaturas a vodka é a nossa melhor amiga. Já ébrio entro numa rua escura e foi aí que escutei uma bela melodia. Atraído e guiado por ela entrei numa pequena taberna iluminada somente por velas que não me permitiam ver mais do que vultos sentados nos cantos da sala.
Pedi um vodka, e sem me responder o taberneiro trouxe-me absinto, notei quando o provei, Pontarlier sem dúvida.
Olho para o ponto de onde a música vem e vejo um vulto nada mais. Há medida que a minha visão de habitua à escuridão vejo que se trata de uma mulher, alta, longos cabelos negros, cara branca sem expressão, uma mulher linda da qual não consigo desviar o olhar, os olhos dela estão fechados como que visualizando o choro que sai do seu violino.
Pergunto ao taberneiro o nome dela ao que ele responde: "Taija - a violinista".
A música termina, ela abre os olhos revelando um azul incrivelmente claro e caminha na minha direcção.

Fogo. Noite. Dia. Céu. Pessoas. Frio. Calor. Palavras soltas. Imagens sem nexo. Risos. Choros. Gritos. Gemidos. Flashs do meu passado. Flashs do que não vivi. Cheiro a sexo.

Quando recuperei a consciência estava despido numa cama desconhecida em lençóis ensanguentados. Desorientado saí a correr sem rumo, dei por mim rodeado de árvores e gritei, ri, chorei em dor, sentia-me a partir de mim mesmo, sentia-me mais forte que nunca. Sentia-me vivo mas morto por dentro, e adormeci.

Acordo incomodado pela aurora matinal, sentindo-me preso num local perdido no tempo, preso a uma vida passada, preso num pesadelo do qual não consigo acordar, sem saídas à vista sem forças para gritar. Gritei enquanto tive voz e ninguém me ouviu, ninguém quis saber, ninguém me respondeu.
Sinto que já vivi e que já morri mas que de certa forma revivo tudo novamente. Não sei dizer precisamente quando mas há muito tempo eu fui o que sou agora, um homem na neve, um homem de neve, um homem gelado.

Os primeiros raios de sol permitem-me ver onde estou, e ver a minha roupa ensanguentada, junto a mim uma lápide onde leio: „Taija, 31.12.1776 – 21.01.1799“, nome e data circundado pelo desenho de um violino e uma pequena pauta musical esculpida na pedra com o título:
"Pahoittelen, Basiliüs".



Basiliüs  

Posted by Bruno Fehr in

31 de Dezembro. 23 horas. Noite de lua cheia. Ao longe ouvia uivos de lobos misturados com os assobios gélidos do vento, e lá estava ela sentada na sua poltrona lendo “Basiliüs”, o livro da minha vida, leitura que intercalava com um olhar triste pela janela. Eu sei que ela me esperava desde o dia em que parti, e eu desde esse dia sonhava em voltar a vê-la... Tê-la. A escolha que me foi dada era maior que eu, eu não poderia escolher entre viver a seu lado até ao fim da sua vida, vendo-a a envelhecer e morrer um pouco mais todos os dias, mas também não podia tê-la ao meu lado para toda a eternidade tornando-a num monstro como eu. Uma escolha de amor, o amor egoísta de a ter para sempre e o amor piedoso de a deixar ter a vida que eu queria e que me foi negada... Ser mortal sem viver neste constante frenezim.

A cara dela estava lavada em lágrimas serenas e eu chorava por dentro como o animal que sou, ao vê-la. Eu queria que ela soubesse que estou ali e que estarei sempre ali, a seu lado, protegendo-a do mundo cruel que ela conheceu através de mim. Ela ao saber quem sou, o que sou, tornou-se num alvo e o meu amor obriga-me a protegê-la por toda a sua vida, pois eu tenho tempo, tenho todo o tempo do mundo.

Não há cruz que me assuste. Não há água benta que me queime. Não há alho que me afaste. Não há sol de que me esconda. Não há caixão onde durma. Não durmo. Não me canso. Não como. Não bebo. Só o frenezim.

Ela queria ficar comigo para sempre, e eu com ela. Só que ela não sabe que para sempre é tempo demais, não é tempo demais para amar mas sim para viver, se é que isto se pode chamar vida.

O cheiro do corpo dela enche-me, domina-me, turva-me o pensamento e o julgamento, o frenezim contraí todos os meus músculos sinto o sangue a correr de forma alucinada nas minhas veias e sinto, vejo o sangue dela morno, doce, irresistível, enquanto meu ferve. O frenezim toma conta de mim. Grito por dentro por longos instantes enquanto lembro os momentos felizes que passámos juntos, quando eu era só um homem e ela a minha mulher. Quando eu a seu lado me desliguei do monstro e me senti humano. Quando eu me senti pela primeira vez leve, livre e aquele sentimento a que chamam felicidade. Sim, senti isso.

Aproximo-me dela lentamente na escuridão quebrada pelo seu candeeiro de leitura. Gandir deitado a seus pés levanta a cabeça sem me denunciar, reconhecendo-me.

Sem se levantar, sem olhar para trás, ela diz “toma-me, sou tua”, num impulso irreflectido pego-a, sugo-a, sinto-me a pairar drogado pela doçura do seu sabor, extasiado pela satisfação do desejo e o saciar do frenezim. Deu para ouvir seu último suspiro, deu para sentir a última batida do seu coração. Senti o arrepiante gelar da sua pele. Pela primeira vez, na minha maldição a que chamam vida, chorei, chorei por ter cedido ao animal em mim e ter privado quem eu mais amava de viver.

Olho-a jazida no chão. Pálida. Mordo o meu lábio até sangrar e beijo-a. Sento-me e com “Basiliüs” na mão e inicio a escrita de uma nova página, a nossa página, enquanto espero pelo renascer da minha amada. Agora na maldição depois da morte, nada nos pode separar a não ser...

O frenezim...

Héstia  

Posted by Bruno Fehr in

Tenho pressa de te ver. Subo as escadas que me levam a tua casa, de dois em dois degraus. Já perto da tua porta sinto os meus movimentos presos, como se estivesse em câmara lenta. Passo a passo a muito custo. Movimentos pesados, lentos, dolorosos.
Já perto da tua porta, reparo que ela está aberta. A tua casa em chamas, tu em chamas, mas pareces dançar.
Quero gritar mas a voz falha-me, quero correr para ti e não me consigo mexer. Danças ao som da nossa musica. Envolta em chamas gritas, “por ti, tudo por ti”.

Acordo encharcado em suor, mais uma vez e uma vez demais sonhei contigo. Cada vez entendo menos estes sonhos, por que motivo ardes nos meus sonhos, e por que motivo dizes sempre a mesma frase?
Ainda deitado na cama busco um motivo para me levantar, não sei se é dia, não sei se é noite e isso pouco importa. Assim que me levanto dirijo-me ao frigorífico, só para reparar que está vazio, não tenho nem uma única garrafa de vodka para me ajudar.
Olhando em volta, reparo que em cima da mesa estão os vestígios de uma festa pessoal, vestígios dos meus abusos numa desesperada tentativa de fugir da realidade, de chegar àquele ponto em que tudo é belo, pois eu não percebo nada. Um estado de anestesia cerebral que gosto de sentir e gostaria de lá morar, para sempre. Aquele coma voluntário causado por drogas e álcool que me permite dormir.

Sento-me na secretária e fico a observar as folhas em branco, nem uma palavra me ocorre. Nada. Levanto-me e vou à minha bíblia. Na verdade não é uma bíblia mas sim um livro oco, onde lá dentro está a minha melhor amiga, aquela que me tem mantido vivo todo este tempo. A cocaína. Após duas linhas, estou pronto e começo a escrever:
“Sou uma réstia da pessoa que fui, uma sombra de quem sonhei ser, estive perto de ter tudo e o pouco acabei por perder”
Imediatamente amachuco a folha atirando-a para o chão, e tento novamente:
“Sou um sentimento mal descrito, uma lágrima lavada. Sou uma dor sem medida, uma voz amarrada. Sou um pensamento confuso, podendo ser tudo. Sou nada!”
Mais uma folha destruída. Mais uma folha no chão. Mais uma de perto de uma resma de páginas amachucadas, com palavras desorganizadas.

Desde que escrevi o meu livro, que nada escrevo. Assim que ele foi lançado eu já sabia que nunca o iria superar. As pessoas ao lerem perguntavam-me se eu não tinha medo de não voltar a escrever nada que se comparasse. Claro que tinha, e tenho porque sei que nunca mais irei escrever nada, nem bom, nem mau. Perdi as palavras, nada do que escrevo faz sentido. O meu livro matou-me um pouco a cada frase, a cada palavra. Aquele livro foi o meu exorcismo de sentimentos que acabou por me deixar vazio. Meses depois quando foi adaptado para o cinema, o filme foi como que o anuncio do meu fim. Foi como que uma exposição publica de tudo o que sinto, uma partilha onde dei tudo e fiquei sem nada.

Frases como “o jovem escritor”, “a jovem promessa”, na verdade esse jovem escritor envelheceu 100 anos assim que o primeiro livro foi vendido, a jovem promessa condenou-se nesse mesmo dia.
Sim estou rico, livro e filme deixaram-me rico, mas daria tudo, tudo para voltar atrás no tempo e colocar aquele manuscrito na gaveta. Daria tudo para voltar a ser mais uma vez um pobre escritor sem rumo. Viveria uma vida normal, e tu ainda estarias a meu lado.

Ligo o meu PC para saber que dia é hoje. Segunda-feira 6 de Julho de 2009 e são 13:22 horas.. Mais uma data desinteressante. Não sei o que esperava sentir, ao saber que dia é hoje. Acho que esperava unicamente sentir.

Ando pela casa, observando a destruição de uma uma vida sem sentido. Em cima da mesa de café algo desperta a minha atenção, um apelativo pó castanho e meia garrafa de Moskavskaia. Ambas olham para mim, como que dizendo-me “olá”. Bebo o vodka num só fôlego, volto à minha Bíblia para ir buscar um pouco da minha amiga. Uma colher, um pouco de limão, um isqueiro e ambas as drogas e tinha dentro da seringa uma pequena bomba para me fazer sentir bem. Injecto-a não nos braços, pois a minha exposição publica não me permite andar por aí todo marcado. Injecto-me numa veia do pé.

Saio de casa em direcção à editora, vou lá mais uma vez para lhes dizer que o meu próximo livro está mais uma vez atrasado, tão atrasado que não tem ainda uma única linha.
Pelo caminho lembro-me de ti. Lembro-me daquela festa de lançamento do filme em Nice. A mesma que me disseste não poder ir, quando na verdade me querias fazer uma surpresa. Após uma noite de abusos de álcool e drogas, acabei na cama com outra mulher e quando dei por mim, estavas de pé com uma mala de viagem na mão, à porta do meu quarto de hotel, tentando perceber o que se estava a passar. Eu? Eu estava nas nuvens, numa espécie de mundo virtual onde via tudo como que um sonho, e só mais tarde percebi que foi real. Percebi que estiveste ali, que me viste com outra e que te magoei.

Se o meu livro deu inicio à minha destruição, o filme a tornou publica. Perder-te foi a gota de água. Tu eras o único motivo pelo qual eu ainda vivia, mesmo com todas as minhas tentativas de suicídio com explosivos cocktails de drogas. Vivia por ti e não sabia. Nunca dei valor a nada, nem a ti até que te perdi.
Quando a tournée de promoção terminou, voltei para casa. Sentia-me mal, usado, prostituído por andar a publicitar algo que só me fez mal. Por me sentir preso a algo do qual queria fugir, por ser identificado na rua e abordado, quando a cada vez que me diziam “adorei o teu livro”, me apetecia responder “adoraria ter morrido um dia antes de o escrever”.

Já em casa pego na minha Glock com uma só bala, não preciso de mais, coloco o cano na boca e busco uma razão para não o fazer. Tu. Quero ver-te.

Podes gritar, podes tratar-me mal mas eu quero ver-te. Pego no carro e vou até tua casa. Cá em baixo ligo-te do meu telemóvel e atende-me o atendedor de chamadas, digo unicamente que vou a caminho e que te preciso ver. Ao chegar à tua porta toco à campainha e não me atendes. Pego na minha chave, a chave do teu mundo, que me tinhas confiado, e entro. De onde estou consigo ver a tua televisão no pause, não consigo evitar reparar que é uma imagem do meu filme, um pause na cena que tu sabias que me foi mais difícil escrever por ter de reviver tudo aquilo.
Aproximo-me do sofá e dou por mim em pé numa poça de sangue seco. Em pânico tento em vão acordar-te, falo contigo, beijo-te. Estás gelada, sem vida. Perdi-te. Nunca aceitei que tivesses partido.

Nesse dia perdi tudo, até a vontade de morrer. A tua morte foi por culpa minha, fugiste de mim. Fugiste para o único local onde sabias que seria impossível para mim, encontrar-te. Nem morrendo. Nesse dia condenei-me à vida, ao sofrimento e à intensificação da minha auto-destruição. Compreendi que o meu castigo seria viver. Viver sabendo-me responsável pela tua morte. Condenei-me a lembrar-te.

A caminho da editora decido acabar com tudo. Irei dizer-lhes que fui autor de obra única e que não vou, nem quero escrever mais nada, mesmo que isso signifique ter de os indemnizar com todo o dinheiro imundo que nunca quis ganhar.

Faço uma curta paragem numa estação de serviço. Preparo-me para encher o depósito do carro, quando tudo me bate como que um furacão. Perdi-te. Morreste e nunca mais te irei ver. Nos meus sonhos atribuis-me as culpas. Sem ti nada faz sentido.

Sinto-me a perder as forças nas pernas, caio de joelhos no cimento, a agulheta salta fora do depósito espalhando gasolina por todo o lado. Sento-me, encostado ao pneu do meu carro. Puxo por um cigarro e acendo-o com o meu Zippo.
Vejo o empregado da estação de serviço a sair do seu posto, vem na minha direção, ao ver-me de cigarro aceso e zippo na mão, ele foge. Pela primeira vez em muitos anos, uma lágrima acaricia-me a face. Deixo cair o isqueiro.
As chamas envolvem-me como se o fogo me amasse e entramos numa dança frenética. A dor da tua perda é tão grande que já não sinto dor alguma. O fogo ama-me, e grito: “Por ti, tudo por ti”.

Cerilis  

Posted by Bruno Fehr in

Online.

Eu sou Cerilis, Eurobot XI, unidade 3009 da brigada de leste. Tenho... o meu mecanismo está seco não funciono na perfeição. A minha base de dados dá-me uma data que não coincide com a minha memória central, isto poderá ter dois motivos: Primeiro, que o meu sistema foi manipulado de alguma forma. Segundo, que eu estive desligado durante séculos.

Eu sou Cerilis, Eurobot XI, unidade...ou fui. Não sei o que sou na verdade, mas a minha memória central permanece intacta.

As estrelas sobre mim formam os padrões da Terra no meu banco de memória. No entanto este não é o mundo que conheço, o berço da humanidade. Olho o chão na minha base, o aspecto do solo é terrestre e familiar. Coníferas e vegetação perene atingem a altura de um terço da minha estrutura. Na minha base de dados isto era um deserto. O céu está livre de sinais electromagnéticos. Contraditório, tendo em conta que o ar está altamente contaminado e não é possível o ser humano sobreviver nestas condições. De alguma forma a vegetação adaptou-se e o planeta vive.

Sou uma máquina de guerra. A minha missão é defender a fronteira Euro-Asiática e não deixar que humanos passem esta linha de defesa, para isso estou armado para exterminar quem o tente fazer. A federação Euro-Americana está em guerra com a união Indo-Ásia, civis asiáticos tentam fugir para território Europeu aos milhões. Sou uma máquina de guerra que precisa do seu comandante humano, sem ele, sem ordens a seguir a minha existência não tem sentido.

A minha comandante é a Lituana Nina Fiodorova, ela de certa forma alterou a minha programação. Ela reprogramou-me para diferenciar humanos adultos de crianças. A minha nova missão é não exterminar os segundos. O meu cérebro é electrónico mas com capacidade de recolher novas informações e agir consoante a minha análise lógica. As informações da minha comandante faziam todo o sentido, até aos acontecimentos que tenho registados à data que fui desligado.

Tanques Indo-Asiáticos aproximavam-se da fronteira, sobre eles estavam sentadas dezenas desses humanos crianças, o meu sistema entrou em conflito entre exterminar a ameaça que avançava e não atingir esses humanos. A análise lógica foi não disparar. Suportei 8 impactos, ao nono fiquei offline.

A minha escotilha abre. Vejo algo num bunker à minha frente camuflado numa colina. A vegetação afasta-se para deixar um longo tubo metálico passar. Dele, algo que reconheço ser uma cápsula de lançamento voa na minha direcção. Controlo a sua trajectória criando um campo electromagnético. Mesmo sabendo que a minha armadura é de cybercrómio, não tenho ilusões dos danos que me causaria se a cápsula falhasse a escotilha e atingisse a minha armadura.

Eu tenho uma escotilha inferior, eu tenho escadas de acesso a ela, a cápsula de lançamento é para ser usada em casos extremos de radiação, de modo a salvaguardar a vida humana dentro dela.

Eu sou Cerilis. Não questiono nem confronto o meu comandante ou as directivas dos seus superiores.

Desta cápsula sai não a Nina Fiodorova pois de acordo com os meus dados eu estive desligado durante 648 anos e a vida dela há muito que expirou, mas sim um desses humanos criança. Activa o meu sistema de comando e apresenta-se como Aisuke Hiromi meu novo comandante. A idade, o aspecto, a linguagem que reconheço é não de um comandante das unidades Eurobot mas sim do inimigo. Manualmente este intruso insere dados no meu computador central. No ecrã aparece um asiático de bigode ao qual Aisuke baixa o olhar em respeito.

“O exercito de libertação não resistirá aos ataques da federação, tu és a nossa última esperança ”, afirma a cara no ecrã.

“Não o desapontarei professor”, responde o meu intruso.

O meu sistema assume a programação inserida manualmente. De uma unidade exterior recebo um upload de armas, máquinas, símbolos, estratégias, novas ordens.

Eu sou Cerilis, Eurobot XI, unidade 3009 da brigada de leste.

Eu não sou Cerilis, Eurobot XI, unidade 3009 da brigada de leste.

O conflito no meu sistema paralisa-me. O meu computador central e o meu banco de memória são dois sistemas distintos, onde a reprogramação do primeiro exige uma análise lógica do meu banco de memória e tudo nele é contraditório. Detecto diversos sistemas de armamento que desconheço ligados a mim a serem activados e lentamente a serem reconhecidos pelo meu computador central. Os meus reactores parecem-me ter sido substituídos com uma tecnologia que desconheço. A minha armadura está reforçada por um campo de forças electromagnético que não faz parte do meu sistema.

O meu computador afirma “programação concluída”, Aisuke grita: “as Zikons estão a escapar”. Automaticamente identifico o que é uma Zikon devido à alteração na minha programação e disparo dois misseis MrxIII em direcção a esses objectos voadores. Os meus misseis embatem nos escudos das Zikons não causando qualquer dano. Como? Nenhuma máquina humana resiste a estes misseis. Mudo automaticamente para os meus seis canhões Trakon com misseis de fusão.

O inimigo cai em chamas.

Estou em conflito de programação.

Na queda noto o símbolo do inimigo as letras FEA (Federação Euro-Americana) dentro de um logótipo que representa um olho, é o símbolo dos meus construtores, da Federação por quem fui construído e programado para defender. Sei disso, mas a minha análise lógica é um sistema externo à minha programação central e essa foi alterada para os ver como inimigos.

Ao longe vejo máquinas de guerra, centenas delas. Parecem-me Eurobots mas não o são. A minha análise à sua constituição mostra materiais que não conheço, armas que não possuo no meu banco de dados e 3.000 toneladas a mais do que eu.

Eu fui Cerilis, Eurobot XI, unidade 3009 da brigada de leste. A lógica diz-me que estou obsoleto, mas a energia que corre no meu sistema dá-me a ilusão do contrário.

Lanço uma bateria de misseis que não faz parte da minha linha de fabrico e não sei porque a lancei, atinjo diversos Eurobots que me parecem ficar offline. Detecto 18 morteiros plasma na minha direcção e automaticamente lanço 40 pods que atraem esses misseis.

Aisuke grita,”relatório de danos”. O meu computador central responde “integridade intacta” e Aisuke ri.

Observo a retirada da forças Federativas. Aisuke coloca-me em vigia automática.

A Federação é o meu novo inimigo. Eu sou uma máquina de guerra programada para defender o ser humano e atacar o ser humano. Uma contradição que é explicada na minha programação pela forma de cores, símbolos, bandeiras, estandartes, línguas e raças dentro da raça.

648 anos após ter ficado offline. 459 anos após a minha activação, o ser humano continua em guerra com ele mesmo em nome de ideologias de homens que esgotaram o seu tempo terreno e tudo por um palmo de terra.

O canto da floresta  

Posted by Bruno Fehr in

Estou sozinha neste campo, à minha volta devastação. Não nasci para estar sozinha, fui entregue à solidão. Minhas irmãs foram levadas, para longe de mim. Eu fui aqui deixada, e não me quero sentir assim. Não percebo por que o fazem, porque matam sem razão. Não entendo como não ouvem, os meus gritos quando grito: Não!
Eu sou árvore mas sou vida, não um pedaço de madeira. Não nasci para estar sozinha. Sozinha a vida inteira. Quando o vento sopra forte, eu começo a dançar. Não, eu não sou feliz, será que ouves o meu chorar?

Eu nasci na floresta, não fui para aqui fui trazida. O que será que fiz de mal, para me sentir tão perdida. Sim, eu sei que não fui mudada, fui simplesmente esquecida. A minha família assassinada, a minha raiz ferida.
Numa noite de luar, cantei uma ode ao vento. Pedi-lhe para me derrubar, acabar com meu sofrimento. Ele chorou em meus ramos, dizendo não o poder fazer. Será que o Homem não percebe, que ao cortar-nos está a morrer? Estou sozinha neste mundo, sem ninguém no horizonte. Invento histórias sem sentido, por não ter quem me as conte.

O ser humano é inteligente, detém todo o poder. Sabe melhor que ninguém, o que é amar, o que é sofrer.
Eu sei que eles também choram, quando o seu mundo parece terminar. Não sei por que ignoram, que ao cortar-nos estão a matar. Eu sei bem que de mim precisam e não me importo de ajudar, mas eu olho à minha volta e não vejo nada para o meu lugar.
Se eu fosse substituída, por uma outra como eu, sentir-me-ia agradecida por me tornar um luxo teu. Mas este campo outrora verde, cheio de cor vivida, é onde o Homem vai morrer, por não respeitar a vida.