Ensaio – A chuva  

Posted by LBJ in


Se eu pudesse postular determinava que quando chove o céu chora por alguém.

Se eu pudesse simplificar a chuva diria que ela é feita de água e de tempo assim como nós somos feitos de água e de tempo e de alma e de ainda outras coisas que se calhar não são assim tão importantes. Sei que sou mais chuva do que carne mas ainda não sei se sou mais alma do que chuva e gosto de a sentir molhada num dia sem frio e sem pressas e sem medos.

Se eu pudesse dissecar uma gota de chuva caída na palma da minha mão gostaria de chegar ao fundo da sua memória, saber por onde andou, por que rios, por que mares, saber se já escorregou pelo vidro de uma janela do quarto de dois amantes ou pelos beirais de um castelo de encantar ou apenas pelas ruínas de um casebre de pobre. Queria saber tudo desde que o tempo a fez cair do céu pela primeira vez até ao momento em que tocou na minha pele.

Se eu pudesse partilhar o espaço e o tempo com uma gota de chuva gostaria de cair sem vento sobre a árvore mais alta da floresta, folha sob folha, ramo sob ramo até me enterrar no chão tenro e ir cada vez mais fundo em busca de outras gotas em forma de fio e de rio e de mar e depois diluir-me, tornar-me indistinto sem deixar de ser único e esperar que uma brisa quente, um sopro de Sol me transformasse em ar e subisse devagarinho, bem devagarinho em direcção às estrelas até ser capturado pelo vento em flocos de nuvem e reiniciar a viagem.

Se eu pudesse explicar a chuva num dia de Sol perderia por palavras a magia de um arco colorido que tem numa ponta um sonho de menino e na outra o inalcançável. Nunca sei dizer em que ponta está o sonho e caminho sempre onde nunca consigo chegar e a chuva pára e ficam só os brilhos nas manchas de água a reflectirem o meu desejo.

Se eu pudesse dançar à chuva de gabardine comprida e chapéu de varetas ocas regressaria no tempo a um tempo fechado numa caixa de madeira sem mais outras cores que o preto e o branco e diferentes cinzentos e quem sabe não começaria a cantar com um sorriso nos olhos e nos lábios.

Se eu pudesse comandar em fúria a chuva lavaria todos os males e os meus pecados e restaria puro e vazio num Mundo sem graça e sem homens. Seria divino sem crentes e sem outras catedrais que não aquelas que se formam nas clareiras das árvores perenes.

Se eu pudesse ficar nu debaixo de uma chuva que fosse quente como a água que escorre em chuveiro, forte e compassada sobre os ombros e de braços bem abertos, gota a gota, poro a poro, isolava-me de pensar, de sentir, de me tentar perceber ou explicar.

Se eu pudesse imaginar uma chuva que não fosse chuva feita de água e de tempo iria fazê-la de algo doce e suspenso que se pudesse afastar como uma cortina que dá acesso a um outro palco. Gostaria de encontrar nesse palco um bando de actores interagindo numa performance sem ensaio, representando a minha vida em pantomina. Gostaria de ver a plateia vazia de público e cheia de letras e palavras e frases sempre a trocar de lugar e formando histórias dentro das histórias.

Se eu pudesse escolher que a chuva fosse só chuva ela seria a causa e a razão da vida e o desejo ou desespero de quem a tem ou de quem lhe falta e nada mais.

Bagagem de pano  

Posted by Mag

Abre as asas, espírito livre,

sacode as mágoas antigas do pensamento
e abraça no coração esses teus sonhos,
cobre o corpo com a cor da coragem,
ensaia o grito de liberdade na tua garganta,
amordaça no peito os medos
que te ameaçam o vôo
e lança-te,
olhos abertos sorvendo a paisagem,
vento no rosto, beijando-te as rugas que o tempo sulcou,
o Mundo pequeno lá em baixo, sossegado,
calmo e quieto no seu ritmo de cego.
E embriaga-te de luz,
de estrelas,
de Lua e de Sol,
e ouve o Mar rugir o teu nome,
homenageando quem abarca a Vida no sonho,
quem solta o coração nas ruelas do desejo
e segue andando,
bagagem leve, de pano solto.

Cartas  

Posted by M. Morstan in

Cartas. Vivo rodeada de cartas. Umas vêm, outras vão. Não mais que pedaços de papel com caracteres escritos a tinta. Às vezes têm apenas desenhos. Uma carta pode dizer tudo e pode dizer nada. Pode ter uma linha e conter toda uma vida. Pode ter sete páginas e estar recheada de trivialidades. Escrevo muito, eu. Envio. Recebo. Envio. Recebo. Leio, releio, torno a ler. As cartas são emoções. São desejos. São caprichos. São pecados. São armas. São crime. São pistas. Para o real e para o irreal. Para o consciente e para o inconsciente. Dizem que os grandes cérebros criminosos gostam de escrever cartas. Passar para o papel como é o pulsar de um coração acabado de arrancar a um peito jovem. Bate. Bate. Bate. E deixa de bater. A vida a esvair-se na mão. Na minha mão. Pena é estar sempre escuro, quando a vida desaparece. Mas a glória do dia tende a ofuscar a glória da morte. A morte de dia desvanece-se com o entardecer. A morte de noite brilha com a aurora. A descoberta de um corpo pela manhã, orvalhado, com os raios a reflectirem, é sublime... Cartas. Cartas. Cartas. Pedaços de mim que envio e que recebo. 

Branco Imenso  

Posted by Maya Gaarder

Branco.
Um branco imenso até perder de vista.
Não gostava de neve, nunca gostou. Aceitou ir na viagem porque, bem, foi ideia dele, aceitava sempre tudo que era ideia dele. Tentou fazer-lhe ver que irem por ali não era sensato, vinham a ouvir na rádio que a tempestade tinha bloqueado as estradas, os avisos eram claros, os automobilistas não deviam tentar sequer atravessar a serra. E o carro deles não estava de todo preparado para aquelas condições. Claro que ele não a ouviu, e olhou-a da forma que sempre olhava quando ela fazia algum comentário que o contrariava. Por isso manteve-se calada quando ele passou as barreiras que fechavam a estrada e começaram a subir a serra. Ficou com medo que ele se enervasse, não gostava quando isso acontecia, sobretudo dentro do carro. O espaço era demasiado pequeno e o rosto dela ficava ali, mesmo ao alcance do punho dele.
Aguentou em silêncio o pânico que começava a apoderar-se dela, de cada vez que sentia o carro perder a aderência e a deslizar na neve. Tinham já passado várias horas desde que romperam as barreiras e começaram a subir a serra. Já há muito tinha deixado de ver o alcatrão, apenas neve, um manto imenso branco e escorregadio. Deixaram de ver casas também e agora começava a escurecer.
A altura do dia que ela mais detestava, o lusco-fusco, quando as cores se esbatiam e as sombras começavam a tomar forma. Ela conhecia bem as sombras, sabia bem o que se escondia nelas, e era nesta altura que consegui ver os contornos daquilo que apenas conseguia adivinhar na escuridão. O que ele rira quando lhe contara do medo que tinha do escuro, uma mulher adulta que dormia com as luzes acesas. Tentou curá-la do medo, terapia de choque, dizia ele, enquanto a fechava à chave no quarto com as luzes apagadas. O pai tentou fazer o mesmo quando ela era ainda miuda, e os irmãos, bem, esses divertiam-se com o pavor dela de cada vez que a fechavam num sítio escuro. Tanto o pai como os irmãos acabaram por desistir e aceitar o medo dela. Ele não, achava ridículo, e tinha ainda na testa a cicatriz que ele lhe deixara da primeira vez em que aceitou que o filho deles dormisse com a luz acesa. Acusou-a de incutir na criança os medos dela, talvez tivesse razão, era medrosa e fraca, e talvez estivesse a passar isso para o filho. Mas por outro lado, e se não fosse isso. E se o filho visse no escuro o mesmo que ela, como podia deixar que lhe fizessem a ele o que lhe fizeram e ainda faziam a ela ? Aquelas criaturas odiosas que apareciam sempre que as luzes se apagavam. Por isso levantou a voz e tentou fazê-lo ver que era normal deixar o miúdo dormir com a luz acesa, e por isso também ele levantou o braço e lhe bateu, a primeira vez. A primeira de muitas.
Manteve-se calada apesar do perigo, apesar de temer, por ela e pelo filho que dormia placidamente no banco de trás. O carro derrapou mais uma vez, a traseira deslizou e ela não emitiu um único som enquanto via o esforço dele para controlar o carro. Queria pedir-lhe para parar, para ficarem ali, tinham mantas na mala. Podiam esperar pela manhã, até que alguém viesse limpar a estrada. Tinham comida, também, podiam esperar. Mas nada disse.
- A culpa é tua sabes ? Se não insistisses para que almoçassemos antes de começar a viagem, tinhamos evitado isto. Já estávamos em casa se não fosse por ti e pelos teus queixumes estúpidos.
A culpa era dela, claro. Não o contrariou, mas o silêncio já não resultava, via pelo perfil dele que estava naquilo que ela chamava “full swing mode”, os lábios comprimidos, a veia que pulsava na têmpora… encostou-se o mais possível à porta, fora do alcance. Não foi o suficiente, o golpe veio tão rápido que não teve tempo de se desviar, acertou-lhe em cheio na face. Apesar da dor, sorriu interiormente enquanto pensou… amanhã vou ter que redobrar no blush, este vai deixar marca.
A distracção foi o suficiente para que perdesse completamente o controlo do carro, que começou a rodopiar pela estrada, em camâra lenta, cada vez mais próximo do precipício, até que parou, com as rodas do lado do condutor penduradas na berma. O carro suspenso num abismo enorme, todo branco, do qual não conseguia ver o fim.
- Não te mexas!! Ouviste, não te mexas, se te mexes desiquilibras o carro e vamos por aqui abaixo.
Mas ela mexeu-se, cuidadosamente, tirou o filho do banco de trás. Bem devagar, enquanto sentia o carro oscilar, abriu a porta, pôs primeiro um pé e depois o outro no chão, no chão firme. Bloqueou o som da voz dele, que lhe ordenava, pedia e depois implorava que não se mexesse. Num gesto só, atirou-se com o filho nos braços para o chão. Foi o suficiente para que o carro, depois de perder o ponto de equilíbrio, caísse na ravina. Ficou ali, sentada no chão frio, coberto de neve, enquanto o carro rebolava pela encosta, enquanto o ouvia gritar. Até que de repente, o silêncio, a vozinha do filho que lhe perguntava : O que aconteceu mamã ? Onde estamos ?
- Nada, filho, não aconteceu nada. Dorme, encosta a cabecinha e dorme. Vai ficar tudo bem. Nós vamos ficar bem.
Levantou-se e com o filho no colo, começou a longa caminhada até à aldeia mais próxima. Bem, eles iam ficar bem.

Passatempo de Fevereiro  

Posted by Bruno Fehr in

O Prisão de Palavras irá realizar mais um passatempo semelhante a este último. Desta vez e tendo em conta que os textos serão para publicar durante o mês de Fevereiro, o tema será, como seria de prever, O amor. O amor belo ou horrível, saboroso ou doloroso, saudável ou psicopata, fica ao vosso critério.

O passatempo está aberto à participação de todos os leitores deste blogue. Tal como aconteceu no passatempo passado (ver link acima), os textos serão lidos por todos os colaboradores deste blogue e escolhidos por maioria, no caso de ser impossível publicar todos. Os vossos textos publicados neste blogue terão menção ao respectivo autor que também receberá por mail o registo virtual (impressão digital virtual) que lhe garante a autoria da publicação.

Os interessados, devem enviar os seus textos até 10 de Fevereiro para: fehrbruno(at)googlemail(dot)com (substituir (at) por @ e (dot) por .)

Boa escrita.

Funeral anormal  

Posted by Bruno Fehr in

A história que vos vou contar é caso para lamentar, a ser verdade que aconteceu.
Um rapaz meu amigo que antes de morto era vivo e depois de morto, morreu.

Teve um funeral anormal em vésperas de Natal no dia mais frio do inverno.
Em vida teve sorte mas o primeiro dia de morte foi um verdadeiro inferno.

Vestiram-lhe uma fardeta meteram-no numa carreta e levaram-no ao comprido,
Mas por uma rua por onde passou a carreta virou e o morto ficou ferido.

Triste cena se desenrola a família deu à sola eram gritos e mais gritos.
O caixão tinha voado e o morto tinha rachado a caixa dos pirolitos.

Seu cunhado sapateiro esse foi logo o primeiro a dar os pontos naturais,
Disse em tom enlutado: Tem paciência ó cunhado mas assim rachado, não vais!

A família lá se juntou e funeral continuou direitinho ao cemitério,
Mas numa curva perigosa numa tarde invernosa a carreta tombou a sério.

Desta vez foi o caixão que rachou e o morto se estatelou na estrada estendido.
A família não chocada parecia habituada e não fizeram alarido.

Chegados ao cemitério e pensando muito a sério o que mais aconteceria,
Um problema ao portão e com grande frustração a carreta não cabia.

Seu cunhado sapateiro sendo um homem muito inteiro e de grande conhecimento,
Analisou a situação e com grande prontidão decidiu o procedimento:

"Pega um de cada lado o morto é transportado e não tem nada que saber!"
Diz o morto desesperado: "Esperem aí um bocado não me façam mais sofrer!"

O coveiro que era maneta pega na pá e na picareta e vai abrir a sepultura.
O morto observava curioso o seu local de repouso de toda esta desventura.

Só com uma mão o coveiro deixa escapar o caixão que cai na cova desamparado,
E diz o morto todo contente: "Agora sim estou ausente desse mundo tresloucado!"

A história que vos contei talvez seja verdade não sei, deixo ao vosso critério,
Mas se os mortos falassem talvez a verdade encontrassem e de certo fugiriam do cemitério.